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Contrato de corretagem de compras coletivas

CAPÍTULO III – COMPRAS COLETIVAS

3.1 Natureza jurídica do contrato de compras coletivas

3.1.1 Contrato de corretagem de compras coletivas

Apesar de possuir aspectos peculiares, sendo relação de consumo sequer prevista pelo CDC, já que é trilateral, com três agentes participantes e cada um com objetivos distintos, o contrato de compras coletivas não é inominado, muito menos mistura de vários contratos. A relação mantida entre loja virtual, fornecedor final e consumidor é de corretagem, negócio jurídico expressamente regulado pelo Código Civil e que, de acordo com o artigo 722, tem a seguinte definição: “Pelo contrato de corretagem, uma pessoa, não ligada a outra em virtude de mandato, de prestação de serviços ou por qualquer relação de dependência, obriga-se a obter para a segunda um ou mais negócios, conforme as instruções recebidas.”

Por esta conceituação legal e pelo que fora apresentado no início deste capítulo, fica fácil inferir que a relação mantida nas compras coletivas é de corretagem. O site, através da criação e divulgação de ofertas, atua como corretor de negócios para o fornecedor final, tendo com objetivo conseguir número mínimo de consumidores para adquirirem o que está sendo anunciado.

Vê-se que cada parte tem sua função delimitada. O site atua como corretor, sendo, de acordo com a divisão criada por Paulo Lobo85, classificado como livre, já

que não faz parte de uma profissão regulamentada, mas apenas como intermediadores sem nomeação oficial. Por outro lado, o fornecedor final atua como comitente, pois, através do pagamento de comissão, contrata o site para a realização dos negócios.

3.1.1.1 Características

Por ser uma corretagem, o contrato de compras coletivas tem todas as características imanentes a tal negócio jurídico. Assim, é negócio bilateral com obrigações recíprocas para os dois polos. O site recebe o encargo de criar os anúncios e conseguir clientes e o comitente fica obrigado a pagar a remuneração, caso o negócio seja concluído. As obrigações são mútuas, o que torna o negócio sinalagmático.

A segunda característica é que o contrato de compras coletivas é acessório ao negócio final que será celebrado entre o comitente e os internautas. É contrato que existe na expectativa de outro que poderá ser concluído. Se o número mínimo de consumidores for alcançado, o negócio principal será concretizado, dando origem às obrigações finais do pacto acessório, que é o pagamento da comissão. É, então, como ensina Sílvio Venosa86, contrato preparatório.

A onerosidade também qualifica o contrato de compras coletivas. A celebração da intermediação gera encargos financeiros e benefícios patrimoniais para os dois polos do negócio. O site corretor assumirá gastos para a criação e propagação dos anúncios e ofertas, mas, ao mesmo tempo, caso o pacto principal seja firmado, receberá a comissão que lhe fora prometida. O comitente, apesar de desembolsar a remuneração do site, receberá bônus, pois, sem despesas para buscar a realização do negócio, ficará com as verbas auferidas no contrato.

A quarta característica que envolve as compras coletivas é a álea. É contrato que a vantagem principal é incerta, sendo inerente aos riscos da atividade econômica desenvolvida. O site pode despender todos os seus esforços para que o pacto principal seja concretizado, mas, mesmo assim, o negócio pode não atingir o

86 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: contratos em espécie. 4ª ed., São Paulo, Atlas, 2004, vol. 3,

número mínimo de consumidores exigidos, resultando em prejuízos, já que a comissão não será paga. O corretor, como lembra Caio Mario da Silva Pereira87,

“corre os riscos de nada receber, nem obter o reembolso das despesas da celebração.”. A atividade dos sites é de resultado, não de meio. A remuneração, consoante estabelece o artigo 72588 do Código Civil, somente existirá se o resultado buscado pelo comitente for alcançado.

A quinta e última característica é relacionada à consensualidade e à informalidade. O negócio de corretagem é formado através da convergência de vontades entre os dois polos da relação. O consentimento duplo origina o contrato, sem, contudo, existir qualquer tipo de exigência formal. O negócio pode ser escrito ou verbal. Não há nenhuma exigência legal para a formalização. As partes são livres para consentir na sua realização.

