Em algumas situações, a grandeza de alguém está diretamente ligada ao valor e tamanho de seu adversário. No caso do cinema, pode-se dizer que a televisão foi um tipo de tecnologia que influiu decisivamente nos rumos da sétima arte a partir dos anos 50. A disputa pela audiência conduziu os produtores a buscarem superar as atrações da televisão oferecendo um espetáculo multicolorido (já que a televisão transmitia em preto-e-branco) e em dimensões espetaculares, além do sistema de som estereofônico. Obviamente tal oferta demandou investimentos muito elevados, o que obrigou os estúdios a investirem maciçamente no mercado externo para auferirem lucros maiores que não só liquidassem os custos da produção atual como também garantissem a próxima. A engenharia financeira que foi necessária articular para produzir e divulgar o filme fez com que o cinema como negócio atingisse um patamar profissional inédito.
Quando a presença da televisão cresceu nos lares, o cinema procurou incidir onde ela não poderia, ou seja, o cinema definiu gêneros próprios para públicos específicos (como o cinema erótico ou pornográfico) que seriam exibidos em salas especiais. Os chamados filmes de arte e de contestação social (que dificilmente encontrariam espaço na programação das televisões) também recebeu especial atenção.
Se a televisão prioriza programas e filmes voltados para o puro entretenimento (vale lembrar que a TV, e não o cinema, é a forma de entretenimento dominante), uma parte considerável das produções e salas de exibição passa a se dedicar ao cinema de arte, o que pode ter gerado um processo de elitização da audiência. Essas produções proliferam nos festivais e dominam os cineclubes, e as discussões sobre tais filmes extrapolam o
sociológico, psicológico e educativo dos filmes. Os diretores ganham o status de autores e seus trabalhos são considerados do mesmo nível de obras literárias.
O cinema torna-se também disciplina universitária, aparecem cursos de história e crítica, e cursos profissionais que não pretendem formar apenas pessoas que saibam manipular técnicas, mas profissionais de formação cultural mais ampla (BERNARDET, 1980: 172).
Os anos 50 foram um período de efervescência cultural motivada por um gosto crescente pela liberdade que se anunciava após a depressão da Segunda Guerra. Nesse momento em particular, tanto a televisão quanto o cinema tinham duas preocupações: se anteciparem ao seu concorrente na luta pela audiência e perceberem e acompanharem as novas tendências sociais indicadas pelas mudanças na forma de pensar e agir do público.
A formação dos profissionais de cinema deve ser ampla justamente para dar-lhes condições de dialogar e interpretar os vários movimentos registrados na derme e na epiderme do tecido social. No referido período ainda, gostar e falar de cinema deixou de ser visto como uma atividade alienada e passou a ser
cult. A nova geração discutia os enredos dos filmes com
voracidade como se aquilo estivesse fundamentalmente ligado à realidade política do contexto. Assim, alienado passou a ser quem desconhecesse os últimos filmes, por exemplo, de Godard e Truffaut, ou não tivesse condições de discuti-los e articulá-los com o quadro geral ou conjuntura sociopolítica.
Estamos tentando salientar como cinema e televisão, em que pesem as diferenças (tecnológicas, estatuto social e recepção) entre esses dois meios, se desafiaram e se complementaram após a segunda metade do século XX, e como ambos acabaram contribuindo decisivamente para o desenvolvimento mútuo, principalmente
enquanto veículos de informação e formação cultural. Christian Metz53 entende que
[...] os dois meios constituem praticamente a mesma linguagem. Compartilham importantes procedimentos linguísticos (escala, sons on e off, créditos, efeitos sonoros, movimentos de câmera etc.). Logo, são dois sistemas vizinhos; os códigos específicos pertencentes a ambos são muito mais numerosos e significativos que os não pertencentes; e, inversamente, os códigos que os diferenciam um do outro são muito menos numerosos e importantes que os que os diferenciam em conjunto de outras linguagens. (apud STAM, 2013, 172)
A capacidade simbiótica e sinérgica do cinema é demonstrada cabalmente na sua relação com a televisão. A linguagem do cinema é quase a mesma da TV. Ao invés de tão somente rivalizar com esta, o cinema aproveita e adapta os artifícios que aquela cria segundo sua especificidade. Se observarmos os dois veículos e traçarmos um breve paralelo entre eles, veremos que a principal diferença reside no sistema de transmissão ao vivo e na possibilidade de interação com o telespectador.
