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CAPÍTULO 1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E ANALÍTICA

1.2 IDEOLOGIA E PODER

1.2.1 Ideologia e as relações de poder e dominação

O poder não se manifesta somente através do controle das práticas materiais, mas também, e cada vez mais fortemente no mundo atual, por meio da regulação das idéias. Um ator legitima seu poder e interesses sobre outro ator por meio do convencimento ou da assimilação social de idéias. A chamada versão socialmente aceita dos fatos expressada em documentos, ideologias políticas, propaganda e manifestações culturais é um recurso comumente utilizado por atores dominantes como o Estado e empresas para legitimar suas idéias e interesses. As idéias e a forma como estas são expostas, segundo Schmink e Wood nunca são atos inocentes e têm o sentido de reforçar ou desafiar fatos e situações sociais e econômicas existentes (apud. BRYANT e BAILEY, 1997, p. 41).

O campo das idéias é distinto do campo das práticas materiais. Schmink e Wood (apud. BRYANT e BAILEY, 1997, p.42) notam que posições ideológicas não são meros reflexos de práticas materiais; e por serem mutáveis e sujeitas a contínua redefinição são mais difícies de serem controladas materialmente. Essa imaterialização das idéias propicia a manipulação

ideológica de atores mais fortes sobre atores mais fracos, mas é também a base para uma cultura de resistência dos atores mais fracos sobre atores opressores.

Outros autores, mesmo admitindo que a dinâmica socioambiental é reconhecidamente condicionada por processos econômicos, consideram igualmente importante nos processos de acumulação de capital e reprodução social, com reflexos territoriais e ambientais, os processos culturais ou ideológicos: cultura, comunicação, percepção e imaginário social.

Segundo Leff (2000, p. 213), as categorias teóricas do marxismo tradicional são demasiadamente esquemáticas para se compreender a sobreposição das esferas ideológica, política e econômica, bem como a articulação de processos ecológicos, tecnológicos e culturais, que constituem as bases e as condições de sustentabilidade da produção. A aplicação do modelo de análise econômica, baseado na acumulação de capital e reprodução do sistema, tem se mostrado insuficiente e determinista para explicar processos locais de produção do espaço.

Tendo como foco de análise a questão urbana e territorial, Harvey (1998, p.218-219) propõe uma metodologia analítica que integra os processos econômicos e políticos às mudanças culturais. Mesmo mantendo o processo econômico como base, esse autor relaciona outros fatores que intervêm na produção social do espaço, considerando a complexidade das práticas espaciais e temporais e sua relação com a reprodução e transformação das relações sociais. Harvey nota que as mudanças sociais e sua dinâmica estão parcialmente relacionadas às concepções de tempo e espaço e seus usos ideológicos.

Para entender as práticas espaciais Harvey propõe as seguintes categorias, inspiradas em três dimensões definidas por Henri Lefebvre na sua obra “A Produção do Espaço”: a) práticas materiais espaciais, como fluxos de bens e pessoas, sistemas de transporte e comunicações, transferências e interações físicas e materiais que ocorrem no espaço para assegurar a produção e a reprodução social; b) representações do espaço, que abarcam todos os signos e significados, códigos e saberes, que permitem entender as práticas materiais espaciais, seja no seu sentido comum, cotidiano, seja na linguagem, às vezes enigmática das disciplinas acadêmicas que se vinculam às práticas espaciais, como a arquitetura, a geografia, o planejamento, a ecologia social, etc.; c) espaços de representação, que são criações mentais, como códigos, sinais, discursos espaciais, planos utópicos, paisagens imaginarias e também elementos materiais, como espaços

simbólicos, ambientes construídos específicos, museus e obras de arte, que criam novos significados e possibilidades de práticas espaciais. Para Lefebvre essas três dimensões correspondem, respectivamente, ao experimentado, ao percebido e ao imaginado.

Harvey (1998, p.247) também esclarece que essa esquematização não deve ter uma significação importante por si própria. Aceitar isto seria admitir que existe uma linguagem espacial universal independente das práticas sociais. A eficácia das práticas sociais na vida social só nasce das relações sociais dentro das quais elas intervêm. Por exemplo, observando-se a esquematização proposta por Harvey a partir das relações sociais do capitalismo, pode-se concluir que as práticas espaciais estão impregnadas da idéia de divisão de classes. Entretanto, tomá-las desse modo não significa que as praticas espaciais provêm exclusivamente do modo de produção capitalista. Na verdade, elas adquirem seus significados nas relações sociais específicas de classe, gênero, comunidade, etnia ou raça e se esgotam e se modificam no curso da ação social.

Outro autor que, mesmo aceitando que a esfera econômica tem um papel relevante na produção espacial, adota um esquema interpretativo alternativo que inclui os aspectos culturais, é Mark Gottdiener (1997). A partir de um enfoque baseado na produção do espaço o autor, embora aceite as tendências gerais da economia capitalista, inclusive o papel do Estado, considera que processos políticos e culturais locais são muito importantes na configuração do espaço. Gottdiener incorpora em sua análise elementos da cultura urbana, do cotidiano, da vida em comunidade e da ideologia como essenciais à compreensão das condições de produção social do espaço.

