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3. O GRINDR E AS RELAÇÕES

3.3 Conversa com Túlio e Marcelo: uma descrição

Túlio e Marcelo estão no lugar em que o primeiro ficou quando falou individualmente. Para tranquilizar os participantes mais uma vez, a primeira pergunta reforça o caráter conversacional do encontro.

Pesquisador: Bom, ahm... igual a primeira parte, só quero que vocês conversem (risos) comigo. E, assim, ouvi os dois, ouvi a história de vocês de duas maneiras, assim, e, aí eu queria saber, assim, como que vocês, hoje, enfim, né, é a relação de vocês.

Marcelo olha para o alto e um grande sorriso aparece em seu rosto. Seus olhos formam duas meias luas enquanto um brilho passa por eles. Ele está no momento de recordar como foi. Enquanto ele se permite esse estado, Túlio olha diretamente para a câmera e responde:

Túlio: Primeiro, estranha. (Risos dos dois)

Marcelo: Estranha, muito estranha! (Risos)

T: Não, mas é, é uma es... – coça a testa com sua mão direita.

M: Inusitada, né? Não estranha. – fala, ao olhar diretamente para Túlio.

T: É uma estranha que eu falo não de uma maneira ruim, mas de uma maneira legal, assim. – agora é Túlio quem devolve o olhar de Marcelo.

M: Sim.

T: Eu gosto muito de como as coisas aconteceram. – funga o nariz rapidamente. M: Sim.

91 T: É... inusitada, principalmente. – volta a olhar para Marcelo, como em busca de aprovação.

M: Inusitada.

T: Ainda mais que nós dois, a gente procurava, né, de certa forma, coisas completamente diferentes no aplicativo, né. – seu gesto espacial com a mão, de abrir para mostrar espaço, retorna.

M: E nós somos completamente diferentes, né? (Risos) – confirma, ao encarar o outro rapaz.

T: Sim! A gente leva a vida de uma maneira diferente. O que eu acho muito legal é exatamente isso, assim, a cumplicidade que a gente tem um com o outro, sabe? – confirma, com seus olhos no rosto de Marcelo.

M: Uhum.

T: E o... justamente o interesse que a gente tem no, na vida um do outro, em participar e... tals.

M: É, é verdade. Concordo né, com que o Túlio falou, realmente estranha, assim, é a palavra que mais define, porque... – ele encara para o alto novamente, com um sorriso nos lábios, e depois o chão, antes de olhar rápido para Túlio – e, a-a gente não é normal, né?

T: (Risos)

M: A gente não é nada normal, a gente não é nada normal. Quem convive com a gente no dia a dia, sabe...

T: Vê muito bem...

M: Vê que a gente não é nada normal, que a gente é estranho, que a gente quer apertar um ao outro até explodir, sair os olhos pulando, assim, – joga as duas mãos para frente – é umas coisa assim. É o sentimento de pessoas fofas, né? Pessoas fofas a gente tem vontade de apertar, – fecha as mãos lentamente e com força, na direção do rosto de Túlio – de espremer até os olhinho sair junto. É isso, eu acho. – seu olhar brilhante aparece de novo e o sorriso meio fofo, meio encabulado também. – Eu acho que a melhor palavra pra nossa relação é estranha, que aconteceu, que fluiu. Duas pessoas diferente, totalmente diferente, com objetivos diferentes, fazendo um momento de aula, né? Né!? – indaga Túlio, com veemência.

T: É... num momento que os dois tavam matando aula...

M: Eu num tava matando aula, tava dentro de sala. – eles começam a se olhar diretamente.

92 M: Exata... é, no celular (risos).

T: Mas... e, assim, – leva a mão direita mais uma vez à testa – acho que realmente o que fez acontecer, é, eu penso muito que é a disponibilidade mesmo, sabe?

M: Sim.

T: Que... porque as pessoas elas ficam muito naquilo de... aberto à possibilidades e aberto à não sei o que...

M: Uhum.

T: ...mas na verdade é mentira, sabe? – olha para Marcelo, como quem agradece a confirmação a confirmação anterior. – E é justamente isso, assim, é você entender o outro, é você ver, qualé que é, como que... realmente, como que o outro tá se portando e você, sabe, lidar com isso e você entender, né, e tá disponível realmente à... à-à vida do outro e à proposta, vamos dizer assim?, do outro.

