2.3 CIDADANIA: ELEMENTOS CONSTITUINTES E ENTRAVES HISTÓRICOS PARA A SUA
2.4.2 Empreendedorismo social e comercial: uma visão multidimensional?
Os primeiros estudos sobre o fenômeno do empreendedorismo social importaram termos do contexto empresarial, gerando discussões entre acadêmicos e profissionais, e resultando na falta de consenso em relação à formulação de conceitos que tentaram reunir
dois tipos de atividades, consideradas, a priori, inconciliáveis: aquelas voltadas para o business e as voltadas para a redução de impactos prejudiciais aos aspectos sociais e ambientais. O empreendedorismo social seria, então, considerado como o oposto do empreendedorismo econômico, e ambos, como dois elementos antagônicos, mutualmente insolúveis, paralelos.
Todavia, tais fenômenos são mesmo diferentes? É correto entender que uma empresa social visa benefícios à sociedade enquanto uma empresa comercial visa apenas os ganhos econômicos? Para Austin, Stevenson e Wei-Skilern (2012), há um equívoco nessa concepção. Na verdade, não existiria uma dicotomia na relação entre ambos, mas um continuum entre dois polos (um social e outro econômico), em que multidimensões se localizam entre extremos. Outros autores complementam esta perspectiva afirmando que existe uma tensão nessa distinção, sendo a dimensão social o ponto central, ou seja, a forma como as pessoas são geridas/gerenciam (BAGGENSTOSS; DONADONE, 2013; CRUZ, 2012; LEAL; FREITAS; FONTINELI, 2013; SANTOS; GALELLI, 2013; BARKI et al., 2015; SILVA; MOURA; JUNQUEIRA, 2015).
Austin, Stevenson e Wei-Skilern (2012) utilizam um quadro comparativo proposto por Sahlman (1996) para analisar a diferença entre os dois fenômenos, tendo por base quatro elementos principais: as pessoas, o contexto, o negócio e a oportunidade. Todos esses elementos possuem aspectos econômicos e sociais, tornando a distinção das empresas ainda mais distante de um posicionamento polarizado.
De acordo com Haugh (2005), o empreendedorismo social ainda pode ser estudado tendo por base oito temas principais: i) a definição do âmbito do empreendedorismo social; ii) o contexto ambiental; iii) reconhecimento, oportunidade e inovação; iv) modos de organização; aquisição de recursos; v) exploração de oportunidades; vi) medição de desempenho; vii) educação e formação; viii) aprendizagem.
O assunto é contemporâneo e se encontra em estágio de desenvolvimento. Percebe-se a variabilidade de elos que conectam o empreendedorismo social a outras esferas do conhecimento. O surgimento de variações do conceito e até das abordagens pode gerar uma confusão ou falta de entendimento sobre o escopo e a amplitude de ação do fenômeno do empreendedorismo social.
Como contribuição ao entendimento do fenômeno do empreendedorismo social, apresentam-se no Quadro 1 as principais características das perspectivas de empreendedorismo social, assim como autores que discutem a temática.
Quadro 1 - Abordagens do empreendedorismo social PERSPECTIVA DO EMPREENDEDORISMO SOCIAL ABORDAGEM/CARACTERIZAÇÃO AUTORES PRINCIPAIS Empreendedorismo social
Criação de valor social;
Geração de bem-estar para as comunidades;
Transformação social; Mudança social;
Apoio de grupos, redes, e alianças entre organizações; Resolução/amenização de problemas sociais. Galera e Bozarga, 2009; Nassif, Prando e Consentino, 2010; Noruzi, Westover e Rahimi, 2010; Matitz e Schelemm, 2012; Bozarga, Depedri e Galera, 2012; Dees, 1998. Empresas sociais
Atuação em áreas críticas na sociedade;
Missão de caráter social; Grupos de cidadãos;
Diminuição de riscos econômicos; Novas formas de relacionamento
com o Estado. Dess, 1998; Kerlin, 2006; Defourny e Nyssens, 2010; Bronzo, Teodózio e Rocha, 2012; Barki, 2015. Negócios sociais
Venda de produtos/serviços como atividade principal;
Propósito social;
Melhoria das condições de vida na sociedade; Autossustentados. Defourny e Nyssens, 2010; Yunus, Moingeon e Lehmann-Ortega, 2010. Negócios inclusivos
Ênfase na inclusão social; Acesso ao consumo; Geração de renda.
