REAÇÕES TRANSFUSIONAIS: UMA ABORDAGEM EM HEMOVIGILÂNCIA
2. CONTEXTO HISTÓRICO DA TRANSFUSÃO NO BRASIL
Para Grandi et al. (2018), o sangue perpetuamente exerceu a posição de des-taque no contexto histórico da humanidade, haja vista que, nos tempos remotos era visto como um fluído essencial para a manutenção da juventude. Todavia, com maiores pesquisas e estudos, ao longo do tempo, conseguiu-se classificar o sangue como o personagem primordial para o exercício terapêutico.
Sobreleva que, a história do sangue foi fortemente marcada por duas fases, a saber: a empírica e científica. A primeira durou até o século XX, sendo que o marco primário dessa fase se deu na Grécia antiga e em Roma, em que os profissionais da saúde retiravam o sangue ruim para proceder o tratamento de patologias ou mes-mo os nobres ingeriam sangue dos melhores gladiadores a fim de ganhar força e vitalidade. Já a segunda fase iniciou-se após o século XX surgiram as organizações, laboratórios e serviços especializados nesse segmento (LIPIANI, 2011).
Segundo Ferreira; Velloso (2020) na fase cientifica do processo de transfusão de sangue, o pesquisador Karl Landsteiner descobriu os grupos sanguíneos, no ano
de 1900, sendo realizadas transfusões por médico-cirurgiões como Carrel, Crille, De Bakey. No Brasil, os pioneiros foram Brandão Filho e Armando Aguinaga, reali-zando a prática na cidade doo Rio de Janeiro. Já em relação a transfusão de san-gue, foi realizado pela primeira vez pelo médico Garcez Fróes, utilizando o aparelho de Agote, como ilustra a Figura 1.
Figura 1 – Aparelho de Agote.
Fonte: FERREIRA; VELLOSO (2020).
Seguindo os registros históricos, no século XVI foi descrito pelo médico inglês Willian Harvey, o processo da circulação sanguínea, fato que permitiu a elaboração de injeção ou mesmo a dispersão de líquido nas espessuras das veias. Saleinta-se que o primeiro processo de transfusão realizado na espécie humana aconteceu no ano de 1818, em que o médico James Blundell praticou a transfusão sanguínea em uma mulher com quadro de hemorragia pós-parto (SILVA, 2019).
É importante destacar que o ponto limite entre as duas fases aconteceu em 1990, sendo realizado a descoberta do tipo sanguíneo ABO pelo pesquisador Karl Landstainer, que é adotado até os dias modernos. Na seara brasileira, o pioneiro no processo de transfusão de sangue foi o cientista Garcez Fróes, que realizou o primeiro procedimento com manipulação de um instrumento denominado Agote (FLAUSINO et al., 2015).
Conforme relata Lordeiro et al. (2017), na década 10 do século XX foi criado entidades destinadas a oferecer serviços especializados neste segmento, sendo constituída por um médico transfusionista e um banco de dados de doadores uni-versais, em que todos os indivíduos inscritos possuíam o tipo sanguíneo O, além de possuírem boas condições de saúde. É interessante ressaltar que era usado o instrumento denominado de seringa de Jubé para realizar o procedimento, pois era um aparelho de fácil de manuseio e de esterilização. Na Figura 2, se observa o regis-tro dos eventos basilares que estão relacionados aos bancos de sangue no Brasil.
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Figura 2 - Principais eventos relacionados aos bancos de sangue do país nas últimas décadas.
Fonte: FERREIRA; VELLOSO (2020).
Cabe inferir que sempre existiu na evolução histórica do processo de trans-fusão sanguínea, uma intensa preocupação em uniformizar as práticas, em que a ciência evoluiu, paulatinamente, na organização e padronização dos processos, além do estimulo a prática de doação de sangue, que até nos dias vigentes, ainda é uma medida cercada de preconceitos e estigmas (HOFFBRAND; MOSS, 2013).
Segundo Lessa (2016), a transfusão sanguínea é um processo que, mesmo realizado dentro das normas técnicas preconizadas, envolve risco com a ocorrência potencial de reações transfusionais, em que deverá se proceder de uma revisão completa e minuciosa dos critérios e das indicações para o uso racional de sangue e dos hemocomponentes, bem como reconhecer previamente as potenciais falhas no processo durante o ciclo do sangue.
Hoje, no território brasileiro já existe mais de 1750 unidades hemoterápicas, sendo dessa totalidade somente 150 homocentros, que estão associados a rede pública de saúde. Ademais, no ano de 2011 foi alterada a legislação vigente acerca da RDC 153 que regulamentava as técnicas voltadas para os procedimentos hemo-terápicos, sendo substituída pela portaria 1353 (LIPIANI, 2011).
