Lembro-me de uma oficina com mulheres em um bairro po- puloso de uma capital latino-americana. Apenas havia começado um novo século e pela primeira vez, a maioria dessas mulheres se aproximava de um computador e pretendia usá-lo. Numa con- versa, uma das participantes relatou que durante muitos anos seu marido a trancava em casa todas as manhãs quando ia trabalhar e só podia sair quando ele regressava, esclarecendo exatamente para onde ia. Depois de uma longa negociação em que julgou importante a ajuda recebida por usas vizinhas solidárias que fi- zeram com que o seu marido se sentisse envergonhado perante o bairro ao apontá-lo como “carcereiro” de sua esposa, a mulher conseguiu recuperar a liberdade de ir e vir e isso lhe permitiu participar do treinamento. A luta para alcançar esta liberdade havia construído nela um caráter decidido e de liderança recon- hecidos pela comunidade.
Poucos anos depois, após apresentar em um painel os resultados de uma pesquisa sobre violência de gênero e os usos das tecnolo- gias da informação e da comunicação, uma mulher se aproximou para contar-me preocupada que a partir de quando ela e seu ma- rido começaram a usar celulares para sua comunicação habitual, o marido tinha adotado uma conduta persecutória, com o envio de mensagens e chamadas permanentes querendo saber o que ela fazia, onde estava, com quem se encontrava. Também tinha adquirido o costume de revisar seu telefone móvel, para conhecer suas chamadas e mensagens. A mulher sentia-se emocional e psicologicamente re- primida e não podia entender porque seu marido tinha um uso tão controlador de seu celular e de suas ligações. Enfrentar a situação se- riamente desnudaria relações de controle e poder em seu casamento que agora vieram à tona com o uso da tecnologia.
Há diferença entre o marido “carcereiro” e o marido “persegui- dor” virtual? Que motivos levam a este controle do movimento de suas parceiras? O que leva a limitar a autonomia de suas mulheres e se responsabilizar pelos seus passos? O estresse emocional e psi- cológico das mulheres aumenta sua insegurança diante de qualquer
decisão. Sentem-se censuradas, menosprezadas em sua auto-estima, envergonhadas frente às amigas, familiares e vizinhos.
O contexto da violência real e a exercida virtualmente se asse- melham e os resultados são similares: mais uma vez a mulher ver re- primido seu direito a uma vida sem violências e a decidir sobre seus próprios movimentos e ações, sem interferências. Mais uma vez, o poder de quem se considera chefe de família é exercido com mão de ferro, controlando e submetendo, ferindo a auto-estima e impondo limites a autonomia da mulher.
Porém o controle sobre a vida e a liberdade das mulheres não é apenas exercido por pessoas conhecidas. Tem-se estudado muito o controle que exercem as famílias, o bairro, a igreja e outras insti- tuições sobre o comportamento das mulheres, seus movimentos, sua forma de vestir, suas atividades. Juntos eles formam uma espécie de “cerco” que em um passado não tão distante e também na atualida- de, desempenha o papel de censor frente a qualquer conduta que rompa com o estereótipo e com os papéis tradicionais que se espera que as mulheres desempenhem.
Com as ferramentas tecnológicas e as redes virtuais, também po- dem ser formados cercos de controle social ou de agressões anôni- mas em lugares menos esperados. Na Argentina, o movimento de mulheres protestou fortemente contra uma página no Facebook que se dedicava em seguir mulheres jovens nos meios de transportes na cidade de Bueno Aires. A perseguição só era possível graças as tec- nologias e seus novos dispositivos. Disfarçadamente, um grupo de jovens tirava fotografias de meninas durante uma viajem no trans- porte público e submetiam as fotos em uma página da rede social Facebook. As fotos eram publicadas sem autorização das meninas e eram seguidas por comentários de admiração ou crítica, em sua maioria inofensiva, porém o alarmante era que cada foto tinha a identificação de que tinha sido obtida em uma determinada linha de ônibus e horário. Não só tornou pública uma foto sem consenti- mento, como divulgou dados da vida e hábitos cotidianos das meni- nas que podiam colocá-las em situação de risco diante de qualquer perseguidor.
