1 INTRODUÇÃO
1.2 Contextualizando a problemática da pesquisa:
A Ilha do Mel é tema de investigação científica de pesquisadores nas diferentes áreas3 do conhecimento, com produções acadêmicas4 de teses e dissertações desde 1954, sem considerar uma gama de trabalhos de relevância em periódicos e outros meios de circulação, sobretudo com ênfase ao estudo de temas ambientais e de potencial turístico mercadológico.
No entanto, o debate acadêmico e a atual legislação ambiental, demonstram vulnerabilidade no entendimento da resistência e organização dos atores sociais na Ilha, principalmente o direito à informação, o acesso aos recursos naturais e aos bens e serviços comuns da comunidade. Esta possui a representação de um lugar
3 Os trabalhos stricto sensu voltam-se as áreas da oceanografia, biologia marinha, turismo, antropologia social, ecologia, engenharia florestal, geografia, aquicultura e engenharia da pesca.
4 A produção acadêmica das teses e dissertações sobre a Ilha está relacionada a temas diversos como a gestão pública e ambiental, o estudo da vegetação, a exploração dos recursos naturais, o saneamento básico, a problemática do lixo, a implantação e uso da energia elétrica, a pesca artesanal e em escala industrial, o processo de erosão de certas áreas, a economia do turismo local, entre muitos outros.
paradisíaco, no imaginário social, por considerá-la como um dos referenciais turísticos mais importantes do Paraná, pela sua paisagem, relevo, ecossistema privilegiado, no contexto do bioma da Mata Atlântica, e de sua proximidade do continente5.
Entretanto, a referência às comunidades locais é apresentada na literatura como caracterizações gerais dos vilarejos e relatos a ‘certos agrupamentos humanos que não chegam a compor uma vila’. Há ainda depoimentos imprecisos sobre ‘surtos de insetos, no passado, afastando comunidades tradicionais de pescadores artesanais da costa norte para outros lugares do Litoral’; ou, ainda, certos equívocos indicando que a ‘costa oeste tem a existência de um grupo de pescadores, mas estes não possuem nenhum contato com os demais moradores da Ilha’.
Ao considerarmos a predominância da questão ambiental no desenvolvimento de políticas públicas voltadas aos interesses econômicos sobre as identidades e a cultura da população tradicional na Ilha, coube aqui a possibilidade de construção de uma síntese capaz de explicar as questões correlatas de partida desse estudo: de que forma o impacto do discurso ambiental sobre os grupos tradicionais na Ilha do Mel, sobrepõe a práxis das religiosidades populares em suas manifestações, crenças e no modo de vida moderno das diferentes identidades, como espaço de resistência e mobilização? Será que o discurso ambiental sofreu deslocamento semântico e foi incorporado nas práticas e nos discursos religiosos dos atores na Ilha do Mel?
Faz-se mister esclarecer que no campo religioso, há uma importante configuração a ser desvelada, ausente na literatura ambientalista, em pouco considerar análise socioantropológica na compreensão das subjetividades e da complexidade sociocultural da população tradicional.
Enrique Leff (2009) ao analisar a dimensão da ecologia, do capital e da cultura na perspectiva da territorialização ambiental, acentua que, na atualidade, a organização de grupos e povos tradicionais latino-americanos está reclamando direitos étnicos em relação à autogestão dos seus meios de existência e pela
5 A Ilha do Mel foi sempre local desejado por turistas, desde o antigo costume no início do século 20, das famílias ricas curitibanas de possuírem propriedades nas proximidades da Vila de Fortaleza, utilizada para o lazer e o descanso, principalmente em períodos de inverno, quando buscavam se ausentar da vida citadina e fugir do risco de doenças como o tifo e a malária. Na atualidade, é idealizada como lugar rústico, de belas paisagens, pouco habitado durante o ano, quase sem policiamento; com dificuldades de acesso, porém de uma magia compensatória.
reapropriação coletiva dos seus territórios, buscando novos significados aos recursos naturais, criando órgãos de representação própria para resolver os problemas ambientais. Assim, a problemática ambiental dá um novo significado às lutas sociais pela justa distribuição da riqueza, na restituição das terras e do processo produtivo com melhores condições de vida. Entende o autor, esta nova ótica do conceito de natureza faz com que não a percebamos somente como uma visão estética da paisagem, dos interesses econômicos sobre os recursos naturais e de tudo o que representa, mas também como um patrimônio histórico e cultural dos povos originários6, comunidades e grupos tradicionais.
