A FORMAÇAO DO ORIENTADOR EDUCACIONAL
COOPERAÇÃO NECESSÁRIA À OBRA DO ORIENTADOR
Convém, todavia, esclarecer bem que a função de orientador não é função isolada dentro do organismo escolar. Pretender estabelecer um serviço de orientação educacional dentro das quatro paredes do gabinete do orientador será mostrar completo desconhecimento da questão. No di- zer de JONES, a orientação educacional não é algo que possa ser separada da vida geral da escola, nem tão pouco alguma coisa que possa ficar locali-
zada apenas em certos setores da escola; ela não pode ser confinada ao escritório do orientador ou ao bureau de empregos. Ela é parte inte-
grante de tôda atividade da escola; todo professor de uma organização escolar tem a obrigação e a responsabilidade de exercer alguma forma de orientação.
As organizações de orientação nos Estados Unidos, e Jones as estuda em seu livro, esquematizando-as para cada tipo de comunidade escolar, são organismos complexos e completos, que dispõem não só de pessoal numeroso e especializado em diversos ramos da psicologia educacional, como ainda de material profuso, destinado a experimenta- ções. Assim é que dessas entidades, dentro da escola, fazem parte pro- fessôres, médicos, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais, que têm à sua disposição todos os elementos necessários à completa eficiência do serviço.
Transportado à realidade brasileira, o problema poderia ser aqui resolvido com a concentração do máximo das qualidades já citadas num único orientador (homem, para estudantes rapazes, e mulher, para estu- dantes moças) que também fosse capaz, pelo seu preparo, de prever e estabelecer a ligação entre o adolescente e os especialistas dos tipos referidos, mesmo alheios à comunidade escolar. Seria, portanto, além de orientador, um agente de ligação entre o adolescente, isto é, entre as necessidades do adolescente, e as pessoas capazes de responder a essas necessidades.
Para tanto, precisa o orientador, dentro de uma escola, antes do mais, gozar de completa confiança da parte do diretor. E' forçoso pre- venir, de início, qualquer choque de autoridades que redundaria em desprestígio das mesmas aos olhos do adolescente. Precisa, depois, tornar
bem compreendida a sua função por parte do professorado e do pessoal administrativo da escola. Êste ponto é tão importante quanto o primeiro, pois nada conseguirá um orientador que não fôr apoiado pelo corpo docente. Evitar-se-á, dessa forma, qualquer antagonismo de direção ou de conceitos, capaz de causar no espírito adolescente impressão de dúvida e, logo, efeito contraproducente.
O ORIENTADOR, ELEMENTO DE COORDENAÇÃO
Caberá à direção do estabelecimento de ensino manter o contacto entre o orientador e o corpo docente. São aconselháveis, para êsse fim, reuniões freqüentes, nas quais os casos que surgirem poderão ser dis-
cutidos conjuntamente. O orientador apontará o que tiver observado em cada adolescente relativamente à disciplina de cada um dos professôres da escola. Receberá, por sua vez, sugestões por parte destes, quanto aos pontos de possível melhoria de conduta ou de orientação. Um pro- grama de orientação obterá êxito na proporção da cooperação e partici- pação obtida por parte do corpo docente.
A essas reuniões poderão estar presentes, ocasionalmente, os pais dos alunos, estabelecendo-se, assim, contacto direto entre o lar e a escola, entre a comunidade familiar e a comunidade escolar. Essas reuniões devem ser levadas a cabo sob a presidência do diretor da escola, cuja autoridade se impõe a uns e a outros. E' a tarefa que cabe ao "prin- cipal" nas escolas americanas: coordenar todos os esforços do pessoal
da sua escola em tôrno da pessoa de cada um dos seus alunos. E é tam- bém o ideal a que deve aspirar todo diretor de escola.
Estas reuniões terão, além do mais, a vantagem de se constituir em centros de informações úteis ao desenvolvimento do trabalho do orientador que entrará em contacto mais íntimo com a família dos adoles- centes a seu cargo, chegando assim a melhor conhecimento das necessi- dades dos educandos fora do ambiente escolar. A ação de um orien- tador perderá muito da sua eficiência se não fôr bem compreendida por parte dos pais dos alunos e pela sociedade a que pertencem.
A cooperação é uma das bases do sistema, e o orientador deve poder, quando necessário, encontrar auxílio, mesmo material. Nas pequenas cidades e nas vilas, o orientador de uma escola deve mesmo poder contar com a ajuda de tôda a comunidade, de tôdas as organizações capazes de vir ao encontro daquilo de que precisam os adolescentes.
IRRADIAÇÃO DO S I S T E M A ORIENTADOR
Também nas grandes cidades, o orientador deve manter relações com as entidades especializadas de caráter vário — administrativas, filan- trópicas, esportivas, ou outras, que já tenham serviços organizados, e pira onde possam encaminhar oportunamente os adolescentes que dêles necessitarem. São estas não só as organizações do tipo dos escoteiros e das bandeirantes, a da Cruz Vermelha, das obras paroquiais, dos ambu- latórios, das "equipes" juvenis, das obras da Ação Social, etc. mas tam- bém os centros importantes de colocações e empregos. Aí, também, será agente de ligação o orientador que compreender bem a sua função. Se não souber encaminhar convenientemente os adolescentes a seu cargo
para estas organizações de finalidades diversas, mas assentes tôdas no grande princípio da solidariedade humana, fará o orientador obra incom-
pleta e ineficiente, porque não haveria, dentro de uma escola, possi- bilidade de atender diretamente a cada um dos problemas em que se especializaram as entidades do tipo das citadas, a não ser nas grandes organizações americanas já referidas.
Resumindo, pois, vemos que o orientador deve ser, dentro de cada escola, pessoa:
1) dotada do máximo de qualidades pessoais capazes de atrair a simpatia dos adolescentes;
2) conhecedora dos problemas da psicologia do adolescente em tôdas as suas modalidades;
3) merecedora da maior confiança por parte da direção do estabele- cimento ;
4) em perfeita união de vistas com o pessoal docente e adminis- trativo da escola;
5) bem aceita pelas famílias dos alunos e tendo com elas relação constante;
6) conhecedora da situação da sua escola e das possibilidades da sociedade local;
7) capaz de estabelecer ligação entre a escola e as associações des- tinadas a prestar auxílios de ordem diversa, ligação que o orientador estabelecerá usando tanto do prestígio do cargo, como do seu próprio.