7 CONTOS DO RÍDICULO DIALOGANDO COM O SAGRADO E O PROFANO
7.2 O Conto do Riso e da Alegria
Em uma pequena igreja católica nas margens do Povoado Cerrado, do outro lado da cidade comemora-se São João Batista. Seu Sinhô organiza os últimos detalhes para iniciar o Festejo de São João.
Entre alguns ajustes nos ornamentos, momentos de devoção com orações e sinais da cruz, beijos na medalha de São João e cantos.
— Lá se vem João Batista pra alegrá o meu povo. Oh João, oh João,
venha cá com seu povo que lhe espera de coração. Cantarola Seu Sinhô.
As mulheres limpam a igreja e as imagens com todo cuidado, cantarolando a oração de São João Batista:
— São João, voz que clama no deserto. Fazei penitência. Eis o Cordeiro
de Deus, eis aquele que tira os pecados do mundo. São João, pregador da penitência, rogai por nós. São João, precursor do Messias, rogai por nós. São João, alegria do povo, rogai por nós.
Eram 17 horas de uma tarde seca e calorosa. Época de verão na região norte do Brasil em pleno mês de junho, o verão dos nortistas. Um grupo de 12 (doze) rapazes que recém haviam chegados dos seus empregos, chegam alegres com brincadeiras, muitas delas de cunho sexual, onde batem e apertam as genitálias dos outros. Mas, nenhum deles reclama, pelo contrário, todos entram na brincadeira com maior fervor. E lá se vão eles buscar o mastro para erguer a imagem de São João Batista.
Cerca de uma hora depois, lá vêm os rapazes mais alegres do que nunca cantando músicas atuais ao ritmo de funk carioca e sertanejo universitário e regados com muita aguardente. E lá está ele, o mastro, nos ombros deles. O buraco já estava pronto, escavado no dia anterior pelo Seu Sinhô. O povo já espera ansioso e faz uma enorme algazarra ao avistar os rapazes.
Enquanto o mastro é erguido, automóveis e motocicletas são usados como instrumentos de extravagância, fazendo manobras na rua em frente à igreja para chamar a atenção das pessoas que assistiam com toda atenção. Todos regados a aguardente! E quanto maior o fervor do povo, que faziam algazarras e muitas gargalhadas, maior era o incentivo daqueles que estavam a manobrar seus veículos, muitos de forma perigosa.
No contraste entre as réstias de sol que se punha nas copas das árvores do cerrado e a lente da câmera lá estava ele, o mastro de São João Batista, todo imponente. Uma bandeirola com a imagem do santo marcava quem era celebrado no alto do mastro. O mastro parecia São João Batista, as bandeirolas as pessoas e os cordões que ligavam as bandeirolas ao mastro era a união do povo, a sua devoção e a fé católica.
— Hoje é só alegria, meu povo. Gritava um rapaz erguendo uma garrafa de aguardente e na condução de um Del Rey marrom ano 1984 ornamentado com imagens de São João Batista.
Então, perguntei a Dona Sinhá, esposa de Seu Sinhô se as festas eram sempre animadas e o que tudo aquilo significava para ela. Dona Siá diz que:
— São João é alegria. Resposta complementada com um belo brilho no olhar e um sorriso estampado de tanta felicidade. Dona Siá faz parte dos organizadores que mantém as atividades da igreja, já que não há um padre fixo na mesma.
— Isso aqui é a minha vida, meu santinho é tudo pra nóis. E assim vai sê
até o fim das nossa vida. Completa Dona Siá.
Em meio as algazarras, aos gritos e brincadeiras havia muitas palavras de ordem como: — Alegria! Um festejo regado a alegria, bebidas alcoólicas, brincadeiras e muita devoção.
Depois de posto o mastro de São João Batista todos retornaram para as suas casas, para — se ajeitá, como disse Seu Sinhô, mas ele e a Dona Siá permaneceram no ambiente para conferir os últimos detalhes. Cerca de meia hora depois eis que voltam os festeiros, todos vestidos na moda sertaneja com calça Jeans, botas de couro, camisas quadriculadas, fivelas grandes, e chapéu, inclusive as mulheres, com exceção de poucas que vestiam vestidos e saias.
Entre o evento da colocada do mastro e a celebração propriamente dita, também, teve um momento de refeição coletiva, no qual a maioria das pessoas envolvidas se reuniram em uma das casas atrás da igreja e fizeram um jantar. Inclusive, fui convidado para fazer parte do momento. Foi servido uma comida simples com arroz, mandioca, feijão e galinha caipira ao molho, mas tudo muito farto e saboroso, um verdadeiro banquete.
A ornamentação da igreja e do ambiente em frente onde estava o mastro e que ocorreu a celebração religiosa, conduzida por Dona Siá, era simples, mas bem detalhada. Havia bandeirolas coloridas que cobriam todo o ambiente, muitos adornos quadriculados e com palhas de milho nas paredes da igreja, e no altar onde estavam as imagens.
Ficou claro perceber que as pessoas estavam preocupadas em se vestir para agradar o santo celebrado e que deveria ser direcionado para a moda sertaneja.
— Quanto mais esquisito, mais chique. Diz um jovem que ao adorar a sua fé colocava seu chapéu ao peito, assim como os demais. Momento de celebração que não havia risos (só sorrisos caricatos), mas sussurros com clamor de fé. Ao final, retorna a palavra de ordem “Alegria”.
Após a celebração começou o leilão das doações para arrecadar fundos para a igreja. Neste dia foram leiloados um pernil de leitão, três galinhas caipiras, três bolos. Já eram por volta das 20 horas, então, o leilão acabou e algumas barraquinhas foram abertas para vender comidas típicas da região, mas não foram vendidas bebidas alcoólicas. Estas brotavam dos carros dos devotos.
Ao som de músicas sertanejas, o que a população local chama de “modão”, os devotos começaram a dançar e a se divertir. Seu Sinhô e Dona Siá não dançavam, só observavam com muito sorriso e muito carinho um com o outro.
— Bora meu povo, São João é só alegria. Gritava Dona Siá e Seu Sinhô concordava com palmas. O festejo foi regado, também, por muitos fogos de artifícios, do início ao fim, inclusive durante a celebração religiosa.
Já eram 21 horas, eis que chega o padre Migué14, que foi conferir a festividade. Vestido a caráter sertanejo o padre cumprimenta os fiéis e entra na dança. Então, começam a caracterizar uma grande quadrilha junina, onde todos estavam inseridos, jovens, velhos, mulheres, homens e até as crianças. Não havia coreografia definida, mas todos se entendiam.
Foi o momento mais sublime do festejo, no qual todos adoravam o santo erguendo suas mãos para as imagens, e muitos acenavam com os chapéus. A embriaguez da maioria já estava visível, mas o sacerdote não se incomodou e assim, o festejo finalizou por volta das 22 horas, já que era meio da semana. Porém, com muita alegria! A celebração continuou em outros dias sequentes.
14 Não teve como saber se o Padre João era realmente Padre, ou era apenas alguém constituído de
personagem para o festejo. Todos a quem perguntei afirmam que era um padre, mas o sorriso ficava estampado nos rostos de cada que me respondia. Que seja um padre verdadeiro, ou um falso padre, só sei que era um ridículo que divertia a todos.