3.1.1.2 Objeto do contrato

Como o corretor se obriga a conseguir a realização de negócios para o comitente, o objeto do contrato de compras coletivas acaba sendo obrigação de fazer. Todos os esforços devem ser despendidos para que, com base nas instruções repassadas pelo fornecedor final, o anúncio seja criado e os consumidores atraídos. O corretor se obriga a conseguir um resultado almejado pelo comitente.

Além da obrigação de fazer do corretor, este não pode exercer seu labor em prol de atividades contrárias ao direito. Não é possível haver compras coletivas de coisas ilícitas. O site somente pode anunciar objetos lícitos, possíveis e determinados, enquadrando-se nos requisitos de validade do negócio jurídico preconizados no artigo 104 do Código Civil.

87 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. Rio de Janeiro, Forense, 2003, vol. 3, p.

385.

88Art. 725. A remuneração é devida ao corretor uma vez que tenha conseguido o resultado previsto

3.1.1.3 Obrigações das partes

Pela corretagem no contrato de compras coletivas, o site tem direito a receber a sua comissão e o comitente a ficar com o valor do negócio principal. Porém, ao lado dos bônus do negócio, os dois polos têm obrigações recíprocas.

O site é obrigado, nos termos do artigo 72389 do Código Civil, a despender todos os seus esforços para que o negócio seja realizado. Para isso, deve agir com diligência e prudência. Os anúncios publicados nos seus espaços virtuais devem ser elaborados com zelo e dedicação, expondo todas as informações necessárias para a pactuação do negócio principal.

Deve haver primazia pela publicidade e transparência. Além de intermediarem os interesses do comitente, os sites satisfazem os interesses dos consumidores, terceiros que não são estranhos à relação e que têm direito a celebração de negócio seguro e livre de riscos, sob pena de serem reparados pelas perdas e danos. A obrigação do site acaba sendo dupla. O corretor deve ser cuidadoso nos dois lados, procurando sempre intermediar e ofertar negócios idôneos e seguros para os consumidores, bem como agir com presteza para que o comitente possa prestar seus serviços ou vender seus produtos.

Quanto ao comitente, a sua principal obrigação dentro da relação de corretagem é pagar a remuneração que o site de compras coletivas faz jus. Esta remuneração, que é paga a título de comissão, sempre é previamente estabelecida entre os contratantes das compras coletivas e fica, no mínimo, em 50% do valor do negócio principal.

Concluído o contrato de corretagem, o comitente celebra o pacto principal, advindo daí também suas obrigações. Ele também deve empregar todos os seus esforços para, como fornecedor de produtos ou serviços, satisfazer as necessidades dos consumidores, atendendo perfeitamente todas as informações repassadas no anúncio divulgado pelo site de compras coletivas.

89Art. 723. O corretor é obrigado a executar a mediação com diligência e prudência, e a prestar ao

cliente, espontaneamente, todas as informações sobre o andamento do negócio. Parágrafo único. Sob pena de responder por perdas e danos, o corretor prestará ao cliente todos os esclarecimentos acerca da segurança ou do risco do negócio, das alterações de valores e de outros fatores que possam influir nos resultados da incumbência.

3.1.1.4 Extinção do contrato de compras coletivas

Por se pacto acessório, o contrato de compras coletivas somente se conclui e se extingue quando o negócio principal é concretizado entre o comitente e os consumidores. A partir daí, a remuneração é devida e a primeira parte das obrigações cessa. Só que esta não é a única maneira de extinção. Se o número mínimo de consumidores não for atingido, o pacto principal não será realizado e, por reflexo, extinguirá o contrato de corretagem, sem que haja, para o site, pagamento da comissão, pois isto é advindo da álea.

Porém, caso todos os requisitos sejam atingidos, ou seja, se a quantidade exigida de internautas adquirir a oferta, mas um deles venha a exercer o direito de arrependimento, o site, em que pese o artigo 725 do Código Civil, não terá direito a comissão desta relação desfeita. O artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor estabelece que o desistente será restituído integralmente, com isso, a loja não terá como reter parte da comissão que lhe era de direito, já que, por ser relação de consumo, as normas serão interpretadas em favor do consumidor, excluindo o direito de comissão e extinguindo completamente o negócio.