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Empoderamento e praticas socioespaciais locais: a imagem ambiental percebida

CAPÍTULO 1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E ANALÍTICA

1.2 IDEOLOGIA E PODER

1.2.3 Empoderamento e praticas socioespaciais locais: a imagem ambiental percebida

Diferentes estudos mostram que uma das motivações das práticas socioespaciais dos atores sociais é a percepção da imagem ideologicamente construída que circunscreve as ações governamentais e de outros grupos envolvidos na produção do espaço

.

Alguns autores que

analisam o estudo da imagem ambiental urbana como produto social, partem do pressuposto de que o comportamento social está relacionado à percepção do espaço ou à imagem ambiental. Ferrara (apud. CIDADE e JATOBÁ, 2004) observa uma ligação entre percepção ambiental e ideologia e considera que a percepção ambiental, seguindo uma escala de valores, é um processo de emissão e recepção de imagens dominadas pela ideologia. Para Bailly (apud. CIDADE e JATOBÁ, 2004) a relação entre imagem, ação e criação de novas imagens pode influenciar o comportamento social, com possíveis benefícios para aqueles que controlam os meios de comunicação. Para Ledrut (apud. CIDADE e JATOBÁ, 2004) as imagens ambientais compartilhadas por grupos sociais influenciam o comportamento social, podendo condicionar práticas sociais. A imagem construída dessa forma pode ser um veículo para conteúdos ideológicos que podem ser aceitos ou não pelos grupos receptores. Para Cidade (2002, p.75), as práticas socioambientais resultantes da percepção de uma imagem ideologicamente construída, de uma forma retroalimentadora, podem se refletir em novas percepções e novas imagens, contribuindo para produzir modificações contínuas no ambiente e na sociedade.

Portanto, se a percepção de uma imagem ideologicamente construída afeta o comportamento dos indivíduos e dos grupos sociais, pode se supor que a forma como os atores sociais aceitam ou rejeitam esta imagem condiciona suas práticas socioespaciais. Na prática do planejamento, portanto, a aceitação de imagens construídas pode facilitar o controle social de atores com maior poder econômico e político sobre atores sociais com menor poder econômico e político. Entretanto, a rejeição de uma imagem ideologicamente construída ou a percepção diferenciada de uma mesma realidade por atores sociais com diferentes níveis de poder e interesses pode gerar conflitos socioambientais que resultam em dificuldades no planejamento e na gestão do território e do meio ambiente.

A desmistificação e rejeição de uma imagem ideologicamente construída não ocorre por si só. È também um processo ideologicamente construído. A organização comunitária de atores marginalizados, assistidos por grupos políticos ou organizações não governamentais dá a esses grupos sociais a possibilidade de tomarem consciência política de sua situação social, permitindo a desconstrução dos discursos oficiais ideologicamente construídos pelos grupos dominantes e a construção também ideológica de discursos próprios com percepções diferenciadas da mesma realidade. A partir dessa tomada de consciência e da sua organização como força política, os

atores tradicionalmente marginalizados adquirem um poder que não supunham ter e se fortalecem perante os atores tradicionalmente mais poderosos. A esse processo tem se chamado empoderamento (“empowerment”, do inglês ) dos grupos socialmente marginalizados.

Pode-se ilustrar essa situação com o exemplo do que tem se passado na construção de grandes barragens. Tradicionalmente esses empreendimentos são “vendidos” aos grupos sociais a serem afetados como projetos de caráter desenvolvimentista que vão gerar benefícios econômicos e sociais que serão compartilhados pelos vários grupos sociais envolvidos. Promete-se aos atingidos melhor qualidade de vida, melhores condições sanitárias e de habitabilidade, bem como títulos de posse de terra nos locais de reassentamento, indenizações justas e benefícios indiretos. Na medida em que os atingidos não estão politicamente organizados e logo que se consegue a retirada dos ocupantes das áreas a serem utilizadas, a possibilidade de que as promessas feitas não sejam cumpridas ou sejam cumpridas só parcialmente é grande, pois os objetivos econômicos são mandatários e os interesses dos grupos minoritários tendem a ser negligenciados. Inversamente, se os atingidos estão politicamente organizados, e com suporte de grupos políticos ou organizações governamentais, eles é que assumem um papel reivindicador que pode paralisar ou retardar os empreendimentos, como mostram recentes experiências na construção ou tentativa de construção de barragens.

