CAPÍTULO 2 – CONTRADITÓRIO AMPLIADO E O PAPEL DO AMICUS
2.2 O amicus curiae
Del Prá descreve que a figura do amicus curiae “parece ter surgido como uma forma de auxílio à corte no esclarecimento de questões fáticas e de direito, sem a manifestação de interesse próprio”.86 Esclarece que, com a absorção do instituto pelo direito norte-americano, o amicus curiae assumiu função mais comprometida, em favor dos interesses não representados em juízo pelas partes. Teria havido, na visão do autor, um “abandono da original neutralidade”.
Para Vasconcelos, o amicus curiae
diz respeito a uma pessoa, entidade ou órgão com interesse em uma questão jurídica levada à discussão no Poder Judiciário. Originalmente, amicus é amigo da corte e não das partes, uma vez que se insere no processo como um terceiro que não os litigantes iniciais, movido por um interesse jurídico relevante não correspondente ao das partes. Diante de uma razão maior, porém, qual seja um critério social preponderante para o desfecho da ação, intervém no feito visando a uma decisão justa.87
85 TALAMINI, Eduardo. Amicus curiae no CPC/15. Migalhas, 22 fevereiro de 2019. Disponível em:<www.migalhas.com.br/dePso/16,MI134923,71043-Amicus+curiae+no+CPC15>. Acesso em: 8 out. 2018.
86 DEL PRÁ, Carlos Augusto Rodrigues. Amicus curiae: instrumento de participação democrática e aperfeiçoamento da prestação jurisdicional. Curitiba, Juruá, 2007, p. 27.
87 VASCONCELOS, Clever Rodolfo Carvalho. Natureza jurídica da intervenção do amicus curiae no
controle concentrado de constitucionalidade. Migalhas, 15 de
maio de 2017. Disponível em:<https://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI39058,71043- Natureza+juridica+da+intervencao+amicus+curiae+no+controle>. Acesso em: 15 nov. 2018.
Já Maciel esclarece que
o terceiro que comparece ao processo alheio vem, na realidade, mas com o intuito de ajudar uma das partes do que mesmo trazer esclarecimento ao tribunal. (...) O amicus curiae é um instituto de matiz democrático, uma vez que permite, tirando um ou outro caso de nítido interesse particular, que terceiros penetrem no mundo fechado e subjetivo do processo para discutir objetivamente teses jurídicas que vão afetar toda a sociedade.88
Beneduzi89 define que
O amicus curiae é um terceiro que se torna sujeito do processo, mas não parte, voluntariamente, a convite ou por iniciativa própria, intervindo não para defender uma posição jurídica de que alega ser titular ou sobre a qual possa ter algum interesse jurídico, mas para fornecer ao juízo subsídios, interessada ou desinteressadamente, que possam ser úteis para o julgamento da causa ou do recurso quando esta causa ou recurso se revestir de uma relevância especial que justifique sua intervenção.
Por fim, relevante mencionar Wambier:
Trata-se de terceiro que é admitido no processo com o escopo de fornecer subsídios instrutórios para a solução de causas que apresentem especial relevância ou complexidade. O amicus curiae guarnece o processo com elementos voltados a auxiliar o órgão julgador na tomada da decisão.90
Dos conceitos apresentados, é possível depreender duas características relacionadas com o amicus curiae sobre as quais parece não haver maiores divergências. O amicus intervém no processo como terceiro91 e um dos papéis por ele desempenhado é o de pluralizar a discussão e fornecer subsídios para a solução da causa.
É preciso, contudo, investigar como se dá a participação do amicus curiae em processo cujo objeto transcende o interesse das partes.
88 MACIEL, Adhemar Ferreira. Amicus curiae: um instituto democrático. Revista de Informação
Legislativa, v. 153, ano 39, Brasília, 2002. Disponível em:
<www.senado.gov.br/web/cegraf/ril/Pdf/pdf_153/R153-01.pdf>. Acesso em: 10 jan. 2019.
89 BENEDUZI, Renato. Comentários ao Código de Processo Civil. v. II. Coordenadores Sérgio Cruz Arenhart e Daniel Mitidiero. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 270.
90 WAMBIER, Luiz Rodrigues. Os subsídios de natureza jurídica e a admissão de escritório de
advocacia como amicus curiae. Disponível em:<www.wambier.com.br/tag/amicuscuriae/>. Acesso em: 8
out. 2018.
