CAPÍTULO II – COMÉRCIO ELETRÔNICO (E-COMMERCE)
2.4 Vantagens e desvantagens do comércio eletrônico
Apesar de ser mais um modelo de prática comercial, visando, como qualquer outra, atingir lucros, o comércio eletrônico se tornou fenômeno crescente e com números assustadores por motivos que vão além da busca pela mais valia. É algo que vai além da expansão da internet, em que cada vez mais pessoas estão no ambiente online procurando interagir com as demais. Na verdade, a soma de diversos fatores70 fez que o comércio eletrônico conquistasse seu espaço e fosse utilizado como principal meio de aquisição de bens e serviços. Porém, também será visto que, por ser prática capitalista, a mercancia virtual tem diversos problemas e defeitos que atrasam seu crescimento e afastam a chegada de novos consumidores.
2.4.1 Vantagens
Ao contrário de várias práticas mercantis, o comércio eletrônico traz vantagens para os dois lados da relação. Tanto fornecedores, quanto consumidores, auferem benefícios, razão pela qual o sistema se encontra em crescente expansão. Vender ficou mais fácil, como comprar também.
2.4.1.1 Vantagens para os fornecedores
Para os fornecedores, que possuem como meta principal a redução de custos e aumento da margem de lucros, as seguintes vantagens podem ser elencadas:
70 Poucas inovações humanas englobam tantas vantagens quanto o comércio eletrônico. A natureza
global da tecnologia, seu baixo custo, a oportunidade de alcançar centenas de milhões de pessoas, seu caráter interativo, a infinidade das aplicações potenciais, a multiplicidade de recursos e o rápido crescimento da internet resultam em inúmeras vantagens para as empresas, os indivíduos e a sociedade. São vantagens que mal começam a se materializar, mas que irão se expandir significativamente com a ampliação do comércio eletrônico. (TURBAN, Efraim; et al. Tecnologia da
informação para gestão: transformando os negócios da economia digital. – São Paulo: Bookman, 2002, p.160)
Expansão do mercado consumidor: Como a internet não possui limites geográficos, é possível, através apenas de uma loja virtual, ofertar bens e serviços para clientes dos locais mais longínquos. Tudo isso sem aumento de custos com marketing, propaganda e novas instalações físicas. Para se ter acesso aos novos mercados, não se faz necessário ir fisicamente até eles, mas apenas se manter online. Além disso, o acesso é ininterrupto. Os sites funcionam em sistema 24x7, ou seja, vinte quatro horas por dia e durante toda a semana.
Redução de custos administrativos com manutenção de estabelecimento e encargos trabalhistas: Com a adoção do comércio eletrônico e a migração para o sistema virtual, as empresas diminuem os gastos inerentes aos estabelecimentos físicos, como água e energia, manutenção do estoque de produtos e encargos trabalhistas, já que se reduz consideravelmente o número de funcionários necessários ao desenvolvimento da atividade. Cargos como o de vendedor, por exemplo, praticamente são extintos. São mantidos apenas alguns setores, como gerência e logística. Há, também, a digitalização dos procedimentos, deixando-se de lado os modelos físicos, como o uso de papel. A atividade se torna ambientalmente mais correta, em que, segundo Turban, Mclean e Vetherbe, “reduz-se quase 90% dos custos de criação, processamento, distribuição, armazenamento e recuperação de informações em relação a documentos baseados em papel.”71.
Infraestrutura menor e mais barata: Para ingressar no mercado eletrônico, o empresário necessita fazer alguns investimentos, mas os gastos são bem menores que instalar uma sede física. As despesas existentes são relacionadas à criação e manutenção da loja virtual. Ao contrário do comércio tradicional que os gastos são diversos e maiores.
Redução dos atravessadores: Para pequenas e médias empresas, o comércio eletrônico retira a participação dos intermediários, estes que são responsáveis por aumentar os preços dos produtos e conquistar parcela considerável da clientela. Além disso, permite-se uma maior efetivação da livre concorrência. Na internet, qualquer um pode oferecer seus bens e serviços, sem, contudo, ser atrapalhado pelos grandes grupos empresariais, que, no sistema tradicional, ofuscam quem inicia no mercado.
2.4.1.2 Vantagens para os consumidores
Se para os fornecedores o comércio eletrônico permite o aumento dos lucros, para os consumidores, o principal motivo é a possibilidade de comprar produtos com preços mais acessíveis. Parecem, então, vantagens contraditórias. De certo modo, para aumentar os lucros, seria necessário o encarecimento das ofertas. Contudo, como visto no tópico anterior, o comércio eletrônico propicia a redução de diversos custos, possibilitando, igualmente, a minoração de preços e, consequentemente, aumento das vendas, razão pela qual são conquistados lucros maiores. Desse modo, as seguintes vantagens para os consumidores podem ser elencadas.
Redução de preços e ampliação de ofertas: Com a diminuição de despesas administrativas e burocráticas, os fornecedores eletrônicos apresentam preços mais acessíveis, barateando as compras onlines, sendo esse o principal motivo pelo qual há o crescimento assustador do comércio eletrônico. Outrossim, as lojas virtuais possibilitam que os consumidores tenham acesso a bens e serviços que não estão nas vitrines do comércio tradicional, permitindo maior satisfação das necessidades.
