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No final dos anos 80 e, no Brasil, principalmente a partir de meados da década de 90, tomaram maior vulto as críticas aos modelos de desenvolvimento que até então eram seguidos e difundidos pelas agências internacionais de desenvolvimento. Em parte, a crítica era em virtude da crise do modelo de produção fordista em âmbito mundial que iniciara a partir de meados da década de 70. Além disso, as políticas de tipo keynesianas não haviam promovido o propalado desenvolvimento dos países, mas gerado consequências sociais e ambientais cada vez mais questionadas pela sociedade (BONENTE; FILHO, 2007). No Brasil, a década de 80 é marcada ainda, pelo recrudescimento da crise fiscal do Estado bem como pelo período de abertura política culminando com a Constituição de 1988.

A partir da crise da política de intervenção estatal de estilo keynesiano, no decorrer da década de 90 ocorreu o advento das ideias neoliberais tanto em âmbito internacional quanto no Brasil. Nesse período criou-se uma crescente polarização entre Estado e Mercado, onde alguns defendiam a superioridade do mercado para a melhor alocação dos recursos. Entre as características das novas ideias de gestão

do Estado, estava a necessidade de descentralização de diversas atividades e setores que antes eram realizados pelo Estado para a sociedade (através de privatizações), bem como uma maior participação desta na tomada de decisões antes realizadas por planejadores profissionais. Alguns acreditavam que a simples redução do tamanho do Estado e este passando a ter um papel apenas regulador solucionaria os problemas existentes. Assim, a forma tradicional de intervenção estatal caracterizada pela verticalização das políticas públicas passou a ser duramente criticada (KLIKSBERG, 2006).

Para este autor, entre o mercado e o Estado existe uma diversa gama de atores sociais não percebidos, como Organizações Não Governamentais (ONG‟s), organizações sociais de base religiosa, grupos ecologistas, entre outras que possuem um papel importante na sociedade. Para o autor,

[...] é imprescindível levar a cabo o esforço de reconstruir um Estado que venha a cumprir com novas demandas que se apresentam, que possa combinar-se harmoniosamente com as forças produtivas privadas para obter o melhor resultado para o país, e que seja um fator promotor e facilitador do desenvolvimento de sociedade civil cada vez mais articulada, forte e ativa (KLIKSBERG, 2006, p. 45).

Essas críticas passaram a impulsionar a descentralização e a participação da sociedade civil nos projetos de desenvolvimento dos países subdesenvolvidos. A isso se acresce o fato das organizações internacionais, como o Banco Mundial (BM) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), passarem a condicionar a concessão de financiamento dos projetos à participação da sociedade civil e ao uso de abordagens participativas. Assim, as estruturas de formatação dos projetos financiados por estas instituições previam previamente metodologias de diagnósticos da realidade e definição das ações executadas que incorporassem esse arcabouço teórico defendido.

Para Bandeira (1999), eram cinco os principais argumentos em favor da maior participação da sociedade civil. O primeiro era relacionado à existência de maior eficácia dos projetos em que a sociedade civil participa da formulação, implementação e avaliação do projeto. Um segundo, diz respeito à valorização da atuação da sociedade civil nas políticas de desenvolvimento. O acúmulo de capital social proveniente da interação entre a sociedade civil durante o processo de formulação, execução e avaliação das políticas é defendido como um terceiro elemento. Um quarto, ligado principalmente ao meio empresarial, diz respeito à

melhoria da competitividade sistêmica proporcionada. Por fim, o autor ressalta que a formação de identidades locais e regionais é favorecida, proporcionando possibilidades para a formação de consensos.

No âmbito dos projetos de desenvolvimento rural pode-se citar o método “Planejamento de Projetos Orientado para Objetivos7” (ZOOP) que passou a ser estimulado após a década de 80, visando superar o modelo de estruturação dos projetos através do Marco Lógico (BRACAGIOLI NETO, 2010). Mendonza et al. argumentam que a partir da década de 80 as organizações internacionais de cooperação para o desenvolvimento passaram a construir parcerias diretamente com ONG‟s, resultado da crítica acerca da necessidade e eficiência da participação dos Estados nacionais nesse setor. Ao mesmo tempo, alguns avaliavam que a simples retirada do Estado da execução das atividades de extensão rural prejudicava o combate à pobreza uma vez que somente os setores mais capitalizados obtinham os serviços via mercado.

Além da valorização da participação da sociedade na construção, implementação e gestão das políticas públicas, na condução do próprio Estado, a participação foi incentivada na gestão de empresas. Kliksberg (2006) apresenta uma ressalva entre o planejamento nas organizações empresariais com o planejamento e a definição das estratégias no âmbito das políticas públicas e na condução do Estado. Segundo ele, as metas, objetivos e o período de planejamento, a relação com outros projetos e políticas, bem como a materialidade ou imaterialidade dos resultados são diferentes. Neste sentido, não é possível simplesmente utilizar os passos e metodologias dos métodos de planejamento estratégico empresariais para as políticas públicas.

Na América Latina, a descentralização através dos métodos participativos, além da influência do contexto internacional, foi influenciada por outros fatores. Chambers (1994 apud DIESEL et al., 2004), por exemplo, argumenta que a educação popular também influenciou nas políticas de desenvolvimento descentralizadas que tinham a participação da sociedade civil como mote. Entre as características da educação popular está o entendimento que o desenvolvimento deve ser fruto de mudanças estruturais na sociedade. De Toni (2001), por sua vez, mostra que muitas das experiências envolvendo as práticas de educação popular se

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formaram durante o período de ditadura militar e que influenciaram as políticas a partir do período de redemocratização do país.

Segundo Diesel e Neumann (2010, p.252),

o confronto de ideários políticos diferenciados, que vem se alternando no poder desde a década de 1980, vem resultando num complexo e hesitante processo de revisão no modelo de interação do Estado e sociedade civil. No Brasil as iniciativas de democratização vêm implicando na valorização da participação na gestão pública, bem como na revisão das atribuições das entidades públicas e privadas.

A Constituição de 1988 garantiu diversos espaços para a sociedade civil e na descentralização das responsabilidades entre governo federal, estadual e municipal, caracterizando-se como um marco na implementação de políticas descentralizadas e participativas.

Segundo Diesel et al. (2004), as estratégias de participação da sociedade no contexto brasileiro foi resultado da congruência entre elementos de educação popular já existentes na sociedade civil organizada, e mudanças na forma de atuação dos estados nacionais através da transferência de responsabilidades na definição e execução das políticas públicas.

Dessa forma, segundo Diesel et al. (2004, p.3), referindo-se às políticas de desenvolvimento rural resultantes,

Aparentemente esta dinâmica está favorecendo um encontro entre a tradição tecnocrática e as iniciativas de mobilização participativa da população. Neste contexto, a tradição tecnocrática do planejamento passa a se constituir numa nova matriz a alimentar a prática da promoção do desenvolvimento rural, resultando na geração de modelos de planejamento “arejados”.