A organização de movimentos sociais de atores marginalizados no Terceiro Mundo não é um fenômeno recente, mas se fortaleceu a partir da década de 1980, com o advento de regimes políticos democráticos ou quase-democráticos (BRYANT e BAILEY, 1997, p. 174-175). Começam a surgir, a partir daí, movimentos sociais em função de lutas por justiça social ou pelo controle local de recursos naturais. Bryant and Bailey (1997, p. 175) advogam, citando outros autores, que em uma certa medida os regimes políticos autoritários favoreceram a emergência dos movimentos sociais em alguns países do Terceiro Mundo. A forte repressão dos governos autoritários fez com que esses movimentos eclodissem com muita força na abertura democrática que se iniciou nos anos 1980 na maior parte desses países.

A resistência dos movimentos sociais baseia-se, na constatação pelos atores marginalizados, do poder que possuem frente ao atores dominantes. Linderberg (2005) baseado em Bryant e Bailey (1997, p. 44-45) pontua pelo menos quatro fatores pelos quais os atores tradicionalmente

marginalizados adquirem poder e fortalecem suas estratégias de resistência perante os atores tradicionalmente dominantes:

a) Conhecimento local – em geral os atores marginalizados detêm mais conhecimento da realidade e do meio ambiente locais do que os atores dominantes e podem se utilizar desse conhecimento para melhor negociar. O conhecimento local do território e de técnicas de manejo pode ajudar aos atores mais poderosos a entender melhor a realidade local e a solucionar problemas técnicos de seus empreendimentos. Essa habilidade também pode ser utilizada como uma “técnica de guerrilha” dos atores marginalizados na sua resistência cotidiana. Bryant and Bailey (1997, p. 44-45) relatam casos de sabotagem praticados por atores marginalizados contra empreendimentos que os prejudicavam. Citam os caos de incêndios provocados em áreas de silvicultura comercial e a dificuldade de repressão dessas práticas pelos atores dominantes.

b) Legitimidade – as grandes empresas e os governos procuram legitimar suas ações como atos que não sejam só de seu próprio interesse. Ações de proteção ambiental e social são apresentadas como a contrapartida de atividades com finalidade meramente econômica. Além disso, cada vez mais as empresas e governos têm sido cobrados e questionados pela mídia, por Ongs e pelos consumidores quanto à observância de normas ambientais e dos direitos dos atores marginalizados. Como a imagem dessas instituições pode ser afetada por esses fatores, com reflexos no seu poder político e econômico, eles são usados pelos atores marginalizados a seu favor. Bryant e Bailey (1997, p. 44-45) comentam que o cumprimento de normas ambientais e direitos trabalhistas pelas empresas muitas vezes são só ações de “fachada”, ou seja, não ocorrem efetivamente, embora as empresas as divulguem com grande propaganda. Quando os movimentos sociais conseguem contrapor e questionar publicamente a propaganda oficial (discurso ideológico) a opinião pública tende a questionar as empresas e os governos, o que dá maior poder reivindicativo aos atores marginalizados.

