• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 1 – O CONTRADITÓRIO

1.4 Concretização do contraditório

1.4.5 Contraditório e fundamentação das decisões

Indispensável analisar a relação entre contraditório e o dever de fundamentar as decisões. Marinoni, Arenhart e Mitidiero esclarecem, em obra conjunta, que “o dever de motivação das decisões judiciais é inerente ao Estado Constitucional e constitui verdadeiro banco de prova do direito ao contraditório das partes. Não por acaso a doutrina liga de forma muito especial contraditório, motivação e direito a processo justo”.52

A fundamentação das decisões configura suporte instrumental imprescindível para ao adequado exercício do contraditório. “A garantia da motivação consiste na última manifestação do contraditório”.53

A obrigatoriedade de fundamentação das decisões apresenta duas funções: (i) uma endoprocessual, que se relaciona com a necessidade de as partes conhecerem as razões que formaram o convencimento do julgador, para que possam avaliar a conveniência de interpor eventual recurso; e ii) outra de natureza exoprocessual, consistente na viabilidade de “controle da decisão do magistrado pela via difusa da democracia participativa, exercida pelo povo em cujo nome a sentença é pronunciada”.54

52 MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Curso de processo

civil. v. I. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015, p. 509-510.

53 ALVIM, Tereza Arruda. Embargos de declaração. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 248. 54 DIDIER, Fredie. Sobre a fundamentação da decisão judicial. Disponível

em: <http://www.frediedidier.com.br/artigos/sobre-a-fundamentacao-da-decisao-judicial/>. Acesso em: 14 dez. 2018.

A respeito do controle extraprocessual, confira-se o que consignou Tucci,55 citando Taruffo:

Com efeito, considerando a dimensão de seu significado jurídico- político, desponta, na atualidade, a necessidade de controle (extraprocessual) ‘generalizado’ e ‘difuso’ sobre o modus operandi do juiz no tocante à administração da justiça. E isso implica, como bem observa Taruffo, que ‘os destinatários da motivação não são somente as partes, os seus advogados e o juiz da impugnação, mas também a opinião pública entendida em seu complexo, como opinião quisque de populo’.

De igual modo, mostram-se relevantes os esclarecimentos apresentados na obra conjunta de Cintra, Grinover e Dinamarco:

Na linha do pensamento tradicional a motivação das decisões judiciais era vista como garantia das partes, com vistas à possibilidade de sua impugnação para efeito de reforma. (...) Mais modernamente, foi sendo salientada a função política da motivação das decisões judiciais, cujos destinatários não são apenas as partes e o juiz competente para julgar eventual recurso, mas quisquis de populo, com a finalidade de aferir-se em concreto a imparcialidade do juiz e a legalidade e justiça das decisões.56

O dever de fundamentar as decisões está previsto no texto constitucional (art. 93, IX), mas é a lei, especialmente o Código de Processo Civil, que lhe dá concretude, estabelecendo regras descritivas dos comportamentos que devem ser observados pelo julgador no momento de decidir.

O art. 489, § 1º, do Código de Processo Civil estabeleceu o que Streck chamou de “verdadeira criteriologia para decidir”,57 explicitando, de forma objetiva e didática, as hipóteses em que se considera fundamentada uma decisão judicial.

O exame desse dispositivo legal é relevante por versar sobre a extensão do dever de fundamentar as decisões, que guarda intensa relação com o contraditório. Se o julgador não apresenta, de forma clara e adequada, os fundamentos que utilizou para justificar a conclusão adotada, prejudica-se, ou mesmo, em algumas hipóteses, impede-se o exercício do contraditório pela parte inconformada. O recurso, que representa o instrumento do contraditório disponibilizado ao vencido, nada mais é do que a impugnação aos

55 TUCCI, José Rogério Cruz e. Comentários ao Código de Processo civil. v. VIII. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016.

56 CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel.

Teoria geral do processo. 19. ed. São Paulo: Malheiros, 2003, p. 68.

57 STRECK, Lenio. Jurisdição, fundamentação e dever de coerência e integridade no novo CPC. Revista

Consultor Jurídico, 23 de abril de 2016. Disponível em:<www.conjur.com.br/2016-abr-23/observatorio-

fundamentos da decisão recorrida. A falta ou deficiência da fundamentação, portanto, configura óbice ao direito de recorrer e, em consequência, à concretização do contraditório.

Ao examinar os incisos I, II, III e V do mencionado dispositivo legal, verifica-se que todos eles, em última análise, estabelecem regras que obrigam o julgador a demonstrar a subsunção do direito ao caso concreto. Não deve o julgador (i) se limitar a indicar ou reproduzir ato normativo, sem explicar sua relação com a causa; (ii) empregar conceito jurídico indeterminado, sem esclarecer o motivo de sua incidência no caso; (iii) invocar motivo que se preste a justificar qualquer decisão; e (iv) invocar precedente ou súmula, sem demonstrar sua aplicação ao caso sob exame. Em síntese, o Código de Processo Civil considera desfundamentada a decisão que não indica elementos que se relacionem com o caso concreto apreciado.