Pensar tal lógica na Ilha também é repensar como que certas práticas de organização e mobilização popular, e a irrupção das mesmas - entendidas como ações de resistência e ruptura - questionam os paradigmas tradicionais da sociologia contemporânea. Ao analisarmos os movimentos a partir de tipologias clássicas da ação dos atores sociais, identifica-se que há ausências não contempladas ou novas relações interdisciplinares a serem construídas, sendo que o campo religioso torna-se uma das abordagens de leitura do real em sua complexidade.
Ao considerarmos, que um dos pontos fulcrais é a reapropriação social da natureza, processo pelo qual confluem interesses de vários atores sociais, historicamente, na Ilha, entendemos que a religiosidade popular não saiu de cena, muito menos em relação a sua população tradicional de pescadores artesanais. No entanto, aquilo que perpassa o domínio do discurso ambiental em sua forma de articulação e organização, não só pode-se considerar reducionista e sem expressão as práxis religiosas populares dos grupos tradicionais, assim como a identidade dos mesmos no território cultural.
Em resumo, a problemática da pesquisa parte da incidência dos discursos ambientais da produção acadêmica sobre a Ilha do Mel, como ponto de partida para
6 Nesta pesquisa, utilizo o termo “povos originários” no lugar de “índio” ou “povos indígenas”, por entender que este último, trata-se de um rótulo homogeneizador, na ótica do colonizador, ao não considerar, historicamente, que os povos originários já tinham desenvolvido sua cultura e tradições no Brasil, anterior à conquista ibérica colonial, em uma perspectiva latino-americana. Estes, por sua vez, compartilham experiências, conhecimento, estabelecem trocas comunais seculares de saberes e práticas de manejo, na produção de técnicas e tecnologias próprias. Reverenciam as forças da natureza, por meio das suas crenças, bem como possuem um modo de vida comunitário, em que resistem e se organizam pelos direitos de seus povos.
o entendimento da complexidade do campo religioso, considerando-se os reflexos da globalização e da modernidade, bem como das mudanças religiosas, em duas proposições distintas: a racionalidade econômica produtiva sobre o ambiente e uma racionalidade social da natureza.
As lutas simbólicas de poderes religiosos e de gestão pública ambiental, bem como o campo de disputas e de interesses que envolvem a relação dos fieis, das lideranças religiosas e da população tradicional com as autoridades, emergem conflitos identitários, que sobrepõem os discursos ambientais, no qual as práxis religiosas são percebidas em ausências de possíveis emergências de resistência e mobilização popular. Entender a complexidade dos discursos que incidem sobre as crenças e práticas, o sentido do fenômeno religioso para os nativos e, se estes sofreram deslocamento semântico nas práticas religiosas ou discursivas, é por esta trilha que percorre o trabalho.
Prioriza-se ao longo da pesquisa a apresentação de pressupostos teóricos e de análise para a discussão das questões centrais de aproximação e compreensão desta realidade. Neste ponto, passa-se a indicar as hipóteses norteadoras da pesquisa:
I - A produção acadêmica ambiental sobre a Ilha do Mel sofreu sentido semântico enquanto sobreposições de novos discursos e práticas religiosas sobre a identidade dos grupos tradicionais em suas manifestações, crenças e no modo de vida moderno.
Na Ilha do Mel, os discursos ambientais incidem sobre as crenças religiosas, entre a racionalidade econômica produtiva sobre o ambiente e a reapropriação social da natureza sobre os ecossistemas de conhecimentos tradicionais e modernos, construída, historicamente, pelas populações tradicionais.
II - Na Ilha do Mel, há uma diversidade sociocultural polissêmica de crenças e práxis religiosas da população tradicional que transita na fronteira entre o discurso religioso institucionalizado e o sentido do fenômeno religioso entre os fieis, como um dos espaços de resistência, mobilização e possível mudança da realidade social/local.
Diante do exposto, seguimos com o detalhamento dessa problemática.
