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CAPÍTULO III – COMPRAS COLETIVAS

3.3 Vantagens e desvantagens

3.3.2 Desvantagens

Apesar de ser sistema que se mostra autossustentável, encontrando-se em fase de amadurecimento, em que os pequenos sites estão saindo do mercado e deixando espaço apenas para os grandes empreendimentos, o mecanismo de compras coletivas tem vários aspectos negativos, mas em apenas dois polos da

relação. O site, que é o intermediário da negociação, não tem prejuízos com o negócio. Divulgar ofertas é sua atividade econômica, lucrando quando todas são vendidas, ressaltando-se, sem, é claro, prestar serviços ou vender produtos para o consumidor final. Mesma sorte não têm consumidores e fornecedores de produtos e serviços. Dependendo da maneira como é disponibilizada a oferta, consequências desastrosas podem ser ocasionadas.

3.3.2.1 Fornecedores

Como exposto no tópico anterior, o mecanismo de compras coletivas é uma maneira que as empresas possuem de divulgar, de forma gratuita, seus serviços, atraindo não só um cliente esparso e pontual, mas diversos. Todavia, a chegada em massa de consumidores pode significar prejuízo, e não lucros com mais vendas. Para fazer as vendas, descontos significativos são ofertados. Só que, desse preço reduzido, ainda será repassado a comissão do site, que, em geral, é no mínimo de 50% do valor. Se normalmente um jantar é vendido por R$100,00, ao divulgar no site de compras coletivas com desconto de 50%, a refeição sairá por R$50,00, mas, com a comissão, apenas R$25,00 (vinte e cinco reais) ficará com o fornecedor.

O restaurante ficou com apenas 25% do valor cobrado, que, muitas vezes, só serve para cobrir os custos da produção. Se a empresa não tem boa estrutura, a divulgação em site de compras coletivas pode ser bastante onerosa, servindo apenas como propagação da marca. Objetivo este que também não é inconcusso, pois não é certo que aqueles que adquiriram a oferta, após consumi-la, irão retornar ao fornecedor e pagar o preço normal.

Muitos usuários dos sites de compras coletivas estão apenas em busca de descontos, e não em encontrar novos estabelecimentos empresariais com serviços e produtos de qualidade. A busca pela fidelização pode ser desastrosa, mormente se o fornecedor for empresa que tem clientela de nível mais elevado. Certamente, os usuários de compras coletivas, após usufruírem dos descontos, não voltarão a

gastar na empresa, gerando, assim, prejuízos posteriores com a adoção do sistema. Apenas 19%122 dos consumidores retornam sem ser para utilizarem novos cupons.

Para muitos consumidores, o desconto também pode simbolizar que o serviço ou o produto são de qualidade duvidosa123, em que o valor normal é inflacionado e não equivalente. Isso também serve como repulsa para novos consumidores, que podem não indicar o estabelecimento para outras pessoas. A busca por maior reputação e expansão da marca pode acabar infundada, sendo o principal risco e que enseja várias desvantagens para os fornecedores, pois, além de não auferirem lucros, o negócio acaba manchando o nome da empresa.

3.3.2.2 Consumidores

Para os consumidores, até certo limite, o método de compras coletivas pode ser considerado saudável. O problema surge quando a linha tênue entre a compra para satisfazer uma necessidade ou prazer momentâneo se torna vício ou algo rotineiro, em que se compra inconscientemente. A compra pelo uso se torna pelo impulso, principalmente diante dos descontos sugestivos e extremamente atrativos. A saúde financeira pode ficar abalada, caso o consumidor comece a adquirir as ofertas somente por causa dos descontos. O que acaba acontecendo é que ele acumula cupons sem utilidades, ficando sem tempo para fazer jus ao dinheiro investido.

Além dos aspectos financeiros, estes que só podem ser resolvidos pelo próprio indivíduo, os consumidores, por serem economicamente inferiores, ou seja, com menor poderio, sofrem com as violações reiteradas dos seus direitos. Há desvantagem jurídica que acarreta prejuízos patrimoniais e extrapatrimoniais. Apesar de ser indiscutível a necessidade de proteção dos consumidores onlines, o Código de Defesa do Consumidor, mesmo se aplicando as relações virtuais,

122 10 Pros and Cons of Using Groupon. Inc. Disponível em: <http://www.inc.com/guides/201104/10-

pros-cons-for-using-groupon.html> Acesso em: 04 maio 2012.

123 A promoção via compra coletiva é uma poderosa ferramenta de divulgação, mas deve ser utilizada

com moderação e de forma inteligente para não causar a depreciação da marca. O comerciante não deve canabalizar o próprio negócio oferecendo toda linha de produtos pela metade do preço, mas sim seleciona cuidadosamente aqueles produtos que não são prioritariamente adquiridos pelos compradores regulares, mas que podem servir como atrativos para possíveis novos clientes em razão da oferta. (FELIPINI, Dailton. op.cit., p.51).

encontra-se, apesar de moderno, defasado em relação às novas práticas mercantis, necessitando de reforma para regulamentar o setor de compras coletivas.

Essa é a pior desvantagem que os consumidores, partes mais fracas da relação, podem ter com os grupos de compras. Como será demonstrado no capítulo seguinte, isso acarreta diversas lesões aos direitos consumeristas, o que se agrava mais ainda nas compras coletivas, eis que as lesões deixam de ser individuais para atingir número vultoso de consumidores, estes que quase sempre não se encontram na mesma localidade, exigindo cuidados especiais e novos dispositivos legais.

As ofensas extrapolam as esferas individuais, violando direitos coletivos, o que exige atuação do Poder Público. No caso, há relatos de violações antes da divulgação da oferta, durante e depois da aquisição. Antes acontece quando sites e fornecedores entram em conluio para maquiar os anúncios, inflacionando preços para forjar superdescontos. Durante ocorre quando a aquisição não corresponde à oferta, ou seja, o famoso gato por lebre. Mostram-se imagens maravilhosas, mas, quando se vai usufruir do serviço, vê-se que tudo não passa de publicidade bem feita. Por fim, após a aquisição é onde se encontram as maiores violações, sendo a mais corriqueira o inadimplemento contratual, famoso pagou e não levou. Muitas ofertas são adquiridas pelos consumidores, mas, mesmo assim, não conseguem ser executadas, seja por parte do fornecedor ou por culpa do site.

Existem, como serão discutidas no próximo capítulo, inúmeras violações, que, diante da voracidade por lucros e mais lucros, não param de crescer e de serem renovadas. Os fornecedores, a cada dia, criam novas práticas abusivas para lesarem os consumidores. Desse modo, com base nas ofertas anunciadas nos maiores sites de compras coletivas brasileiros, serão analisadas as práticas abusivas mais usuais e prejudiciais aos consumidores, para, a partir daí, buscar-se a defesa consumerista.

CAPÍTULO IV – PRÁTICAS E CLÁUSULAS ABUSIVAS COMETIDAS PELOS SITES DE COMPRAS COLETIVAS