REAÇÕES TRANSFUSIONAIS: UMA ABORDAGEM EM HEMOVIGILÂNCIA
3. REDE DE HEMOVIGILÂNCIA NO PROCESSSO TRANSFUSIONAL
A hemovigilância é conceituada como um complexa reunião de medidas de vigilância que abarca todo o ciclo do sangue, com o intuito de obter e oportunizar conhecimentos acerca do potenciais eventos adversos que poderão acontecer nas inúmeras etapas, a fim de prevenir sua manifestação ou recorrência e elevar a margem de segurança do doador e do receptor (FLAUSINO et al., 2015).
O mesmo autor supramencionado, destaca ainda que, o sistema de hemovi-gilância versa acerca da capacidade de coordenar, processar e analisar a informa-ção notificada de forma oportuna, com rastreabilidade de todo o ciclo do sangue, controle do processo transfusional, identificação de risco seja eles existentes ou emergentes e melhoria da qualidade do processo. Dentre os procedimentos para realizar o processo de hemovigilância tem-se a investigação, a coleta de dados, a análise dos dados, a correção das causas e monitoramento contínuo a fim de evitar recorrências.
Isto posto, a transfusão de sangue deverá ser realizada em conformidade com as deficiências da saúde do enfermo, conforme o tempo e administração adequada.
Vale ressaltar ainda que, mesmo executada dentro das normas recomendadas, se-guindo rigorosamente a indicação e administração correta, a ação de transfusão de sangue abrange altos riscos sanitários, devido as reações transfusionais (MATTIA;
ANDRADE, 2016).
A Hemoterapia, no Brasil e no mundo, tem se caracterizado pelo desenvolvi-mento e adoção de novas tecnologias, visando minimizar os riscos transfusionais, especialmente quanto à prevenção da disseminação de agentes infectocontagio-sos. Por este motivo, os governos têm investido nas políticas de controle de quali-dade desses atendimentos (MARINHO, 2014).
Conforme Moreira e Silva (2016), no País, foi criado uma rede de serviços públicos dirigido a partir das regulamentações elaboradas pela Gerência Geral do Sangue, outros Tecidos, Células e Órgãos da Agência Nacional de Vigilância Sani-tária. Sobreleva que a ANVISA corresponde a um órgão governamental que tem a função de elaborar regulamentações técnicas para orientar os processos hemoterá-picos, que inclui as etapas de coleta, processamento, testagem, armazenamento, transporte, controle de qualidade e o emprego humano de sangue e seus deriva-dos, adquiridos ou do sangue venoso, do cordão umbilical, da placenta, ou por fim, da medula óssea.
Azevedo (2017), afirma que, os centros de Hemoterapia públicos atestam a qualidade dos serviços de hemovigilância, criando metodologias e estratégias para a promoção do controle de acidentes de trabalho e controle da qualidade dos aten-dimentos ofertados à comunidade. Entretanto, a relevância de adotar procedimen-tos de prevenção é essencial, com o fomento do uso de Equipamenprocedimen-tos de Proteção Individual – EPIS; descarte correto dos instrumentos perfuro cortantes;
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tização do processo de conscientização do profissional no tocante a importância da adoção, com rigor, das normas de segurança, bem como, esclarecimento dos riscos ao qual estão submetidos, sendo essenciais para o funcionamento pleno da Hemoterapia.
A Hemovigilância, ou como também é denominado de Sistema de Alerta, ates-ta a segurança nas práticas atendidas pela Hemoterapia e estrutura-se com a finalidade de reunir e analisar dados e informações relacionados as implicações e efeitos prejudiciais e/ou inesperados do uso de hemocomponentes, com o pro-pósito de prevenir o surgimento ou reincidências dessas reações. Nota-se que tal sistema engloba toda a cadeia transfusional, com o intuito de monitorar a incidên-cia de ações voltadas para correção de possíveis não-conformidades (FLAUSINO et al., 2015).
Silva, Rattner e Martins, (2016) apontam que o Sistema de Alerta reúne o registro da manifestação de eventos adversos e seu predomínio em um grupo es-pecífico ou espaço geográfico de medição, ou seja, faz o registro de dados que per-mita uma pesquisa sistemática dos aspectos e motivações das intercorrências para comunicar parceiros importantes e atores, com elaboração de registros atrelados a supremacia de incidentes no processo de transfusão. A interpretação sistemática dos dados é uma das etapas principais do sistema de alerta, sendo elementar, mes-mo na falta de qualificados significativos, em que se fará necessário estabelecer os critérios de imputabilidade.
A Hemovigilância alvitra que nos serviços de Hemoterapia e na rede hospitalar deverá ser elaborado o Comitê Hospitalar de Transfusão - CHT, formado por médi-cos de diversas especialidades, com o objetivo de garantir a realização de reuniões periódicas para organizar, estabelecer e avaliar a técnica transfusional, que os ins-trumentos hemoterápicos estejam sempre devidamente apto para aplicabilidade (REIS; MARTINS; LAGUARDIA, 2013).
Ademais, o CHT poderá atrair profissionais da saúde a participarem de eventos científicos, congressos, conferências, com o intuito de angariar mais embasamento teórico que poderá ser aplicado a casos específicos. Insta salientar que, mesmo tratando-se de um comitê de avaliação de prática médica, deverá ser composto por uma multiplicidade de profissionais da saúde, de diversas áreas que estão envol-vidos direta ou indiretamente na atividade transfusional (MOREIRA; SILVA, 2016).
