6. CONTROLO DA ESTRONGILIDOSE EM ASININOS
6.1. Estratégias de controlo
6.2.1. Controlo seletivo
Com o objetivo de resolver o problema da resistência anti-helmíntica emergente, em particular dos ciatostomíneos, foi considerada uma nova abordagem de controlo antiparasitário em equídeos (Becher et al., 2010; Nielsen, 2012; Menzel, 2013). Com base na experiência adquirida nas estratégias de tratamento em ruminantes (Kenyon et al., 2010) foi proposto o controlo seletivo do parasitismo gastrintestinal em equídeos considerando o valor da contagem de ovos por grama de fezes (OPG) (Gomez & Georgi, 1991; Krecek et al., 1994; Becher et al., 2010; Nielsen, 2012; Francisco et al., 2012).
Nielsen et al. (2010a), referem um estudo realizado na Universidade de Kentucky, em 693 cavalos com idades inferiores a dois anos, ao longo de 50 anos, que relaciona os resultados de contagens fecais de ovos e de culturas de larvares com o número de nematodes observados. O número de ovos e larvas não teve correlação linear direta com a carga parasitária observada nos cavalos, no entanto os valores da contagem fecal de ovos de estrongilídeos abaixo de 500 ovos por grama de fezes (OPG) corresponderam a uma contagem significativamente baixa de nematodes adultos, e valores acima de 500 OPG corresponderam a contagens substancialmente altas de nematodes adultos. Estes dados justificaram a decisão de não tratar animais com valores entre 0 e 500 OPG e de tratar os animais com valores superiores a 500 OPG. Embora este estudo evidencie o valor limiar de 500 OPG, este resultado deve ser interpretado com cautela ao ser aplicado em populações diferentes da que lhe deu origem. De uma forma geral, o limiar de tratamento mais utilizado e aceite internacionalmente é 200 OPG, acima do qual é recomendado o tratamento do equídeo com anti-helmínticos (Krecek et
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al., 1994; Bowman et al., 2003; Nielsen et al., 2006a; Becher et al., 2010; Nielsen et al., 2012a,b; Relf et al., 2013).
Trawford & Burden (2012), referem que o limiar de tratamento de 1000 OPG mostrou-se eficaz no controlo seletivo de asininos adultos. Os autores referem que este limiar de tratamento permitiu reduzir o número médio de tratamentos anti-helmínticos de quatro para uma vez por ano. No entanto, Lopes et al. (2015) e Melo-Franco et al. (2015) referem que deverá ser ponderada a utilização do limiar de 500 OPG para o controlo parasitário, em equinos e asininos, em Portugal.
Independentemente da espécie hospedeira, o parasitismo dispersa-se entre os indivíduos de um rebanho (Relf et al., 2013; Wood et al., 2013). Molnar & Kassai (1994) e Nielsen et al. (2006b), referem que apenas 20% dos equídeos acolhem 80% da população de estrongilídeos. Estudos recentes demonstram que a percentagem real de equídeos, responsável pela excreção de 80% da carga parasitária no ambiente é inferior a 20% da população (Lester et al., 2013; Relf et al., 2013).
O controlo seletivo permite identificar os animais eliminadores de elevada carga parasitária para o meio ambiente, que concentram os parasitas, e trata-los de forma seletiva, reduzindo o número de tratamentos com anti-helmínticos (Nielsen et al., 2006a; Becher et al., 2010; Nielsen et al., 2014a).
Trawford & Burden (2012), referem que a monitoração frequentemente de asininos, realizada em quatro semanas ao longo do ano, permite programas de tratamento individualizado e reduzir a contaminação da pastagem.
Deste modo, os nematodes parasitas dos equídeos não tratados podem atuar como uma fonte de refúgio relativamente à pressão seletiva exercida pelos fármacos antiparasitários (Van Wyk, 2001; Bowman et al., 2003; Nielsen et al., 2006a; Van Wyk, 2006; Kenyon et al., 2009).
