6 A REDE DE PODER E SABER DIRECIONADA AO CONTROLE DOS/AS ALUNOS/AS E DA HOMOSSEXUALIDADE
6.4 Contexto Espacial do 1º Ano D
As aulas no 1º Ano D, turma da qual o aluno A5 fazia parte, foram observadas em três momentos. O primeiro se deu em 06 de setembro de 2017, nesse dia observamos três aulas da disciplina de Biologia, práticas da disciplina de Química no laboratório com estudantes dessa turma e o ensaio da comissão de frente do desfile cívico no pátio. Dos trinta e sete estudantes matriculados, nesse dia só havia vinte e nove, sendo vinte estudantes do sexo feminino e nove do sexo masculino. Vejamos a distribuição desses, segundo o sexo:
Figura 7 - Mapa ilustrativo da sala de aula do 1º ano D
Fonte: (Da autora, 2019).
Mais uma vez, a organização dos mobiliários em sala de aula e a distribuição dos indivíduos seguem os mesmos parâmetros observados anteriormente. A incidência de estudantes do sexo feminino nas primeiras carteiras prevalece, chegando até mesmo formarem blocos em torno de quatro componentes. Já a partir da 4ª carteira da 3ª, 4ª e 5ª filas têm mais um bloco de seis estudantes do sexo feminino. É logo após esse arranjo que o aluno A5 se encontrava sentado na sétima carteira da 4ª fila. Temos notado que estudantes que se autodeclaram não heterossexual costumam sentar-se mais próximo de colegas do sexo feminino. A maioria dos estudantes do sexo masculino se localiza em pares ou tríades, apenas dois alunos rompem com esse tipo de agrupamento, entre os quais o aluno A5 e outro aluno sentado na primeira carteira da 3ª fila.
Em função dos preparativos para o desfile cívico, a rotina escolar nesse dia foi alterada. Durante as três aulas da disciplina de Biologia, a turma de estudante leu o capítulo sobre “Organelas celulares” e respondeu um conjunto de questões, antes do término da última aula o professor deu o visto no caderno de cada um. Um modo de acompanhar o aluno e de prestar conta do que faz a autoridade do discurso.
O emprego do termo “viado” foi empregado para nomear colegas, para saudar os sujeitos homossexuais,“Viva todos os viados”, e até mesmo por estudante do sexo feminino
para expressar suas impressões acerca de estudantes do sexo masculino da sala de aula: “Aqui só tem viado, pelo amor de Deus”. Também nos chamou atenção o constante alerta de docentes sobre o que pode constar na prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), algo que acontece desde o 1º Ano.
O segundo momento se deu no mês de outubro, durante esse mês, além de observarmos práticas da disciplina de Educação Física com alunos do 1º Ano D e 2º Ano C assistimos a dramatização de duas obras da literatura brasileira: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de autoria de Machado de Assis e “A Cidade e as Serras” de Eça de Queiroz. O último momento se deu no dia 07 de dezembro de 2017, instante em que ocorreu a mesa redonda que discutiu a temática Adolescência e Vulnerabilidade das Doenças Sexualmente Transmissíveis. Uma ação organizada pelos dois professores da disciplina de Biologia na escola para as turmas de estudantes do 1º Ano D. A mesa redonda contou com a participação de duas alunas do 2º Ano B que tratou do sistema reprodutor feminino, Ciclo Menstrual e Gravidez; do professor da disciplina de Sociologia, que abordou a sexualidade na visão sociológica; e de duas enfermeiras do Programa Saúde na Família, que falou sobre medidas preventivas contra doenças sexualmente transmissíveis.
A iniciativa dos professores da disciplina de Biologia em trazer o professor da disciplina de Sociologia é relevante. O diálogo com o campo de sociologia rompe com a cadeia discursiva de só abordar a temática a partir da anatomia dos órgãos, da prevenção da gravidez e da higienização dos corpos, tão frequentes no Ensino de Biologia e de Ciências. Segundo Ortega (2008, p. 148), o que mais vem à tona “desde as dissecações até as novas tecnologias, a imagem do corpo fornecida é a [...] de um corpo fragmentado, objetivado, e desmaterializado: recortado do ambiente. É o corpo-objeto da tradição anatomofisiológica, sem capacidade, nem subjetividade”.