M: Uhum... hum, interessante descobrir também, né, não ficar só preso naquele seu mundinho, ali...

T: Sim, até...

M: ...abrir os horizontes. – abre os braços em lados opostos.

T: Lógico, até mesmo porque, por exemplo, se você não tivesse aberto, cê num... nem... M: (Risos)

T: ...o Marcelo nem teria continuado a conversa comigo, porque ele ia ver um perfil... M: Perfil “só quero trepar, não quero nada mais além de trepar”. – quando vai falar sobre o que estava escrito no perfil do Grindr de Túlio, Marcelo muda a voz e balança negativamente a cabeça.

T: Exatamente, sem foto. E...

M: Que não tinha foto! Eu não era obrigação nenhuma responder, eu não sou obrigado a responder pessoa sem foto.

T: Exatamente. Então, assim, como, o que é e essa, esse pensamento de muita gente no aplicativo.

M: Exatamente, exatamente. E principalmente o meu objetivo também não era só sexo, né? – recobra, com ares de incredulidade.

T: Sim.

M: Por que que eu ia responder uma pessoa que só quer só sexo que nem foto tem?! T: Pois é.

93 T: Exatamente, e eu...

M: Deus me livre. T: É, de certa for... M: (Risos)

T: Enfim, mas... é... (risos) Mas... e é isso também e eu também não estava querendo nada, sabe? E é isso, assim, é aque... acho que é muito do vamo ver mesmo.

Começa a segunda pergunta norteadora da conversa.

P: Uhum. Bom, e, assim, uma... por que acho que existe definições, assim, de relacionamentos muito amplas, assim, desde “ai, estou ficando com essa pessoa” ou então “não, estou namorando essa pessoa”... ou não, e, assim, vocês falam de alguma forma o que que vocês têm ou não ou vocês estão apenas juntos?

M: (Risos)

T: Então, a gente... – diz com cautela, enquanto leva a mão esquerda à testa – não chegou no momento do namoro, né, em si, assim...

M: É.

T: ...namoro! – bate as duas mãos uma na hora. A mão esquerda volta para a testa. – É... e sei lá, assim, é por... tudo, os rótulos são muito fortes, né, assim.

M: Sim. – confirma, com um sorriso tímido.

T: Tem gente que olha pra gente e define um namoro, sabe? E... é isso, assim, a gente tá... eu acho que 6 meses, né?

M: 6 meses.

T: 6 meses é um tempo muito bacana. M: Aham. – olha para Túlio.

T: Mas, é isso assim, é muito importante você realmente conhecer muito bem a pessoa e ter esse convívio com ela – fala ao jogar suas mãos à frente do corpo e depois entrelaçar os dedos – antes de você querer definir algo realmente muito concreto, sabe?

M: Sim.

T: E-e, justamente, conhecer a pessoa é muito bom, entender ela é muito bom e a gente tá nessa fase de se conhecer cada vez mais e conviver cada vez mais.

M: Mas a gente tem uma definição. – fala com a voz um pouco mais alta, um sorriso maroto e olha para o Túlio.

94 M: Nós... nós colocamos essa definição, – Túlio aponta com o dedo indicar esquerdo para Marcelo e sorri – nós começamos no “estamos nos conhecendo”, aqueles primeiros momentos, depois a gente começou a ficar e agora nós somos ficantes sérios. É uma definição pra gente. Comé que cê esquece essa definição? – diz com humor, como se chamasse a atenção do rapaz.

T: Não, não esqueci...

M: É clássica! – diz, com um pequeno toque de drama, mas muito bem-humorado. T: ...eu não esqueci, você só não me deixou concluir.

M: Ai... desculpa – seu rosto fica com uma feição fofa e túlio leva as duas mãos ao rosto, com uma expressão kawaii – (risos). Mas, enfim, é “ficantes sérios” – confirma, com um sorriso bem marcado e que transborda fofura.

A última questão ganha vida.