Supõe-se que o pequeno número de nematodes resistentes sobreviventes ao tratamento dos equídeos possam ser rapidamente diluídos pelos parasitas em refúgio, levando a uma acumulação lenta na população de alelos genéticos que codificam para a resistência aos anti- helmínticos. Atualmente não existem estudos quantitativos que fundamentem esses princípios, no entanto, a monitorização da excreção de ovos e a redução de tratamentos anti- helmínticos ao longo do tempo são a base dos programas de controlo mais responsáveis (Madeira de Carvalho et al., 2014; Matthews et al., 2014). Todas as fases de desenvolvimento parasitário, não expostas ao anti-helmíntico na altura do tratamento, estão em refúgio por não estarem sujeitas à pressão de seleção. Sendo considerados todos os estádios de desenvolvimento exógenos de estrongilídeos (ovos, L1, L2 e L3) e larvas de ciatostomíneos
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enquistadas na mucosa intestinal de equídeos tratados com anti-helmínticos sem atividade larvicida (Nielsen et al., 2006a).
Atualmente o conceito de refúgio é amplamente aceite e assume-se que desempenha um papel central e muito importante na prevenção do desenvolvimento de resistência anti-helmíntica, no entanto até ao momento não existem estudos quantitativos que fundamentem esses princípios (Eysker et al., 2006; Van Wyk et al., 2006; Matthews et al., 2014).
A adesão ao controlo seletivo, com programas de tratamento dirigidos a equídeos eliminadores de elevada carga parasitária para o meio ambiente, tem sido muito variável entre regiões, países e entre os diferentes sistemas de produção (Relf et al., 2013; Robert et al., 2014). No entanto, Lester et al. (2013) e Krecek et al. (2014), referem que sempre que seja adotado o controlo seletivo, ocorre uma redução efetiva do uso de anti-helmínticos, pelo que existe um incentivo económico importante para o proprietário/criador.
Apesar das recomendações constantes de mudança para o controlo seletivo, aconselhadas pelos parasitologistas durante as últimas décadas, os hábitos dos proprietários de equídeos permaneceram fieis aos princípios dose/intervalo do controlo estratégico. Inquéritos revelaram que, durante a década de 1990, no Reino Unido observou-se uma tendência geral de seis tratamentos anuais (Earle et al., 2002), na Irlanda os equídeos foram tratados em intervalos de quatro a seis semanas durante todo o ano (O'Meara & Mulcahy, 2002) e em África do Sul os equídeos foram tratados anualmente entre cinco e sete vezes (Matthee et al., 2002).
Na Europa, atualmente o controlo seletivo tem sido amplamente utilizado com sucesso em vários países como Alemanha, Dinamarca, Finlândia, Inglaterra, Holanda e Suécia (Duncan & Love, 1991; Becher et al., 2010; Nielsen, 2012; Nielsen et al., 2012; Greite, 2013; Nielsen et al., 2014c), tendo sido também usado em Portugal (Madeira de Carvalho et al., 2014) e em Espanha (Francisco et al., 2012).
Vários estudos documentam a utilização de controlo seletivo em África do Sul (Krecek et al., 1994; Krecek & Guthrie, 1999; Matthee et al., 2002b).
Nos Estados Unidos da América, muitos proprietários de equídeos estão dispostos a mudar para o controlo seletivo se houver evidência significativa da redução da ocorrência de resistências a anti-helmínticos assim como dos riscos de saúde para os animais (Robert et al., 2014).
Os proprietários de pequenas explorações, de animais utilizados em atividades de lazer, têm aderido mais facilmente à gestão de controlo seletivo do que as grandes coudelarias, proprietárias de animais selecionados e diferenciados (Lester et al., 2013; Relf et al., 2013; Stratford et al., 2014; Robert et al., 2014).
