Ana de Miguel Montserrat Bo
I. Os gêneros da rede, estereótipos e realidades
I.2. Rumo a uma nova subjetividade desgenerizada?
É possível afirmar que por trás de toda política, cultura ou mesmo civilização subjaz uma ontologia, quer dizer, uma concepção deter- minada de quem é ou quem são sujeitos da mesma. Assim, por exem- plo, para algumas religiões monoteístas só são sujeitos de direito e deveres os fiéis ou crentes de tal religião. Mas não é só uma questão de religião: o valorado berço ateniense da democracia só considera- va sujeitos, quer dizer, cidadãos, um grupo reduzido de homens. As mulheres, todas as mulheres, e os homens escravos ou estrangeiros não chegavam à categoria de seres humanos. A Revolução Francesa e o Iluminismo se apresentaram a si mesmas como um momento fundador de uma nova ordem baseada pela primeira vez na univer- salidade dos direitos e, portanto, na universalidade do ser humano sujeito dos direitos consagrados pela Declaração de Direitos do Homem
e do Cidadão. E, sem dúvida, esta suposta universalidade também teria consequências excludentes para as mulheres, consequências que ainda hoje não foram superadas. Neste contexto, e para avaliar corretamente a possibilidade de que surjam novas identidades mais plurais, não hierarquizadas e não excludentes é necessário se deter na análise da configuração atual das identidades de gênero.
Dentro da diversidade de enfoques da perspectiva de gênero8 existe um consenso bastante generalizado em afirmar que nas teo- rias social e política modernas, a constituição do público, tanto a nível simbólico como material, havia se realizado graças à exclusão das mulheres e à sua inclusão “em tempo integral” nas tarefas da reprodução social – a criança e os cuidados – no âmbito privado e doméstico. Efetivamente, as duas esferas se constituem na moderni- dade com oposição lógica e simbólica9. A pública é a esfera da uni- versalidade e da imparcialidade, da ciência e da técnica, do direito, da política e da moral. Em consequência é regida de acordo com a razão tanto teórica quanto prática. A razão, com sua capacidade de abstração, neutraliza as particularidades e afetos ou sentimen- tos –paixões se chega ao caso– que entorpeciam as regras formais previamente pactuadas e acordadas. Desta forma, a esfera do pú- blico abandona o reino da necessidade, da natureza, para construir- se como o reino da cultura e da liberdade, da criação humana. As mulheres permanecem aos cuidados da esfera privada e doméstica, esfera que se caracteriza de forma oposta à sua complementar. É o âmbito do particular e da parcialidade, dos afetos e das paixões. O corpo, a natureza, a necessidade em forma de descanso, comida e sexo encontram aqui seu lugar de refúgio ao abrigo do olhar pú- blico. O homem, precisamente (quer dizer, o macho), pode a partir de agora transitar de uma esfera a outra; da luta pela existência ao
8 Consideramos que, na prática, enfoque de gênero e teoria feminista estão sendo
utilizados como sinônimos. Para um mapa introdutório da diversidade de teo- rias feministas, tanto passadas quanto atuais, ver A. de Miguel “Feminismos”, em C. Amorós (dir.) (1995): Diez palabras claves de mujer, Pamplona, Verbo Divino.
9 Cfr. C. Pateman (1988) The Sexual Contract, Cambridge, Polity Press e C. Molina
(1994): Dialéctica feminista de la Ilustración, Barcelona, Anthropos. Por outro lado, sustentar que a opressão das mulheres se relaciona com sua atribuição ao privado não significa, muito menos, desconhecer que na modernidade e, especialmente nas abordagens liberais, o privado segue conotado no reino da necessidade e da natureza, tal e como sucedia na antiguidade grega ou roma- na, também se converte agora em um direito e um limite frente ao poder do Estado, é o lugar da propriedade privada e do “próprio” frente ao social enten- dido às vezes como o comum e uniforme, inclusive como a “tirania da opinião pública”. Deste lugar que algumas autoras diferenciam explicitamente entre o doméstico e o privado (S. Murillo (1996): El mito de la vida privada, Madrid, Siglo XXI)
repouso do guerreiro. As mulheres definidas essencialmente como corpos cumprem, material e simbolicamente, uma dupla função: como corpos com braços, pernas e outros é a artífice material – física e afetiva – do doméstico, como um corpo ornamentado se consti- tui em símbolo material do status do marido. O discurso teórico da modernidade e as novas produções científicas se encarregam de legitimar esta ordem social. A ideologia da natureza diferente e complementar dos sexos se converteu, tanto na filosofia quanto nas ciências, na ideologia legitimadora dos dois espaços e das duas identidades. Esta teoria se concretizou em dois discursos aparente- mente contrários, mas de consequências excludentes similares para as mulheres: o da inferioridade e o da excelência. Segundo o dis- curso da inferioridade, a debilidade, o infantilismo, a maldade ou, definitivamente, a precariedade de qualidades físicas, intelectuais e morais das mulheres implica que tenham que estar tuteladas por e submetidas aos homens, homens que, naturalmente, possuem em doses elevadas as qualidades das quais carecem as mulheres. Para o discurso da excelência, as mulheres abrigam qualidades extraordi- nárias, especificamente femininas e fundamentais para a ordem e o progresso sociais. Entre estas encontramos qualidades intelectuais como a intuição, certo apego ao pensamento concreto – frente ao homem especulador e metafísico – e a fluidez verbal, mas, sobretu- do, destacam as sublimes qualidades morais, todas elas resumíveis em sua capacidade ilimitada de entrega aos outros: abnegação, sa- crifício, compaixão, piedade, doçura. Agora, se nos perguntarmos qual é a tradução de tanta excelência em termos de participação na vida social e política, a resposta é que nenhuma. As mulheres se convertem em patrimônio ou reserva moral da humanidade em seu conjunto e de cada homem em particular. E para não corromper qualidades tão necessárias ao bem-estar e progresso sociais a mulher fica enclausurada na esfera do privado, velando a santidade de sua família10.
10 Nas palavras precisas de John Stuart Mill “... que a mulher é melhor que o
homem, nos repetem continuamente os mesmos que estão totalmente contra tratá-la como se na realidade fosse assim, de modo que esta confissão chegou a converte-se em uma fastidiosa fórmula de hipocrisia” (The Subjection of Women, 1869).
Tabela 1.
A configuração dos espaços público e privado na modernidade.11