O primeiro protesto contra a página se dirigiu ao Facebook, que se omitiu ao protesto dizendo que não existia razões válidas para fechá-la. Então, o protesto se dirigiu aos criadores a página. Depois de várias tentativas frustradas, conseguiu-se conversar com os jovens responsáveis pela página, que apenas se divertiam com o que faziam. Em nenhum momento haviam pensado que suas publi- cações estariam violando direitos a privacidade nem a autonomia das mulheres. Apesar de no inicio mostrarem-se irritados com os protestos “dessas feministas”, depois aceitaram o diálogo e consi- deraram a possibilidade de solicitar a permissão antes de publicar uma foto.
É verdade que ninguém pensou que redes sociais como Facebook, Orkut e Twitter, tão populares entre adolescentes e jovens e as mul- heres, em particular, seriam espaços para se exercer a violência de gênero. A perseguição, assédio, o roubo de informações e a publi- cação de fotos e vídeos íntimos sem autorização ou a distorção dos seus conteúdos já resultam em algo usual.
Geralmente as vítimas são mulheres que vêem exposta sua inti- midade ou seu nome diante do olhar de qualquer pessoa que utilize a internet. A ruína do prestígio pessoal pode significar o fim de uma carreira profissional ou política, como também o fim do respeito no trabalho, na escola ou bairro. As perdas que resultam destas si- tuações e o desespero que pode ocasionar têm sido causa de suicí- dios entre adolescentes, de depressões sérias e ataques de pânico que em inicialmente pareciam inexplicáveis. O preocupante é que não tem como encontrar proteção a este tipo de agressão e muitas vezes as denúncias não são tomadas com seriedade pela polícia nem pelos órgãos públicos.
Mais uma vez são as próprias mulheres que buscam evitar que as agressões continuem acontecendo. Elas não se deixam amedrontar e começam a buscar soluções concretas e a identificar os responsáveis. Há algumas semanas, a revista Wired, dos Estados Unidos, publicou em sua versão on-line que o Facebook teve que se desculpar por per- mitir imagens violentas contra as mulheres (http://www.wired.com/ underwire/2013/01/facebook-violence-women-2/).
A foto de uma jovem com o rosto ensanguentado, como se tivesse sido espancada, foi publicada em uma página da rede social com o texto: “as mulheres são como erva, tem que ser aparadas ou corta- das regularmente”. O Facebook explicou que se equivocou em não barrar a foto e que nem recebeu bem os protestos, e pediu desculpas por isso.
A jovem na foto foi quem apresentou a queixa, porque na rea- lidade, a foto era sua e havia sido roubada de sua página na rede social e manipulada para dar aparência de ter recebido agressões. O Facebook tem uma política sobre direitos e responsabilidades segun- do a qual algumas páginas podem ser consideradas “humorísticas”, apesar de seu conteúdo provocar insatisfação ou desagradar a al- guns leitores. Trata-se de uma política que muitos consideram pouco clara e ambígua e que não e que não é aceita pelos defensores dos direitos das mulheres.
Uma crítica mais direta a esta rede social foi lançado no site
GoPetition no qual assinala que o Facebook não oferece uma opção para denunciar páginas ou materiais sobre violência sexual que apa- recem na rede (http://www.gopetition.com/petitions/petition-face- book-to-remove-material-that-promotes-rape.html). Essas páginas têm se proliferado ultimamente e parecem ser criadas seguindo o mesmo padrão. Com nomes como “Você sabe o que custará dominá- las quando persegui-las por um beco” ou “Você sabe o que custará quando tiver que usar outro rolo de fita adesiva” ou “Você sabe o que custará dominá-la quando ela conseguir soltar a corda”, nenhu- ma pessoa pode pensar que se trata de páginas “humorísticas”, pois o nome e os conteúdos já demonstram com claridade a violência sexual e o estupro.
Talvez alguns considerem que estas críticas busquem cercear a liberdade de expressão. No entanto, a incitação ao crime ou con- siderar o sofrimento e a humilhação de mulheres como situações “humorísticas” chamam para a necessidade de ter políticas claras pelo respeito aos direitos de todas as pessoas, não dando espaço as agressões nem a linguagem de ódio, também sexista e misógino, que tanto circulam na internet atualmente.