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2 DA ILHA DO MEL: TEMPORALIDADES E MEMÓRIA

2.2 Içar redes em uma memória adormecida

2.2.2 Crenças e sociabilidades

Langowiski (2006, p. 331) ao analisar os usos e costumes do praieiro no litoral do Paraná, destaca que o caboclo24 “não pratica uma religião no sentido do cumprimento de obrigações e preceitos”, exceto quando esporadicamente participa de ritos e celebrações de batismo e casamento. As razões apresentadas pelo autor vão desde a sua condição humilde e de ignorância no desconhecimento da doutrina e por estar distante das cidades para manter-se em contato com as lideranças religiosas, dificultando sua participação nas igrejas.

A representação tida volta-se às capelas católicas, onde este faz o culto aos santos e a adoração a Nossa Senhora, reunindo-se para a reza do terço, principalmente nas datas festivas ou quando participa de um velório. Langowiski (2006, p. 332) comenta que sua condição simples e de pouca instrução, quase sempre semianalfabeto, não é impeditivo para comandar as rezas ou orações comunitárias e os cânticos, “cujas estrofes passam de geração em geração”, adaptando-se conforme a ocasião, ao santo do qual se presta homenagem ou é invocado. Aos poucos, o antigo costume religioso açoriano da bandeira do divino25 percorrendo sítios em visita às casas dos fieis, vai se perdendo.

Neste sentido, a representação religiosa feita pelo autor é de homem simples, de “índole humilde e espírito conformado, temente a Deus por tradição e hábito, misturando aos poucos conhecimentos religiosos com crendices e superstições nos quais acredita piamente” (LANGOWISKI, 2006, p. 332).

Cabe aqui salientar, que a visão do autor sobre os nativos, representada por

24 O termo ‘caboclo’ é empregado por Langowiski em seus textos e não pelo autor.

25 Bigarella (1978) explica que as bandeiras saiam de Guaratuba e passavam por Caiobá, Matinhos, Sertãozinho, Praia de Leste e daí para Guaraguaçu. Subiam o rio até o porto das colônias (Colônia Pereira) indo em direção a Parati (antigo porto chamado de “Barreiro” ou Porto Parati, entre os municípios de Guaratuba e Matinhos; ponto estratégico de abastecimento de mercadorias e mantimentos oriundos de Antonina, Morretes e Paranaguá). A procissão, ao percorrer vários vilarejos de Guaratuba, retornava à Vila.

“homem simples”, é uma ideia questionável, pois pode ser traduzida em uma visão reducionista e de inferioridade. O nativo é um indivíduo complexo por natureza, que vive em um contexto e lógica distinta do modelo de racionalidade ocidental. Pela tradição, estabelece suas relações comunitárias, conhece com profundidade os processos naturais do seu meio, desenha mentalmente e na prática, sistemas complexos de manejo, potencializando a biodiversidade do lugar em que vive. Além disso, na diversidade, assume valores solidários, de ajuda mútua, de interesse comum, considerando os conflitos na comunidade. Tamanha é sua complexidade, que constrói individual e coletivamente sua identidade, pois possui um ethos e se reconhece na sua cultura, nas crenças, nos mitos, nos saberes, nas técnicas construídas, enfim na sua historicidade. Ao mesmo tempo, não se apresenta como alguém melhor ou pior, mas reconhecidamente diferente, que luta por direitos na coletividade, com uma complexidade que lhe é peculiar, não cabendo aqui, ser rotulado como alguém vulgar, de pouco valor, simples no sentido lato do termo, ou seja, sem complexidade alguma.

É comum encontrarmos nas fontes a indicação de que o “caboclo acreditava em Deus por tradição e hábito”, conforme estudos de Bigarella (1991, p. 77) e Langowiski (2006). Pela tradição oral e baixa escolaridade, era comum misturar as crendices populares com os conhecimentos das religiões cristãs. Nas casas, cultuava-se a imagem e se realizava a adoração do santo protetor seguida da reza do terço nos cultos religiosos.

No entanto, as constatações anteriores sobre a religiosidade popular dos caiçaras diferem da leitura de outros pesquisadores. Cabe aqui salientar que caiçaras e praianos raramente aparecem nos arquivos e documentos históricos, mesmo mantendo relações socioeconômicas com as cidades da sua Região, porque são populações pobres e excluídas socioculturalmente. Logo, pensar a sociedade caiçara é entendê-la pela sua propriedade maior da oralidade em que raramente deixam marcas escritas. Diegues (2005, p. 31) pontua que a “história pode ser resgatada com a história dos mais velhos e transmitida pelos relatos orais” por meio dos testemunhos e documentos, “da transposição da memória para a escritura”.

