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2.4 OS EFEITOS DO DIVÓRCIO

2.4.3 Contra terceiros

Os efeitos patrimoniais do divórcio entre os cônjuges aplicam-se a partir da data em que a ação é proposta. Todavia, quando estes mesmos efeitos têm repercussão contra terceiros, a sua aplicabilidade só tem lugar a partir da data do registro da sentença.

Isso, nos termos do artigo 100, § 1º, da Lei nº 6.015/73 (Lei de Registros Públicos), que prevê: “antes de averbadas, as sentenças não produzirão efeito contra terceiros”. (BRASIL, 1973).

Dessa forma, pode-se entender que, para terceiros, a sentença de separação só tem efeito a partir do seu registro e não a partir do trânsito em julgado.

Para Cahali (2005, p. 1192), “a formalidade registraria não tem em vista os efeitos pessoais e patrimoniais entre os cônjuges ─ tende, mais propriamente, à produção de efeitos de publicidade, com vistas, portanto, ao conhecimento presumido de terceiros”.

Assim, é a partir do trânsito em julgado da sentença concessiva de divórcio que a eficácia se instaura e irradia seus efeitos, não apenas entre as partes, mas também erga omnes, ou seja, para todos.

Portanto, deve-se, primeiramente, conceituar esse terceiro, o qual, nas palavras de Venosa (2012, p. 483), “é aquele que não participa do negócio jurídico, para quem a relação é absolutamente alheia”.

Dessa forma, deve ser considerado terceiro como quem quer que apareça estranho ao pactuado, ao vínculo e aos efeitos finais do acordo. (VENOSA, 2012, p. 372).

Segundo Câmara (2006, p. 18), “terceiro é um conceito que se chega por negação. É terceiro quem não é parte”. Desse modo, o contrato não pode prejudicar terceiros.

Por isso, a distinção entre parte e terceiro é de suma importância, pois, em regra, somente a parte é atingida pela coisa julgada; contudo alguns terceiros também podem ser afetados.

A esse respeito, Cintra, Grinover e Dinamarco (2000, p. 15), diz que “em princípio os efeitos da coisa julgada limitam-se as partes, mas poderão atingir em maior ou menor intensidade a esfera de direito de outras pessoas, de terceiros que não fazem parte da relação jurídica”. Logo surgem, então, os efeitos reflexos da sentença, como consequência natural da vida em sociedade.

Para conceituar o instituto terceiros, no processo civil, cabível é o critério de exclusão, visto que serão terceiros aqueles que não forem partes no processo, aqueles que não forem nem autor nem réu.

Enquanto terceiro, a pessoa não realiza atos no processo e não é titular de poderes ou faculdades, ônus, etc., que caracteriza a relação processual (não é sujeito dos atos processuais). E, porque não participa da preparação do julgamento que virá, não é lícito estender-lhe os efeitos diretos da sentença (ele não é sujeito dos efeitos processuais).

Quanto à extensão dos efeitos da coisa julgada, colhe-se o seguinte entendimento do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina:

RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRÂNSITO. ALEGADA COISA JULGADA MATERIAL QUANTO À CULPA PELO SINISTRO. INSUBSISTÊNCIA. AUTOR QUE NÃO FEZ PARTE DA DEMANDA ANTERIORMENTE AJUIZADA EM FACE DO RÉU. COISA JULGADA QUE SE OPERA PERANTE AS PARTES (LIMITES SUBJETIVOS DA COISA JULGADA). IMPOSSIBILIDADE DO AUTOR BENEFICIAR-SE DE SEUS EFEITOS. EXEGESE DO ART. 472 DO CPC. PRELIMINAR AFASTADA. AFIRMAÇÃO DE QUE O CONDUTOR RÉU, AO REALIZAR MANOBRA DE TRAVESSIA DE AVENIDA, SEM AS CAUTELAS DEVIDAS E SEM OBSERVAR O TRÁFEGO LOCAL, OBSTRUIU A PASSAGEM E COLIDIU COM O VEÍCULO DO AUTOR QUE TRAFEGAVA NORMALMENTE EM SUA MÃO DE DIREÇÃO. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA. DINÂMICA DO ACIDENTE CONTROVERTIDA. BOLETIM DE OCORRÊNCIA NÃO

CONCLUSIVO. VERSÕES DAS PARTES ABSOLUTAMENTE

CONFLITANTES. DIVERGÊNCIA ENTRE OS DEPOIMENTOS PRESTADOS PELAS TESTEMUNHAS OCULARES. ENTRECHOQUE DE PROVAS. INVIABILIDADE DE FORMAÇÃO DE JUÍZO DE CULPABILIDADE SOBRE O SINISTRO. INEXISTÊNCIA DE SUPORTE PROBATÓRIO HÁBIL A SUSTENTAR A TESE DO AUTOR. EXEGESE DO ART. 333, I, DO CPC. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA MANTIDA. RECURSO DESPROVIDO. 1."Nos termos do art. 472 do CPC, a sentença somente faz coisa julgada entre as partes que tenham figurado na relação processual a ela subjacente, não beneficiando nem prejudicando terceiros. É o que se convencionou chamar de eficácia subjetiva da coisa julgada"(AgRg no Resp 1205549/RS, Rel. Ministro CESAR ASFOR ROCHA, Rel. p/ Acórdão Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 23/08/2011, DJe 06/09/2011). 2. "'Se mesmo com o exame criterioso das provas e com o confronto dos elementos de convicção produzidos pelos litigantes, não for possível ao julgador proferir um veredicto conclusivo, há entrechoque absoluto de provas, que enseja a improcedência do pedido formulado, mesmo porque incumbiria ao autor a prova dos fatos constitutivos' (Des. Monteiro Rocha)". (SANTA CATARINA, 2013, grifo do autor).

Assim, percebe-se que, em regra geral, os efeitos diretos da sentença não podem ser estendidos a terceiros.

Diante disso, surgem, acerca do assunto, alguns questionamentos, dentre eles: como ficaria a situação de um casal que decide se divorciar, tendo, por exemplo, contraído um financiamento de imóvel em conjunto? Da mesma forma, rescindir o contrato poderia implicar em prejuízo financeiro para ambos ou para o credor, neste caso, a terceiro interessado? Assim como, neste caso, teria o credor, razão de anuir na transferência da partilha? Poderiam, ainda, os cônjuges combinarem que um permaneça no bem, desde que o beneficiado arque sozinho com todas as prestações futuras decorrentes do financiamento?

Possibilidades de respostas a tais questionamentos serão discutidas no decorrer deste estudo.

3 CONTRATO HABITACIONAL

Neste capítulo, será apresentado o conceito de contrato, segundo alguns doutrinadores, seus principais pressupostos e requisitos, bem como os principais princípios que regem a formação dos contratos, a fim de se estabelecer parâmetros de pesquisa para o objeto de estudo, ou seja, o contrato habitacional.

Da mesma forma, será apresentada a classificação dos contratos, além do sistema a eles vinculados, qual seja o Sistema Financeiro de Habitação, que é regido pela Lei nº 4.380/64, com alterações trazidas pela Lei nº 8.245/91, cujo objetivo é facilitar e promover a construção e a aquisição da casa própria ou moradia, especialmente pelas classes de menor renda da população.