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Das cavernas à rede: as mulheres e a tecnologia

Ana de Miguel Montserrat Bo

I. Os gêneros da rede, estereótipos e realidades

I. 1. Das cavernas à rede: as mulheres e a tecnologia

A filósofa Celia Amorós, autora da obra clássica Hacia una crítica

de la razón patriarcal3 evidenciou que o pensamento patriarcal con- siste, em boa medida, no não pensamento sobre as mulheres. Quer dizer, sob a suposta universalidade, objetividade e neutralidade va- lorativa que reclamam para si os discursos científicos, os estudos de gênero têm mostrado que, em geral e até o momento, o objeto real de estudo da ciência – tanto humanas quanto sociais e naturais – tem sido, pura e simplesmente, a metade da espécie, a metade da socie- dade. Além disso, a ciência e a técnica têm se apresentado sempre

3 C. Amorós (1985): Hacia una crítica de la razón patriarcal, Barcelona,

como ações especificamente masculinas. De fato, mesmo nas repre- sentações sexistas da vida cotidiana as mulheres não podiam sequer pendurar um quadro na parede ou consertar uma tomada e, o que resulta mais grave com relação ao tema a que nos dedicamos, nem programar o vídeo. E … como estes seres que não sabem programar um vídeo vão ter acesso à ciência, à tecnologia com maiúsculas, ao mundo virtual?

E, sem dúvida, esta é uma visão tendenciosa da realidade. As mulheres, mesmo tendo sido sempre excluídas do saber oficial, reconhecido – e etiquetadas como bruxas quando insistiam em conhecer e experimentar – sempre se relacionaram com a técni- ca. Algumas autoras têm defendido que as prováveis contribuições dadas pelas mulheres ao desenvolvimento científico e técnico têm sido silenciadas e ignoradas ao mesmo tempo em que se tem en- grandecido o papel dos homens... até mesmo na evolução da nossa espécie! Efetivamente, no relato sobre nossas origens mais remo- tas, os paleontólogos, antropólogos e arqueólogos têm transmitido com eficácia o que a antropologia feminista denominou o mito do homem caçador.4 Segundo este mito patriarcal, enquanto os ativos, aventureiros e criativos homens se dedicavam à importante tarefa da caça, as mulheres passivas, indefesas e impedidas por sua biologia estariam refugiadas em suas cavernas dedicando-se aos “seus trabal- hos”, estes concebidos como os mesmos de uma dona de casa atual. Frente a esta visão, a teórica russa Alejandra Kollontai já sustentava no início do século XX que na evolução da humanidade as mulheres desempenharam um papel muito mais importante do que aquele que a História da Ciência tem afirmado e dedica várias páginas para analisar a relevância especial de sua contribuição, em suas palavras: “A história de Eva, que colheu o fruto da árvore do conhecimento e que por isto teve que parir com dor”5.

4 Cfr. S. Harding (1996): Ciencia y feminismo, Madrid, Eds. Morata.

5 A. de Miguel (2001): Alejandra Kollontai, Madrid, Eds. Del Orto, Biblioteca de

Mujeres. E KOLLONTAI, Alejandra. La mujer en el desarrollo social. Editorial Guadarrama, Barcelona 1976. Disponível em <http://www.icesecurity.org/fe- ministas/Kollontai_-_La_mujer_en_el_desarrollo_social_-_CAS.pdf> . Acesso em 17 de abr. 2013.

Segundo sua análise, o fato de as mulheres serem as reprodu- toras da espécie as fez assumir um papel decisivo na história da humanidade. Provavelmente se converteram nas protagonistas do processo de produção. Por causa da maternidade, as mulheres não saiam com os grupos de caça das tribos, mas permaneciam em um lugar estável com seus filhos. Quando se esgotavam suas provisões, as mulheres se convertiam nas únicas provedoras do alimento e as- sim, segundo Kollontai, desenvolveram significativamente faculda- des como a observação e a reflexão. É muito provável que por meio da experiência e da reflexão tenham sido elas que conceberam a ideia da agricultura e que começaram a trabalhar com a terra. Da mesma forma, é provável supor que foram elas que construíram as primeiras cabanas para proteger seus filhos; as primeiras a praticar o artesanato: a cerâmica e a fiação; ao decorar seus vasos, teriam sido as protagonistas das primeiras tendências artísticas da humani- dade. Aprenderam a conhecer as propriedades das ervas, com o que foram as primeiras médicas e farmacêuticas. Definitivamente, e por razões materiais concretas, “o saber” era patrimônio das mulheres das sociedades primitivas6.

Hoje, o mito do homem caçador segue gozando de plena atua- lidade nos livros de textos infantis e no imaginário coletivo: por um lado se mantém que o homem representa o ser humano neutro da espécie, mas a realidade é que ele se constitui no protagonista de tudo que seja produto da cultura e da criação, e as mulheres são re- presentadas como seres específicos, sexualizados, determinados por sua natureza reprodutora. E se esta é a imagem do nosso passado, o que acontece com o nosso futuro? Não são acaso masculinos os simpáticos robôs da guerra das galáxias? É que no imaginário co- letivo um robô feminino já não seria um robô. O quê seria então? Pois exatamente isto, um robô feminino ou uma fêmea. Do mesmo modo que de um lado está a História (neutra) e do outro a História das Mulheres, de um lado o futebol (neutro) e do outro o futebol feminino, etc. Ante a evidência do solapamento do masculino como

6 Para seguir esse debate na atualidade, recomendamos recorrer às obras das

antropólogas feministas; entre outras H.L. Moore Antropología y feminismo, Madrid, Cátedra.

o ser humano neutro, universal, o nosso objetivo é resgatar do es- quecimento a metade da espécie, e com ela todas as tarefas que de forma invisível as mulheres seguem realizando na esfera privada. Para isso, abordaremos as três dimensões que, segundo Harding, o gênero apresenta.7 Em primeiro lugar, a dimensão simbólica, em que discutiremos se na nova sociedade da informação está efetiva- mente em marcha um processo de construção de novas subjetivida- des, novas formas de ser pessoas para além das pressões binárias do masculino-feminino e potencialmente libertadoras para tod@as. Em segundo lugar, duas questões de caráter mais sociológico nas quais se aborda como essas mudanças afetam a nível simbólico na dimensão estrutural do gênero, quer dizer, na divisão sexual do tra- balho e, finalmente, nos processos de socialização e reprodução da identidade individual.