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Classificação e Qualificação dos Contratos

1. CLASSIFICAÇÃO ESTRUTURAL DOS CONTRATOS 1 As dicotomias clássicas

1.2 Classificações tradicionais

1.2.1 Contratos bilaterais (sinalagmáticos) e unilaterais

Trata-se aqui de examinar a estrutura dos contratos. Porém, antes de os dis-tinguir, cumpre dar o significado técnico dos termos para prevenir confusões ou

4. PERLINGIERI, Pietro. O direito civil na legalidade constitucional, op. cit., p. 389-395.

5. NEGREIROS, Teresa. Teoria do contrato. Bem sintetiza a doutrinadora: “O recurso a esses esquemas for-mulados doutrinária e/ou legislativamente dá ao intérprete e aplicador meios de reconduzir a modelos pré-determinados o apelo a certos valores, o que confere segurança, certeza e legitimidade à atividade decisória” (op. cit., p. 348-349).

6. CRESCENZO MARINO, Francisco Paulo de. Classificação dos contratos. In: Direito dos contratos; sintetiza o autor: “O agrupamento de tipos contratuais em categorias é ferramenta indispensável para a sistematização das normas jurídicas, cogentes ou dispositivas, aplicáveis aos contratos pertencentes a cada categoria” (op.

cit., p. 23).

equívocos. Os qualificativos unilateral e bilateral empregam-se para diferenciar os negócios jurídicos, tanto na formação como nos efeitos.7

No tocante à formação, temos os negócios jurídicos unilaterais, bilaterais e plurilaterais, respectivamente, quando resultantes da manifestação de vontade de uma, duas ou mais de duas partes. Parte não se confunde com pessoa. Num deter-minado negócio a parte pode estar representada por uma só pessoa ou por várias, fundamental é que ela expresse um único interesse. Daí a noção de parte como centro de interesse ou centro de imputação de interesses.

O negócio jurídico unilateral requer a declaração de vontade de uma parte, parte esta que pode ser constituída de uma ou de várias pessoas.8 Já o negócio jurídico bilateral, na cátedra de Pontes de Miranda, resulta da entrada no mundo jurídico de vontade acorde dos figurantes. As manifestações de vontade ficam uma diante da outra, com a cola da concordância. Há uma corda só que prende, que vincula as pessoas que estão nos dois lados.9

Com efeito, é insuficiente a manifestação de vontade de duas partes para a existência de negócio jurídico bilateral. O seu pressuposto é o consentimento (cum + sentire = sentir vontade). A bilateralidade expressa esta sintonia, a coincidência ou o ajuste das vontades convergentes.

O contrato é a expressão maior dos negócios jurídicos bilaterais. Todo contrato é negócio bilateral, mas a recíproca não é válida. No contrato há sempre duas ou mais declarações de vontade, com conteúdos diversos, que se harmonizam ou se conciliam mutuamente, ajustando-se uma à outra, como as diversas partes de um mesmo objeto, pois se dirigem à produção de um resultado jurídico unitário, embora tendo para cada um dos declarantes, ou grupo de declarantes, significações distintas e, até de certo modo, antagônicas.10

Destarte, sob o ângulo da formação, é um despautério se cogitar de contratos unilaterais. Tal expressão se reserva para o plano de eficácia dos negócios bilaterais.

Quer dizer, no que tange aos efeitos, nos contratos bilaterais, ensina Orlando Gomes que as duas partes ocupam, simultaneamente, a dupla posição de credor e devedor.

Cada qual tem direitos e obrigações.11 À obrigação de uma corresponde o direito de

7. GOMES, Orlando. Contratos, op. cit., p. 84.

8. Daí a classificação bipartida, que separa os negócios jurídicos unilaterais em duas categorias: a dos unipes-soais e a dos plúrimos. Este último, quando a parte é constituída de duas ou mais pessoas que expressam uma única vontade negocial, jamais interesses contrapostos.

9. PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de direito privado, t. 38, op. cit., p. 31-32.

10. ABREU FILHO, José. O negócio jurídico e sua teoria geral, op. cit., p. 73.

11. STJ – Informativo nº 0484, Período: 26 de setembro a 7 de outubro de 2011, Terceira Turma: “CONTRATO.

CLÁUSULA PENAL. EFEITOS. In casu, trata-se de contrato de compra e venda de imóvel, no qual o promiten-te-comprador (recorrente) obrigou-se a pagar o preço e o promitente-vendedor a entregar o apartamento no tempo aprazado. Porém, o promitente-vendedor não entregou o bem no tempo determinado, o que levou o promitente-comprador (recorrente) a postular o pagamento da cláusula penal inserida no contrato de compra e venda, ainda que ela tenha sido redigida especificamente para o caso do seu inadimplemento.

outra. Em contrapartida, nos contratos unilaterais, uma das partes tem a condição de credor e a outra de devedor. A relação jurídica oriunda de contrato unilateral é simples, pois só uma parte se constitui devedora, enquanto a que nasce de um con-trato bilateral se apresenta complexa, visto que em ambas os contraentes figuram reciprocamente como sujeitos ativo e passivo.12

Fundamental: ao contrato bilateral não basta – como se extrai da literalidade da expressão – a mera bilateralidade das obrigações para ambos os contratantes, mas a correspectividade e a reciprocidade entre elas. É essencial à bilateralidade a caracterização do sinalagma, no sentido de uma obrigação ser a causa da outra. As-sim, a bilateralidade da compra e venda emana de duas obrigações, ao mesmo tempo principais e mutuamente correlatas, nas quais tanto quem entrega a coisa como quem recebe o preço percebam na prestação do outro uma compensação suficiente à sua própria prestação. Enfim, a obrigação de cada um dos contratantes aparece como equivalente da assumida pelo outro.

Este refinamento da distinção entre contratos bilaterais e unilaterais permite a introdução de um tertium genus: o contrato bilateral imperfeito. Esta categoria intermediária se manifesta em duas circunstâncias: (a) em um contrato unilateral – produtor de obrigações ex uno latere –, mas que acidentalmente, ao longo de sua execução, acarreta bilateralidade de obrigações. Vejamos o contrato de mandato: sua natureza unilateral deriva da ausência de sinalagma entre as obrigações de mandante e mandatário. Porém, por fato superveniente a sua formação, eventualmente o man-datário assume despesas, repercutindo para o mandante a obrigação de ressarci-las sob pena daquele reter a coisa até que seja pago pelas aludidas despesas (art. 681, CC). Surgiria aí um contrato bilateral imperfeito; (b) também cabem nesta categoria os contratos em que a obrigação deles resultantes para as duas partes não se encon-tram ligadas por qualquer sinalagma, isto é, cada uma não representa a contrapartida da outra (ex.: a obrigação do comodante de proporcionar ao comodatário o gozo da coisa emprestada e a obrigação do comodatário de restituí-la).

Essas sutilezas não exoneram o contrato bilateral imperfeito da categoria dos contratos unilaterais. Afinal, inexiste nexo de causalidade entre as obrigações das partes, de forma que uma se converta em causa da outra. Nos exemplos citados as

Assim, cinge-se a questão em definir se a cláusula penal dirigida apenas ao promitente-comprador pode ser imposta ao promitente-vendedor ante o seu inadimplemento contratual. Na hipótese, verificou-se cuidar de um contrato bilateral, em que cada um dos contratantes é simultânea e reciprocamente credor e devedor do outro, oneroso, pois traz vantagens para os contratantes, comutativo, ante a equivalência de prestações. Com esses e outros fundamentos, a Turma deu provimento ao recurso para declarar que a cláusula penal contida nos contratos bilaterais, onerosos e comutativos deve aplicar-se para ambos os contratantes indistintamente, ainda que redigida apenas em favor de uma das partes. Todavia, é cediço que ela não pode ultrapassar o conteúdo econômico da obrigação principal, cabendo ao magistrado, quando ela se tornar exorbitante, adequar o quantum debeatur” (REsp 1.119.740-RJ, Rel. Min. Massami Uyeda, j. em 27.9.2011).

12. GOMES, Orlando. Contratos, op. cit., p. 85.

prestações não são correspectivas. Eis aí a importância do sinalagma como quali-ficativo da bilateralidade contratual, empregando-se mesmo um termo pelo outro.

Ratificando tal posicionamento, veja-se a doação com encargo. Contrato uni-lateral porque somente cria obrigações para uma das partes, o doador. O donatário pode vir a receber uma doação com encargo, cuja natureza jurídica é de ônus, mas o contrato mantém sua unilateralidade, não se tratando do modo de uma contra-prestação que aperfeiçoe o sinalagma, mas tão somente de uma restrição ao ato de liberalidade.13 Em outras palavras, o encargo é uma obrigação do donatário (de dar, fazer ou não fazer), contudo sem correspectividade com a prestação do doador.

Exemplificando, A doa uma casa a B com encargo de B alimentar seus cinco gatos.