Partimos do pressuposto que a diversidade cultural de práticas e saberes da
população tradicional possuem, em seu germe, um pluralismo religioso numa dimensão complexa de múltiplas abordagens. Na Ilha, são várias as expressões e manifestações de crenças e práticas de religiosidade popular latentes nas comunidades, conforme indicação abaixo:
1a) O catolicismo popular. De modo geral, a permanência mais efetiva na Ilha do Mel é representada na tradição católica de afirmação institucional de sua doutrina, dos rituais, festas e expressões cotidianas de legitimação do discurso e da ordem eclesiástica, por meio de suas lideranças pastorais; no litoral paranaense, predomina a hegemonia católica das suas expressões e manifestações religiosas no cotidiano do povo, no imaginário popular. Nesse sentido, a diocese de Paranaguá reafirma sua legitimação enquanto projeto histórico de colonização e dominação portuguesa7 e do projeto missionário contemporâneo de evangelização e conversão das populações tradicionais8, de grupos citadinos e rurais do Litoral.
A permanência da institucionalização desse tipo de catolicismo na Região e na Ilha assume, na devoção popular, a crença doutrinária e dogmática. São múltiplas as expressões religiosas: do rito da eucaristia às festas de santos padroeiros nas atenderam aos interesses de fortalecimento politíco-econômico e a consolidação do projeto mercantilista de conquista, exploração e domínio, ao desestruturar e aniquilar o sistema político, econômico, sociocultural, moral e religioso dos povos originários. Isto impunha também a implantação, nas áreas coloniais, de “regime de trabalho necessariamente compulsórios, semi-servis ou propriamente escravistas” (NOVAIS, 1990, p. 79). Tal interesse mercantilista evidencia também a articulação entre o “sentido comercial da ocupação, a necessidade de estabelecer o substrato europeu na Colônia, a organização do trabalho, a concentração da propriedade da terra e a determinação estatal” (FERLINI, 1988, p. 24), enquanto diretrizes da expansão e da estruturação do sistema colonial. No caso paranaense, a estrutura de poder eclesiástico se manifesta de forma mais efetiva a partir do século 18, devido ao crescimento populacional de Paranaguá e Curitiba, desde a procura de ouro na Região, somada as dificuldades de locomoção dada às grandes distâncias da sede da diocese de São Paulo, entre outros. Fedalto (2007, p. 56) destaca a criação de mais três paróquias, além de Paranaguá: “(...) Nossa Senhora da Luz, em Curitiba; São José, em São José dos Pinhais; Nossa Senhora do Pilar, em Antonina, além das capelas de Guaratuba, Tamanduá, Morretes e Araucária”. Devido às distâncias e sua jurisdição eclesiástica, os bispos tinham dificuldades de estarem presentes em todo o território de suas dioceses. Para suprir esta deficiência, foram criadas as Vigárias da Vara e as Vigárias Gerais Forenses. Estas concentravam poder da autoridade religiosa para agir em nome do bispo nas faculdades que lhe eram concedidas. Era o exercício do poder jurídico e eclesiástico. Recebiam faculdades especiais dos bispos para prestar assistência espiritual e jurisdicional nas respectivas regiões. Somente em 1962 que Paranaguá fundará diocese desmembrada de Curitiba com permanências doutrinárias do catolicismo colonial ainda evidente na região.
8 As ilhas do litoral paranaense tiveram um processo intenso de evangelização católica do projeto
“Missões Populares”, pelos padres redentoristas, a partir da sua presença religiosa nas paróquias do litoral e, do Santuário do Rocio, em Paranaguá.
capelas e paróquias; dos grupos de oração nas casas à caridade na visita aos doentes e na distribuição de donativos; da catequese à organização de pastorais voltadas à juventude e aos portadores da síndrome de imunodeficiência adquirida (AIDS); esta última, particularmente no município de Paranaguá.
1b) A influência de religiosos e articuladores das CEB’s identificados com a teologia da libertação (TdL) na Ilha do Mel. A identificação de lideranças religiosas com os quadros de uma igreja libertadora não é exclusiva aos agentes religiosos na Ilha do Mel. Na América Latina, traduz uma atuação pastoral histórica, desde o final dos anos 1960, sustentada por uma reflexão teológica cristã de alcance social e societária para além dos quadros privados da Igreja Católica. Voltava-se, a uma reflexão crítica sobre a práxis da libertação questionando o tradicionalismo da Igreja que excluía e desconhecia a exploração dos pobres.
