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CONSTRUÇÃO DA UHE TUCURUÍ – (1985-2004)

4.1 A ESTRUTURAÇÃO DO TERRITÓRIO NACIONAL NA FASE DE INTEGRAÇÃO AO MERCADO MUNDIAL (1985-2004)

4.1.2 Contexto histórico e socioeconômico nacional

No Brasil, o ano de 1985 teve um significado especial com a eleição, ainda pela via indireta, do primeiro presidente civil desde 1960.O fim da ditadura militar chegou com o Governo Figueiredo sofrendo os efeitos da insatisfação popular causada pela pior crise econômica no país em 50 anos.O estatismo burocrático autoritário, que aliado ao capital privado sustentou o crescimento econômico nacional nas décadas de 1960 e 70, já não funcionava na nova realidade da economia-mundo.A crise econômica evidenciou o afastamento do autoritarismo militar, excessivamente centralizador, das bases populares e mesmo da classe média, que já não podiam ser iludidas com a propaganda ideológica ufanista que prosperou na época do “milagre”. Movimentos de resistência social eram gerados nas periferias urbanas das grandes capitais, mas também em áreas afastadas geograficamente do poder central nas quais o Estado, apesar da multiplicidade de agências governamentais utilizadas para cooptar as oligarquias locais, foi incapaz de conter a insatisfação da população excluída e atender as demandas locais, o que resultou em conflitos localizados, expressos em movimentos sociais baseados territorialmente (BECKER, EGLER, 1992, p. 154).

Diante do crescimento do descontentamento popular, a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral encheu de esperança o povo, ansioso por mudanças políticas e econômicas e dá início à Nova República. A sua morte em 21 de abril de 1985, que gerou uma grande comoção nacional e a posse do vice-presidente José Sarney, que até pouco tempo antes era líder do partido governista, devolveu à nação um sentimento de súbita desesperança e a sensação de continuísmo. O clamor reprimido de uma sociedade que sublimava tensões provenientes de uma desigualdade social crescente começou a se manifestar no retorno controlado da democracia. Movimentos sociais que viriam a ter grande importância no futuro nasceram e se fortaleceram nessa fase de transição do regime

autoritário para a democracia. O novo sindicalismo, surgido na região industrial de São Paulo, a criação do Partido dos Trabalhadores - PT , o nascimento do Movimento dos Sem Terra – MST, a organização do Movimento dos Atingidos por Barragens - MAB e o crescimento da atuação das Comunidades Eclesiais de Base –CEB, que tiveram um papel determinante no apoio das lutas sociais, são alguns exemplos.

Apesar da influência ainda marcante dos setores conservadores oriundos do período militar no Governo Sarney, algumas importantes conquistas democráticas foram conseguidas: a) a aprovação das eleições diretas para Presidente da República; b) a extensão do direito do voto aos analfabetos e aos menores de 16 anos, incorporando um contingente eleitoral de 80 milhões de pessoas, 76,9 % das quais com domicílio urbano e 50,6% com rendimentos de até um salário mínimo; c) a legalização de todos os partidos políticos que cumprissem um mínimo de requisitos legais, que ampliou muito o leque partidário e tirou da clandestinidade partidos como o PCB – Partido Comunista Brasileiro e PC do B - Partido Comunista do Brasil d) a restauração das eleições diretas para prefeito em 1985. Outros instrumentos autoritários, entretanto, não foram modificados como a Lei de Imprensa, a Lei de Segurança Nacional e o Decreto 1077 da censura prévia. A convocação da Assembléia Nacional Constituinte com uma participação expressiva de parlamentares de oposição, eleitos em 1985, resultou em uma nova Constituição com forte teor social. Na contramão da onda liberal que já se impunha no cenário mundial, a Constituição de 1988, visando atender as demandas sociais reprimidas no período ditatorial, tabelou juros e reforçou as conquistas sociais do Estado do Bem Estar, ao mesmo tempo em que reduziu a capacidade estatal de gerar e controlar fundos públicos para fazer frente a essas demandas (BECKER, EGLER, 1992, p. 166-7; SKIDMORE, 1988, p. 263-4 ).

