CATEGORIZAÇÃO E SEQUENCIALIDADE
7.4 P OSIÇÕES S EQÜENCIAIS E C OMPETÊNCIA DE C ATEGORIZAÇÃO
7.4.2 Debate: avaliando a competência de membro
O funcionamento da máquina de turnos durante o debate, se apresenta com alternâncias de turnos freqüentes em função da quantidade de participantes que se
auto-selecionam para apresentar questões ou comentários ao orador. Da mesma forma que fizemos na seção anterior, vamos apresentar aqui algumas seqüências que selecionamos dos momentos que exibem a categorização pessoal.
No caso em análise, três participantes auto-selecionaram para intervir no debate. Vamos focar nossa atenção na maneira como o debatedor faz a sua intervenção e como essa intervenção é recebida pelo moderador.
Extrato 29: (S1/CD1) S1 144 145 146 147 148 149 150 151 152 JUL ´ ´
Brígida\ a sua palestra é interessante/ me provoca muito né\ então cada vez que você mostra ali uma bolinha eu tenho pequeninos comentários pra fazer\então por esse motivo as quatro dimensões do plano/né na verdade eu acho que aquilo foi um plano não foi um projeto\ porque um projeto ele é . executado ou executável\ eu acho que a questão que se coloca do ponto de vista da sociologia\ é a dimensão do formalismo da planificação de um desenho urbano/ e a dimensão da vida real concreta dos homens de carne e osso\(...)
A seqüência acima apresenta o início da intervenção de Julia que, antes de expor a pergunta avalia o desempenho da oradora, ao fazer um comentário retrospectivo (144) adjetivando a exposição como interessante (avalia a categoria de oradora) e o uso do verbo “provocar” situa a avaliação da exposição em relação a si mesma (“me provoca”). Em seguida, apresenta seu argumento em relação a uma parte da exposição ao selecionar o termo “projeto” e substituindo-o por “plano”. Ao agir dessa forma (avaliação da performance da oradora e a reformulação de um conceito apresentado), Julia intervém como “colega”, “expert”.
A intervenção de Julia continua ainda por duração dez minutos e vinte e sete segundos, o que é avaliado como não pertinente pela oradora, tanto em relação ao tempo quanto em relação ao conteúdo.
S2 244 245 246 247 JUL BRI ´
então tudo aquela toda a: eh eh esses PROBLEMAS urbanos/que nós vivemos\ eles não podem ser dissociados do problema estrutural a sociedade brasileira\ [*exata-exata-exatamente\]& mas é isso/[<que eu falei> ((gargalha))]
248 249 250 251 252 253 254 255 256 257 258 259 260 261 JUL BRI JUL ´ BRI JUL ´ 4s
então/ na verdade/[quando você afirma*] né/ que a arte] *começa a folhear os papéis ---*
[foi isso <que eu ◦quis dizer◦>] ((sorrindo))
&quando você afirma né/ que a arte quando você contrapõe\ você menciona a antecipação que a arte\ antecipa né/ aquilo que vai se projetar no futuro\ eu colocaria a seguinte questão pra nossa reflexão/em que medida a ciência apenas constata o que já aconteceu no passado\
é/
ah/ só uma última que eu não resisto\ que eu tenho que falar/é que quando o representante da ONU/ esteve aqui\ provocou/ assim as maiores dores de cotovelo\ orgulho ferido\ etc\ porque ele afirmou que o Brasil era a mistura de França\ Alemanha/ e Somália\ 262 263 264 265 266
BRI ´ bom/ você completou\ eu acho/ a minha apresentação\isso não foi uma PERGUNTA/ né\ porque eu acho exatamente isso\ que eu tentei apresentar/ foi isso\ que: é uma ilusão você acreditar que o projeto urbanístico\ arquitetônico\ vai corrigir distorções da sociedade global\(...)
Quanto ao conteúdo, por duas vezes a oradora explicita que o que está sendo falado por Julia já havia mencionado (246-249), sobrepondo em momentos de não completude da unidade do turno e finalizando a sobreposição com o riso, elementos esses que contribuem para a construção do sentido de desfiliação (Clayman, 1992).
As sobreposições feitas pela oradora tiveram um efeito perturbador em Julia (na tentativa de manter o turno). Vários elementos presentes durante a construção do turno são indicativos, como a fala truncada e alongamento do turno (246), os reinícios (248-249) e ao mesmo tempo o gesto de folhear os papéis e em seguida a referência que é feita ao discurso da oradora. Essa configuração contextual da construção do turno permite levantar a hipótese de que essas sobreposições podem ter antecipado a finalização do turno de Julia, uma vez que, imediatamente a essas sobreposições, Julia inicia o fechamento da intervenção colocando algumas questões. Finalização que não é imediatamente reconhecida pelos participantes (255), ocorrendo uma pausa de quatro segundos. Esses segundos exibem o desacordo de Brígida sobre a maneira que Júlia critica e não sobre o conteúdo.