Para o autor, a imagem do caiçara ou do praiano, começou aparecer tardiamente nos anos 1940/1950 nos relatos dos trabalhos de antropólogos e geógrafos. Desta forma, quando do estudo da Ilha de Superagui, no litoral paranaense, os principais problemas relatados pelos moradores locais foram que

não podiam fazer roça26; tinham medo de falar; eram obrigados a pescar e ir para o manguezal; não conseguiam trabalhar em outra coisa. Com isso, perde-se no esvaziamento das comunidades, a perda dos saberes medicinais populares, os hábitos dos animais e o simbolismo dos seres sobrenaturais que vivem na mata.

Alguns trabalhos sobre a Ilha apresentam informações equivocadas sobre suas comunidades. É o caso de Thomaz (1996, p. 219), ao analisar as percepções dos nativos do Farol, Ponta Oeste e Nova Brasília sobre a vegetação da Ilha do Mel e a possível relação dos nativos com a vegetação do seu território e com a área protegida. Menciona em nota que “essa vila (Ponta Oeste) outrora grande povoado pesqueiro, encontra-se extinta e alguns dos últimos moradores mudaram-se recentemente para Nova Brasília”, informação esta que não é correta.

Em trabalho recente, Harder e Freitas (2001, p. 2s.) desenvolveram importante estudo antropológico, com reflexões em torno do direito cultural dos povos tradicionais, sobre a comunidade de Ponta Oeste, na Ilha do Mel, no intuito de

“analisar o esforço desta coletividade em manter sua territorialidade [...] e os mecanismos adotados pelo Estado Brasileiro para desterritorializá-la do local”.

Analisam que entre os anos de 1930 e 1940 as atividades portuárias de Antonina e Paranaguá foram sentidas pela comunidade, com a utilização do canal Norte para acesso das grandes embarcações de navios e, deste, para o canal da Galheta, ocasionando a redução de espécies de peixes com grande impacto ambiental e sem a garantia de compensação material para as famílias. Para os autores, isto caracteriza, “o primeiro grande fluxo migratório da Ponta Oeste para outras localidades”, ou seja, de um passado com população de “211 habitantes” para “25 homens e mulheres”, envelhecendo, na atualidade. No entanto, o controle do Estado se torna efetivo a partir dos anos 1980 sobre as populações e suas territorialidades, quando do levantamento populacional das edificações existentes27.

26 Na Vila de Superagui (Guaraqueçaba/PR) ainda ocorrem vários conflitos em torno da violação do seu território tradicional, pela imposição da legislação ambiental (Decreto 97.688/89). Esta determina em seu art. 4º. que “as terras e benfeitorias localizadas dentro dos limites descritos […] ficam declaradas de utilidade pública, para fins de desapropriação”. Ocorre que devido ao restrito acesso aos recursos naturais, tal legislação interfere agressivamente no modo de vida da população tradicional, em seu território, trazendo consequências diretas: a agricultura de subsistência, no sistema rotativo de plantio; na extração da madeira, para as suas necessidades materiais e da construção de barcos para navegação; da colheita de plantas ou ervas medicinais, na preservação do seu conhecimento e saberes tradicionais; a criação de animais, para sustento da família, entre outros.

27 Censo ou levantamento dos moradores da Comunidade Ponta Oeste, realizado por uma moradora da Ilha do Mel, sob coordenação da Secretaria de Patrimônio da União. Os dados foram publicados em 1987 pelo Instituto de Terras, Cartografia e Florestas.

Aqui a construção da memória e a ressignificação dos fatos históricos pelos indivíduos, imbricada à tradição consuetudinária das populações tradicionais, apresentou o desafio de compreendê-las como um campo de possibilidades.

Entendemos que não é o indivíduo o objeto, mas a narrativa, que permite por meio do indivíduo e da realidade por ele vivida, aprender as relações sociais em que se insere a sua dinâmica. O passado é reconstruído pela perspectiva do presente e marcado pela realidade social, daí a importância dos relatos orais e depoimentos, tendo por referência a própria vida.

