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7 CONTOS DO RÍDICULO DIALOGANDO COM O SAGRADO E O PROFANO

7.7 O Conto do Choro e do Riso

Era uma terça-feira de julho de 2017, cheguei com meus auxiliares no povoado Catinga por volta das 18h. Estava quente e seco como rotineiramente é nesta época do ano. O inverno frio e úmido no sul do Brasil, nesta época do ano, é o oposto do clima da região norte, onde está localizada a Boa Vista do Padre João.

A igreja do povoado estava toda ornamentada para a celebração a Santa Ana, as luzes estavam ligadas, as portas abertas, mas ninguém estava lá. Algumas pessoas sentadas em frente as suas casas davam sinal de vida naquele lugar afastado e escuro, com cheiro de caju torrado e uma brisa quase discreta.

Já era a terceira vez que eu observava o dito Festejo, então não estranhei o ambiente e me desloquei até o altar para fazer uma tomada de filmagem que abordava a chegada dos devotos. Aos poucos as pessoas foram chegando e sentando de forma aleatória, alguns nos bancos da frente, outros no meio da igreja e muitos no fundo.

Neste dia não havia padre para celebrar a missa e conduzir a programação do festejo, foram três devotos que conduziram. Deve ser por isso que as pessoas demoraram para chegar, pois houve um atraso de 40 minutos, de acordo com o que foi programado. Havia muitos adultos, apesar de que estavam presentes um número menor que 30 pessoas, alguns idosos e poucas crianças. A maioria dos presentes eram mulheres.

As sete crianças, quatro meninas e três meninos, que foram naquele dia entraram sozinhas, sem a presença de adultos. Chegaram, tomaram conta de um banco próximo aos fundos da igreja, entraram silenciosas, mas com semblante de que iriam aprontar. Então, logo pensei: “seria o profano chegando a galope?”

Dito e feito! Logo começaram as peripécias! Mas, não era o ridículo que eu procurava tomando espaço, e sim o profano impondo seu lugar no ambiente sagrado.

Se ouvia risos e conversas em tom alto na frente do altar. Eles sentavam todos aglomerados, como aquelas lagartas pretas que andam juntas; se alguma saísse do ambiente, as demais sairiam juntas. Parece que a união fazia a força, literalmente.

Criançada danada, como dizem no Norte. Passaram quase toda a missa se cutucando e rindo. Muitas pessoas olhavam e reclamavam, principalmente as mulheres mais idosas. Chegou até em um momento que um dos ministrantes da programação solicitou mais respeito aos fiéis, sugerindo indiretamente as crianças que elas se retirassem.

— Que diacho troxe esses lazarentos? Reclamou uma senhora que estava sentada no primeiro banco.

Quando alguém reclamava, resmungava ou reprimia com o olhar eles sossegavam, mas não por muito tempo. Sentado em frente ao banco das crianças estavam dois senhores; um parecia que cochilava e o outro não se incomodava com o agito da galerinha “medonha”.

A celebração seguia normalmente até que um dos meninos do grupo começou a cantar os cânticos da programação de maneira obscena. Mesmo sentado ele dançava como se estivesse rebolando e fazendo gestos com o quadril,

reproduzindo a fornicação. As palavras que saiam da sua boca não eram em volume alto, mas dava para perceber o tom obsceno delas.

Quando uma senhora foi até eles e reclamou, eles se separaram. E assim foram os três meninos sentar na fileira do outro lado. Em um primeiro momento acreditei que aquela senhora fosse mãe ou parente deles, ou foi quem as trouxe até lá. Mas, quando a programação se encerrou as crianças seguiram em grupo, somente eles por uma das ruas do povoado e a senhora, que morava próximo a igreja, se dirigiu com seu marido para lá.

Espera aí, ainda não acabou!

Depois que o grupo assombroso foi separado dentro da igreja, por uma questão de gênero, tudo piorou. Um dos meninos começou a fazer gestos obscenos para as meninas. Fazia sinais com as mãos e os dedos, segurava as suas partes intimas, mandava beijos e lambidas, sem nenhum problema com o pudor e a vergonha dos outros.

A maioria dos presentes não perceberam o que estava acontecendo, porque era momento de vários cânticos; ou se perceberam, não acharam graça e repudiaram ignorando. As pessoas estavam concentradas na sua fé e parecia que nada iria os abalar. Mas, quatro senhoras já estavam esgotadas de tudo aquilo e os chamaram para fora da igreja. É claro, fui observar o que iria acontecer.

Enquanto a celebração seguia em ritmo programado e “normal”. Do outro lado da rua, sentados no meio-fio da calçada, tanto meninos quanto as meninas levaram um breve sermão das senhoras furiosas. Foi o embate entre o sacro e o profano. E parecia que o profano iria vencer. Pois, ao virarem as costas e voltarem para a igreja as senhoras não perceberam, e acharam que tudo estivesse resolvido, mas a meninada atrevida começou a fazer obscenidades com danças e encenações. Era o ridículo a serviço do profano.

Eis que surgem os cavaleiros da zombaria!

Três jovens, que estavam do lado de fora da igreja e que aguardavam a procissão, começaram a rir e a zombar do grupo.

— Que catinga de mijo e rabo mijado (risos). Diz o outro jovem.

Então, os três jovens zombadores começaram a rir e a cutucar as crianças, molhando os dedos na boca e colocando nas orelhas da meninada. Imitavam o som de peidos, de várias formas e tipos. O riso foi solto nos dois grupos, mas nada que atrapalhasse o andamento da celebração.

O grupo da criançada indecente ficou sentada em frente à igreja, do lado da rua, alguns cabisbaixos, outros chorando, mas ninguém continuou com a

performance obscena. O profano foi abatido pela zombaria, ou melhor, foi calado

naquele momento, para dar lugar ao sacro no ambiente que lhe pertence.

Ao findar a noite de celebração todos foram embora. A meninada seguiu o seu rumo cantando músicas obscenas, a igreja ficou em paz e nós voltamos para casa, mas uma última frase ecoou em uma rua escura do povoado:

— Eita, moleque da bagacêra!