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CONTINUIDADE E DESCONTINUIDADE NA EDUCAÇÃO DE SURDOS

Eliane de Oliveira Rodrigues Elisane Maria Rampelotto

CONTINUIDADE E DESCONTINUIDADE NA EDUCAÇÃO DE SURDOS

Nesta sessão iremos explorar o texto de Fernando Capovilla et al. (2000), intitu- lado SignWriting: implicações psicológicas e sociológicas de uma escrita visual direta de sinais, e de seus usos na educação de surdos. Quando lemos esse texto, acreditamos que fosse necessário colocá-lo na fundamentação teórica deste trabalho, trazendo as ideias principais para enfatizar a importância do sistema

SignWriting na educação de surdos e principalmente nos cursos de formação de educadores surdos, como é o caso do curso de Letras LIBRAS.

Após o surgimento da escrita, a sociedade modificou-se, com o registro secundário do ato linguístico os homens puderam refletir sobre este ato. Para Capovilla et al. (2000), os grupos que não possuem uma escrita própria acabam por não ter consequentemente o domínio necessário para organizarem-se na sociedade e desenvolver sua cultura.

A questão da Língua Portuguesa é incansavelmente discutida pelas pessoas que estão envolvidas com a educação de surdos. É neste ponto que Capovilla aponta para a descontinuidade na educação dos surdos. Sendo uma escrita alfabética, a Língua Portuguesa traria benefícios aos sujeitos ouvintes que ao utilizar a escrita desta língua representam “as propriedades de sua língua falada” (CAPOVILLA et al., 2000, p. 32).

Há desse modo, uma continuidade na educação dos ouvintes que podem fazer uma ligação entre os três contextos comunicativos básicos: “a comunica- ção transitória consigo mesmo (o pensar), e com outrem face a face (o falar) e a comunicação perene na relação remota e mediada (o escrever)” (CAPOVILLA et al., 2000, p. 32). A facilidade para a criança ouvinte na educação lhe é conferida porque seu processo linguístico é unificado em uma só língua, ela pensa, fala e escreve em uma mesma língua. Segundo Capovilla et al. (2000, p. 32), para a criança ouvinte a forma sonora favorece seu aprendizado.

Para ela há uma compatibilidade entre os sistemas de representação linguística primária (língua falada) e secundária (língua escrita alfabética). Assim ao escrever, ela pode fazer uso intuitivo das propriedades formais (sonoras) das palavras da mesma língua que usa para pensar e se comunicar.

O estudante surdo utiliza-se de uma língua diferente, uma língua visual e quiro-articulatória, como explicado anteriormente sobre a estrutura da Língua de Sinais, a partir dos estudos de Stockoe. A cobrança de que o estudante aprenda a Língua Oral, além de ser uma tarefa difícil é exigir que este escreva em uma língua oral estrangeira, que passa por uma modalidade auditiva e fonoarticulatória.

Os reflexos da descontinuidade na educação de surdos são exemplificados nos casos de evasão escolar exposto por Stumpf (2004, p. 145), “os surdos representam como fracasso a educação que recebem. Poucos chegam ao ensino médio. A maioria, depois de muitos anos na escola, sai dela como analfabeto funcional”. Ao recorrerem as suas falas internas, os surdos buscam as suas propriedades visuais, a sua sinalização interna e assim sofrem um atraso por não compreenderem a escrita alfabética. Outra consequência apontada por Capovilla et al. (2000, p. 33) é que

[...] a criança surda tende a cometer mais erros que a ouvinte. Seus erros não têm apenas uma frequência maior, como também uma natureza bastante distinta, já que não são fonológicos, mas visuais. Na escrita comete paragrafias literais com trocas de ordem das letras e troca entre letras visualmente semelhantes. Comete paralexias e paragrafias semânticas, com troca de palavras.

Os reflexos da descontinuidade no aprendizado do estudante surdo são explicados pelo percurso de pensamento que baseou as práticas com tais es- tudantes. Pode-se citar o oralismo, que pretendia ignorar a língua materna dos surdos dando espaço para o treino fonoarticulatório. A consciência fonológica então estaria sendo transformada em consciência articulatória para os sujeitos surdos. A criação de uma escrita visual para os surdos seria uma possibilidade de reduzir a descontinuidade na educação de surdos, já que daria oportunidade da representação dos queremas da língua de sinais que o surdo utiliza. O SignWriting representa esses queremas da Língua de Sinais e funciona como um sistema secundário de informação desta, assim como a Língua Portuguesa escrita serve para a língua oral que representa.