Portanto, a participação do professor de sociologia sinaliza que há um esforço de que a discussão sobre sexualidade na escola não fique restrita ao professor de Biologia, algo que nos parece extremamente positivo. Além de realçar a sexualidade numa perspectiva sociológica, o docente destacou a heterossexualidade, a bissexualidade e a homossexualidade como dimensões caracterizadas saudáveis pelo discurso científico na contemporaneidade. A ênfase que a homossexualidade não se tratava de doença, mas de uma opção sexual, atravessou seu discurso. O uso da concepção da homossexualidade como opção sexual tem sido defendido por pesquisadores/as (SOUSA FILHO, 2009a; FACHINNI; FRANÇA, 2009; WEEKS, 2010; OLIVEIRA JUNIOR; MAIO, 2016).
Para Weeks (2010, p. 69): “[...] cada vez mais, a homossexualidade se torna uma opção, ou uma escolha, a qual os indivíduos podem seguir de um modo que era impossível numa sociedade mais hierárquica e monolítica”. A preocupação em se distanciar do uso da palavra orientação sexual reside na questão do essencialismo que cerca a sexualidade, que trata como uma essência de natureza física, biológica ou psicológica, responsável pelas diferenças entre homossexuais e os demais indivíduos. De acordo com Junqueira (2012, p. 77), posicionar a homossexualidade como uma orientação de natureza essencial é mais “uma ânsia por autorização, concessão, aquiescência ou clemência [...] não implica avanço ético e político algum, pois advoga pelo reconhecimento do inevitável e não da legitimidade de um direito”.
A partir de Hekma (1985, p. 259), podemos notar que “não são apenas as concepções sobre sexualidade que mudam, mas também a própria sexualidade e o comportamento sexual”. Os próprios elementos discursivos acerca da sexualidade estão suscetíveis às mudanças e indicar essas transformações é evidenciar, segundo Dinis (2011, p. 41) “a linguagem como construção histórico-cultural, negando sua pretensa neutralidade e universalidade, mas não implica necessariamente inviabilizar todas as pesquisas que trabalham com categorias que possam ser questionadas”.
Sendo assim, consideramos que a discussão na perspectiva de opção sexual deve canalizar ações que problematizem o feixe de relações da ordem discursiva que posicionou a heterossexualidade como padrão normativo e a homossexualidade como desviante ou patológica. O convite para que o professor de Sociologia tratasse a questão nessa perspectiva nos parece uma tomada de posição importante para tratar a homossexualidade e outras dimensões como construções históricas, pois, “toda pessoa pode se relacionar com qualquer outra, erótica e afetivamente, livre de qualquer constrangimento, com autonomia para reconhecer e exercer os próprios desejos em liberdade, dignidade”, livre de violência (BRASIL, 2011a, p. 15).
Essa aproximação entre professores de Biologia e Sociologia pode contribuir para que não se discuta a sexualidade apenas sob o viés da prevenção e/ou da doença, mas também do bem estar, da solidariedade, da dignidade humana, entre outros, pois ela envolve a dimensão do prazer, da subjetividade e da intersubjetividade, uma vez que, segundo Weeks (2010, p. 38): “a sexualidade tem tanto a ver com nossas crenças, ideologias e imaginações quanto com nosso corpo físico”. Assim, se sexualidade diz respeito a sujeitos, condutas e valores, então a discussão não deve ficar restrita somente ao instante em que se aborda a
questão da reprodução, o debate deve se dar em outros momentos e por outras disciplinas, além de Ciências e Biologia.
Na sociedade moderna, o dispositivo de sexualidade produziu um campo discursivo autônomo que passou a interpretar, classificar e hierarquizar as experiências sexuais. Em outras palavras, o registro, classificação e descrição da sexualidade resultaram em um lastro de saberes que passou a orientar a vida sexual. Por isso a importância de dialogar com correntes teóricas que posicionam as categorias sociais como construções culturais, linguísticas e institucionais, enfim, históricas, produzidas através das relações de poder-saber, que produz discurso como também os normatiza. Para Foucault (2010b, p. 132), “em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações”.
A discussão da homossexualidade como conteúdo curricular causou certo estranhamento por parte de estudantes. Enquanto a turma de estudantes do 1º Ano D aguardava a chegada das duas enfermeiras do Programa Saúde da Família para dar continuidade à discussão, o professor da disciplina de Biologia informou que iria fazer uma síntese sobre o que já tinha sido abordado. Porém, acabou sendo interpelado por um aluno da seguinte forma: “O professor falou agorinha, essa coisa de viado mais não”. Diante desta reação, o docente respondeu: “Quem não quiser vai logo saindo”.
