ENQUADRE TEÓRICO METODOLÓGICO
4. DESCRIÇÃO DAS CONDUTAS HUMANAS EM SITUAÇÕES NATURAIS
4.2 A A NÁLISE C ONVERSACIONAL : O D ISCURSO NA I NTERAÇÃO
4.2.2 Os turnos: uma construção local e interativa
Esse modelo instaura e, ao mesmo tempo, torna observável a ordem da interação. Esta, considerada como uma realização interna e situada dos participantes da atividade, que se estabelece sem acordo pré-estabelecido, e sim a partir da coordenação dos participantes, realiza-se a partir do processo de alternância de turnos.
Na ausência de determinação a priori da ordem e do momento da tomada de turno, os locutores interagem alternando regularmente seus turnos e, geralmente, não falando ao mesmo tempo. Isso mostra que eles sincronizam seus turnos minimizando silêncios e sobreposições entre um turno e outro. É isso que foi observado a partir das transcrições detalhadas e cuidadosas das interações registradas por Sacks, Schegloff & Jefferson (ibid.), permitindo a esses autores anunciar um conjunto de procedimentos utilizados pelos interlocutores durante a conversação, com o fim de organizar a tomada de turno de forma inteligível aos participantes.
A máquina de turnos é composta por dois componentes: um referente à
alocação do turno e outro correspondente à construção do turno. Tais componentes
oferecem aos participantes um problema de caráter fundamental (que estes deverão resolver) para o funcionamento da máquina de turno. Em síntese, Sacks, Schegloff & Jefferson (ibid.) descrevem o funcionamento dos turnos como uma máquina à serviço
da organização da interação. Tal modelo refere-se aos problemas de coordenação e sincronização dos participantes.
O problema da alocação do turno ou do ponto de transição39 revela-se
na atenção dos participantes na forma como será realizada a alternância do turno. Os participantes se orientam em diferentes técnicas de alocação do turno ao locutor seguinte. A conversação, nessa perspectiva, é considerada como um desenrolar temporal, localmente gerado pelos participantes, turno a turno. A noção de seqüencialidade é, portanto, central para tornar claro, a organização da atividade conversacional.
Sacks, Schegloff & Jefferson prevêem um conjunto ordenado de três opções sucessivas que se apresentam de forma recorrente, regrando a distribuição da voz. A primeira técnica é chamada de hetero-seleção. No ponto de transição possível, o locutor que tem o turno pode selecionar o locutor seguinte por diferentes procedimentos. Se ele não faz, um outro locutor poderá tomar o turno, o que constitui a segunda técnica chamada de auto-seleção. E, no caso de nenhuma dessas técnicas acontecer, há ainda uma terceira possibilidade que é quando ninguém se auto- seleciona, o locutor que tem o turno pode continuar a falar.
A alternância de turnos permite tornar possível detalhadamente o caráter ordenado e sincrônico das tomadas de turno, assim como dos direitos e obrigações ao turno. Essas técnicas de alternância de turno nos fazem pensar no seu funcionamento em outros contextos que não sejam da conversação ordinária, como por exemplo, nas interações profissionais e institucionais.
Sacks, Schegloff e Jefferson já remarcaram que, se a conversação se desenvolve sem que uma ordem pré-estabelecida preveja a distribuição do turno, isso não é o caso de outras interações, por exemplo no tribunal ou na escola, onde os direitos e obrigações à voz são previstas e distribuídas de forma freqüentemente assimétrica entre os participantes.
Dessa forma, pode-se se interrogar sobre o papel do contexto na instauração de uma forma particular de alternância de turnos. Isso não significa dizer que, as dimensões externas do contexto, como, por exemplo, os estatutos profissionais dos participantes determinem a priori essa forma, porém muito mais de observar como esses estatutos, se ele intervêm de forma pertinente, são mostrados publicamente e encarnados localmente nas formas seqüenciais correspondentes (Schegloff, 1991, Relieu & Brock, 1995, Widmer, 1990, Quéré, 1991 e Mondada, 1998a).
Essa assimetria entre os participantes é realizada localmente por suas formas de condução, como mostra notadamente Giolo Fele na análise de interações terapêuticas e médicas (1990, 1993, 1994a, 1994b). O trabalho terapêutico, como do juiz (de Fornel, 1987) ou do jornalista numa entrevista de televisão, consiste precisamente em suspender os comportamentos típicos da conversação: por exemplo, o par adjacente questão / resposta é seguido na conversação, mas não nesses contextos acima citados, por um terceiro turno que manifesta a recepção da resposta, seu interesse temático, sua avaliação por outros participantes. Outra forma se coloca em ação quando o terapeuta controla a localização dos turnos e os temas a desenvolver, introduzindo-os e sintetizando-os; ou bem onde as questões são colocadas unicamente pelo jornalista, desenvolvendo uma atitude de “neutralidade” diante de sua orientação durante a entrevista.
As interações no trabalho são conversações que colocam em jogo um conjunto de modos de identificação e de condutas correspondentes particulares, que apresentam trajetórias específicas como exemplificam Gülich & Mondada (2001).