Podemos perceber que os estudantes reconhecem o sistema SignWriting e sua importância na educação de surdos, embora saibam que é importante para eles o aprendizado do português para sua interação com os ouvintes. Em sua maioria, os estudantes apontam a escrita direta de sinais como uma extensão da LIBRAS, que colabora para seu desenvolvimento e aprimoramento, bem como possibilita também que os surdos, após sua aquisição, aprendam com mais faci- lidade a Língua Portuguesa escrita.

Não podemos também recair ao extremo de excluir da educação dos surdos o aprendizado da Língua Portuguesa escrita, precisamos reconhecer que para aprender o português escrito, os estudantes surdos devem ter uma escrita própria como ponto de referência para aprender as demais. Stumpf (2004, p. 147) salienta sobre “o sistema SignWriting que representa as unidades gestuais fundamentais, suas propriedades e relações têm como ponto de partida a língua de sinais dos surdos”.

O RG A N I Z A D O R A S

I

A N A C L Á U D I A PAVÃO S I L U K

I

S Í LV I A M A R I A D E O L I V E I R A PAVÃO

\\\ 147 \\\

CONCLUSÃO

A educação de surdos possui na atualidade diferentes modos linguísticos e artefatos culturais para realizar as atividades pedagógicas. O sistema SignWriting é reafirmação da diferença linguística dos surdos, delineando-os como sujeitos visuais, com linguagem visual. Nessa realidade de perceber o sujeito surdo como visual e não como deficiente

auditivo, mostram-se relevantes pesquisas que apontem e reflitam sobre a escrita direta de sinais. Considerar o surdo como um sujeito visual não deve ser entendido como compensação de uma falta, mas sim uma diferença linguística natural, cultural e política. Algumas considerações podem ser aqui destacadas, não como conclusões, mas sim como novas formas de olhar e pensar a educação de surdos. Neste tra- balho, pareceu-nos oportuno enfatizar as palavras de Capovilla, o qual ressalta o benefício psicológico e sociológico que o sistema SignWriting propicia na educação de surdos, além de apontar o processo educativo descontínuo que é ofertado aos surdos, trazendo consigo uma contribuição importante: os três contextos comu- nicativos necessitam ser articulados em um mesmo domínio linguístico, portanto pensar, sinalizar e escrever seriam construções sequenciais que trariam consigo uma evolução no que tange à alfabetização de estudantes surdos.

Cursos de formação de educadores surdos, como exemplo, temos o Curso de Letras LIBRAS, polo da Universidade Federal de Santa Maria, constituem a essência das prováveis metamorfoses na educação de surdos: seus currículos proporcionam o conhecimento de especificidades linguísticas inexistentes em outros cursos de graduação, mesmo quando estes se intitulam habilitados a formarem profissionais a trabalharem nesta área. A escolha deste curso como foco de pesquisa proporcionou a visão diversificada de opiniões quando o assunto é o SignWriting.

Percebeu-se que os sujeitos pesquisados acreditam na importância do SignWri-

ting para a constituição da identidade surda, mesmo que enfatizem que, na lei que rege a educação, a LIBRAS não pode substituir a Língua Portuguesa escrita. Muitas das respostas indicam que as crianças ao terem contato com o SignWriting tenderão a gostarem e aprenderem facilmente esta escrita. Já os adultos revelaram ter muitas dificuldades no aprendizado da escrita direta de sinais. As disciplinas de SignWriting, que são disponibilizadas no currículo do Curso de Letras LIBRAS, conforme alguns estudantes, são importantes para aprimorar os conhecimentos desta escrita e oferecer subsídios que auxilie-os nas futuras práticas como professores em escolas.

Nessa especificidade linguística estudada, vê-se a urgência de novos cursos voltados para a comunidade surda. Mesmo tendo a habilitação na área da surdez, acreditamos que a educação de surdos deveria tomar um rumo distinto do Curso de Educação Especial. Não é a partir de conteúdos academicamente rápidos que se entende e domina uma cultura diferente, é no convívio diário com a comunidade

surda que podemos entender esta alteridade. Enquanto nos mantermos distantes de uma realidade linguística como a dos surdos, somente aprenderemos uma nova língua com os estudantes e nada teremos a ensiná-los. Quem realmente quiser ensinar e educar os surdos poderia começar dominando sua língua e cultura para só assim depois ousar ensiná-los algo.

REFERÊNCIAS

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