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Classificação e Qualificação dos Contratos

1. CLASSIFICAÇÃO ESTRUTURAL DOS CONTRATOS 1 As dicotomias clássicas

1.2 Classificações tradicionais

1.2.2 Contratos onerosos e gratuitos

“A amizade é um contrato segundo o qual nos comprometemos a prestar pequenos favores para que no-los retribuam com grandes.”

(Montesquieu)

15. AGUIAR JR., Ruy Rosado de. Extinção dos contratos por incumprimento do devedor, op. cit., p. 79.

16. ABRANTES, José João. A excepção de não cumprimento do contrato, op. cit., p. 54.

17. CRESCENZO MARINO, Francisco Paulo de. Classificação dos contratos. In: Direito dos contratos, op. cit., p. 37-38.

Os contratos são gratuitos ou onerosos, consoante originem, de acordo com a intenção das partes, vantagens para uma só delas ou para as duas. A distinção se refere à respectiva atribuição patrimonial, compreendida como a vantagem avaliável em dinheiro. Se esta vantagem tem como contrapartida um sacrifício patrimonial suportado pelo beneficiário, o contrato será oneroso; do contrário, será gratuito.

Frisa Almeida Costa ser esta uma classificação autônoma em relação à anterior, sendo que normalmente há efetiva coincidência entre contratos unilaterais e gratui-tos, assim como entre bilaterais e onerosos. A par da aproximação, há independência dos dois binômios, em virtude de distinções que decorrem de pressupostos diversos:

a oposição dos contratos unilaterais e bilaterais se radica na estrutura jurídica do vínculo, em saber se há ou não obrigações interdependentes para ambas as partes:

pelo contrário, os contratos gratuitos distinguem-se dos onerosos considerando as atribuições de vantagens que envolvem, ou seja, com base no conteúdo e na fina-lidade do negócio.18

São onerosos os contratos que geram vantagens e sacrifícios para ambas as partes e gratuitos quando uma das partes concede a outra vantagens sem con-traprestação, só ela se submetendo a um sacrifício patrimonial, enquanto a outra obtém um benefício, como na doação, no comodato, na fiança, dentre outros. Ma-ria Celina Bodin também aparta os conceitos de onerosidade e correspectividade.

A sinalagmaticidade se refere à coligação existente entre os efeitos do contrato e não se confunde com a avaliação econômica que se possa fazer dos efeitos da relação que no contrato tem a sua causa (esta, sim, relativa à onerosidade). As-sim, o caráter oneroso ou gratuito resulta imediatamente da natureza da causa do contrato, sendo a causa compreendida como a função econômico-social do contrato e síntese de seus efeitos essenciais. Cada contrato tem uma causa típica julgada merecedora de proteção pelo legislador. Neste sentido, a causa da compra e venda é a transferência da coisa versus preço; tal permutação é sua função econômico--social e é, também, seu efeito essencial.19

A ênfase no critério objetivo da causa da atribuição patrimonial é útil para a qualificação de situações intermediárias. Ilustrativamente, uma doação com encargo é contrato gratuito, pois a função econômica do negócio jurídico não concerne à vantagem proporcionada pelo encargo. O modus, como elemento acidental, tão so-mente restringe o benefício do donatário, sem, contudo, alterar a essência gratuita do contrato. Contudo, se considerássemos como causa da qualificação da doação o elemento subjetivo do animus donandi, ela se tornaria onerosa nas hipóteses de doação remuneratória, por merecimento ou com encargo, à medida que nestas hipó-teses já não mais se manifesta o pleno espírito de liberalidade do doador. Os motivos

18. ALMEIDA COSTA, Mário Júlio de. Direito das obrigações, op. cit., p. 332-333.

19. MORAES, Maria Celina Bodin de. Notas sobre a promessa de doação. In: Temas relevantes do direito civil contemporâneo, op. cit., p. 528-529.

psicológicos do agente não se confundem com a causa da doação, compreendida como a atribuição de vantagem patrimonial sem adequado sacrifício.

Em regra, há coincidência entre a bilateralidade e a onerosidade. Todo contrato bilateral é oneroso, por isso que, suscitando prestações correlatas, a relação entre vantagem e sacrifício decorre da própria estrutura do negócio jurídico.20 Todavia, nada impede que um contrato se qualifique, simultaneamente, como unilateral e oneroso.

É o caso do mútuo feneratício (art. 591, CC). É oneroso posto estipulados juros, caso não o fosse, seria contrato benéfico, de auxílio desinteressado. Também é contrato unilateral, pois cria obrigações somente para o mutuário, quais sejam, a restituição do que recebeu e o pagamento de juros. A entrega do capital pelo mutuante ao mutuário não é uma obrigação daquele, mas pressuposto de existência do contrato real. Não é outra a inteligência do art. 586 do Código Civil. Daí não serem aplicáveis ao mútuo as regras específicas dos contratos bilaterais como a da invocação da exceção de contrato não cumprido.