2.1 Caracteristicas e peculiaridades do sangue
O sangue corresponde a um tecido fluído, composto por uma fração celular que se movimenta de maneira suspensa no ambiente líquido, no caso, o plasma. A parcela celular do sangue é chamada de hematócrito, e corresponde a 45% do san-gue; já os 55% é composta por proteínas dissolvidas, sais, componentes orgânicos e água. Consoante a isto, o hematócrito é formado por eritrócitos, também cha-madas de hemácias, sendo a quantidade de leucócitos e plaquetas inferior quando comparadas aos glóbulos vermelhos (VERRASTRO, LORENZI, NETO, 2010).
Assim, este fluído é essencial à vida, sendo movido pelo coração e vasos sanguíneos, com disponibilidade de oxigênio e nutrientes aos organismos, sendo excretado os resíduos catabólicos inúteis. Sobreleva que, o sangue retirado dos va-sos cria um coágulo sólido, entretanto, na presença de elemento anticoagulante, é separado pela ação da gravidade em três camadas, como ilustrado abaixo. Nota-se que a camada inferior, de coloração vermelho-escura, é formada de eritrócitos, en-quanto que, a camada superior, chamada de plasma, é de coloração amarelo-palha e composta por proteínas dissolvidas (MABA, 2015).
Figura 3 - Diluição do sangue e sua composição.
Fonte: MABA (2015).
Cabe inferir que, em geral, no adulto, o valor do hematócrito varia entre 36%
a 50%, sendo um percentual de 42% na mulher e 47% no homem. O volume san-guíneo chega até uma média de 5 litros, sendo menor nas mulheres do que nos homens. Outros fatores que influenciam na variação do volume sanguíneo tem-se o peso e a idade (HOFFBRAND; MOSS, 2013).
No processo de centrifugação do tubo de sangue coletado através da via ve-nosa ou arterial, com injeção de substância anticoagulante, observa-se a separa-ção dos eritrócitos, leucócitos e plaquetas do plasma. A análise minuciosa desses elementos poderá ser realizada através do hemograma, que favorece uma análise quantitativa e morfológica dos elementos do sangue (LIPIANI, 2011).
2.2 Ciclo do sangue parab o processo de transfusão
A transfusão de sangue trata-se de uma ferramenta terapêutica, legitimada de maneira global e com comprovação da sua eficácia, fato que agrega benefícios e riscos. Nessa linha de raciocínio, cabe inferir que, todo o procedimento deverá ser bem instruído e com adequada administração, a fim de evitar possíveis reações às
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transfusões (GRANDI et al., 2018).
No que concerne o ciclo do sangue, nota-se que se divide em etapas, a saber:
conquista e conscientização de doadores, seleção clínica, seleção hematológica, coleta de sangue, segmentação e distribuição. Nota-se que para a hemovigilância far- se-á necessário realizar a coleta individualizada de hemocomponentes, tal como fornecer um serviço integral de atendimento médico ao doador (SAMD), que examina o doador inábil sorológico, e o ambulatório, onde são praticadas as he-motransfusões atrelada a uma assistência personalizada aos pacientes (MATTIA;
ANDRADE, 2016). De acordo com Barra (2015), o ciclo do sangue inicia com o processo de conquista e conscientização de doadores, fomentando uma doação voluntária, anônima, altruísta e não remunerada. Em seguida é realizado o cadastro do candidato à doação, com a construção de uma triagem clínica, sendo elencados critérios clínicos e epidemiológicos. Caso o doador tenha um resultado positivo em todas as etapas anteriores, é realizado a coleta de sangue, podendo ser re-alizada de dois tipos, a saber: sangue total e aférese. Após a coleta, é realizado a correta identificação e levado a um processo de centrifugação e separação dos hemocomponentes, conforme ilustra a figura abaixo.
Figura 4 - Processamento do sangue total.
Fonte: MATTIA; ANDRADE, (2016).
Todo o processo de educação em saúde, campanhas de captação, eleição de doadores, processamento e distribuição do sangue e dos seus derivados apresenta-se como uma linha de trabalho importante no SUS, por utilizar moder-nas tecnologias, profissionais especializados, voltados inteiramente para a doação voluntária, tornando necessária a racionalização de recursos e a garantia da segu-rança do doador e do receptor, promovendo a disponibilidade do acesso ao produto (VERRASTRO, LORENZI, WENDEL NETO, 2010).