Em relação a esse ponto, confiram-se os comentários de Alvim:

Não basta a indicação da lei que, segundo o magistrado, seria aplicável à situação concreta; nem a formulação da norma aplicável, com o emprego de linguagem diferente daquela usada pela lei. É necessário que se expliquem o (s) porquê (s) da escolha da norma para a solução do caso concreto. (...) Quanto mais nublada é a relação da solução normativa proferida pelo magistrado (por exemplo, texto da lei que contém conceito indeterminado + princípios jurídicos + citações de precedentes não idênticos do ponto de vista fático) com os fatos da causa mais óbvia é a necessidade da densidade da fundamentação. 58

Quanto aos outros dois incisos do § 1º do art. 489 do Código de Processo Civil (incisos IV e VI), ambos possuem estreita relação com o poder de influência inerente ao exercício do contraditório.

O inciso IV obriga o julgador a enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada, e o inciso VI impõe que, ao deixar de observar enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, o julgador demonstre “a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento”.

Sob a ótica da concepção tradicional do contraditório (binômio informação/reação), bastaria ao julgador demonstrar as razões que fundamentavam o dispositivo da decisão. Nos dias atuais, este entendimento sobre a fundamentação das

decisões encontra-se ultrapassado, em verdadeiro descompasso com que se entende por contraditório, na sua dimensão substancial.

A decisão deve refletir os argumentos trazidos ao processo. Se o contraditório significa direito de influir, precisa ter como contrapartida o dever de debate e de diálogo, inerente à estrutura cooperativa do processo. Não é possível aferir se a influência foi efetivada, se não for exigido que o julgador examine os fundamentos levantados pelas partes.

Na verdade, se as alegações trazidas aos autos pelas partes não precisassem ser obrigatoriamente examinadas pelo julgador no momento da decisão, o contraditório não passaria de exigência meramente formal, pois nenhuma garantia seria dada às partes de que efetivamente influiriam no julgamento. Nesse sentido, Alvim esclarece que

o contraditório liga-se à participação das partes, alegando e provando o direito que afirmam ter (em sentido lato), à atividade mais expressiva do juiz e, como se fosse um último ato de uma peça teatral, ao fato de o juiz demonstrar, na fundamentação da sentença, que se inteirou das alegações das partes, somadas às provas produzidas e que os elementos interferiram o positivamente (sendo levados em conta) ou negativamente (sendo afastados) como base da decisão.59

De fato, a certeza de que terá havido influência decorre da análise da fundamentação da decisão.

Importantíssimo ponto relacionado à interpretação do art. 489, § 1º, IV, do Código de Processo Civil é saber quais são as questões relevantes que, suscitadas pelas partes, deverão ser examinadas pelo julgador no momento de decidir.

Mais uma vez, invocam-se as ponderações de Alvim:

Ser relevante é, a grosso modo, ser capaz de influir no resultado do processo. Mas o critério para se saber se uma questão é relevante, e se deve ser referida na decisão, não pode ser exclusivamente o do juiz (ou, pelo menos, não dos juízes de 1ª e 2ª instância). As questões que as partes estimam ser relevantes devem necessariamente ser referidas na decisão, ainda que o Tribunal expressamente observe que, a seu ver, a questão não é relevante.60

Se couber ao julgador a definição sobre a relevância da questão, não haverá contraditório. Nesta hipótese, o magistrado poderá desconsiderar as alegações

59 ALVIM, Tereza Arruda. Embargos de declaração. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 237. 60 ALVIM, Tereza Arruda. Embargos de declaração. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 221.

apresentadas pelas partes e responder apenas àquelas que acha que deve responder, afastando a possibilidade do exercício do poder de influência.

Antes da entrada em vigor do Código de Processo Civil de 2015, o Supremo Tribunal Federal, em questão de ordem suscitada no Agravo de Instrumento 791,292, do qual foi relator o Ministro Gilmar Mendes, afirmou a repercussão geral da questão relativa à obrigatoriedade de fundamentação das decisões. Em 23.06.2010, o mérito do recurso extraordinário vinculado ao agravo de instrumento foi julgado, tendo sido firmada a seguinte tese: “O art. 93, IX, da Constituição Federal exige que o acórdão ou decisão sejam fundamentados, ainda que sucintamente, sem determinar, contudo, o exame pormenorizado de cada uma das alegações e provas”.

Não obstante, mesmo após a vigência do Código de Processo Civil de 2015, é possível identificar inúmeros julgados, não só do Supremo Tribunal Federal,61 mas também do Superior Tribunal de Justiça,62 que concluíram que o julgador não está obrigado a enfrentar, um a um, os argumentos trazidos pela parte.