No plano econômico, o Governo Sarney herdou um grande déficit público que tentou combater no primeiro ano de governo com medidas de austeridade, como o corte de 10% dos gastos públicos; as suspensões dos pagamentos dos empréstimos bancários governamentais por dois meses e das contratações do serviço público por um ano. A substituição de Francisco Dornelles, um monetarista conservador, por Dilson Funaro no Ministério da Fazenda alterou os rumos da política econômica temporariamente com o chamado choque heterodoxo do Plano Cruzado em 1986. Com índices insustentáveis de

inflação, o governo implantou um programa de desindexação da economia que congelou preços e salários por um ano e mudou a moeda de Cruzeiro para Cruzado. Eliminou-se a correção monetária, criou-se o IPC – Índice de Preços ao Consumidor e institui-se o seguro-desemprego.Surgiram os “fiscais do Sarney”, consumidores comuns que espontaneamente fiscalizavam preços nos estabelecimentos comerciais. Houve euforia política e social e uma explosão de consumo que teve como conseqüências uma crise de desabastecimento provocada pelos empresários, a cobrança de ágio para aquisição de produtos e o retorno da inflação, reprimida por decreto (DUBEUX, 2005).

O interesse eleitoral adiou a decretação do Plano Cruzado II, que liberou os preços dos produtos e serviços e elevou subitamente o preço dos combustíveis e das tarifas públicas, provocando nova onda inflacionária e a decretação da moratória da dívida externa em 1987.A persistência da inflação provocou nova sucessão de Ministros da Fazenda e planos econômicos (Planos Bresser I e II de 1987 e Plano Verão de 1989) que não tiveram êxito. Entre fevereiro de 1989 e fevereiro de 1990, a inflação atingiu 2.751%. No fim do seu governo Sarney sofria uma grande impopularidade e a população voltou a depositar suas esperanças de mudanças nas eleições diretas para Presidente da República. Configurava-se uma nova fase política e social no país que ocorria simultaneamente a uma profunda crise econômica com os mais altos índices de inflação da história do país, um brusco estancamento nos índices de investimentos públicos e privados e o esgotamento da capacidade financeira do Estado (DUBEUX, 2005).

Luis Inácio Lula da Silva, líder sindical metalúrgico e o deputado federal mais votado na história do Brasil, disputou as eleições presidenciais com Fernando Collor de Mello, representante das elites.Embora sem uma sólida base partidária e com um discurso neoliberal e neopopulista, Collor obteve 36 milhões de votos contra 31 milhões de Lula. A iniciar seu Governo, Collor tomou medidas duras e antipopulares com a implantação de uma drástica reforma monetária e um programa de estabilização - o Plano Collor, estruturado em um gigantesco e inédito confisco monetário, congelamento temporário de preços e salários e reformulação dos índices de correção monetária para combater a hiperinflação.Também adotou medidas para a redução do Estado com a demissão de funcionários públicos e a extinção de autarquias, fundações e empresas públicas.Para

completar seu choque neoliberal expôs a economia interna à competição internacional, reduzindo drasticamente as alíquotas de importação e facilitando a entrada de capitais externos no país. A legitimização eleitoral de Collor o habilitou a dar a seu governo uma face populista autoritária semelhante a dos governos militares, embora integrada à novo quadro mundial da acumulação flexível. Porém, a falta de uma base parlamentar de apoio político, o fracasso do Plano econômico e escândalos de corrupção levaram ao solapamento da sua sustentação popular e ao seu impeachment em dezembro de 1992 (DUBEUX, 2005).

Collor introduziu efetivamente o novo modelo de acumulação flexível no país, o qual foi mantido e aprofundado nos governos subseqüentes de Itamar Franco (1992-1994), de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e de Luís Inácio Lula da Silva, iniciado em 2003. No final do Governo Itamar Franco foi lançado o Plano Real, o primeiro dos planos de estabilização econômica iniciados com o Plano Cruzado que teve êxito duradouro contra a inflação. A excelente repercussão política do Plano Real impulsionou a candidatura de Fernando Henrique Cardoso que venceu Luís Inácio Lula da Silva na eleição de 1994 e foi novamente reeleito em 1988.

