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2 DA ILHA DO MEL: TEMPORALIDADES E MEMÓRIA

2.1 Ilha do Mel: revisitando o lugar da narrativa

As narrativas sobre o litoral paranaense nas imediações da Ilha são variadas.

A suposição de Fernandes (1946) sobre a ocupação de Guaratuba pelos europeus e o povoamento da Praia de Leste (Pontal do Paraná) é justificada pela ausência de fontes históricas. Ideólogo convicto das concepções positivistas destaca a presença de negros como “puramente acidental, pois de elementos de cor, notícias há apenas de alguns negros escravos, vindos para o estabelecimento agrícola de Caiobá e para um ou dois moinhos de cana existentes na reentrância da baía de Guaratuba”

(FERNANDES, 1946, p. 135). Segundo o autor, a Praia de Leste tinha somente uma estrada que ligava as cidades de Paranaguá à Guaratuba, em que foram se desenvolvendo, no percurso, pequenos núcleos ou povoados de pescadores e de imigrantes alemães que mantinham comércio. Dessa maneira, poucos povoados surgidos na costa paranaense como os de Pontal do Sul, Matinhos e Caiobá, têm no mar a principal forma de comunicação, traçando rotas marítimas em suas vizinhanças.

Nas fontes há comentários sobre a insegurança dos navegantes no transporte de mercadorias pelas embarcações, devido às fortes tempestades no trajeto de Paranaguá à Guaratuba. A viagem de quase 3 horas de canoa pelo canal de Paranaguá à Pontal do Sul, passava a ter a opção pela estrada, mas nem por isso em menor tempo. Há relatos sobre viagens em carroças por mais de 10 horas seguidas da Praia de Leste em direção à Guaratuba. Há também notícias, em Caiobá, de uma hospedaria “donde partiam as diligências, simples carroças cobertas, tiradas a princípio por bois e depois por cavalos” (FERNANDES, 1946, p. 138) e de casas de pescadores dispondo de canoas para o transporte de mercadorias.

A representação de uma Ilha do Mel ou das ilhas do litoral paranaense como comunidades isoladas e homogêneas, sem conflitos e em estágio de barbárie comparado a potencialidade das cidades no continente, em virtude do progresso e da industrialização na modernidade, é predominante na literatura. Estende-se a essa tendência não somente as narrativas positivistas de época, mas a representação implícita no imaginário social contemporâneo de como o meio físico, na perspectiva das atividades de lazer e turismo, revigora o senso comum na compreensão do seu

território e das comunidades e grupos tradicionais que lá vivem.

A representação onírica da Ilha é também percebida nos periódicos de circulação comercial. David (1985), ao escrever artigo para uma revista de ecologia, destaca:

Sonha-se com uma Ilha, selvagem e escondida, perdida no meio do mar imenso, à vista só a linha do horizonte. Essa ilha da fantasia a gente nunca encontra. Em compensação há uma que não tem nada de fantasia: é concretíssima e chamada Ilha do Mel. Tem a forma de baleia gigante, banhada por vastas porções do oceano por todos os lados, mas cercada de ondas mansas e doces brisas. Onde? Na costa do Paraná (DAVID, 1985, p. 61).

As descrições são frequentes quando se reduz à paisagem natural a explicação sobre a complexidade de uma ilha, restaurando-se a ideia de um paraíso intocável e inerte. A natureza é percebida como um domínio imanente, passivo, traduzida na generosidade de uma mãe pródiga relacionada ao conceito terra, ou ao conceito antigo de mãe-terra, ao englobar plantas, animais, homens e mulheres. É a revelação de uma estrutura hierárquica de elementos que prioriza em Deus o ato criador do céu, da terra e de todos os seus elementos: o mar, as plantas, os animais e o homem, como se apresenta no Gênesis (1; 1-31), representada pela narrativa paradisíaca atual abaixo:

[...] é difícil, para quem vive nos centros urbanos, imaginar um lugar sem carros, livre da poluição, onde se economiza luz e onde o indispensável para uma pessoa seja limitado a um chinelo, roupa de banho e uma simples lanterna. Na Ilha do Mel é assim. [...] A tranquilidade do local, em perfeita harmonia com o colorido da paisagem, o azul do oceano, o verde das matas e montanhas, o rosa das bromélias, cria o clima para se meditar: a Ilha é mágica. [...] Não é lugar para ansiedade. [...] Em seus morros e planícies, os caminhos dão acesso a locais da observação que permite avistar outras ilhas, como das Peças, onde se vêem golfinhos por todos os lados (ZUBEN, 1998, p. 53-54).

Esta visão turística de uma ilha como sinônimo de paraíso, quase desabitada ou representada por uma população socioculturalmente exótica e indefinida em seu território, de lugar primitivo e rústico, com paisagem vislumbrante, flora e fauna abundante, onde os impactos e conflitos ambientais são silenciados, é traduzido em lugar ameno, simples refúgio dos grandes centros urbanos e do ritmo frenético do trabalho.

A Ilha também é retratada na poesia intitulada Ilha do Mel em que o encanto à natureza e suas criaturas teriam sido originadas para lazer e desfrute dos homens.

Traduz esquecimento dos sujeitos no esplendor de um território que se basta, não havendo interação com os grupos tradicionais, mas tornando implícito que os homens ao seguirem à natureza estarão construindo sua própria história. É a noção de uma natureza amorfa, que exclui culturalmente o indivíduo e manifesta sentimentos despersonalizados para maravilhar-se e viver bem em uma ilha:

Sinto, ouço, quero estar

Perto e longe, montes rudes (BONAMETTI, 1990, p. 19).

[...]

As narrativas ocultam a identidade dos ilhéus em relação às sociedades organizadas no continente. Tal preocupação conceitual na sociologia brasileira foi assumida por Gilberto Freyre (1962), em uma conferência proferida na cidade de Porto Alegre, em 1940, no qual escreve um ensaio sobre os conceitos de Ilha e Continente, resgatando fatos da história colonial brasileira, por analogia às categorias geográficas, no intuito de refletir sobre a construção de uma identidade nacional e a de núcleos de cultura. Segundo o autor, era necessária para a formação do Brasil14 a presença tanto dos imigrantes europeus que fixaram povoamento nos

14 Gilberto Freire refere-se ao processo de desenvolvimento brasileiro que ocorria, sociologicamente, com semelhança dos critérios estabelecidos pela geografia, ou seja, o desenvolvimento se dá em forma de ilhas e não de modo articulado nas diferenças regionais, bem como na integração com outros países. Para tanto, sustenta análise sobre a formação econômica e política brasileira, em um longo tratado, desde o período colonial, estabelecendo relações socioculturais com outros povos, para justificar a necessidade de expansão continental. No entanto, o sentido de ilha seria a ideia de universalismo entendida como uma “aventura quase sem limites” (1962 p.151s.). Desta forma, o que subjaz uma permanência e desenvolvimento harmônico do povo brasileiro, na concepção do autor, são os elementos do regionalismo de origem, do continentalismo, do lusitanismo (ou hispanismo) e do universalismo. Para Freire (1962), o conceito de ilha possui estreita relação com o de continente:

se, o sentido de continente conduz a ideia de progresso e de americanidade nas relações com as demais nações americanas, o sentido de ilha, unido ao de continente, traduz a ideia de

“profundidade, de densidade, de conservação de valores” em relação ao contexto dos debates à época em torno do separatismo e de políticas de centralização republicana do poder.

grandes centros urbanos por “terem adquirido o sentido continental de brasilidade e

de americanidade”, como do colono, na “estilização de sua vida” em que

“[...] decidiram permanecer, até certo ponto, ilhéus” (FREIRE, 1962, p. 149).