No litoral paranaense a presença dos padres jesuítas fez com que a institucionalização do catolicismo romano se consolidasse cada vez mais em poder político-religioso e no imaginário popular. Desde o início do século 19, um devoto chamado Tenente Faustino José da Silva Borges, recebeu de Pai Berê, uma imagem de Nossa Senhora em sua casa e não mediu esforços para que fosse construída uma capela em louvor a Nossa Senhora do Rosário do Rocio. O fato, de domínio popular, é que a imagem passa a ser cada vez mais adorada por muitas pessoas no novo arraial, acompanhadas ao longe por embarcações e “pelas senhoras principais e a nobreza de Paranaguá que vão assistir à mesma festividade” (VIEIRA SANTOS, 2001, p. 77). Com o passar dos anos, registraram-se “milagres” que se repetiam como o fim da peste bubônica. Assim, curas individuais e coletivas eram desejadas contra esta epidemia e a gripe espanhola no início do século 20, além dos socorros prestados pela Virgem aos marinheiros em tempestades no mar, tornando-se devotos com procissões e romarias pelas ruas até o santuário.

Saint-Hilaire (1978, p. 99) em seus relatos descreve que Paranaguá contava na época com três igrejas, a paroquial e mais duas de menor importância e o prédio do convento dos jesuítas. Além da fundação da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, havia anualmente várias festividades religiosas. Entre elas, destacam-se a

“Páscoa” e a celebração da “Ressurreição do Senhor”; a do “Santíssimo Sacramento, com [...] procissão solene acompanhada de todas as irmandades pelas ruas da cidade”; a de “Nossa Senhora do Rosário28”, com novenas e tríduos; e, as festas a “São Sebastião, São Miguel Arcângelo, Nossa Senhora do Carmo, Santa Rita, Nossa Senhora das Dores e da Conceição e do Anjo Custódio”. Além dessas, havia também irmandades religiosas como a do Santíssimo Sacramento, de Nossa

28 A igreja dedicada ao culto de Nossa Senhora do Rosário (Matriz) edificada entre os anos de 1575 a 1578, pertencia ao arcebispado de São Salvador/BA, sufragância da Arquidiocese de Lisboa.

Senhora do Rosário dos Brancos a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, a de Nossa Senhora da Conceição, a de Santa Rita, São Miguel Arcângelo e Almas e a de Santo Antonio (VIEIRA SANTOS, 1952, p. 46-47).

Viajantes e cronistas do final do século 1929, nos seus relatos sobre o litoral do Paraná, pontuam inúmeros costumes da população local, na preparação das festas religiosas em Paranaguá e Região. A animação das festas era constante:

“quem pode, salta no cavalo. Pessoas sem recursos, os pobres, não hesitam em ir.

Claros e escuros, se calçados, de cor, livres e negros descalços chegam cheios de expectativa” (PLATZMAN, 2010, p. 241). As moças de classe alta param, saltam dos cavalos e são cortejadas na festa pelos fidalgos. E continua o autor: “dos lados da igreja, com largos xales jogados sobre os ombros, conversando animadamente, encontram-se as africanas”.

Mas também havia na tradição popular e religiosa do litoral, rezadores e benzedeiras que aplicavam suas fórmulas e crenças em segredo, a fim de terem reconhecimento de seus saberes pelos doentes. As simpatias (práticas, gestos e palavras) eram diversas dispensando medicamentos: com o galho de arruda benzia-se o quebrante dos bebês; a folha de mamona era utilizada para benzer criança com sapinho na boca. Para qualquer tipo de dor ou de doença tinha-se uma solução, sendo mais comuns os casos de insolação, rasgadura, torção e costura sobre machucado.

A medicina rústica ou caseira possuía uma relação imbricada entre as práticas mágicas, religiosas e empíricas repletas de simpatia e benzimento. No caso, as benzedeiras faziam uso de "patuás, bentinhos, amuletos, santinhos, talismãs e o toré30, bem como as promessas, romarias e novenas” (BIGARELLA, 1991, p. 71).

Este saber tradicional traduzia-se na prática fitoterápica através do uso de chás, garrafadas, vomitórios, suadouros, purgantes, unguentos, no qual a população local procurava na natureza as condições necessárias para a cura de doenças.

Há fatos pitorescos na religiosidade local que se estende pela baía de Paranaguá, quando o primeiro vigário encomendado, apresentou-se em meados do século 17 à Câmara de Vereança, requerendo ressarcimento pela promessa feita

29 Julius Platzman, viajante alemão, linguista, pintor e botânico que residiu na Baía de Paranaguá, na Ilha dos Pinheiros e seu entorno entre 1858 e 1864. Ao retornar à Alemanha publicou em Leipzig um livro sob o título Aus der Bai Von Paranaguá (Da Baía de Paranaguá, 1872). Conseguiu classificar 214 espécies de plantas e 96 espécies de animais do litoral paranaense.