Ao tentar construir uma articulação complexa do seu saber com a elaboração teológica e os resultados analíticos das ciências sociais, a TdL teve sua relevância em compreender os fatores externos que estão ligados à própria produção do saber teológico, sofrendo represálias de setores conservadores do Estado, da Igreja e de outros segmentos sociais, acusando-se de uma demasiada politização e ideologização da fé.
No entanto, na conjuntura da década de 1970 a meados dos anos 1990, a prática política desse tipo de igreja popular se torna uma constante entre as lideranças, seja nos grupos de família, nos encontros de juventude, nas reuniões da associação de moradores, ou qualquer outra forma de organização religiosa. Os processos de discussão dos problemas não são muito diferentes da estrutura institucional dos partidos políticos e dos sindicatos. A pauta das reuniões mensais ou das assembleias é apresentada para o debate. Expositores são escolhidos sendo responsáveis para dar esclarecimento sobre o assunto à comunidade. Discussões, intrigas, manipulações, articulações, oratórias, são comuns entre os membros.
As reuniões são permanentes e de acordo com o contexto sociopolítico da época e os interesses da comunidade é aprovado apoio ou não a candidatos dos sindicatos, das associações de moradores, dos partidos políticos. Por meio da conscientização da comunidade para a organização popular, enquanto sujeitos históricos inseridos na realidade, voltados para a transformação da mesma, os indivíduos passam a reconhecer-se nas crenças, nas celebrações da sua comunidade, nas práticas políticas do seu bairro e vê a libertação como processo
histórico.
Tais ideais são comungados parcialmente na Ilha do Mel pelos agentes, particularmente pelo padre, o bispo emérito e uma ou outra liderança, em algumas pastorais, mas em outro contexto. Na atualidade, percebe-se que a teologia da libertação que era objeto de discussão nas universidades, nos sindicatos e assunto de conversa informal nas famílias, nos bares e nas igrejas, presencia um processo de desmobilização e indiferença em relação aos seus quadros, aos seus expoentes, as suas concepções em relação à complexidade das suas experiências comunitárias de base.
Na Ilha, de um lado, vive-se a nostalgia de um tempo ido na experiência significativa do padre local e a persistência nas experiências e lutas políticas de um passado pessoal com roupagem urbana e, de outro, a dificuldade dos agentes compreenderem novos objetos e temas de interesse teológico, na percepção de elementos culturais e de questões relacionadas à ecologia e aos direitos humanos. A insistência clerical na prerrogativa dos elementos sócioestruturais de análise e o desejo de inserção dos leigos na realidade social da Ilha, evidencia-se um limiar entre ausências e permanências das práxis religiosas, na vida dos atores, na busca de sentido.
2) A presença evangélica e neopentecostal. Na Ilha há presença de igrejas evangélicas de cunho neopentecostal e se situam no debate inter-religioso9. São três as denominações religiosas: Igreja Evangélica Assembleia de Deus, Igreja Pentecostal Deus é Amor, Igreja Bola de Neve e a presença de grupos religiosos de crentes pertencentes à Igreja da Congregação Cristã no Brasil, sem sede própria10.
Note-se que a ideia de conversão do indivíduo para as religiões pós-modernas é uma discussão complexa, pois ao pregar e agir fora do sistema de verdades eternas volta-se às necessidades imediatas ou provisórias, ao contrário
9 Cabe aqui ressaltar o que diferencia uma religião da outra não é tão somente a sua forma confessional ou o conjunto de doutrinas de base filosóficas e teológicas que a define como cristã ou não, mas também pelo fato de convivermos com um pluralismo religioso na diversidade: as práticas ortodoxas, a igreja de libertação, as crenças e saberes religiosos de povos tradicionais, entre outras.
O sentido de pertencimento pode dar-se como parte integrante da cultura do indivíduo ou pode se esgotar na dimensão do seu território, nos limites da sua comunidade étnica de identidade cultural.