Hoje há muitas emissoras no sistema por assinatura que se dedicam totalmente a exibir filmes; e é muito difícil para uma televisão (aberta ou por assinatura) preencher sua programação somente com programas transmitidos ao vivo. Desse modo, a televisão depende muito mais do cinema (de suas técnicas, tecnologias e produtos) do que o contrário. Se tivéssemos que estudar profundamente a relação entre cinema e televisão, constataríamos uma dependência maior desta em relação àquele do que um antagonismo entre ambos.
No entanto, segundo Walter Lima Jr. (2009: 77), “a televisão democratizou a relação do espectador com a imagem”. Se antes da televisão as pessoas se relacionavam com a imagem cinematográfica de forma quase sacralizada (ela seria a única luz da qual emanava a vida numa sala escura) e estanque (a imagem
manipulava, mas não podia ser manipulada), com o televisor, as pessoas puderam, pelo manuseio do controle remoto, subjugar a imagem às suas condições e preferências. Os recursos hoje disponíveis vão desde regulagem de som e imagem, até pausas e gravações programadas das transmissões. Essa tecnologia aumentou as diferenças entre os dois meios - alargando a distância prevista por Christian Metz - e ajudou a definir seus espaços numa sociedade cada vez mais exigente.
No que se refere ao relacionamento do espectador com a imagem, e também ao estatuto do olhar, a filósofa Marcia Tiburi alerta que:
Da frente da tevê também saímos mudos. Não temos o que comentar a não ser como repetição de um dado, uma constatação, uma tautologia. A televisão é, nesse caso, a morte do olhar, a morte do sujeito, a morte da reflexão pela afirmação da tautologia. Já o cinema, não. E é aí que eu entendo que o cinema pensa. E que a experiência do cinema é totalmente outra. Não porque ele mostre conceitos pura e simplesmente, claro que não é apenas isso. Mas porque as imagens do cinema têm um estatuto diferente do que vemos na tevê. (TIBURI, 2013: 74)
Pensadores como Marcia Tiburi e Julio Cabrera, os quais se dedicam a refletir sobre a filosofia do cinema - para entender como, e em que medida, o cinema faz pensar -, tendem a destacar um abismo entre os códigos da televisão e do cinema, sobretudo no que se refere ao estatuto da imagem e do olhar, o qual pode ser considerado diferente se levarmos em conta o esquema repetitivo de intervalos comerciais e de programas ao vivo.
Na TV, a edição de imagens segue um ritmo frenético, não permitindo que se construa uma relação do olhar com o objeto contemplado, obstruindo as possibilidades de uma reflexão consequente. Mas o espectador, de certa forma, percebe a diferença entre as imagens do cinema e as da televisão, porque sua postura diante de ambos é diferente, sendo que diante da TV segue mais um aspecto de comodidade. O cinema propicia mais um
evento social no qual as pessoas interagem com as reações umas das outras, e a TV serve mais para o relaxamento (isolado ou em família), sem grande comprometimento com o que está sendo exibido.
O cinema tem uma linha de filmes conceituais (de Tarkovski e Kieslowski, por exemplo) que oferecem um tipo de imagem cuja estética e dinâmica de exposição já fomentam a reflexão. Porém, assim como estes filmes são singulares, o seu público não pode ser muito diferente. Para a maioria do público, essas obras causariam apenas tédio e aborrecimento. Poderíamos entrar aqui na discussão se o cinema deveria insistir em produções complexas esperando que o espectador se ajuste a elas com o tempo ou se o espectador deveria antes ser educado para poder recepcionar estas obras. Contudo, cremos que não avançaríamos qualitativamente nesse debate. Embora, afirmar também que se houvesse somente filmes eruditos, as pessoas aprenderiam a apreciá-los, me parece bastante utópico.
Sempre houve filmes B como alternativa para as grandes produções (de altos orçamentos) e também para garantir mais liberdade para os produtores que preferem seguir o formato independente. Logo, há filmes para todos os públicos e, melhor ainda, públicos para todos os filmes, já que é o desejo daqueles que demanda a existência destes – e isso faz muita diferença.