30 Significa adivinhação mágica; defumação e uso de ervas.

pelo povo de lhe darem “um escravo pescador” para assumir a Igreja pelo tempo que trabalhou. A Câmara fez as complementações e a promessa de pagamento de

“um ordenado anual de 60$000 reis, 24 alqueires de farinha e um escravo pescador”

(VIEIRA SANTOS, 1952, p. 47-48).

Assim, a partir do povoamento na Ilha da Cotinga, o nativo recebia, duas vezes ao ano, a visita catequética dos padres jesuítas da Casa Missionária de Cananéia. Será somente em meados do século 17 que os jesuítas se instalaram em Superagui fundando casa de missões. A partir do século 18 ocorreu uma grande proliferação de igrejas no litoral pelo fato da expansão da organização política e eclesiástica. Neste sentido, as ordens e congregações religiosas que exerceram hegemonia em Paranaguá, foram os jesuítas, franciscanos, carmelitas, josefinos e, na atualidade, os redentoristas.

No litoral paranaense, as manifestações religiosas católicas “se tornaram o centro recreativo e de descontração da população caiçara entre os séculos 18 e 19”, (CHIQUIM, 2005, p. 55). As festividades religiosas, missas de domingo, compromissos firmados com as irmandades, procissões e adorações religiosas, acompanhavam as manifestações culturais populares da congada, cavalhadas, torneios, leilões e fandangos. As festas religiosas estiveram ligadas ao culto dos santos, sendo São Pedro, a principal, seguido do rito de procissão dos barcos na Ilha do Mel. Além das festas religiosas, outras formas de lazer eram as “conversas no armazém [...] e das mulheres com as vizinhas” (KRAEMER, 1978, p. 92), e a presença do padre quando celebrava a missa. A religiosidade é de predominância católica na década de 1950 e dificilmente poderia ser diferente na Ilha do Mel.

Segundo Figueiredo (1954, p. 51-52) “[...] há, entretanto, a intervenção do protestantismo ainda incipiente e do espiritismo com poucos adeptos”, na Região, demonstrando diversidade religiosa.

Ocorre no litoral paranaense a preponderância do catolicismo por meio de sua institucionalidade doutrinária, dogmática e de organização religiosa, em uma ordem maior, que reproduz a romanicização das suas práticas. Na Ilha, não é diferente. No entanto, nas fontes há um silenciamento de manifestações religiosas populares e de reavivamento das crenças tradicionais prevalecendo o poder e a autoridade eclesiástica de ordens religiosas, ou do clero secular (diocesano) e de sua ação pastoral e social. Quando citadas, possuem a conotação estereotipada de um folclore tardio ou de esquecimento, como se os saberes e as práticas se perdessem

e não resistissem a ser reconhecidas identitariamente na diversidade.

2.3 E o turismo chegou...

Um dos acontecimentos históricos de relevo foi à construção da Fortaleza de Paranaguá, na Ilha do Mel, ordenada pela Coroa Portuguesa para proteger a entrada da Barra. Com a anulação do Tratado de Madri em 175031, devido à guerra entre Portugal e Espanha, o governo português busca assegurar seus territórios na política de construção de fortificações para proteção da costa. Com o passar do tempo, a partir da implantação do transporte ferroviário e rodoviário no final do século 19, ocorre à gradativa diminuição deste, por via marítima na Região, onde o Forte da Ilha do Mel perde finalidade de estratégia militar.

Quando da construção das primeiras estradas em 1926, de Curitiba aos balneários do litoral paranaense, o que tornava o acesso mais rápido às praias, Kraemer (1978, p. 72-73) explica que no trajeto para a Ilha do Mel, predominava ainda o interesse pela viagem ferroviária de Curitiba à Paranaguá, com duração de 5 horas. Após chegada em Paranaguá, um barco fazia o trajeto de 3 horas até a Ilha para completar a travessia. Chegando lá, “um caminhão transportava as bagagens dos passageiros do trapiche até suas casas”, ou diariamente até o mirante e deste ao balneário na Fortaleza.