91 “Para o fim que nos interessa – destacar, de um lado, as pessôas indispensáveis à formação das relações processuais e, de outro, as pessôas estranhas, por não necessárias à existência da acção – terceiros serão os que não se puderem compreender na definição de ‘parte’. O conceito é obtido por exclusão. COSTA, Alfredo de Araujo Lopes da. Da intervenção de terceiros no processo. São Paulo: C. Teixeira & Cia Editores, 1930, p. 12.
Estabeleceu-se, como ponto de partida para o exame dessa questão, a identificação e a análise dos dispositivos legais que preveem a intervenção de amicus curiae nos mais variados tipos de processo ou procedimento.
Até a edição do Código de Processo Civil de 2015, não havia dispositivo legal que mencionasse a expressão “amicus curiae”. Isso não significa, contudo, que não havia previsão legal do instituto. Bueno menciona algumas leis esparsas que, desde 1976, já continham dispositivo que possibilitava a intervenção de determinadas pessoas em um tipo específico de processo para atingir uma definida finalidade. O autor chamou essa modalidade de intervenção de “vinculada”.92
Em todos esses casos, a lei definiu especificamente quem poderia intervir no processo e com qual o objetivo. Assim, por exemplo, a Lei 6.385/1976 estabeleceu que, em processos que tenham por objeto matéria incluída na competência da Comissão de Valores Mobiliários, será esta intimada para, se quiser, oferecer parecer ou prestar esclarecimentos. Como se vê, a própria norma definiu o escopo da intervenção: permitir a manifestação da entidade acerca de matéria cujo exame está incluído na sua competência.
Há, ainda, outros dispositivos legais que, embora também não tenham empregado a expressão “amicus curiae”, trataram desta modalidade de intervenção, mas, sob outro enfoque. A Lei 9.868/1999 prevê a possibilidade de, considerando a relevância da matéria e a representatividade do postulante, o relator de ação direta de inconstitucionalidade admitir a manifestação de “outros órgãos ou entidades”. Quase dez anos depois, a Lei 11.672/2008, que estabeleceu o procedimento para o julgamento de recursos repetitivos, incluiu dispositivo no Código de Processo Civil de 1973 que permitiu ao relator de recurso especial repetitivo, considerando a relevância da matéria, admitir a manifestação de pessoas, órgãos ou entidades com interesse na controvérsia.
Por fim, após alguns anos da Lei dos Recursos Repetitivos, o Código de Processo Civil de 2015 fez a primeira referência expressa à figura do amicus curiae. Na parte dedicada à intervenção de terceiros, incluiu um único artigo para tratar do amicus curiae. Trata-se do art. 138, que estabelece a possibilidade de, considerando a relevância da
92 “A intervenção ‘vinculada’ é aquela prevista com relação à União Federal (ar. 5º, Parágrafo único, da Lei 9.469/97), à CVM, ao CADE, ao INPI e à OAB. Nesses casos – que coincidem totalmente com os casos de amicus ‘públicos’ -, as leis de regência específicas descrevem, de forma razoavelmente clara, quando e por que aquelas entidades podem intervir”. BUENO, Cassio Scarpinella. Amicus curiae no processo civil
matéria, a especificidade do tema ou a repercussão social da controvérsia, ser solicitada ou admitida a participação de pessoa natural ou jurídica, órgão ou entidade especializada, com representatividade adequada.
Não obstante, em diversos outros dispositivos do Código de Processo Civil93 fez- se menção à possibilidade de ser admitida a manifestação de pessoas, órgãos ou entidades, ainda que não tenha sido empregada a expressão “amicus curiae”.
Pelo exame conjunto do art. 138 do Código de Processo Civil de 2015, que se revela como regra geral que permite, no processo civil, a intervenção do amicus curiae, e do art. da Lei 9.868/1999, que trata da participação de terceiros no controle concentrado de constitucionalidade, observa-se que os requisitos estabelecidos em ambos os dispositivos são muito semelhantes. Esta circunstância evidencia que a intervenção do amicus curiae prevista posteriormente no Código de Processo Civil de 2015 foi claramente inspirada na regra anterior, que permitia a participação de terceiros no controle abstrato de constitucionalidade.
Por essa razão e considerando que a regra relativa ao controle concentrado já está plenamente sedimentada no ordenamento jurídico brasileiro e na jurisprudência do Supremo Tribunal há quase 20 anos, mostra-se relevante examinar, primeiro, como se dá a participação do amicus curiae nas ações que viabilizam o controle concentrado de constitucionalidade. Esta análise contribuirá para melhor compreensão do instituto.