No entanto, Diegues (1996, p. 20) ao desenvolver estudos sobre a concepção de ilha e de insularidade, pontua abordagem diferenciada no qual a identidade de ser ilhéu, na ideia do sentimento de pertencimento a um território e a uma cultura local, é construída “por referenciais físicos, pela memória coletiva e pela mitologia generalizada”. A contribuição do autor é demonstrar que uma identidade insular não pode estar restrita ao fato do indivíduo ter nascido em uma ilha, mas como processo sociocultural de construção da identidade coletiva. Desta forma, vários atores ilhéus organizam-se para sair da condição de uma invisibilidade e de silêncio das suas populações tradicionais, histórica e socialmente, com seus modos de vida, no intuito de participarem das políticas públicas na defesa de seus direitos e de áreas de proteção ambiental.

Observa-se que o emprego do termo “população tradicional” é usado frequentemente de maneira muito ampla entre os autores, com abordagens diferenciadas. Cunha (2009) tece uma fiação cuidadosa para a compreensão desta categoria, ao entendê-la de modo extensivo, ou seja, pela simples composição dos seus elementos e considerando a integração de seus membros. Antes de mais nada, o sentido de “tradição vem do latim traditione e significa igualmente entregar-se, transmitir oralmente, passar algo para outra pessoa, ou repassar valores de uma geração a outra. Isto quer dizer, que a tradição enquanto marca histórica de um povo possui movimento e dinâmica própria; não é estática em sua temporalidade e espacialidade, como os sujeitos não são; mas carece de ressignificação para uma nova concepção de ordenamento do tempo e dos lugares. Por isso, o ato de resistir socioculturalmente no território, na ideia de pertencimento e de identidade, pois quando se destitui os sujeitos históricos de suas competências, de suas memórias e de uma temporalidade, destitui-se também os sujeitos de sua humanidade. Portanto, a definição de população tradicional de Manuela Carneiro da Cunha (2009, p. 300), esta, se aproxima do objeto de pesquisa:

Populações tradicionais são grupos que conquistaram ou estão lutando para conquistar (prática e simbolicamente) uma identidade pública conservacionista que inclui algumas das seguintes características: uso de técnicas ambientais de baixo impacto, formas equitativas de organização

social, presença de instituições com legitimidade para fazer cumprir suas leis, liderança local e, por fim, traços culturais que são seletivamente reafirmados e reelaborados.

Com base na afirmação, os povos tradicionais caracterizam-se por um processo de “autoconstituição”. No entendimento da autora requer um conjunto de regras internas e de instituições legítimas para assegurar práticas de conservação, bem como de organizações externas e articulações políticas, no intuito de garantir pacto, “em troca de algum tipo de benefício e, sobretudo de direitos territoriais”.

Cabe aqui salientar, que a discussão atual em torno da territorialidade dos povos e comunidades tradicionais voltam-se a combinação de fatores econômicos e ambientais que predominou a literatura no passado. Ou seja, o parâmetro faz prevalecer o quadro natural que prioriza biomas e ecossistemas como delimitadores de “regiões”, flexibilizam-se normas jurídicas para assegurar os direitos territoriais a povos tradicionais e volta-se a um crescimento econômico baseado em commodities (ALMEIDA, 2012, p. 63). Com isso, fragilizam-se as identidades coletivas pelas formas de organização que dispõe. Segundo o autor, a flexibilização dos direitos territoriais dos povos e comunidades tradicionais, tem ocorrido através de

“prosternação da titulação definitiva” de terras de quilombos e a falta de medidas contra a invasão e a demarcação dos territórios indígenas.