c) Alianças – Como conseqüência da conscientização do seu poder e em função das habilidades políticas de negociação adquiridas, os atores marginalizados podem fazer alianças com o próprio Estado e as empresas, bem como também com Ongs e instituições políticas, que geralmente são seus aliados nas lutas de resistência. O crescente poder das Ongs e sua ação como aliadas dos movimentos sociais alterou a equação de poder nas questões ambientais e sociais,

segundo Bryant e Bailey (1997, p. 45-46). As Ongs investigam e questionam as ações do Estado, das empresas e organismos multilaterais, colocando em evidência as contradições de seus discursos ideológicos. Por outro lado, o próprio Estado tem repassado ao chamado terceiro setor muitas de suas tarefas, principalmente nas áreas social e de meio ambiente, o que demonstra que as Ongs, que geralmente têm um discurso de oposição aos governos, muitas vezes se aliam com ele e mesmo dependem dele para a sua sobrevivência financeira.

d) Tecnologia – o domínio de tecnologias sempre foi uma forma de atores mais poderosos exerceram controle sobre atores marginalizados. No período colonial o poder dos colonizadores derivava em grande parte do domínio tecnológico dos grandes avanços científicos da época, como a navegação, a construção de estradas, o telégrafo, as armas de fogo, etc, inacessíveis aos colonizados. Nos tempos presentes, embora a dominação por meio da tecnologia ainda seja um fato, o tempo e o custo financeiro de acesso a modernas tecnologias como a Internet ou os avanços em telecomunicações se reduziu enormemente. Isto significa que escritórios de Ongs e de movimentos sociais podem dispor quase que dos mesmos meios tecnológicos que dispõem as grandes empresas e o Estado e manipulam com grande habilidade ferramentas como Internet, telefonia celular, geoprocessamento e estatística a favor dos seus interesses. O aspecto tecnológico também pode ser visto sob a ótica dos saberes e conhecimentos tradicionais, de grande interesse para a indústria química e farmacêutica. O domínio desse conhecimento, tecnologicamente rudimentar, mas potencialmente muito valioso, pode outorgar poder às comunidades tradicionais, desde que não sejam manipuladas a entregar esse conhecimento em troca de benefícios fugazes.

A pressão exercida pelos movimentos sociais organizados e pelas organizações não governamentais ambientalistas mudou a correlação de forças nos empreendimentos e ações dos governos e grandes empresas. O empoderamento dos atores marginalizados, organizados e auxiliados por Ongs e instituições políticas melhorou suas condições para negociar benefícios junto aos empreendedores, que doravante têm sido obrigados a fazer maiores concessões e a atenderem mais reivindicações dos movimentos sociais. Essa postura mais aberta a negociação por parte dos empreendedores, todavia não tem esgotado o conflito entre esses e os movimentos sociais.

Além do conflito com os movimentos sociais, no Brasil, e possivelmente em outros países também, os governos e empresários, responsáveis por empreendimentos com grande impacto ambiental têm sido crescentemente obrigados a atenderem a uma legislação ambiental bastante rígida, cuja obediência estrita é cobrada pelos órgãos ambientais governamentais, fiscalizados pelo Ministério Público Federal e organizações não governamentais ambientalistas. A conjunção desses fatores tem gerado dificuldades crescentes para o planejamento e a gestão desses empreendimentos e levado ao adiamento ou cancelamento de muitos deles. Um dos tipos de empreendimento que mais se ressente dessa situação é o de construção de usinas hidrelétricas.

A permanência do conflito, contudo, é parte da estratégia de resistência dos atores mais fracos, enquanto a sua mais rápida resolução é estratégica para os empreendedores, pois quanto mais ele dura, maior dano à racionalidade produtiva provoca. O embate político e ideológico entre atores tradicionalmente dominantes e atores tradicionalmente marginalizados tem ganhado ares de uma batalha acirrada que parece estar mudando a correlação de forças em grandes projetos geradores de impacto ambiental.

O meio ambiente, contudo, não é somente o campo no qual os conflitos pelo acesso e controle dos recursos naturais ocorrem. Sob o enfoque da Ecologia Política a natureza e os processos biofísicoquímicos desempenham um papel determinante nas dinâmicas socioambientais. Uma explicação do que é e como é produzida a socionatureza pode ajudar a entender melhor os conflitos socioambientais e sintetiza, de certa forma, as questões discutidas neste capítulo.

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