6 CONTOS DA FESTANÇA DA FÉ NA BOA VISTA “DO RISO”
6.6 Conto das Vidas e dos Sentidos da Vida
Fim de tarde de uma quinta-feira calorosa e seca na Boa Vista do Padre João, região do Bico do Papagaio. Dona Menina entra na igreja com seu vestido de renda, lenço florido na cabeça, bíblia na mão e:
— Deus no coração. Como ela própria afirmou.
Concentrada na missa, atenciosa a sua devoção a Santo Antônio, ela manifesta a sua fé com lágrimas nos olhos, cabisbaixa e olhar no alto; buscando a Deus com a intercessão do Santo padroeiro.
— Me visto assim pra agradá o meu Senhô e o meu Santinho, Santo Antonho. Declara a Dona Menina, com olhar que mistura paixão e respeito.
Dona Menina se mostra séria, comprometida a sua devoção, mas em alguns momentos aos meus olhos se deixa levar pelas brincadeiras. Vem à tona um sorriso debochado, extrovertido, cheio de malícias em um momento de introversão e fé.
Dona Menina se apega a sua devoção ao santo padroeiro, mas não deixa de lado a alegria quando se refere ao vestido e ao lenço.
— Esse vestido bonito é pra ficá bonita aos óio do Senhô, mas também
pra ficar bonita pros outro. Diz a senhora com sorriso largo.
— O lenço é tradição. E pra me escondê. Despois eu vô aprontá. (gargalhadas) Se referia a outra face do festejo.
Quando indagada se ela se acha ridícula, Dona Menina se mostra chateada. — Ridícula não, meu fio. Sou ispojada. Sou jovi. Divertida. Brincaiona. A expressão “ispojada” se refere a despojada, na qual a senhora se referia como uma pessoa sem enfeites, divertida, desprendida. Então, a simplicidade de Dona Menina me fez refletir sobre a pergunta “Você se acha ridículo?”, pois esta expressão é tida como algo pejorativo culturalmente.
Segue a programação com a quermesse, o que a igreja denomina de Leilão e Praça de Alimentação. Momento direcionado para que a instituição arrecade fundos e doações. Em uma das tendas improvisadas, um bar, no meio de muita gente e no
embalo de um Forró eletrônico, o que é muito popular na região e que quase não dá para entender a letra da música, lá está ela, Dona Menina.
Dona Menina se sacode, rebola, arrasta os pés, sorri, dá gargalhadas, montada na coxa do seu parceiro de dança com o braço esquerdo relaxado ao lado do corpo e na mão direita uma garrafa de cerveja. No meio do entrevero, eis que surgem gritos de devoção com a oferta ao alto com a bebida:
— Salve meu Santinho, viva meu Santo Antonho.
Dona Menina não se vê como ridícula, mas a provocação do riso se entranha nas relações que a cercam. Talvez o termo ridículo seja muito forte culturalmente. Porém, a realidade da vida é muito mais forte. Há uma comicidade envolvida nesta senhora. Há, digamos, uma palhaça dentro de Dona Menina e ela confirma isso:
— Eu sô uma paiaça mesmo, fio.
O parceiro de Dona Menina é o Seu Menino.
— Parceiro de vida, de fé e da alegria. Assim como ele descreve a sua relação com a senhora.
Casados há 32 anos, 9 filhos e 12 netos, o casal esbanja simplicidade e alegria. Ela devota de Santo Antônio, ele de São José, mas juntos levam uma fé que contagia qualquer um. Cantam, rezam, se emocionam em cada culto. Ao mesmo tempo, sorrisos no rosto, brincadeiras com os outros, piadinhas e muita história (ou estória) no ar.
Seu Menino é mais brincalhão e faz questão de participar de todas as atividades da igreja, de todos os festejos.
— O que seria do homi sem a sua fé e a sua alegria de vivê? Pergunta-me o senhor com olhar fixo aos meus olhos, mas muito cativante. Uma pergunta que não precisava de uma resposta, pois ele já sabia e vive ela.
Sapatos pretos bem lustrados, quase um espelho; calça lilás e um tanto quanto curta que dá para ver as pernas além da meia quando ele se senta, camisa rosa, boné vermelho de um partido político, e muitas joias. Assim é Seu Menino!
— Me visto desse jeito porque é bonito assim. Gosto de ficá assim,
conta. O sapato tem que ser “listrado” assim, pra se oiá. Diz o senhor com fala
firme e que sempre termina com um grande sorriso.
— O bão da vida é ser paiaço, fazer o povo si diverti. Completa Seu Menino, depois que lhe perguntei se ele teria um pouquinho de palhaço nele.
Casal de devotos que ajudam nas programações festivas da igreja, o que poderíamos chamá-los de mestres dos festejos. Eles sabem que as encenações fazem parte da festividade, tanto que, Seu Menino afirma:
— A gente faiz jeito, faiz novela pra demonstrá a nossa fé. Mais santinho
sabe que é tudo de coração. Concordando com ele, Dona Menina sorri e aplaude o
parceiro de alegria.
Ela muda de roupa depois da celebração na igreja, ele continua com a mesma vestimenta. Dona Menina prefere trocar de roupa porque segundo ela:
— É coisa diferente, na missa tem que se fantasiá de moça séria, aqui na pisadinha12 a gente bota ropa mais elegante. O elegante para a senhora é o que
seria brega para outras regiões do Brasil, vale lembrar que a proximidade com a região paraense faz com que a cultura do Tocantins tenha raízes fortes do Pará.
A festa segue até o amanhecer, mas eu me retiro antes disso. Já era o suficiente, naquele momento. E era momento de ir embora e levar na bagagem ótimas lembranças e esperança, em especial, esperança de um mundo melhor, com mais alegria. E assim seguimos, Dona Menina e Seu menino montados no lombo da palhaçada e eu galopando no Cerrado do riso.
Se é sacro ou profano, não sei. Só sei que é bom se encantar no riso.
12 A pisadinha é um termo que se refere, na região norte e nordeste, aos bailes populares, onde não
há preocupação com a discriminação de classes, nem poder aquisitivo e estrutura definida. A pisadinha apenas é aquilo que vem do povo e agrada ao povo. Alguns consideram a pisadinha como um novo ritmo musical, advindo do forró, em uma mistura entre o fandango gaúcho e batidas da Bahia.