A partir da análise de algumas narrativas acima, por opção, coerência conceitual e de convívio com os atores no campo de pesquisa, empregou-se nesta pesquisa, a categoria “nativo” para designar a forma pela qual os moradores da população tradicional da Ilha do Mel se percebem e se reconhecem em sua identidade e em seu território. Para tanto, não se aplica aqui, a denominação usada por vários autores, na revisão do arcabouço teórico, de caboclo, ilhéu, colono ou caiçara. Esta última, por corresponder ao termo mais usual, historicamente voltado às populações litorâneas do sul e sudeste brasileiro, com seus valores, saberes e práticas compartilhadas, visão de mundo em seu modo de vida tradicional, bem como sua cultura material e imaterial, porque possui um caráter de homogeneidade.

A experiência do campo de pesquisa e a proximidade do diálogo com a população local, me fez compreender que esses se denominam por “nativo” e desejam ser chamados de “nativos”; ao se reconhecerem, legitimam sua identidade e modo de vida tradicional.

Durante as entrevistas à população tradicional e as lideranças religiosas, quando indagados sobre a representação que tinham da Ilha do Mel e como gostariam de ser identificados, as respostas são de conformidade.

Sr. André (2013, p.2), pescador artesanal, afirma: “__ sou nascido na Ilha do Mel e sou nativo. Às vezes, tem pessoas que perguntam: quem nasce na Ilha do Mel o que é? Pra mim é ilhéu. Mas, quando perguntam pra mim, quem eu sou? Digo: sou nascido na Ilha do Mel, sou nativo. Tenho orgulho de ser nativo15”. Outros testemunhos são expressos no mesmo sentido, como de Dona Cleusa (2013, p. 1):

“__ sim, sou nativa. Sempre fui daqui; porque o nativo é quem nasce aqui e, como sou daqui, pra mim, sou nativa”. Alguns entrevistados manifestaram posicionamento bem objetivo: “__ sou nativa da Ilha (do Mel)” (DONA ZELI, 2013, p. 2).

Por sua vez, os atores entrevistados não se autodenominam de “caiçara ou ilhéu”. Desse modo, respeitou-se o outro como ele é, como se vê e de que forma se reconhece, por mais que, academicamente, possa a terminologia não representar maior consenso16.

Portanto, as narrativas até aqui, enquanto registros documentais, também recebem influências e interferências na interpretação da realidade. Fazem parte de uma determinada cultura política de dispor informações, compreendendo-se que as fontes não são inócuas, compõem uma construção, relacionada a um contexto histórico e social da complexidade dos fatos e da dinâmica e mudança das estruturas sociais, sendo testemunhos de atividades desenvolvidas por seus produtores. É por isso, que a inteligibilidade de interpretação do fato histórico, através da análise e crítica, supera a estrita dimensão tradicional da descrição do mesmo.

Ao pontuarmos, o lugar da narrativa como contributo para uma abordagem de construções possíveis da história da Ilha, particularmente dos seus grupos17

15 Será utilizado na tese fonte “palatino linotype” em itálico, para os depoimentos ou indicação de questões aos entrevistados, no intuito de diferenciá-las das citações empregadas ao longo texto.

16 Cabe aqui salientar, que outros trabalhos sobre a Ilha do Mel, interpretam o emprego da categoria caiçara de maneira similar (Cf. SCHENA, 2006, p. 46).

17 O conceito de grupo social é complexo, pois possibilita a distinção de vários tipos, bem como o seu tamanho, as relações que mantém entre os indivíduos, a sua intensidade, duração ou distância que se estabelecem entre eles, no qual devem ser levados em conta. Segundo Boudon e Bourricaud (2000, p. 260) os grupos não são unidades físicas bem definidas no espaço social e, muito menos, a

tradicionais, esta forma de linguagem é a mais impregnada nas fontes consultadas para uma compreensão da complexidade sociocultural dos nativos. Trazer à tona novos atores implicou também um olhar holístico, subjetivo, crítico em relação ao objeto e à sua contemporaneidade, no intuito de compreender permanências e resistências, priorizando perspectivas sobre a cotidianidade e, portanto, a produção desta síntese sobre o campo religioso.

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