Os agentes religiosos buscam nos movimentos religiosos populares, enquanto comunidades de fé do cristão militante, unidade de apoio na luta para os movimentos populares gerados pelas minorias dominadas.
10 A Congregação Cristã no Brasil já teve templo religioso na Ilha do Mel, nas Vilas de Encantadas e Ponta Oeste.
das religiões tradicionais que expressam grandes princípios dogmáticos e doutrinários universais. No entanto, o impacto trazido pelos meios de comunicação televisiva, midiática, entre outros, faz com que, em tempo real, os processos de evangelizar - com grande capital econômico e de grande alcance imediato - tornam-se uma das máximas mais usuais e eficazes na atualidade, com reflexos na Ilha.
Católicos de todas as tendências e evangélicos em geral, sejam de confissão batista, quadrangular, assembleísta, do poder de Deus, cristã no Brasil, entre muitas outras, constroem novos símbolos, anúncios proféticos, promessas efetivas e linguagens em comum, em que a necessidade individual é transformada pela ação de Deus e intermediada pelo agente religioso, na promessa de vida próspera e de salvação. Na atualidade, a mercantilizacão da fé e das almas torna-se interesse territorial de Igrejas, e de seus líderes religiosos, padres e pastores. Os reflexos na Ilha, desse processo, ocorrem na tradução dos valores da sociedade capitalista no campo religioso como perspectiva de felicidade pessoal e de dádiva maior. A noção do "eu" substitui o "nós", na concepção do fenômeno religioso e se revela nas aspirações pessoais de salvação individual de um Deus exclusivo ou privado.
3) A presença do sincretismo religioso popular. Na Ilha, ocorrem expressões sincréticas no espaço coletivo e de pequenos grupos em que a proliferação do discurso instituído da fé e das igrejas cristãs se apresenta; há também outras manifestações religiosas minoritárias ou ignoradas pela hegemonia do discurso, na ideia de consenso. São comunidades e grupos tradicionais do litoral paranaense que de modo sincrético, possuem a íntima relação com a natureza. Os contos, as lendas, os mitos e as narrativas encontradas na literatura ou ainda por desvelar, indicam reflexos de outra dimensão humana nas experiências dos povos originários locais e de pescadores artesanais, na sua relação com o mar, a lua, os ventos, as estrelas, os animais, os peixes, os rios, a terra, entre outros elementos. As formas de sociabilidade e de crença assumem outra dimensão: são novos signos e significados, narrativas, percepções, crenças em uma visão cósmica e real que se apresenta no cotidiano.
Nesse sentido, pouco espaço há para o diferente, para o outro, entendido aqui no conceito híbrido em torno do pescador artesanal. Mas há resistências, experiências, valores, costumes que se apresentam no cotidiano popular desses grupos tradicionais, adeptos ou não de confissões religiosas, que são desafios para compreender a lógica das suas relações e expressões, como a importância do
território para o nativo.
Cabe aqui salientar, que a população tradicional de pescadores artesanais tem identidade com o lugar em que vivem, considerando-se o modelo de uso do solo e dos recursos naturais voltados à subsistência e da tecnologia de baixo impacto, com fraca articulação com o mercado. No entanto, a manutenção das tradições dos saberes e conhecimentos adquiridos de modo sustentável pelos antepassados e das suas crenças religiosas, foram se perdendo aos poucos. No território em que vivem, não possuem título de propriedade da terra, mas tão somente autorização do local de moradia como uma parcela territorial individual, em que as demais áreas são entendidas de uso comunitário, regulamentado pela legislação em vigor.
Tal situação tem ocorrido conflitos mediante a presença de organismos não governamentais e entidades públicas que administram com inclinação à destruição dos recursos naturais, como a pesca predatória, ou com a interpretação do mito de uma natureza intangível, não considerando a alteridade dos sujeitos. Por vezes, o olhar do pesquisador tem sempre a presunção de observar o que é necessário ser
Tal situação tem ocorrido conflitos mediante a presença de organismos não governamentais e entidades públicas que administram com inclinação à destruição dos recursos naturais, como a pesca predatória, ou com a interpretação do mito de uma natureza intangível, não considerando a alteridade dos sujeitos. Por vezes, o olhar do pesquisador tem sempre a presunção de observar o que é necessário ser