“comme c’est le cas à l’école, où par exemple la paire adjacente A: “quelle heure est il Denise?”/B: “deux heures et demie” sera suivre par un troisième tour évaluatif (“très bien Denise”) et non pas, comme dans la conversation ordinaire, par un remerciement “merci Denise” (p. 209).
Como se pode observar a partir desse exemplo40, os contextos institucionais são categorizados, mantidos, instaurados, configurados pelas formas particulares de organização interacional que se coloca em funcionamento (Drew & Heritage, 1992).
A consideração de que o turno de voz é uma realização coletiva dos participantes tem implicações fundamentais sobre a forma como se analisa o seu desenvolvimento progressivo, mostrando as formas particulares de colaboração que podem aparecer e permite mostrar também, de forma mais geral, como as fontes lingüísticas são co-elaboradas pelos participantes. Ou seja, o problema do ponto de transição gera um outro, que é o da construção das unidades do turno.
Ao fazer uma análise do turno para identificar os pontos de transição possíveis, os interlocutores se orientam para a unidade de construção do turno (turn
construtional unit). As unidades do turno não são pré-definidas; e sim construídas
pelos participantes a partir da seqüência da interação.
40 Essa estrutura tripartida – pergunta, resposta, avaliação – foi reconhecida e analisada também no
quadro de análise do discurso, na obra clássica de Sinclair & Coulthard (1975), onde a observação das interações escolares desembocam sobre a formulação de um modelo de funcionamento geral.
A questão das unidades de turno na conversação tem levantado inúmeras discussões. Elas convergem de um lado pelos debates apresentados em lingüística, sobre as unidades específicas do oral; ou dos debates da análise conversacional, concernente ao estatuto da unidade do turno e a questão das unidades mínimas da conversação (Berthoud & Mondada, 2000).
Dentro dessa última perspectiva, Selting (1998) propõe a noção de frase potencial, caracterizada sintática, prosódica e interacionalmente como uma unidade émica, isto é, uma unidade orientada aos próprios locutores. É dentro dessa orientação que as unidades de construção de turnos se tornam observáveis pelos participantes nas suas ações de coordenação, quer seja pela segmentação do turno com o uso de continuadores e avaliadores, ou pela localização das sobreposições, assim como a tomada do turno ao usar um complemento colaborativo do turno (Mondada, 2000a).
Interessante explicitar que não apenas em atividades vocais, mas também em atividades gestuais e de movimento. Relieu (1999) mostra como uma perturbação de percurso de duas pessoas num corredor leva a uma perturbação interior do turno, numa sincronização bem precisa entre a atividade de andar e de falar. O que nos faz considerar que a projeção da completude da unidade será realizada não somente em relação aos aspectos sintáticos, prosódicos e pragmáticos, mas também em relação aos gestos e ao olhar (Goodwin, 1980).
Em síntese, o que essas pesquisas mostram é que os participantes se orientam em torno das unidades na organização local e endógena do turno e que eles reconhecem essa orientação quando usam fontes diversas, desde a gramática até os gestos. Sobre essa base, duas constatações podem ser colocadas. De um lado, as unidades são definidas pela perspectiva dos participantes (e não pelo analista). Elas
emergem temporalmente dentro do desenvolvimento do turno, na seqüencialidade instaurada entre os turnos e os fins práticos da conversação.
De outro lado, essa definição que emerge das unidades coloca a questão da forma dessas fontes lingüísticas como elaboradas na interação, podendo-se mesmo falar numa gramática por interação (Mondada, 1998b, 1999a): a gramática como um conjunto de fontes plasticamente forjadas na própria atividade que lhes explora, podendo se estabelecer, se normatizar, se gramaticalizar a partir dos usos repetidos e de seu tratamento pelos participantes. De certa forma, a análise dos turnos na conversação nos convida a uma transformação radical da nossa forma de conceber linguagem.
O turno nunca é construído individualmente. Ele incorpora constantemente a conduta de seus ouvintes, que contribuem a lhe configurar de forma reflexiva. Os outros participantes podem, aliás, adotar posturas diversas, como de locutor sucessivo esperando o seu turno, de candidato locutor posicionado para tomar seu turno ou de ouvinte, que não manifesta o desejo de tomada da voz, mas apresentando sua compreensão e mesmo seu engajamento na atividade de forma mais ou menos demonstrativa, mais ou menos filiativa, etc. As posturas possíveis são múltiplas e contribuem todas para configurar o turno de forma específica. Isso se constitui no segundo componente do sistema de turnos.
Dentro dessa ótica de co-construção dos turnos, a regra de “paired actions” resume-se em: o interlocutor que fala primeiro, ao escolher a sua forma de endereçamento poderá também escolher a forma de endereçamento do próximo
interlocutor a falar. É a partir dessa regra que o conceito de pares adjacentes41 emerge. Nas palavras de Schegloff & Sacks (1973),
“Briefly, then, adjacency pairs consist of sequences which properly have the following features: (1) two utterance length, (2) adjacent positioning of component utterances, (3) different speakers producing each utterance (…) (4) relative ordering of parts (i.e. first pair parts precede second pair parts) and (5) discriminative relations (i.e. the pair type of which a first pair is a member is relevant to the selection among second pair parts)” (p. 295).