Da perspectiva cognitiva, a diferença entre o mecanismo da televisão e do cinema se deve à atenção. Enquanto que no cinema, a sala escura predispõe o corpo do espectador à passividade e direciona seu olhar pelo feixe de luz que vem de trás de sua cabeça, no caso da televisão, a atenção fica mais difusa e fragmentada, a começar por ser a TV mais um móvel decorativo da sala entre outros, e também pelo trânsito de pessoas e toda a sorte de distrações que podem surgir num ambiente movimentado como uma sala de TV. Inclusive, assistir é uma atividade que
pressupõe mais um momento de interação entre as pessoas do que uma imersão num universo diegético pressuposto pela interação entre espectador e filme no cinema. Isso sem dizer que o tamanho da imagem na tela gigantesca a torna ao mesmo tempo sedutora e sublime em um sentido kantiano54. Na sala de cinema, o filme tem
poder sobre nós. Diante da televisão, nós temos poder sobre o filme. Essa inversão de poderes altera o nível de atenção e afeta a própria relação cognitiva (cf. CARRIÈRE, 2006: 62-64).
A televisão vende a ideia de um real que acontece “aqui e agora”, dando-nos a sensação de que a tecnologia diminuiu o tamanho do mundo e dissolveu suas fronteiras. A imediaticidade de sua proposta, além da possibilidade de interação direta fazem com que a televisão continue a proposta da pintura que procurava reproduzir o real com o máximo de fidelidade. O cinema postula um mundo diegético que não é a realidade cotidiana, embora possa se assemelhar a ela. O simples efeito de saturação que intensifica o tom de uma cor já serve para deixar claro que a realidade ali retratada é diferente, sem mencionar efeitos de som, luz artificial, música, montagem, trucagem, etc.
A respeito do paradoxo que se forma na relação entre cinema e televisão, Maurício Rittner já chamava atenção há meio século:
Ironicamente, é da televisão que vai partir o revigoramento espiritual do cinema americano. Quando se proibiu a exibição de filmes novos pela TV, esta criou uma indústria cinematográfica própria, adaptada às necessidades do vídeo (baixo custo, temas simples, personagens comuns). Essa produção deu origem à Escola de Nova York, e Hollywood, diante da ameaça, destina grande parte de seus recursos humanos e materiais para a TV (muitos passaram a produzir para ela, seja por aluguel seja por conta própria). Permite-se também tratar temas proibidos na televisão (a atual voga dos filmes “chocantes”) e, pelo sistema de co-produções, assegura o reingresso das divisas retidas nos países (Espanha e Inglaterra) que sabem se defender do imperialismo cinematográfico. (RITTNER, 1965: 136)
Deve ficar patente que só estamos separando cinema e televisão em virtude de uma necessidade analítica, pois não há tecnologia usada para produzir televisão que não seja, direta ou indiretamente, advinda do cinema. Garcia Escudero (1971: 53) afirma que “a televisão é a nova vida do cinema, a terceira etapa depois da muda e da sonora”. Uma grande vantagem da televisão é poder transmitir séries com várias temporadas (com dezenas de episódios cada uma), fato que seria impossível no cinema. Aliás, atualmente, as séries vivem uma fase de ouro (pois muitos atores e diretores preferem trabalhos de longo prazo) e muitas tem despertado verdadeiras idolatrias, enquanto que os filmes estão tendo que se reinventar – não só do ponto de vista estético e temático, mas principalmente tecnológico.
Os espectadores têm criado mais identificação com as personagens de séries (que acabam fazendo parte de suas vidas por um longo período) do que com os protagonistas de filmes. Além das séries, há os filmes produzidos pelas redes diretamente para a TV. Inclusive, premiações como o Globo de Ouro, laureiam os melhores profissionais do cinema e da televisão e oferece prêmios específicos para séries e para filmes feitos para a TV.