O Plano Real promoveu nova troca monetária com a adoção do Real, moeda forte, que nasceu com paridade de valor com o dólar americano. No início do Plano, a importação de bens de capital e matérias-primas se tornou mais barata, houve pequena melhoria no poder aquisitivo da população, principalmente no extrato mais pobre, e o consumo foi reaquecido, com o aumento das compras a crédito, restabelecendo o crescimento econômico, embora em taxas ainda bem inferiores às da década de 1970. O Plano Real se ancorou na disponibilidade de capitais internacionais e na manutenção da política de câmbio fixo durante os seus primeiros anos. Apesar do êxito da estabilidade monetária gerou como conseqüências negativas o crescimento acelerado da dívida pública interna, a elevação da taxa básica de juros da economia -Selic e a exposição das empresas nacionais à competição externa que acarretou em falências, aumento do desemprego e maior concentração de renda nos anos subseqüentes.

Na verdade, o Plano Real se encaixou perfeitamente no receituário neoliberal que teve prosseguimento com outras medidas do Governo Fernando Henrique Cardoso, como a

privatização de empresas e de serviços públicos, com prioridade para os setores estratégicos para o mercado internacional, como os de telecomunicações, energia, siderurgia, mineração e concessões de exploração de petróleo; a reforma do Estado com transferência de patrimônio do setor público ao setor privado e o corte de benefícios sociais; a redução dos gastos e investimentos estatais combinados com aumento contínuo da carga tributária, de modo a obter superávits fiscais crescentes; o financiamento da dívida pública por meio da elevação de taxa juros; a desregulamentação de obrigações sociais e trabalhistas e a adoção de políticas sociais compensatórias, em substituição às políticas sociais de caráter universal; a manipulação das taxas de câmbio para incentivar exportações. O conjunto dessas medidas visou principalmente garantir o pagamento dos juros das dívidas externa e interna54. Em 2001 a dívida externa atingiu 238 bilhões de dólares com o pagamento de 42 bilhões de dólares só de juros. Suas conseqüências foram a redução da capacidade de investimento do Estado e das empresas privadas, bem como da capacidade de consumo e poupança da população assalariada, gerando estagnação econômica e elevação do desemprego (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2005; DE PAULA, 2003).

Depois de um crescimento de 5,9% em 1994 e de 4,2% em 1995, o crescimento do PIB decresceu para uma média de 3,0% entre 1996 e 1997 e caiu para 0,1% em 1998 e 0,8% em 1999, voltando a subir para 4,4% em 2000 e caindo novamente para 1,3% em 2001 e 1,9% em 2002 . A relação dívida externa/PIB passou de 27,3% em 1994 para mais de 39% a partir de 1999, atingindo 57,4% em 2002. A taxa de desemprego que havia se reduzido rapidamente de 9,0% em julho/94 para 7,8% em dezembro de 1994 voltou a subir depois de forma oscilante terminando o ano de 2002 em 9,4% (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2005; DE PAULA, 2003).

Nas eleições de 2002, a recessão econômica que o país passava, com baixíssimas taxas de crescimento e a persistência dos altos índices de desemprego se refletiram na vitória de Luís Inácio Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores contra o candidato do

54 O Brasil se tornou um dos maiores devedores mundiais em termos absolutos ( 40 bilhões de dólares em 1979 para 112 bilhões de dólares em 1987) e a transferência de recursos externos entre 1983 e 1988 atingiu 4% do PIB. O país remeteu ao exterior 75, 6 bilhões de dólares só para o pagamento de juros em 1988, recursos obtidos com os constantes aumentos nos superávits comerciais que cresceram de 1,2 bilhões de dólares em 1981 para 19,1 bilhões de dólares em 1988 (BECKER, EGLER, 1992, p. 170).

Governo, José Serra.As esperadas mudanças na política econômica, defendidas pelo próprio PT acabaram não ocorrendo, pois na ausência de uma alternativa viável e que não comprometesse a credibilidade perante os investidores externos, o governo petista preferiu manter a política econômica vigente. Esse direcionamento foi aprovado pelos setores mais conservadores e criticado pela própria esquerda. No ano de 2003, apesar da ortodoxa condução da política econômica, o crescimento do PIB foi de insignificantes 0,5%, havendo também aumento nas taxas de desemprego. No ano de 2004, entretanto, alguns resultados positivos apareceram.