Um outro elemento que fortalece a hipótese da antecipação do fim da intervenção é que a oradora inicia o seu turno para “responder” a Julia. Esta se auto- seleciona tomando o turno e, ao fazer um acréscimo (258-261), ressalta, explicitamente, que será a “última” intervenção, dizendo: “eu não resisto\ que eu tenho que falar/”(257). Ou seja, podemos construir o sentido de que mesmo sua “voz” tendo sido “finalizada” ela não resiste, precisa falar.
Quanto ao tempo, a oradora, ao recuperar o turno (262), antes de se referir à discussão do tópico selecionado pela debatedora, constrói um enunciado em que avalia a intervenção como não pertinente, quando a categoriza como um complemento à exposição e não como uma pergunta (provocação), ação esperada para um debatedor uma vez que se trata de um par adjacente.
Assim, nesse primeiro bloco do debate a “incompetência de membro” (em termos interacionais e argumentativos) foi aspecto considerado pelos participantes, sendo comentada de forma explícita (reconhecida por um dos interlocutores) a partir da forma de proceder considerada não pertinente. No segundo bloco, a conduta73 tanto da oradora quanto da participante, considerada pertinente pelos interlocutores. Exemplo 30 (S1/CD1) S1 340 341 342 343 344 345 346 347 348 S2 358 359 360 361 FAT FAT ´ ´ ´
eh eu acho muito interessante essa tese que você tá defendendo não é\ a tese de que você não pode criar uma cidade\ uma região ou alguma coisa\ prescindindo das relações sociais dominantes de um conjunto da sociedade\ eu acho que isso foi o discurso dominante da ocupação de toda a fronteira do Brasil\ acho que isso aparece com plena força no caso de Brasília\ mas não foi só aí né/ toda fronteira toda a ocupação da fronteira havia essa idéia de que você vai criar uma coisa nova/ que não vai\ foi justamente o contrario que aconteceu né\
(...)uma dimensão que não é só urbana a a dimensão rural né\ e uma população que não se incorpora nem se quer é pensada/ nessa política de sustentabilidade\ de segurança alimentar\ de agricultura do cinturão verde da cidade\ essa população que
73 Conduta está sendo usado aqui no sentido etnometodológico do termo (conduta metodológica do
362 363 S3 364 365 BRI ´
entra dentro também/ não são pensadas nesses termos\ como é que você reage a isso\
muito MUITO importante o que você falou/ acho que tem aspectos complementares que eu até queria falar\
Observamos que Fátima inicia sua intervenção (como Julia) avaliando a exposição e reconhecendo como tendo sido a apresentação de uma tese (linha 340), apresentando uma questão (350-363). Ao iniciar a formulação da questão, Fátima recupera uma idéia colocada por Brígida (342) apresentando seu posicionamento (343- 348) e finalizando a intervenção (363). Ao proceder dessa forma confirma a categoria da oradora; categoriza-se com “colega”, “expert” e confirma a pertinência das categorias selecionadas. O que é reconhecido pela oradora (364) ao categorizar a intervenção de Fátima com o adjetivo “importante”.
O último bloco do debate exibiu um processo imbricado de categorização dos interlocutores com a construção de categorias do saber. Ao reformular determinados tópicos usados durante o discurso do orador, os participantes também estavam dando atenção às categorias dos interlocutores, seja avaliando-as pelas ações dos membros (como vimos nos extratos acima) ou atribuindo-lhes categorias próprias74.
Dessa forma, o que parece ter se repetido durante o debate, assim como na exposição, foram ações do tipo operatórias (no sentido praxeológico) com as categorias, seja em atividades de identificação, predicação, configuração ou avaliação, resultantes de uma intersubjetividade construída de maneira local e situada.
Tal consideração nos leva a refletir sobre o aspecto instável das categorias em práticas interativas como essas que ora analisamos. Veremos em outros
74Deixaremos para analisar essa seqüência no próximo capítulo uma vez que terá por objeto a discussão
extratos que alguns membros tiveram suas categorias elevadas, outras rebaixadas, resultantes dessa relação entre contexto e categoria, reflexivamente constituída (Hester, 1994, p.235).