Tal conceito implica que assim que o primeiro locutor termina a produção da primeira parte do turno, ele pára, e o segundo locutor produz a segunda parte, manifestando assim que ele compreendeu a primeira parte e que deseja continuar. A ação realizada pelo primeiro enunciado projeta uma ação apropriada da parte do destinatário do enunciado. A resposta desse último pode ser analisada para determinar se a ação esperada foi realizada ou se ela foi evitada. Isso quer dizer que existe uma ligação de dependência condicional entre as duas partes, de tal modo que, tendo sido produzida a primeira parte, a segunda é esperada (Schegloff, 1968).
Pares adjacentes resultam da regra de dependência seqüencial, que ao ser dita a primeira parte, a segunda é esperada. A consideração de que essa segunda parte pode apresentar trajetórias específicas, dependendo do contexto onde se desenvolve a conversação, é que Sacks (1995) propôs a noção de preferência. Segundo o tipo de ação realizada no turno precedente, certas respostas são preferidas à outras.
O exame de dados conversacionais (Levinson, 1983; Pomerantz, 1978; Schegloff, 1988) mostra que as respostas do tipo “sim” são muito mais freqüentes que as respostas do tipo “não”, mesmo em caso de desacordo (que apresenta a forma “sim,
mas ...”). Se a questão é formulada de forma tal que ela requer preferencialmente uma resposta do tipo “sim” ou do tipo “não”, a resposta no turno seguinte tenderá a conservar essa orientação preferencial e a se orientar para uma escolha do mesmo tipo.
Conforme salientam Gülich & Mondada (2001), o termo preferencial não está sendo entendido no sentido psicológico, mas num sentido estrutural: ele comporta uma série de possibilidades, em que a escolha preferencial é não-marcada, exibindo-se geralmente de forma breve e simples. A escolha não-preferencial é marcada, podendo se manifestar por hesitações, pausas, retardos da segunda parte, acompanhada pelo anúncio de razões ou desculpas, como num caso de desacordo como citado no parágrafo anterior.
Isso nos faz pensar na observação que Sacks (1995) faz em relação aos pares adjacentes como sendo classes de tipos de declarações: saudação-saudação, pergunta-resposta, etc. Ou seja, o que qualifica o par adjacente não é a sua forma lingüística, mas a localização e o pareamento42 dentro da conversação. Por isso que o par adjacente se constituiu num elemento central da estrutura mais geral da organização conversacional.
E é considerando esse aspecto que vemos o par adjacente como um dos fundamentos da coerência da fala em interação, exemplificando o funcionamento da ação social. É assim que a conversação permite pensar a questão da ordem social em ligação estreita com a organização da interação (Fornel, Ogien & Quere, 2001).
As pesquisas e descobertas da Análise Conversacional incorporam uma fusão inovadora de abordagens sociológicas da natureza da ação e interação social como perspectivas analíticas associadas ao pragmatismo lingüístico. Os detalhes e
resultados cumulativos dessas descobertas estão criando novas oportunidades de estudos precisamente enfocados no funcionamento de instituições sociais específicas (Drew & Heritage, 1992).
Como um campo da Sociologia, interessado na organização da interação social em contextos cotidianos e em ambientes institucionais mais especializados, a análise conversacional teve sua origem nas pesquisas de Harvey Sacks e de seus colaboradores, Emmanuel Schegloff e Gail Jefferson.
Tendo começado com palestras de Sacks (1964-1972), a análise conversacional cresceu até se transformar num campo de pesquisa que tem exercido um impacto significativo sobre outras disciplinas como a antropologia, lingüística, psicologia social e ciência cognitiva.
A análise conversacional se desenvolveu durante quinze anos como prolongamento da corrente sociológica etnometodológica. A indicação da etnometodologia de que o que se deve estudar são os processos interativos, especialmente os que se referem à fala e à conversação, uma vez que é a partir destes últimos que os atores criam relatos e o senso de um mundo exterior como algo factual, foi um dos eixos norteadores nos estudos desenvolvidos por Sacks.
Antes dos anos sessenta, o que era escrito sobre a conversação era mais do ponto de vista normativo: como se deve falar mais do que como as pessoas falam. A idéia era de que a conversação ordinária era caótica e desordenada. Com os estudos de Sacks essa idéia começa a ser alterada. Com a publicação de “rules of conversational sequence” em 1964, Sacks marca a emergência da Análise Conversacional como disciplina (Schegloff, 1992).
Essa obra, num nível mais geral demonstra o que Have (1998) considera ser a estratégia analítica básica da Análise Conversacional: a partir da consideração do que as pessoas estão fazendo, isto é, dizendo, não dizendo, dizendo alguma coisa de uma maneira particular, e em um momento particular, etc., tenta encontrar o tipo de problema para o qual isso que está fazendo pode ser a solução.
Como exemplos concretos da importância da obra de Harvey Sacks estão os inúmeros estudos realizados em espaços institucionais – “Talk at Work” – com um foco específico de como a conversação se organiza em contextos institucionais dos mais variados.