Em 2004, o PIB brasileiro cresceu 5,2% em relação ao PIB de 2003, a maior expansão desde 1994. Não foi um fato isolado no contexto global, pois toda a economia mundial teve crescimento, com uma expansão média de 5%. Conforme dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, no caso do Brasil, houve retomada do crescimento industrial e dos investimentos, aumento do consumo de bens duráveis e de bens de capital, mas um dos fatores principais foi a maior arrecadação, com crescimento de 8,5%. A elevação da carga tributária permitiu ao governo produzir superávits fiscais reduzindo a relação dívida/PIB. Simultaneamente, o controle da inflação por meio da política de manutenção da taxa básica de juros da economia elevada aumentou a credibilidade externa à política econômica, reduzindo a taxa de risco dos títulos da dívida brasileira, o que resultou em valorização cambial progressiva com efeitos benéficos sobre a inflação e aumento do fluxo de capitais, elevando as reservas internacionais. A entrada de dinheiro especulativo manteve-se em função dos juros altos, mas uma parte crescente dos dólares foi proveniente do comércio exterior(BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2005).

A grande desvalorização cambial ocorrida em 2003 impulsionou o crescimento das exportações permitindo sucessivos recordes superavitários na balança comercial, o que se manteve, mesmo com redução gradativa das taxas cambiais ao longo de 2004, em função da melhoria da conjuntura internacional e ampliação dos mercados externos. A relação entre o serviço da dívida externa e as exportações de bens e serviços em 2004 foi de 50,8% e a relação entre as reservas e a dívida externa total foi de 26,3% no mesmo período, os melhores resultados desde que estes indicadores começaram a ser medidos pelo Banco Central em 1970 (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2005).

Este quadro macroeconômico favorável, apresentado aqui de forma simplificada, ainda não permitiu, contudo, ao país retomar os investimentos em infra-estrutura física e social que garantam a sustentabilidade do desenvolvimento e nem a redução de forma significativa da grande dívida social. Isto se deve ao fato de que praticamente toda a economia realizada com o controle orçamentário estar sendo empregada no pagamento das dívidas externa e interna e respectivos juros.A dívida interna, que envolve os débitos com pagamentos de títulos públicos se tornou nos últimos anos maior e mais importante do que a dívida externa. No final do ano de 2005 a dívida interna aproximava-se de 1 trilhão de reais.

A insatisfação com os efeitos lentos da política econômica sobre as melhorias sociais, associada à constatação de que as instituições financeiras nacionais e internacionais têm sido, de fato, as grandes beneficiárias dessa política, tem mantido manifestações reativas à conduta econômica por parte de vários setores sociais. Estes abrangem desde as facções mais à esquerda, críticas da política econômica governamental,nas quais está alojada a maior parte dos movimentos sociais organizados, até empresários ligados aos setores produtivos. Por outro lado, setores simpatizantes do ortodoxismo neoliberal aprovam a condução da política econômica. Duas formas de encará-la estão na base desses dois posicionamentos, conforme entendemos. Os críticos da política econômica apresentam um raciocínio que, embora simplista e menos técnico, tem sua lógica. Como os bancos têm grandes lucros com os juros elevados e a exportação de capital via pagamento da dívida externa, eles também têm sido os maiores financiadores de campanhas políticas, estabelecendo um vínculo que pode explicar a não alteração dos rumos da política econômica. Já os defensores da política econômica analisam que na complexa relação de fatores que envolvem a economia não se pode alterar só um lado da equação sem que existam condições adequadas do outro. Esta é a razão para a manutenção da elevada taxa de juros e do aumento da carga tributária que impedem, segundo seus opositores, um maior deslanche do crescimento econômico e os investimentos sociais que melhorariam a distribuição de renda.

Segundo analistas econômicos como Pastore e Pinotti (2005) o quadro macroeconômico brasileiro tem melhorado, mas permanece um longo caminho ainda a

percorrer. A dívida pública ainda é muito grande, a taxa de investimentos ainda é muito baixa, há necessidade de cortes nos gastos públicos e na carga tributária, o que ao lado da queda da relação dívida / PIB permitirá a redução da taxa real de juros. Também afirmam que só se pode comemorar o aumento das exportações quando elas estiverem financiando a importação de máquinas e equipamentos de maior tecnologia que permita acelerar a taxa de investimentos. Os críticos e defensores da política econômica do atual governo apresentam seus próprios argumentos, mas há um consenso de que somente a retomada do crescimento econômico de forma sustentável, aliado a investimentos sociais que melhor distribuam a riqueza concentrada em poucas mãos, pode gerar a reforma social e econômica que resultem em melhoria efetiva dos indicadores sociais.

