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Dilce Teresinha Assunção da Silva

OPORTUNIDADE DE APRENDER COM AS DIFERENÇAS

Em geral, o público da EJA é composto por pessoas em busca de uma nova opor- tunidade. Provavelmente, devido a questões sociais, elas deixaram de estudar e agora buscam recriar um espaço na sociedade que lhes é garantido de direito. Porém, na prática, em muitos lugares isto parece não acontecer.

A Educação de Jovens e Adultos é uma modalidade de ensino criada a partir da necessidade de dar oportunidade de estudo a jovens e adultos, que

não deram continuidade em seus estudos ou não tiveram acesso no Ensino Fundamental e/ou Médio na idade cronológica apropriada.

Ressalta-se uma vez mais que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação-LDB 9394/96 (BRASIL, 1996), em seu artigo 37º § 1º, é bem clara e preconiza que os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apro- priadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames.

Repara-se que, em muitos casos, e neste, é o que move esta pesquisa, as características do alunado não são respeitadas. Dessa forma, é importante frisar a necessidade de realizar pesquisas e estudos sobre o tema, a fim de estruturar a EJA de forma que toda pessoa sinta-se integrada mesmo que tenha suas dificuldades, pois elas precisam não apenas ser respeitadas, mas servir de fonte para inspirar um currículo que dê conta de ensinar e aprender de uma forma realmente inclusiva. Ilha e Turchiello (2008) afirmam que, de acordo com Beyer (2005), a escola pública não era uma escola para todas as crianças, quem possuía deficiência física ou mental não tinha o direito de frequentá-la. Somente com o surgimento das escolas especiais é que estas crianças finalmente tiveram a chance de escolari- zação. Ao contrário do que se pode pensar, essas escolas não eram vistas como segregadoras, pois pela primeira vez incluíram essas crianças no sistema escolar.

Infelizmente, a realidade da EJA ainda não é a que está prevista nos documentos oficiais, pois muitos adultos com deficiência mental são considerados, sob o aspecto cognitivo, como tendo um nível intelectual igual ao de uma criança, porém é preciso compreender que esses jovens e adultos possuem características e necessidades diferentes das de uma criança. (ILHA; TURCHIELLO, 2008, p.18).

O professor que recebe um estudante com NEE, geralmente, transfere para os representantes governamentais a “culpa” por não se sentirem preparados para lidar com estudantes “diferentes”. Entende-se que a consciência do traba- lho educativo e da responsabilidade de transformar positivamente a sociedade requer uma pergunta a todos os profissionais da área da educação: Seremos tão

somente mais um profissional a passar pela vida das pessoas sem deixar uma mar- ca acadêmica positiva ou podemos fazer a diferença? A resposta a essa pergunta encontra-se esquecida no empobrecimento da educação enquanto instituição e também na vida profissional de muitos, uma vez que o exercício do magistério já não instiga de maneira forte e efetiva a muitos profissionais. Porém, este não deve ser um motivo para que o entendimento real das dificuldades fique relegado

O RG A N I Z A D O R A S

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A N A C L Á U D I A PAVÃO S I L U K

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S Í LV I A M A R I A D E O L I V E I R A PAVÃO

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a um segundo plano ou que seja de responsabilidade apenas de um profissional. Com base em observações a partir do convívio diário da primeira autora e através de entrevista semiestruturada (Tabela 1) com quatro professores, no presente texto tenciona-se apresentar um recorte sobre o que pensam alguns profissionais que se deparam com a responsabilidade de compreender o outro nas suas especificidades, mais precisamente, estudantes com deficiência intelectual na fase adulta.

Para resguardar a identidade das pessoas envolvidas nesta primeira parte da pesquisa, optou-se por chamar os profissionais com a nomenclatura educa- dor A, educador B, educador C, educador D (ea, eb, ec,ed). As respostas foram organizadas na forma de figura (Tabela 2).

tabela 1 — Entrevista semiestruturada direcionada aos professores. QUESTÕES

1. Para você, qual o sentido de ser professor?

2. Você encontra dificuldades em relação à sua disciplina para adaptar conteúdos para estudantes com NEE? 3. Utiliza-se do currículo adaptado em sua disciplina? 4. Como se sente quando precisa lidar com as dificuldades dos estudantes durante a explicação da matéria em aula? 5. O que você sabe sobre Deficiência Intelectual?