O crítico húngaro Béla Balàzs (apud AMENGUAL, 1971: 121) escreveu que “os personagens do filme vêem com meus olhos. Eu vejo do seu ponto de vista. Eu não tenho ponto de vista pessoal”. E nesse mesmo trecho, Barthélemy Amengual completa dizendo que “na TV, ao contrário, é sempre com meus olhos que eu vejo. E só tenho um ponto de vista”. Essa não é apenas uma mudança de perspectiva, mas uma modificação radical no vetor perceptivo e cognitivo do sujeito diante do aparelho, isto é, no cinema há um processo de empatia tão forte que a personagem me empresta seu corpo (ou psicologicamente me transfiro para ele) para que eu possa viver uma experiência através dele. Então, posso ter tantos pontos de vista quantos forem os personagens com os quais eu puder estabelecer empatia. Já com a TV, ou não há personagens (e
apenas imagens do “fato”) ou as personagens são vazias e, por não haver empatia, não há transferência psicológica. Assim, meu olhar, objetivo ou não, é o único que pode considerar o que está diante de mim.
Efetivamente, a televisão chega primeiro na vida das pessoas e mantém uma presença mais constante. Ela apela mais para as emoções do que para a racionalidade dos indivíduos e, por estar sempre ao alcance das mãos, gera “uma aprendizagem por impregnação, isto é, involuntária, inconsciente, sem querer, sem saber” (BELLONI, 2001: 34). As pessoas, sobretudo as crianças, estão de tal forma inertes na frente dos aparelhos que são bombardeados com um fluxo tão grande de imagens e informações que, no decorrer desse processo, muitas opiniões, informações, valores, ideias, etc. acabam se fixando no consciente (ou se camuflando no inconsciente) dos telespectadores, que vêm a
reproduzir, em algum momento, os (pseudo) ensinamentos
televisivos.
A televisão, assim, pode promover um tipo de doutrinação calcada no conjunto de opiniões, ideias e concepções que prevalecem em um determinado discurso. O telespectador, incapaz de analisar tal discurso, é atingido o tempo todo por informações genéricas e descontextualizadas, que abafam seu senso crítico, dificultando seu discernimento. Segundo Anthony Giddens (2005: 373), “a televisão de hoje funciona num fluxo constante” e o espectador fica perdido na translação de sua programação, que além de repetitiva, é caótica, pois embora a oferta de programas seja muito vasta, contudo, a diferença real entre eles fica mais por conta dos títulos, pois sua dinâmica produz uma sensação tal como se, após 12 horas assistindo a programas de TV, tivéssemos experimentado uma overdose da mesma coisa.
Alguém poderia afirmar que o exposto acima não seria diferente em relação ao cinema. Porém, a pessoa que opta por ir
ao cinema para ver um filme específico, já se predispõe a ter uma experiência mais atenta (nem que seja apenas para exercitar seu senso estético ou satisfazer sua curiosidade). No caso da TV, como já aludimos, há uma presença constante e gratuita do aparelho e de sua programação (que é muitas vezes consumida aleatoriamente pelo exercício do zapping). Logo, o que sobressai nessa análise é a autodeterminação (ou não) do sujeito diante do meio ou veículo (cf. ESCUDERO, 1971: 55).
Ainda a respeito da predisposição do espectador diante do cinema, vejamos o que registrou Arthur Knight:
[...] é fato inegável que as pessoas gostam de procurar entretenimento fora de casa. Querem abandonar a casa, a rotina, os cuidados e problemas da vida diária. Nos cinemas podem encontrar esse tipo de liberdade durante algumas horas, tornar-se parte da multidão anônima. Esse tipo de libertação, esse total esquecimento de si mesmo, é algo que a televisão jamais conseguiu reproduzir. [...] Vai-se ao cinema para se renovar e descobrir lá, ocasionalmente, o vigoroso sentido de envolvimento pessoal e a restauração espiritual que somente a arte autêntica pode proporcionar. (KNIGHT, 1970: 268)
Na história do cinema, grandes diretores realizaram excelentes trabalhos autorais num esforço para elevar as produções do cinema à condição de obras-primas da arte. Dedicaram seu gênio e criatividade para fazer o cinema transcender sua condição de produto industrial e atingir a dignidade de uma filosofia ou de uma educação cultural relevante para a formação do imaginário social. Porém, na história da televisão, tais preocupações não se verificaram. Ao contrário, os únicos indicadores que parecem interessar a seus realizadores são audiência e lucro com bons contratos de propaganda, além de estabelecer fórmulas que formatem um padrão de gosto médio. “De modo geral, os produtores de TV sabem o que esperam os telespectadores e trabalham dentro desses limites” (GIDDENS, 2005: 373). Diante das batalhas que fazem parte da guerra pela audiência das tevês, os telespectadores figuram apenas como dados estatísticos que compõem os gráficos das reuniões estratégicas
das diretorias para aumentarem o ibope e garantirem a fidelidade da audiência. “Quanto mais eficiente for o atendimento às expectativas, maiores serão os resultados financeiros” (LUCA, 2009: 347).