Prahalad e Hart, 2002; Austin, 2002; Reficco, 2011.
Fonte: Elaborado pelo autor (2017).
É comum a todas as terminologias o propósito social, porém, em algumas derivações, ele é mais intenso que em outras. Tanto o empreendedorismo social como as empresas sociais buscam diminuir problemas presentes na sociedade. Este propósito não parece ser tão intenso nos negócios sociais e aparenta ser pouco influenciador nos negócios inclusivos, estando este último inserido no campo dos estudos sociais, por promover oportunidade de consumo e geração de renda para as camadas de baixa renda.
O empreendedorismo social enfatiza elementos mais visionários que as outras terminologias, pois é portador de um ideal maior e abarca a transformação social daqueles que trabalham com algum propósito em que a sociedade é o elemento central. Para o conceito de empresas sociais, esse ideal ainda se mostra influenciador pela ênfase no papel cidadão das pessoas que compõem tais organizações. Já os negócios sociais estão mais próximos de um
contexto de mercado, apesar de se manterem semelhantes aos conceitos anteriores. Por fim, os negócios inclusivos podem possuir ou não um ideal social, já que o fator preponderante de distinção é proporcionar acesso ao consumo/venda e à maior geração de renda. A partir dessa leitura, pode-se imaginar uma gradação das terminologias apresentadas e sua aproximação/distanciamento do empreendedorismo preponderantemente social.
Figura 1 - Continuum do empreendedorismo
Fonte: Elaborado pelo autor (2017).
A Figura 1 busca representar a relação das derivações associadas ao fenômeno do empreendedorismo social com dimensões mais amplas que influenciam os conceitos. Entende-se nesta tese que tais derivações não são desconexas umas das outras. Na verdade, existem separações muito tênues entre os conceitos de empreendedorismo social, que nos leva a classificar tal relação como um continuum que transita entre polos de natureza social e de natureza econômica. As terminologias estudadas transitam neste continuum de um extremo a outro, dependendo da abordagem que fazem sobre o fenômeno.
Ao longo dos últimos anos, o tema relacionado ao enfrentamento das questões sociais tem estado presente em diferentes agendas de pesquisadores, da sociedade civil organizada e do governo. Corroborando com a reflexão dessas questões, as ações de empreendedorismo social buscam contribuir no enfrentamento dos problemas sociais.
Destaca-se que a busca pela mudança social tem no empreendedorismo social a possibilidade de gerar ações inovadoras por organizações que atuam tanto no setor público como privado, com o objetivo de promover a transformação social. Tal mudança é polêmica quando se analisam as políticas públicas que fomentam o empreendedorismo. De acordo com Shane (2009), o empreendedorismo não é a melhor saída para desenvolver políticas públicas que visem o bem-estar social, pois, além de promover poucos postos de trabalho, está estimulando a sociedade de risco (BECK, 1999). Mason e Brown (2013) se posicionam de forma contrária; segundo os autores, a geração de renda e o dinamismo econômico podem trazer desenvolvimento para a sociedade.
O desafio de possibilitar transformação social e desenvolvimento não é impossível no que tange a políticas que visem o fomento de empreendedorismo. Entretanto, o teor social precisa ser condição sine qua non nesse processo, estando ele em patamares de grande significado. A preocupação social precisa ser clara tanto nas declarações públicas (missão organizacional) quanto nas políticas e práticas organizacionais que almejem a melhoria social do contexto onde estas organizações estão inseridas.
A criação de valor se configura como ponto central do empreendedorismo social que se caracteriza em atividades e processos que promovem mudança social. Nesse sentido, o empreendedor social é relevante para a identificação de oportunidades e soluções para os problemas sociais. Teoricamente, a sua atuação visa acelerar o processo de mudanças, além de inspirar outros atores a se engajarem em uma causa comum, por meio do compartilhamento de conhecimentos, experiências e recursos no processo de gerar uma teia social que viabilize laços de solidariedade e troca. O desafio é fazer com que a autonomia dos atores nas suas decisões, tomadas de forma coletiva e horizontal, possibilitem uma democratização no enfrentamento das demandas sociais.