ENQUADRE TEÓRICO METODOLÓGICO
4. DESCRIÇÃO DAS CONDUTAS HUMANAS EM SITUAÇÕES NATURAIS
4.3 I NTERAÇÃO EM E SPAÇOS I NSTITUCIONAIS
4.3.2 Contextos institucionais formais e informais
Estudos, como os anteriormente citados, realizados em tribunais, salas de aula, etc. são exemplos do interesse no sistema de turnos em interações em
contextos formais institucionais. Dois aspectos têm direcionado a atenção para esses contextos institucionais. O primeiro se refere às organizações dos turnos como aspecto fundamental e genérico da própria organização da interação.
Tais organizações são implementadas recorrentemente no curso da interação. Essa característica oferece um interesse metodológico especial: pode ser possível mostrar que os participantes de um contexto interacional do tipo tribunal organizam seus turnos num caminho diferente que numa conversação ordinária; pode ser proposto que eles organizam suas condutas como uma forma de “exibir” e “fazer” institucional (Drew & Heritage, 1992).
Um segundo aspecto refere-se a fala dos participantes que é conduzida dentro dos limites de um sistema de turno específico apresentam diferenças em relação aos limites que possam emergir numa conversação ordinária. Tais diferenças comumente estão relacionadas a reduções específicas das opções e oportunidades para ação que são características em conversações, sendo freqüentemente envolvidas em movimentos de especificações e re-especificações nas funções das atividades no curso da interação.
O conjunto dessas variações vindas da prática conversacional pode contribuir para o registro de uma única forma de interação institucional. Os membros participantes dessas práticas podem contribuir coletivamente para o que Garfinkel, Lynch & Livingston (1981) tem denominado de identifying details das atividades institucionais.
Em várias dessas formas de interações institucionais formais, principalmente em salas de aula ou tribunais, o turno é bem delimitado em função dos procedimentos definidos. É interessante assinalar que esses contextos envolvem a
produção da fala para uma audiência. A audiência é co-presente e o sistema de turnos é definido para controlar ou abreviar a natureza da participação da audiência em alguma manifestação desta (Atkinson, 1979, 1982).
Porém, têm sido colocados na literatura outros tipos de interações institucionais em que nem a organização dos turnos nem outros aspectos da conversa exibem as qualidades de uma formalidade. É o caso de interações institucionais do tipo informal ou less forma”, em que os padrões de interação exibem consideravelmente menos uniformidade. A partir desses padrões podemos observar uma distribuição assimétrica entre os papéis de cada um dos participantes na atividade.
Essas interações geralmente são realizadas em contextos privados. Em muitos casos, a conversa nesses contextos é claramente institucional, marcada pelas atividades realizadas que são baseadas nos papéis e ações especificas de cada participante. Por exemplo, em consultas médicas que pode se constituir essencialmente em pares adjacentes do tipo pergunta/resposta.
Aspectos sistemáticos da organização dessas seqüências aparecem em aberturas e fechamentos de encontros em que a informação é solicitada, fornecida e recebida podem ser vistos como facetas dos caminhos pelos quais a institucionalidade de tais encontros é gerenciada (Drew & Heritage, 1992).
A partir de todos esses aspectos salientados aqui sobre os estudos da fala em interações institucionais, cinco grandes dimensões da conduta interacional parecem constituir o foco das pesquisas da conversa nesses contextos institucionais (ibid). São elas:
(i) escolhas léxicas: vários estudos têm documentado a incidência de
vocabulários “leigos” e “técnicos” em áreas como medicina e direito, e parece claro que o uso de tais vocabulários pode contribuir para afirmar a especialidade de um determinado conhecimento e de identidades institucionais. Escolhas entre termos descritivos são geralmente sensíveis ao contexto. Por exemplo, a escolha entre “cop” e “police” é, para Jefferson (1974) e Sacks (1979) notada como conseqüência de uma variedade de contexto incluindo procedimentos forenses (ibid, p.28)
(ii) turn design: a análise do turn design relaciona-se à seleção de uma
atividade a qual o turno é destinado a realizar e os detalhes da construção verbal a partir dos quais a atividade é realizada. Dessa forma, turn design envolve a seleção da ação e a seleção de como a ação é realizada em palavras. A questão do turn design é freqüentemente sensível as questões de incumbências institucionais. Estudos como os de Clayman (1992) e Drew & Heritage (1992) têm sido particularmente focado nesses tópicos.
(iii) organização seqüencial: todas as análises de interações institucionais –
etnográficas ou sociolingüísticas – analisam extratos de conversas desses contextos como exibindo características da ação e das relações sociais que são características desses contextos institucionais. Nessas análises, independentemente do uso de uma orientação analítica dentro da perspectiva da Análise Conversacional, o fenômeno no qual a institucionalidade da conversa é substancializada a partir da seqüencialidade.