4.1.3 Contexto ideológico nacional

O contexto socioeconômico internacional refletido no país depois da segunda

metade da década de 1980 não permitiu a manutenção do nacional-desenvolvimentismo, que já não conseguia responder às necessidades de flexibilização requeridas pelo novo modelo econômico. No campo político-ideológico a transição foi penosa para as relações entre o Estado e o capital privado nacional. A modernização conservadora viciou o Estado e o empresariado em um modelo no qual as benesses públicas eram um instrumento de cooptação dos grupos dominantes, que por sua vez se utilizavam do Estado para financiar seus investimentos e socializar seus eventuais prejuízos em um capitalismo sem risco. Mas a crise do capitalismo tardio implantado pelo fordismo periférico na América Latina colocou em xeque esse modelo, que criou um poderoso setor de produção de bens no país, mas não teve fôlego para financiar bens de capital e intermediários que garantissem a sua reprodução.

Não só o Estado viu esgotar-se sua capacidade de financiamento do setor privado, como também o setor financeiro nacional não estava preparado para fornecer crédito para investimentos de longo prazo. Os bancos brasileiros se adaptaram a um contexto de alta inflação e se acostumaram a obter grandes margens de lucro em operações de curto e curtíssimo prazo.As tentativas de capturar recursos através de poupança interna falharam, parcialmente em função da disponibilidade de amplos recursos externos na década de 1970

que faziam dos bancos brasileiros simplesmente intermediários do sistema financeiro internacional, reciclando fundos para o mercado interno de capitais (BECKER, EGLER, 1992, p. 169-172).

Por outro lado, o capitalismo tardio latino-americano não trouxe consigo as conquistas sociais dos trabalhadores dos países desenvolvidos, pois seu objetivo era justamente o de reduzir os custos sociais dos investimentos, aproveitando-se do fraco sistema de proteção social do trabalhador terceiro-mundista. A redemocratização do país levou a que os setores progressistas intencionassem resgatar a dívida social do trabalhador brasileiro aumentando os benefícios sociais na Constituição de 1988, mas repassando essa função a um Estado que já não tinha capacidade financeira para tal e a um empresariado nacional que rejeitou essa sobrecarga acostumado a que estava com o paternalismo estatal para assumir custos indesejáveis. Essa situação produziu um contexto ideológico nacional conflituoso, no qual as mudanças na economia obrigavam a uma forçosa adaptação do empresariado à nova realidade competitiva da acumulação flexível sem poder contar com o amparo de um Estado debilitado financeiramente.

A redefinição do papel do Estado, que antes assumia a função de empreendedor e principal agente econômico financiador do capital, leva a perda do seu poder de intervenção, compromete sua aliança com o capital privado e enseja tensões políticas e econômicas. Sem poder atender ao capital, o Estado tampouco conseguiu aliviar as tensões sociais que cresceram com a crise econômica.

A crise político-ideológica se acirrou quando o capital privado exigiu que o Estado, que não mais podia bancar o modelo de crescimento capitalista sem risco no novo regime de acumulação, privatizasse o capital social investido nas empresas públicas. Essa medida atendia, ao mesmo tempo, ao receituário de reformas neoliberais que exigia que o Estado abrisse mão de sua função empreendedora, reduzindo suas dimensões e a redução do déficit público. Permaneceu sem resolver, porém, a questão de como financiar a expansão dos serviços básicos necessários para manter o ritmo de crescimento econômico, bem como atender as demandas sociais crescentes e melhorar a distribuição de renda, funções básicas do Estado (BECKER, EGLER, 1992, p. 174).

A falta de investimento em infra-estrutura social se refletiu na explosão de conflitos no campo e nas cidades. O crescimento da massa de excluídos resultou em aumento da violência urbana, ocupações irregulares, crime organizado, poder paralelo ao Estado, insalubridade e demais ingredientes do caos urbano. No campo acirraram-se os embates

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