O cinema é uma experiência que pode ser coletiva ou individual, mas seu resíduo (emocional e intelectual) tem um efeito direto no indivíduo. Já a TV oferece uma experiência cujo reflexo quase sempre espelha uma coletividade. Ou seja, a TV nos dá a sensação de estarmos conectados a um mundo “lá fora”, que está acontecendo agora, cujo tempo verbal é sempre conjugado no gerúndio. O cinema oferece uma realidade atemporal, cujo sentido só pode ser encontrado nela mesmo. Em suma, a TV nos projeta para “fora de nós”; ela produz extroversão ao dirigir nossa energia psíquica para nosso exterior; e o cinema, ao contrário, nos remete para “dentro de nós”, estimulando introspecção, orientando a energia psíquica para nosso interior.
Ingrid Xavier faz um apontamento importante sobre os reflexos cognitivos da atividade televisiva, a qual insere imagens de forma agressiva e vertiginosa, pela redução cada vez mais acentuada do tempo entre uma imagem e outra, diminuindo também os espaços para reflexão.
Consequência na esfera cognitiva do efeito produzido pela onipresença da imagem é o empobrecimento do universo locucional que se reduz à linguagem estereotipada facilmente reconhecível. Uma vez que o discurso televisivo se dirige indistintamente a todos, sua linguagem, simplificada e simplificadora, não enseja que a massa espectadora constitua um universo simbólico abstrato-formal mais complexo. (XAVIER, 2008: 139)
Diante do alcance da televisão, é necessário refletir sobre a influência desse meio sobre a educação moral principalmente das crianças. Essa preocupação é válida, pois muitas das noções que as crianças têm sobre vários assuntos são pré-formadas ou solidificadas a partir do contato com a TV, a qual não tem como prioridade a formação intelectual das pessoas. A TV tem uma
missão pragmática bastante definida: produzir uma mensagem padronizada que possa atingir ao maior número de pessoas e, se possível, ao mesmo tempo. Esse formato de discurso não pressupõe um gradiente variado e as perspectivas ficam reduzidas a um conjunto mínimo de opiniões (discurso mínimo) que direcionam o senso das pessoas, acabando por criar uma zona de conforto para elas. As pessoas (conscientemente ou não) acabam ficando nessa zona, e é muito provável que elas resistam a quem (ou o quê) tente demovê-las.
Alguém poderá objetar que todas as ressalvas que expusemos a respeito da televisão se aplicam também ao cinema. Mas as pessoas estão sujeitas à TV de um modo muito mais automático do que o cinema. Por exemplo, é bastante comum encontrar pessoas que gostam de assistir TV, porém afirmam não gostar de filmes e preferirem novelas. Ora, a novela nada mais é que uma versão alongada dos melodramas, um gênero voltado ao escapismo, que se caracteriza por enredos complicados e pelo exagero de situações patéticas. Em seu sentido mais pejorativo, é algo feito intencionalmente para fazer o telespectador chorar. E nesse âmbito de emoções abundantes e intensas, talvez seja difícil restar alguma energia para qualquer reflexão.
Para balancear o debate, também são muito comuns os cinéfilos, acostumados à estética e ao discurso cinematográfico, afirmarem, até com mais veemência, suas restrições quanto à televisão. Aqui, a rejeição me parece mais consciente, menos automatizada, na medida em que apresentam razões mais refletidas para justificarem seu desapego. Em suma, enquanto os apreciadores da TV dizem apenas não gostar de cinema sem uma razão especial, os cinéfilos estão bem conscientes de seus motivos que, em geral,