A questão ideológica, enfocada sob o aspecto das relações de poder e das formas simbólicas é analisada também por Thompson (1995), que desenvolve uma concepção crítica do conceito de ideologia, o qual, apesar da ambigüidade que possui em função de suas várias acepções, permanece central para as ciências sociais, segundo este autor. Thompson aceita parcialmente o conceito de ideologia como legitimadora da reprodução social organizada pelo Estado, ou seja “um sistema organizado de valores e crenças que são produzidos e difundidos pelas agências do Estado e que servem para reproduzir a ordem social através da garantia de adesão das pessoas” (THOMPSON,1995, p. 104). Segundo esta teoria, que tem origem nos trabalhos de Marx e

Weber, uma das formas de reproduzir o sistema dominante é a ideologia difundida pelo Estado e pelas classes hegemônicas

.

Entretanto, Thompson também vê limitações neste conceito, que entende a ideologia como uma espécie de “cimento social”, estabilizador das relações sociais propiciando normas e valores coletivamente compartilhados. Ele considera este enfoque falho, porque não há evidências que garantam que certos valores e normas sejam compartilhados por todos ou pela maioria nas sociedades modernas. Identifica neste pressuposto um enfoque que reduz a análise da ideologia às relações de classe. Na análise marxista tradicional as relações de dominação e subordinação baseiam-se sempre na divisão de classes, representadas na sociedade moderna pela relação capital/trabalho assalariado. Embora não se possa desconsiderá-las é errôneo presumir que toda relação de dominação e subordinação vai estar baseada na divisão de classes. Thompson (1995, p. 11 e 200) considera exagerada a ênfase marxista nas relações de classe e argumenta que uma análise satisfatória das relações de dominação e subordinação na sociedades modernas deveria dar atenção a outros tipos de divisões igualmente fundamentais, como as existentes entre os sexos, grupos étnicos e estados-nações.Reconhece, portanto, que existem relações de poder sistematicamente assimétricas16 que estão baseadas em fatores diferentes dos de classe e que sobrevalorizando a importância da classe na análise da ideologia, este conceito acaba por negligenciar outros tipos de dominação, como as formas simbólicas que servem para garanti-la.

Thompson parte da análise dos meios de comunicação para entender como as formas simbólicas são transmitidas e se reproduzem na sociedade contemporânea. Apesar da sua análise enfatizar os meios de comunicação de massa, ela pode ser estendida ao entendimento de todos os tipos e processos de comunicação de formas simbólicas. Para Thompson (1995, p.165-166) a cultura pode ser vista segundo duas concepções: uma descritiva e outra simbólica. Na concepção descritiva, a cultura refere-se a um conjunto de valores, crenças, costumes, convenções, hábitos e práticas características de uma sociedade específica ou de um período histórico. Na concepção

16 Thompson (1995, p.199-200) define as relações de dominação como relações de poder sistematicamente assimétricas. Ou seja, “quando indivíduos ou grupos de indivíduos particulares possuem um poder de maneira estável, de tal modo que exclua – ou se torne inacessível, em grau significativo a - outros indivíduos ou grupos de indivíduos, não importando a base sobre a qual esta exclusão é levada à efeito. Neste caso, podemos falar de indivíduos ou grupos “dominantes” e “subordinados, assim como daqueles indivíduos ou grupos, que em virtude de seu acesso parcial a recursos, ocupam uma posição intermediária em um campo”.

simbólica os fenômenos culturais estão relacionados a um mundo sócio histórico constituído por um campo de significados. Ou na definição do próprio autor:

“Cultura é o padrão de significados incorporados nas formas simbólicas, que inclui ações, manifestações verbais e objetos significativos de vários tipos, em virtude dos quais os indivíduos comunicam-se entre si e partilham suas experiências, concepções e crenças” (THOMPSON 1995, p. 176).

A análise dos fenômenos culturais, portanto, pode ser entendida como a interpretação dos símbolos e de como as formas simbólicas são produzidas, construídas e recebidas por indivíduos situados em um determinado contexto social e histórico.

O estudo da ideologia deve, segundo essa concepção, envolver as relações entre sentido, significado e poder. Para Thompson (1995, p. 16) a ideologia refere-se às maneiras como o sentido ou significado produz e reproduz, em determinadas circunstâncias, relações assimétricas de poder, relações de dominação. Para estudar a ideologia é necessário: a) entender a construção e o uso das formas simbólicas, como o discurso oral, imagens e textos; b) analisar os contextos nos quais as formas simbólicas são articuladas; c) entender se e como o sentido construído é colocado a serviço das relações de poder e dominação em um determinado contexto. .

Os discursos espaciais, como os discursos do planejamento e gestão do território e do meio ambiente e as idéias difundidas por meio deles podem ser consideradas formas simbólicas que reproduzem relações de poder no espaço. A partir do discurso ideológico do planejamento imagens ambientais são construídas pelo grupo social dominante. É o que examinaremos a seguir.

1.2.2 Aspectos ideológicos do planejamento e gestão do território e do meio ambiente - a

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