O encargo de B é uma obrigação secundária que não se contrapõe à liberalidade, apenas limita a atribuição patrimonial.

Nesta senda, percebemos que o dado da existência de deveres para ambas as partes nem sempre configura o sinalagma. Nas relações obrigacionais complexas, lateralmente ao interesse econômico perseguido pela parte, manifestam-se os de-veres instrumentais destinados funcionalmente a assegurar o perfeito cumprimento da obrigação principal. A incidência de deveres anexos – e também dos deveres secundários – para credor e devedor não converte por si só um contrato unilateral em bilateral, haja vista que a reciprocidade inerente a este requer, estruturalmente, uma “troca de prestações”, uma permuta entre as obrigações principais do contrato.

Dentre os contratos bilaterais, pelas características especiais de sua estrutura, encontram-se os contratos plurilaterais. Segundo José João Abrantes, são os que têm mais de duas partes, dirigindo-se a prestação de cada uma delas à consecução do fim comum. Dentre outros, prepondera o contrato de sociedade. Cada um dos sujeitos se obriga em face de todos os outros, o que significa que o vínculo sinalagmático se estabelece aí entre a prestação de cada um dos contraentes e todas as outras, umas como contrapartida das outras.14

A importância prática da distinção entre contratos bilaterais e unilaterais releva tanto o momento da formação do contrato como a sua fase de execução.

No vício da lesão (art. 157, CC), o elemento objetivo justificador da anulabi-lidade do negócio jurídico é justamente a aparência da bilateraanulabi-lidade do contrato, posto que inexistente o sinalagma genético em que as prestações são concebidas de maneira manifestamente desproporcional. Outrossim, a nulidade da obrigação de uma das partes por impossibilidade originária da prestação implica a nulidade da obrigação da outra.

13. Na definição de Zeno Veloso, o encargo é “ônus imposto ao negócio jurídico, de uma moderação à libera-lidade. Assim, o encargo grava, onera, pesa, tempera, limita, quase sempre diminui e restringe o benefício.

O beneficiário, no final das contas, recebe menos do que receberia se o negócio fosse puro e simples, mas lucra mais do que lucraria se o negócio fosse oneroso, com prestações recíprocas” (Condição, termo e encargo, op. cit., p. 105).

14. ABRANTES, José João. A excepção de não cumprimento do contrato, op. cit., p. 56.

O sinalagma não desaparece após a celebração do contrato. A reciprocidade ou contrapartida das obrigações releva durante toda a sua vida, pois coligadas as prestações pelo vínculo de finalidade. Trata-se do sinalagma funcional, que produz consequências importantes, pois a dinâmica do processo obrigacional exige a preser-vação da interdependência das prestações dos contraentes. A resolução contratual e a exceptio non adimpleti são modelos jurídicos visceralmente ligados à conservação do sinalagma. Em comum, quer se proteger um dos contratantes através de mecanismos que lhe facultem não cumprir a sua prestação quando a outra parte não efetue a contraprestação.

Assim, a resolução é modo de extinção da relação obrigacional estabelecida em contrato bilateral, com a retirada de sua eficácia pelo exercício do direito formativo--extintivo, do qual é titular o credor não inadimplente, fundado no incumprimento definitivo do devedor e imputável a este.15 Apesar da discrição do enunciado do art.

475, do Código Civil, a resolução é modo exclusivo de extinção de contratos bilaterais.

Porém, se o inadimplemento não for definitivo, em vez da alternativa de reso-lução contratual, surgirá a exceção de contrato não cumprido, pela qual o contraente retardará a sua prestação, retendo-a licitamente até o cumprimento da contrapres-tação. A exceção de não cumprimento do contrato é a faculdade que, nos contratos bilaterais, tem por objetivo sancionar o dever de cumprimento simultâneo das obri-gações compreendidas no sinalagma. É uma faculdade derivada do próprio contrato, da sua estrutura. A função da exceção é assegurar a interdependência funcional das obrigações, o seu nexo de correspectividade.16 Neste sentido, dispõe o art. 476, do Código Civil: “Nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes, antes de cumprida sua obrigação, pode exigir o implemento da do outro”.

Ao lado da exceptio non adimpleti contractus, há outras duas exceções dilatórias que pressupõem a bilateralidade do contrato, a exceptio non rite adimpleti contractus, para a hipótese de adimplemento insatisfatório ou parcial (também fundada no art.

476 do Código Civil), e a exceção de inseguridade, cuja premissa é a diminuição superveniente do patrimônio do devedor, capaz de comprometer ou tornar duvidosa sua prestação (art. 477, CC).17

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