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Nielsen et al. (2006), Becher et al. (2010), Nielsen et al. (2012c,d), Pilo et al. (2012), Studzińska et al. (2012) e Hertzberg et al. (2014) observaram um aumento da prevalência de infeção por Strongylus vulgaris em explorações onde se reduziu a intensidade de tratamento anti-helmíntico ao longo de vários anos, pelo que os autores consideram que o controlo seletivo poderá aumentar a probabilidade de Strongylus vulgaris completar seu ciclo biológico e potenciar o seu reaparecimento. Hertzberg et al. (2014) e Matthews (2014), consideram que são necessários mais estudos para avaliar esta possibilidade.
Métodos diagnósticos utilizados
As técnicas coprológicas quantitativas de diagnóstico parasitológico, atualmente utilizadas no controlo seletivo, são simples e baratas permitindo uma abordagem de tratamento mais objetiva com a utilização de anti-helmínticos de espectro de ação específico, e evitando desparasitações desnecessárias com anti-helmínticos de espectros de ação amplos (Madeira de Carvalho, 2006).
As análises coprológicas quantitativas, com contagem de ovos fecais, são fundamentais para o controlo seletivo, no entanto não permitem fazer o diagnóstico de género ou espécie. Por existirem cerca de 60 espécies de estrongilídeos parasitas de equídeos domésticos com diferentes potenciais patogénicos, a contagem de ovos pode não ser suficiente para interpretar a gravidade da infeção. Por outro lado, quando é necessário um elevado número de análises, estas podem tornar-se dispendiosas para o proprietário, muitas vezes mais caras do que o anti- helmíntico (Nielsen, 2012).
A cultura de ovos para obtenção de larvas pode ser realizada, no entanto o método é demorado, trabalhoso e requer um nível de competência técnica elevado para a leitura das amostras (Nielsen, 2012).
As análises coprológicas também não permitem diagnosticar a fase pré-patente da infeção (Matthews, 2008). Devido ao longo período pré-patente, das várias espécies de estrongilídeos, e à ocorrência de doença grave causada pelas fases larvares, há necessidade de utilizar métodos de diagnóstico que permitam detetar e quantificar os níveis de infeção por estádios imaturos destes parasitas (Matthews, 2014). Atualmente, alguns estudos procuram dar resposta à necessidade de diagnóstico precoce da estrongilose larvar avaliando a potencial utilidade de alguns antigénios funcionarem como marcadores para o diagnóstico da fase pré- patente da infeção por ciatostomíneos (McWilliam et al., 2010) e por Strongylus vulgaris (Andersen et al., 2013; Nielsen et al., 2014d). Alguns testes ELISA (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay) têm sido desenvolvidos com base na medição dos níveis de IgG sérica
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específica para dois antigénios, presentes em larvas de terceiro e quarto estádio de desenvolvimento de ciatostomíneos (Dowdall et al., 2002, 2004; McWilliam et al., 2010). Com este objetivo, também têm sido purificados antigénios de excreção/secreção de ciatostomíneos pela técnica de cromatografia líquida FPLC (Fast Protein Liquid Chromatography) que tem mostrado bons resultados no diagnóstico de infeção assim como na avaliação de tratamentos anti-helmínticos (Paz-Silva et al., 2011b).
Testes de Immunoblotting e de Enzyme-Linked Immunosorbent Assay mostram que o antigénio SvSXP de Strongylus vulgaris poderá ser utilizado como marcador de diagnóstico da infeção (Andersen et al., 2013; Nielsen et al., 2014d). Entretanto, na ausência de testes de diagnóstico eficazes, recomenda-se que os tratamentos seletivos, dirigidos aos equídeos eliminadores de ovos, devem ser equilibrados e equacionados com os tratamentos estratégicos com administração de anti-helmínticos larvicidas, dirigidos aos estádios larvares indetetáveis por análise coprológica (Matthews, 2008; Hertzberg et al., 2014).