P: Entendi. E, a última coisa, é... (pigarro) e vocês já falaram, assim, algumas vezes, assim, que algumas pessoas acham que é só pra sexo, e, de assim, não, principalmente o Marcelo, de que ele mesmo não tava lá pra-pra-pra sexo. E aí, assim, que que vocês acham importante, assim, das outras pessoas, que às vezes conhece o Grindr ou então mesmo quem não conhece o Grindr, assim, de saber sobre essas relações que começaram lá e do que que vocês, que que você gostariam mesmo de falar pras pessoas, assim, do fato de vocês terem se conhecido lá e hoje estarem em, sendo ficantes sérios.

M: (Risos) Ah, acaba que, tipo, cada pessoa tá lá com um objetivo, né? – Túlio observa Marcelo falar. – Então praquelas pessoas que estão ali apenas pra sexo tá de boa. É uma possibilidade. E praquelas pessoas que estão ali à procura de um relacionamento, de alguma coisa mais estável, que era o meu caso – puxa os braços para perto do peito –, que não desistam. Que pess... não estão... não tem só pessoa ali querendo sexo, pode até ter umas pessoas que queiram sexo, – ele começa a passar as mãos na cabeça de Túlio e este fecha os olhos para receber o carinho – mas que podem mudar a opinião na hora que conhece outra pessoa. – passa as mãos em seu próprio rosto até parar com elas na parte de baixo e faz uma expressão fofa com a face, de olhos fechados e sorriso aberto.

T: É... assim, pra mim tem uma palavra, assim, muito grande em torno disso tudo, que é o preconceito, sabe? – ele olha para a câmera.

M: Sim.

T: Eu falo isso até mesmo porque de vivência minha, sabe? Antes deu entrar pra esse mundo maravilhoso de aplicativo – suas mãos se abrem sobre o alto da cabeça –, eu era desse

95 grupinho de pessoa que ficava “Nossa, mas não tem ninguém que presta no Grindr”, sabe? “Ai, mas que...” de “Que coisa horrorosa aplicativo, pra que usar aplicativo, etc”...

M: “É um açougue”. – completa.

T: E, assim... até, até certo ponto quando eu estava no Grindr, eu continua-continuava desse argumento que “Nossa, não tem ninguém que presta aqui”.

M: Uhum.

T: Até que algum dia uma pessoa virou pra mim e falou “Mas...”, ela falou exatamente desse jeito assim, “Túlio, você fala que ninguém presta, que ninguém que tá no Grindr presta. Você está no Grindr”. – ele dá uma pausa pequena para efeito dramático.

M: Exatamente. – Marcelo arregala um pouco os olhos e depois sorri.

T: E aí foi, assim, um tapa na minha cara que eu realmente, t-tipo foi isso de (faz som de explosão) caramba, é verdade, sabe, então, é, eu penso que é um preconceito muito grande que tem nesse mundo assim, sabe? – olhara para Marcelo para ser receber um endosso companheiro.

M: Sim.

T: E que... é... é abrir a cabeça mesmo, sabe? E é realmente levar as coisas com mais leveza, sabe? E parar de u... de entender o Grindr e de ver o Grindr como algo ruim ou sujo ou que realmente só “tem gente que não presta” – faz aspas aéreas –, sabe? Isso é... cê não sabe, vai que o carinha que tá sem foto ali, né, é um carinha “de boa” – mais aspas aéreas –, sabe. Se você não conversar bem quando cê realmente não.. quan... é, tentar entender com... a pessoa que você tá conversando, sabe? Porque as pessoas elas cortam, é, o fluxo na primeira, sei lá, no primeiro desvio que acontece, sabe?

M: Uhum.

T: Seja que uma opinião que o outro tem diferente ou que o perfil fisicamente não é do jeito que ela quer, sabe? Então, assim, eu vejo que as pessoas elas cortam muito sem nem ter tentado.

M: É... é o famoso “manda foto” e bloqueia depois, né? – olha para Túlio. T: Aham, exatamente.

M: Exatamente. Sei muito bem disso. Fui bloqueado muitas vezes. – fecha os olhos, como se lembrasse desses momentos, mas faz isso com bom-humor.

T: Pois é (risos). M: Enfim.

96 Túlio beija Marcelo no rosto e depois esse o retribui.

M: Gostoso. Lindo! – para o ficante sério.