O pedido do aluno para que o professor de Biologia não tocasse mais no assunto nos parece um dos efeitos dos discursos que posiciona a homossexualidade no lugar de desviante. Discursos, gestos e atitudes são aprendidos, pois o processo de subjetivação dos indivíduos, experiências, identidades e comportamentos estão sujeito à sociedade em que vive. Para Louro (2001, p. 15), desde cedo, por meio de marcas normativas treinamos nossos sentidos, “aprendemos a classificar os sujeitos pelas formas como eles se apresentam corporalmente, pelos comportamentos e gestos que empregam e pelas várias formas com que se expressam”.
Ainda Louro (2003, p. 15), na sociedade contemporânea, “a norma que se estabeleceu, historicamente, remete ao homem branco, heterossexual, de classe média urbana e cristão”. Assim, desfazer estereótipos associados à homossexualidade numa posição de desviante demanda uma série de investimentos nas práticas de ensino com vista à reflexão e autoavaliação dos saberes que movem seus discursos, por conseguinte, de seus/suas alunos/as. Para Nunan (2003, p. 70), informações que se opõem às nossas crenças e valores “são frequentemente rejeitadas, ignoradas ou distorcidas”.
O que se evidencia na recusa do aluno para que não se falasse mais acerca da homossexualidade é que há uma disputa de poder-saber pelo controle do que deve ser dito
sobre ela. A iniciativa de se convidar o professor da disciplina de Sociologia para falar de sexualidade embora pertinente, carece de mais ações sistemáticas diante da rejeição que se tem sobre tal fenômeno. Uma intolerância histórica que tem marginalizado homossexuais de forma vertiginosa (VAINFAS, 1989, 1992, 1997; MOTT, 1994, 2001a, 2001b; FOUCAULT, 1998; TREVISAN, 2000).
Assim, mudanças nos modos de agir dos/as alunos/as passam provavelmente por alterações nas práticas dos/as professores/as. Atividades que envolvam o diálogo com outras áreas, a reflexão sobre o que é dito em sala de aula em torno da homossexualidade, problematização das normas prescritas, a apresentação de peças teatrais, produção de agendas de relações democráticas, entre outras possibilidades, são formas de imprimir visibilidade a essa dimensão reconhecida não mais como doença pela ciência. Para tanto, os processos históricos e culturais devem ser informados e debatidos, posicionamentos confrontados, a inserção do debate sobre os determinantes sociais, políticos e culturais que têm exercido forte controle sobre a homossexualidade se faz necessário para a garantia de relações respeitosas entre os/as alunos/as.
Desse modo, destacamos mais uma vez, a iniciativa dos professores de Biologia em incluir no debate o professor de Sociologia para tratar da sexualidade e sinalizar mudanças em suas práticas, mesmo que de forma sutil, a discussão nessa escola não se limitou, segundo Ribeiro (2003, p. 76) “ao conhecimento anátomo-fisiológico dos sistemas reprodutores, ao uso dos métodos anticoncepcionais, aos mecanismos e à prevenção das doenças sexualmente transmissíveis e da AIDS”.
As dificuldades de professores/as de Biologias e Ciências de promover uma discussão sobre temas relacionados à questão da homossexualidade, de gênero e do prazer são apontadas por pesquisas como reflexo da ausência destas questões nos cursos de formação de professores e da reação do aluno, dos pais e, até mesmo, da direção escolar (FURLANI, 2003, 2005; BARRETO, 2009).
Na análise descritiva dos quatro contextos observados (2º Ano B, 2º Ano C, 3º Ano C e 1º Ano D) mostramos que o assunto em torno da homossexualidade faz parte do discurso que circula em sala de aula. Usa-se estereótipos, palavrões e gírias para se falar de forma negativa dela, posicionando-a na posição de indesejável. A desqualificação da homossexualidade só favorece a perpetuação de um ambiente hostil para estudantes homossexuais.
Encerramos assim a análise das relações de poder e saber nos contextos de sala de aula. A seguir nos adentraremos na descrição das que atravessam o pátio, o laboratório de química e de biologia, a quadra de esporte e na formação continuada na escola.