Bem ressalta Galvão Telles que a onerosidade e a gratuidade são conceitos de relação, relação que pode ter como termo os sujeitos do negócio ou algum deles e uma terceira pessoa. Ocasionalmente o mesmo contrato poderá ser simultaneamente oneroso e gratuito: oneroso nas relações das partes entre si e gratuito nas relações com terceiros, tal qual se dá na fiança, no contrato de locação. Contrato oneroso entre proprietário e inquilino e gratuito para o afiançado, que recebe atribuição patrimonial sem correspondente sacrifício.21

Aliás, não apenas o mútuo (art. 591, CC), mas os contratos de depósito (art. 628, CC) e mandato (art. 658, CC) são essencialmente gratuitos, porém podem aderir à one-rosidade por ajuste expresso. Para certa doutrina, formariam um tertium genus, os con-tratos neutros ou bifrontes, pois podem encarnar uma ou outra figura indistintamente.22 Esta duplicidade jamais ocorre em contratos como doação e comodato, cuja eventual onerosidade implicará a própria alteração da tipologia contratual ou a invalidade.

Os contratos gratuitos ainda se dividem em interessados ou desinteressados.

Em regra, são desinteressados, pois o único escopo da parte é beneficiar outrem;

todavia, incidindo a percepção de uma vantagem indireta pelo autor da liberalidade, qualificar-se-á este como interessado. Uma carona de A a seu amigo B é transporte gratuito desinteressado. O mesmo não se diga do passeio gratuito de carro oferecido pela empresa ao potencial cliente de locação de imóvel. A configuração do elemento econômico culminará por aproximar as consequências do contrato gratuito ao oneroso.

Assim, havendo acidente com lesões sofridas pelo “caroneiro”, no primeiro caso, a responsabilidade do condutor será subjetiva; já no segundo exemplo, será objetiva.

Esta é a dicção do art. 736 e seu parágrafo único, do Código Civil.

20. GOMES, Orlando. Contratos, op. cit., p. 88.

21. TELLES, Inocêncio Galvão. Manual dos contratos em geral, op. cit., p. 480.

22. ABREU FILHO, José. O negócio jurídico e sua teoria geral, op. cit., p. 92.

É acentuada a repercussão prática da delimitação dos contratos como gratui-tos ou onerosos. A proteção do adquirente a título oneroso é mais sólida que a conferida ao adquirente a título gratuito, afinal o legislador quer acautelar quem poderá sofrer um prejuízo injusto e não aquele que eventualmente será privado de um ganho. Isto justifica o tratamento legislativo diferenciado na fraude contra credores em prol do adquirente em negócios de transmissão gratuita (art. 158, CC), dispensando-se a perquirição do elemento subjetivo da fraude, ao contrário do que se exige para os contratos onerosos (art. 159, CC). Igualmente fragilizada será a posição do adquirente de bens a título gratuito do herdeiro aparente, posto ineficaz a transmissão perante o verdadeiro proprietário. Porém, esta sanção não se aplicará ao adquirente a título oneroso, tutelado pelos princípios da confiança e da estabilidade do tráfego jurídico (Parágrafo único, art. 1.827, CC). A mesma distinção se aplica na aquisição de bens por terceiros em caso de nulidade de casamento (art. 1563, CC).

Diferenciado também é o tratamento do contrato oneroso em matéria de garantia por responsabilidade em face de vícios redibitórios e evicção (arts. 441 e 447 do Código Civil). Em comum, todo o regime de indenização objetiva restaura o equilíbrio rompido, relação de equivalência esta que apenas se manifesta em contratos one-rosos. Idêntica distinção se aplica à garantia pela insolvência em cessão de crédito pro soluto (art. 295, CC).

De acordo com o art. 114, os contratos gratuitos se interpretam restritivamente.

Se o peso do negócio jurídico recair apenas sobre uma das partes, natural que sua hermenêutica se limite ao exato sentido da vontade daquele que realizou o ato be-néfico. Pelo mesmo fundamento, dispõe o art. 392 do Código Civil que “Nos contratos benéficos, responde por simples culpa o contratante a quem o contrato aproveite, e por dolo aquele a quem não favoreça. Nos contratos onerosos, responde cada uma das partes por culpa, salvo as exceções previstas em lei”. Os contratos benéficos são os gratuitos. Neles a parte a quem o contrato aproveita responde por simples culpa;

só responde por dolo aquela a quem o contrato impõe apenas sacrifício. A segunda parte do citado dispositivo afirma que nos contratos onerosos – aqueles em que há vantagens e sacrifícios recíprocos – qualquer das partes responde por culpa. É preciso observar que o art. 392 alterou expressões utilizadas no art. 1.057 do CC/1916, subs-tituindo os termos unilaterais e bilaterais por, respectivamente, benéficos e onerosos.

De fato, o tratamento menos rigoroso para as consequências do inadimplemento só se justifica caso se leve em conta a inexistência de vantagem para uma das partes, e não a presença de obrigações recíprocas, que caracterizam a distinção entre con-tratos bilaterais e unilaterais.23-24

23. BDINE JR., Hamid Charaf. Código Civil comentado, op. cit., p. 410.

24. “Responsabilidade civil, Indenização. Furto de motocicleta em estabelecimento disponibilizado pela empresa aos empregados e prestadores de serviços. Relação jurídica que pressupõe dever de custódia. Inaplicabi-lidade do art. 392 do Código Civil, eis que a ré aufere vantagem da relação estabelecida. Obrigação de

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