6. Participou ou participa de algum curso (especialização, aperfeiçoamento) de AEE?

7. Realiza leitura sobre o tema NEE?

8. Possui conhecimento sobre a legislação acerca da inclusão? 9. Possui menos ou mais de 10 anos no magistério público? 10. Você tem algo a dizer em relação à gestão da escola e a questão da Inclusão?

tabela 2 — Respostas dos professores à entrevista.

RESPOSTAS EA RESPOSTAS EB

1 Eu gosto de dar aula. É o que eu

sei fazer. Eu escolhi ser professor. Aprendo diariamente sobre as dificuldades do sistema todo.

2 Eles não esboçam nenhuma reação e então não consigo me sentir bem e me sinto desprepa- rada para atuar com estudantes assim. Acho até que é impossível, porque eles deveriam estar em uma turma separada, só com gente com dificuldades. (ED,47 anos, professora de física)

Eu acho que me falta conhecer melhor, mas como já trabalhei com adolescentes e adultos, com problemas de drogadição, utilizo muito deste olhar para com os nossos estudantes.

3 Eu tento... Eles não aprendem o que eu explico e então pare- ce que estou falando para as paredes.

Eu vou adaptando, mas ainda não é como eu acho que deveria ser. 4 Eu não consigo entender porque

todos não podem ficar juntos em uma sala. Acho que deveria ser assim.

Confesso que é bem difícil, mas eu vou tentando. Eles ao menos têm vontade, o que é bem importante. 5 Pouca coisa... Muito menos do que eu deveria

saber. 6 Não, nunca. Não.

7 Não. Infelizmente, pouquíssima coisa. 8 Sei o básico. Sei aquilo que eu já li por conta. 9 Tenho 13 anos de magistério

público. Tenho 06 anos de magistério. 10 Acho que não nos auxilia. Acho que está muito atrapalhada

O RG A N I Z A D O R A S

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A N A C L Á U D I A PAVÃO S I L U K

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RESPOSTAS EC RESPOSTAS ED

1 Faz sentido quando aprendo com meus estudantes e eles demonstram apren- der algo além da minha disciplina...

Eu sou uma das professoras mais antigas da escola. Gosto muito de dar aula.

2 Não, porque tenho facilidade de adap- tar. Mas faço isso depois de observar a turma e a cada um dos estudantes.

Eu vou tentando, perguntan- do, ao menos vou sentindo o ritmo da turma.

3 Sim, o tempo todo. Às vezes, mas em outras não acho possível.

4 Vou devagar, observando as reações e sempre que necessário, explico nova- mente. Além disso, procuro tranquili- zar os estudantes em relação às suas dificuldades.

Eu explico quantas vezes eles necessitam, mas confesso que fico cansada e às vezes não sei o que fazer.

5 É um termo que se usa para dizer que a pessoa apresenta algumas limitações quanto ao seu funcionamento mental ou no desenvolvimento de tarefas.

Acho que quase nada.

6 Já participei como aluna de um curso aqui em Porto Alegre. Atualmente par- ticipo de um curso de AEE a distância. É um curso de aperfeiçoamento.

Não. Nunca

7 Sim, quase que diariamente. Não leio. Deveria ler, sim. 8 Sim. É um dos primeiros passos quan-

do se quer compreender a questão da inclusão.

Sei aquela coisa bem básica, nada mais aprofundado. 9 No magistério público desde o último

concurso (1 ano), mas no magistério em si, faz mais de vinte e seis anos.

Estou quase me aposentan- do... falta só uns dois anos. 10 Na escola, observo que ainda estão

meio perdidas... É preciso estudo, organização, além de trazer pessoas para falar sobre o assunto. Não adian- ta ficar falando, apenas. É preciso, acima de tudo, mobilização e estudo, respectivamente.

Não conseguem dar conta. É uma pena. Não nos auxiliam como gostaríamos. Sinto-me de mãos amarradas.