Contribuições nesse sentido podem ser encontradas quando comparamos estudos que analisaram seqüências de conversas em contextos institucionais como tribunais, programas de entrevistas e salas de aula (Atkinson (1982); Button (1992); Maynard (1992)). Encontramos padrões diferenciados em cada um desses contextos relativo as seqüências do tipo pergunta/resposta.
(iv) organização estrutural global: muitos tipos de encontros institucionais são
caracterizados dentro de uma forma padronizada ou em diferentes fases. Em muitos tipos de interações institucionais, em contraste com as conversações ordinárias, aparece uma conversa em forma de relato. Em alguns exemplos, a ordem pode ser informada em forma de “agenda do dia”.
Mas, apesar dessa ordem estabelecida a priori, estudos como os de Zimmerman (1992) têm evidenciado a ordem como uma realização local a partir do gerenciamento das rotinas em contexto de chamadas de emergência à polícia. Outros exemplos podem ser dados em contextos como consultas médicas e outros encontros institucionais que são caracterizados pelo funcionamento em fases. Esses padrões organizacionais são comumente orientados pelas profissões institucionalizadas. A progressão da interação a partir de uma série de seqüências padronizadas certamente requer a contribuição de participantes não institucionalizados, o que oferecer resistência a essa progressão.(Drew & Heritage, 1992)
(v) epistemologia social e relações sociais: os temas e as questões tratadas aqui
não se referem a seqüências específicas da ação, e sim emergem de uma maneira geral em toda a seqüência conversacional. Muitos estudos têm
assinalado a presença de uma ação em termos de precaução ou mesmo uma posição de neutralidade dos profissionais, o que tem sido considerado pela literatura como uma característica distintiva de conversas institucionais em relação as conversações ordinárias.
Um estudo realizado por Zimmerman (1992) relata essa precaução por parte dos participantes em chamadas de emergência policial. Existem casos em que as pessoas que fazem a chamada telefônica para informar a polícia sobre um determinado evento com que elas não estão diretamente envolvidas, podem usar um caminho para mostrar a inocência e não motivação em relação ao evento, o que o autor denomina de uma prática epistemológica dessas comunicações.
Além dessas ações precavidas tem surgido também um outro tema central em interações institucionais, contrastante com as conversações ordinárias: a presença de relações assimétricas entre os interlocutores em conversações institucionais. Apesar de existirem diferenças significativas na literatura da forma como é colocada tal assimetria em relação as estruturais sociais (Maynard & Clayman, 1991), concordamos com Drew & Heritage (1992) quando afirmam que muitas questões ainda permanecem opacas quanto a essa relação entre assimetria e estrutura social.
O argumento desses autores é defendido a partir da discussão sobre essa dicotomia colocada entre a simetria nas conversações ordinárias e a assimetria nas conversações em contextos institucionais como uma simplificação exagerada na forma de observar tais assimetrias. Todas as interações sociais apresentam assimetrias básicas no curso da interação a partir das ações dos participantes, advogando assim uma independência das identidades extra-discursivas dos participantes.
Podemos concordar com a questão de uma simplificação na análise dessas assimetrias, mas, quanto ao caráter independente das identidades dos participantes concordamos novamente com Drew & Heritage (ibid) que apresentam vários estudos como exemplos da presença das posições dos participantes na hierarquia social nas interações, apesar da existência das regras dos turnos operarem localmente na construção discursiva.
Em muitas formas discursivas institucionais tem sido apresentada uma relação direta entre status e papel por um lado e, direitos e obrigações dos turnos, por outro. Parece ser interessante observar que todos esses estudos relatados até o presente indicam a presença de uma assimetria nesses tipos de interações da ordem da distribuição do conhecimento como recursos acionados durante a conversação contribuindo para a participação na interação. Ou como Drew & Heritage afirmam
“patterns of institutional discourse indicate important asymmetries between professional and lay perspectives, and between professional and lay parties, asymmetries of knowledge and rights to knowledge, and asymmetries arising from differential access to organizational routines and procedures” (ibid, 49).
Tal aspecto tem sido demonstrado em vários estudos que tratam da interação entre médico e paciente. A literatura tem apresentado casos em que mesmo tendo um conhecimento médico considerável, eles consideram tal conhecimento como pertencente a uma autoridade profissional.
A partir desse esboço das principais tendências da literatura em termos de temas e questões colocadas à investigação da conversação em contextos institucionais, dois aspectos emergem dessa discussão. O primeiro refere-se à
emergência da Análise Conversacional como uma abordagem compatível com os métodos etnográficos, freqüentemente utilizados em investigações dessa natureza e o próprio crescimento da Análise Conversacional como um campo de investigação científica que oferece importantes contribuições para a análise de interações em contextos institucionais.
Quanto a esse último aspecto, têm surgido, nas três últimas décadas, estudos utilizando a abordagem da Análise Conversacional na análise de interações em Laboratórios científicos. Esses estudos, voltados especificamente para as interações entre pesquisadores em atividades de pesquisa, têm também confirmado a Análise Conversacional como uma abordagem que oferece contribuições à análise da interação em diferentes contextos, sejam institucionais ou não.