É relevante destacar que, a prática de vigilância no Brasil foi salvaguardada pela Constituição Federal de 1988, no art. 200, II, em que afirma que é de compe-tência do Sistema Único de Saúde - SUS: “executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica bem como as de saúde do trabalhador”. Contudo, no ambiente da prática verifica-se inúmeros problemas derivados de deficiência da gestão, con-frontos de interesses entre figuras sociais, bem como, se reconhece a fragilidade organizacional e escassez da estrutura organizacional e institucional para solucio-ná- los (MOTA et al., 2012).
Conforme pesquisa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA, a cada 1.065 transfusões, existe a notificação de apenas uma reação transfusional, em que um percentual de 85% corresponde a reação leve, 12,7% moderada e 2,2%
grave. Vale ressaltar que, tais dados retrata, a realidade de todos os hospitais bra-sileiros que estão incorporados à Rede de Hospitais Sentinela, a despeito de cate-goria ou idade dos pacientes (PEDROSA et al., 2013).
A terapia transfusional trata-se de um processo, que mesmo com prescrição e ministração adequada, seguindo rigorosamente, todas as diretrizes técnicas, se reconhece o risco sanitário. A segurança, a qualidade do sangue, e os hemocom-ponentes deverão ser garantidos em todo o processo, que vai desde a conquista de doadores até sua ministração ao usuário (BARBOSA et al., 2011).
Nessa linha de raciocínio, o art. 152 assevera que “Qualquer evento adverso que aconteça em receptores de sangue e produtos sanguíneos deverá ser paula-tinamente investigado e relatado oficialmente às autoridades responsáveis que usam o sistema NOTIVISA.” Entretanto, na exploração do anexo do Decreto nº 1.353/11 do Ministério da Saúde, observou-se que somente o art. 137, quando se refere aos reveses tardios, na seção IV do parágrafo 3º, define que os eventos ad-versos deverão ser comunicados à autoridade de saúde correto. Isto posto, é notó-rio que o sistema de hemovigilância nacional deverá ainda melhorar ainda mais no que tange, a segurança das transfusões, sendo imprescindível uma padronização das duas normativas (SOUZA et al, 2011).
Vale ressaltar que, o Brasil ainda está andando a passos pequenos no que se refere a uniformização da segurança do processo transfusional, fato já evidente em países desenvolvidos, sendo já criado estratégias para combater com eficiência os eventos adversos. Assim, apenas com a constatação dos limites do processo de hemoterapia e da existência de riscos que possam ser diminuídos, contudo, nunca plenamente abolidos, os serviços transfusionais no Brasil conquistarão um grande avanço em relação a qualidade e segurança transfusional (AZEVEDO, 2017).
3.1 Efeitos adversos e complicações do processo de hemovigilância De acordo com Marinho (2014), as transfusões de sangue podem provocar efeitos adversos em um percentual de até 10% dos receptores. Assim, devido a existência de uma margem de risco, as transfusões devem ser ministradas ape-nas quando os benefícios representarem uma taxa superior, as potenciais intercor-rências. Salienta-se que qualquer usuário que adquire uma transfusão sanguínea poderá apresentar complicações e, logo, deverá ser fornecido previamente, infor-mações sobre o procedimento, bem como, dos perigos, benefícios, alternativas e efeitos da recusa às transfusões.
Moraes e Silva (2016) conceitua uma reação transfusional como todo e
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quer perturbação indesejável que aconteça no processo ou após a transfusão de sangue. Atualmente, as transfusões de sangue são vistas como seguras, contudo, os distúrbios atrelados às transfusões ainda se manifestam, por isso os serviços de Hemoterapia deverão oferecer uma atenção integral aos pacientes que realizam processo de transfusão de sangue, no período que antecede, durante e depois da transfusão, a fim de fiscalizar o emprego correto dos critérios da RDC e do Manual de Hemovigilância.
Dentre as principais complicações do procedimento em discussão, tem-se a possível contaminação bacteriana, as reações hemolíticas agudas decorrentes da incompatibilidade do sistema ABO, respostas anafiláticas, sobrecarga volêmica, etc. Essas complicações poderão ser não imunes, e estar atreladas a erros huma-nos, ou mesmo poderá ser imune, que estar atrelado aos dispositivos de resposta do organismo à ação da transfusão de sangue. Vale destacar que as reações ad-versas podem ser classificadas em leves, moderadamente grave e potencialmente fatal, como ilustrado no quadro abaixo (FLAUSINO et al., 2015).
TIPOS DE
REAÇÃO SINAIS SINTOMAS CAUSA POSSÍVEL CONDUTA IMEDIATA
Reações leves reini-ciada se não existirem outros/
sintomas.
Parar a transfusão e manter o acesso venoso com solução
salina.
Parar a transfusão e manter o acesso venoso com solução
salina.
Comunicar ao médico. A con-duta imediata necessita: fluido
Segundo Azevedo (2017), não há relação no desenvolvimento de infecção nos pacientes com as transfusões sanguíneas, já que, com as novas técnicas de
sele-ção e depurasele-ção sanguínea, bem como com o maior controle dos doadores e da Hemovigilância, houve um declínio dessas intercorrências
Silva; Rattner; Martins, (2016) interpretam que a transfusão de sangue e he-mocomponentes não são isentos de riscos e complicações, sendo que algumas complicações poderão desencadear graves prejuízos aos pacientes, que poderá ser fatal.
Diante das determinações de competências de cada profissional da equipe multidisciplinar, para promover um procedimento seguro e eficaz, deverá se obser-vado às possíveis intercorrências e reações adversas em pacientes submetidos à hemotransfusão. Com a Hemovigilância, associado a qualificação dos profissionais envolvidos no processo de Hemoterapia, é aceitável o monitoramento e geração de ações para melhoria de possíveis não-conformidades, assegurando aos usuários uma assistência plena, pautada em conforto, segurança, prevenção e eficácia (MA-RINHO, 2014).