Mais comodidade, informações e transparência: Por funcionarem no sistema 24x7, as lojas virtuais possibilitam que os consumidores façam suas compras no momento mais adequado e no conforto dos seus lares. Não é necessário o deslocamento do consumidor, evitando-se longas filas, corredores lotados, escassez de estacionamento, insegurança pública, pressão dos vendedores e outros problemas inerentes ao comércio tradicional. O consumidor se sente mais a vontade, tendo mais tempo e paciência para buscar mais informações sobre características, qualidades e preços dos bens, podendo, assim, fazer comparações e comprar realmente o que irá preencher os seus anseios. Sem contar, igualmente, que a internet proporciona o contato entre os consumidores, em que são trocadas informações sobre experiências anteriores com os produtos e serviços adquiridos, possibilitando que aquisições desastrosas não sejam efetuadas.
Além das vantagens individuais para os consumidores, a sociedade também se beneficia com o comércio eletrônico, pois é atividade ambientalmente mais equilibrada, já que há redução considerável de papel, da poluição visual com outdoors, de meios físicos de publicidade e do uso de meios de transporte. Propicia também maior concorrência, permitindo que os consumidores ganhem com redução
dos preços e aumento da qualidade dos serviços. Há também mais garantia da livre iniciativa, gerando mais renda e novas formas de empregos, como o e-trabalho, em que muitos exercem suas funções direto das suas residências, diminuindo a vida estressante do trabalho
Vê-se, assim, que o comércio eletrônico não é apenas mera prática capitalista que traz como retorno apenas vultosos lucros aos fornecedores. Essa é apenas a faceta econômica, existindo outros benefícios que extrapolam a esfera individual, sendo, inclusive, forma de desenvolvimento, auxiliando na conquista da igualdade social e satisfação dos interesses públicos e coletivos.
2.4.2 Desvantagens do comércio eletrônico
Por ser atividade que visa o lucro como principal objetivo, o comércio eletrônico tem determinados problemas que o atrasam e afastam número considerável de novos consumidores. Em virtude da incipiente presença estatal, da volatilidade dos recursos tecnológicos e maleabilidade dos grupos de crackers, o ambiente online é contaminado pela insegurança72 nas suas relações, sendo esse o
principal defeito que afeta o comércio eletrônico.
A questão da insegurança na internet gira em torno das informações confidenciais dos consumidores e que são necessárias à finalização do negócio. Muitas lojas virtuais possuem sistemas de seguranças deficitários, em que informações pessoais e privadas dos consumidores, como dados bancários, números de cartões de créditos e senhas eletrônicas, são facilmente acessadas e utilizadas indevidamente por crackers e, às vezes, até mesmo por funcionários dos fornecedores, que vendem os bancos de dados.
Essas fraudes assolam a internet, havendo estimativas73 que, somente no Brasil, o sistema bancário tem prejuízo anual de 1 bilhão de reais. O que, no final
72 Conforme se sabe, a utilização da Internet é eivada por fraudes. O clima de insegurança é tamanho
que diversos consumidores afastam a opção de adquirir produtos e/ou serviços pela Internet com receio de que seus dados sejam roubados por hackers. (FINKELSTEIN, Maria Eugênia Reis. Direito
do comércio eletrônico. – 2.ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011, p.281)
73Fraudes virtuais em sites bancários dão prejuízo de R$ 1 bilhão. TechTudo Disponível em:
<http://www.techtudo.com.br/noticias/noticia/2012/01/fraudes-virtuais-em-sites-bancarios-dao- prejuizo-de-r-1-bilhao.html> Acesso em: 02 abril 2012.
das contas, acaba sendo repassado aos consumidores, encarecendo os preços dos serviços prestados. A falta de segurança também afeta os fornecedores de produtos. Muitas pessoas, com dados bancários falsos, adquirem bens e não pagam por isso. Em decorrência da fraude, o vendedor é prejudicado, já que o valor da compra vai ser estornado e o produto remetido ao falso comprador.
Contudo, apesar de também serem vítimas de fraudes, os fornecedores utilizam o comércio eletrônico para impor práticas abusivas aos consumidores. Aproveitando-se da escassa presença estatal, ofertas não são respeitadas, produtos não são entregues, vantagens excessivas cobradas, publicidades e propagandas enganosas engendradas e outra série de táticas maliciosas que, conforme serão analisados em capítulo específico, prejudicam os clientes e desqualificam o comércio eletrônico.
Já em aspectos comportamentais, para muitos consumidores, o comércio eletrônico é desvantajoso porque não possibilita o contato físico com os produtos, sendo impossível tocá-los ou senti-los. A relação é abstrata, o que, de certa maneira, tira o prazer do consumo, principalmente para quem ir as compras se torna atividade de lazer e entretenimento com a família. Para esse tipo de consumidor, a rejeição à mercancia virtual é grande.
O comércio eletrônico também acarreta problemas sociais, como a redução do poder tributário do Estado, eis que muitas empresas virtuais não são regularizadas, atuando na informalidade e reduzindo a arrecadação estatal. Há, igualmente, a questão do desemprego. Com a migração para os sistemas virtuais, inúmeros cargos são extintos, como os de vendedor e balconista. Por fim, o comércio eletrônico, por mais popular que esteja sendo, ainda pode ser considerado artigo de luxo, principalmente nos países em desenvolvimento. Com o fenômeno da exclusão digital, milhões de pessoas ainda se encontram afastadas das compras virtuais, visto que, para ingressar nesse mercado, faz-se indispensável o acesso à internet, mecanismo que ainda é caro de se manter.
Entretanto, desses problemas relatados, o que mais prejuízos acarreta ao comércio eletrônico são as abusividades praticadas pelos fornecedores. Isso gera a desconfiança dos internautas, impedindo o crescimento do mercado, pois novos sujeitos deixam de ingressar e os que tiveram problemas saem. Sem contar, igualmente, nas lesões à coletividade. Essas táticas comerciais desleais, conforme
será estudado nos capítulos seguintes, trazem enormes prejuízos para os consumidores, ensejando maior proteção estatal.