Na Ilha, havia as “aguadeiras”, mulheres que puxavam lata d’água na cabeça,

31 No século 18, as questões de limites entre as colônias portuguesas e espanholas, ainda eram baseadas no Tratado de Tordesilhas de 1494, que estabelecia uma faixa litorânea na costa atlântica sul-americana, demarcando os territórios a oeste sob domínio da Coroa Espanhola e os demais a Portugal. Com o avanço sobre o território de súditos portugueses dos limites nas regiões da Amazônia, do Rio da Prata (colônia de Sacramento) e núcleos de povoamento em Cuiabá, estes territórios permaneciam espanhóis. Segundo Kantor (2009, p. 44), a indicação dos nomes das

“povoações e aldeamentos missionários passou a ser um elemento-chave na definição das fronteiras entre os impérios ibéricos”, tornando-se problema de fronteiras e limites, pois envolvia vários interesses. Portanto, o Tratado de Madri (1750), foi um contrato ou acordo internacional, entre os reinos ibéricos, formado por comissões mistas de especialistas em cosmografia e cartografia, além dos profissionais de apoio administrativo do Estado como “alferes, para o mando dos soldados;

capelães, para os remédios espirituais; e cirurgiões, para as enfermidades do corpo. A eles se somavam soldados índios, escravos-negros para o serviço, pilotos e demais trabalhadores” (COSTA, 2009, p.192-193).

no período de veraneio ou temporada, em que manuseavam a bomba de uma casinha construída em uma fonte na Fortaleza, para vender água aos turistas.

Existia um Clube Balneário, sociedade esta com um salão de madeira para promover bailes na temporada. Conta-se que eram lotados, sempre dispondo de um gaiteiro para tocar os “chotes, boleros, sambas, blues e swings” (FERNANDES, 1985, p. 57), acompanhados dos assovios dos moços. Os rapazes mais atrevidos tinham em suas namoradas o “controle dos ímpetos, porque era de bom tom ser disputadas, cortejadas, solicitadas antes de lhe dar maior atenção” (1985, p. 65).

Havia também outros hábitos, como a “excursão” no entorno da Ilha, no sentido Fortaleza ao Mirante e o jogo de “boccia” dos descendentes de alemães em uma cancha de areia.

Os pontos turísticos da Fortaleza e do Farol das Conchas era a preferência dos veranistas oriundos de Curitiba e descendentes de imigrantes alemães e italianos que permaneciam em um hotel ou casas de veraneio na Ilha. Quanto aos serviços, priorizava-se a oferta do peixe “passando de casa em casa, oferecendo a produção do dia”, sendo que, fora da temporada comercializava-o em Paranaguá.

No entanto, era muito visitada no inverno, quando as temperaturas baixas não favoreciam a proliferação de mosquitos (anopheles fêmea) e a contração de doenças infecciosas crônicas (malária), ocasionada pelo problema sanitário e de saúde que se estendia por quase todo o litoral paranaense.

No restante da Ilha não era diferente. Fernandes (1985, p. 209) esclarece que entre os anos de 1940 a 1942, era costume a Santa Casa de Misericórdia de Curitiba receber, semanalmente, quase 15 nativos doentes que contraíram malária.

Na época, a situação era de total insegurança e descontrole que um dos comandantes do Forte ordenou que fosse “ateado fogo pelos morros e mato da Fortaleza queimando um alqueire e meio de vegetação”. No entanto, a malária ou popularmente chamada de “maleita”, contaminou nos anos seguintes mais de 100 homens do efetivo de soldados que prestavam serviço militar na Ilha do Mel e muitos moradores, permanecendo extinta nas décadas seguintes. Será somente nos anos de 1980 que se identificarão novos focos de malária na Ponta Oeste e na Prainha.

Além da malária, a mortalidade infantil era um dos problemas mais sérios, justificada como causa o problema da falta de tratamento d’água e da insuficiência de nutrientes e vitaminas na alimentação das crianças, somada a dificuldade de acompanhamento médico-hospitalar.

O acesso dos banhistas à Ilha tornou-se cada vez mais difícil nos anos 1940, no período da segunda guerra, por ser vista como território estratégico de defesa, ou seja, de zona de guerra. Várias casas foram desapropriadas para ocupação militar.

Em meados dos anos 1940, Kraemer (1978, p. 74) afirma que “muitas famílias que frequentavam a Ilha não tinham mais condições financeiras, sendo opção, outros balneários do Estado devido ao transporte rodoviário”. As dificuldades do transporte dos barcos e de infraestrutura como a falta de energia elétrica, ocasionou pouca

Em meados dos anos 1940, Kraemer (1978, p. 74) afirma que “muitas famílias que frequentavam a Ilha não tinham mais condições financeiras, sendo opção, outros balneários do Estado devido ao transporte rodoviário”. As dificuldades do transporte dos barcos e de infraestrutura como a falta de energia elétrica, ocasionou pouca

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