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PARTE II – Enquadramento Psicossocial do Transplante Cardíaco

Capítulo 4. Variáveis psicossociais em estudo na Transplantação Cardíaca

4.2. Coping e Suporte Social

4.2.1. Coping breve abordagem concetual

“Há homens que lutam por um dia e são bons. Há homens que lutam um ano e são melhores. Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons. Porém, há os que lutam por toda vida. Estes são imprescindíveis.” Bertold Brecht O interesse pela relação entre os problemas de saúde e os estilos de Coping faz parte de uma longa tradição na área da Psicologia da Saúde (S. Taylor, 1990).

A doença crónica, a situação de hospitalização, os tratamentos médicos e cirúrgicos, a adesão a regimes terapêuticos, colocam ao indivíduo exigências adaptativas consideráveis dado o carácter disruptivo, físico e psicológico, que provocam. Daí que o interesse em estudar o coping, numa perspetiva situacional, ou seja, face a determinado problema ou situação de doença, tenha vindo a crescer (Endler, Parker, & Summerfeldt, 1998).

A situação de transplante cardíaco constitui, por excelência, uma situação de crise, i.e., trata-se de uma disrupção na vida do indivíduo que inclui uma grave ameaça à sua integridade física e psicológica; gera sentimentos de stresse agudo e morbilidade psiquiátrica, implica ruturas com as actividades diárias, hospitalizações, separação da família, perda de privacidade, dependência de terceiros, incerteza face ao aparecimento de um dador e ao sucesso do procedimento (Burker et al., 2005). Falamos pois, de um estado de desorganização temporário caracterizado por uma incapacidade por parte do indivíduo em lidar com uma situação que interrompe o seu equilíbrio psicológico e que o desafia a desenvolver estratégias de coping diferentes das do seu reportório habitual, para que, à semelhança do seu estado fisiológico, o equilíbrio psicológico seja reposto o mais breve possível (Moos & Schaefer, 1986). Assim, as estratégias de coping concorrem como uma das variáveis psicossociais determinantes para se regressar a patamares anteriores de bem-estar (T. Ferreira, Pais-Ribeiro, Meira, & Guerreiro, 2003).

O coping é uma variável mediadora entre os eventos antecedentes de stresse, a ansiedade, depressão, distress psicológico e as queixas somáticas (Endler & Parker, 1990). Segundo Folkman e Lazarus (1980), o coping refere-se aos esforços cognitivos, afetivos e comportamentais para gerir (dominar, reduzir, minimizar ou tolerar) as exigências específicas, internas ou externas, criadas a partir de uma transação entre o indivíduo e o meio, que são avaliadas/percecionadas pelo indivíduo como excedendo ou estando no limite dos seus recursos (Folkman, Lazarus, Gruen, & DeLongis, 1986). Este processo transacional pressupõe então uma

apreciação cognitiva e afetiva por parte do indivíduo, que vai determinar se a situação é ameaçadora ou neutra (Lazarus & Folkman, 1987).

Lazarus (1991) e Lazarus e Folkman (1986) distinguem dois tipos ou funções de coping: o coping dirigido a gerir ou alterar o problema ou estímulo indutor de stresse - Problem-Focused Coping e, o coping dirigido a regular a resposta emocional e fisiológica a que o problema dá lugar – Emotional-Focused Coping. Assim, o coping permite ao indivíduo, por um lado, confrontar a realidade da crise e, por outro lado, gerir as emoções decorrentes da mesma, mantendo o equilíbrio afetivo (Parker & Endler, 1996). Embora os indivíduos utilizem as duas formas de coping numa situação percecionada como indutora de stresse (Folkman & Lazarus, 1980; Folkman & Lazarus, 1985; Folkman, 1984), o coping centrado no problema, tende a predominar quando a pessoa sente que algo construtivo pode ser feito para modificar a situação (e.g., esforços interpessoais ativos para alterar a situação, procura de apoio social, frieza, racionalidade – Carver et al., 1989). O coping centrado na emoção tem por objetivo gerir reações emocionais e, é geralmente apelidado de coping “passivo” ou de “evitamento” (por exemplo: aceitação, reinterpretação positiva da situação, negação, pensamento fantasioso, procura da espiritualidade e/ou religião24, procura de suporte emocional, ventilação de emoções, atribuição de culpa) (Carver et al., 1989). Este estilo de coping predomina em situações que a pessoa sente que o problema é inalterável e, portanto, evita um confronto direto com o estímulo gerador de stresse, quer dirigindo esforços para o domínio afetivo (mitigando o stresse através de meios emocionais), quer para o domínio cognitivo (mitigando o stresse com evitamento, negação, etc.) (Folkman & Lazarus, 1980).

O desenvolvimento teórico dos mecanismos de Coping tem como base, uma dialética relacionada com os seus principais fatores determinantes: individuais e situacionais. A partir daqui, desenvolveram-se duas abordagens diferentes: uma disposicional, com particular interesse nos aspetos intra-individuais, que defende que um conjunto de fatores estáveis25 dos indivíduos está na base da seleção dos mecanismos de coping (Epstein & Meier, 1990). A outra abordagem, situacional ou contextual, assume que são fatores externos que fazem a diferença na escolha dos mesmos (Carver et al., 1989). Hoje, tendencialmente, os autores seguem uma abordagem integrativa, reconhecendo importância a ambos os fatores (Telles-Correia, Mega, Barbosa, Barroso, & Monteiro, 2008). De facto, faz todo o sentido que o indivíduo utilize diferentes formas de coping para lidar, por exemplo, com uma doença que ameace a vida (Endler, Parker, & Summerfeldt, 1993); tudo dependerá da avaliação cognitiva que fizer da situação.

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Alguns autores enquadram a espiritualidade numa forma de coping centrado nas emoções (Laubmeier, Zakowsky, & Bair, 2004); no entanto, outros encaram-na como uma forma de coping centrado no problema, pois promove o suporte social e emocional (Holland et al., 1999).

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Esta linha deriva de uma orientação analítica; de facto os mecanismos de defesa estiveram na origem do desenvolvimento do conceito de coping.

A investigação sugere que as estratégias de coping ditas “passivas” conduzem a resultados menos favoráveis na saúde dos que as estratégias “ativas” (Endler, Parker, & Butcher, 1993). No entanto, a relação entre o coping e a saúde não se reveste de linearidade. Isto é, as estratégias centradas nas emoções, na maior parte das vezes consideradas abordagens passivas revelam-se estratégias de coping efetivas e ativas em situações percebidas pelo indivíduo como não modificáveis (Folkman e Lazarus, 1980) mas passivas em situações avaliadas pelo indivíduo como podendo ser mudadas. Assim, a eficácia de uma estratégia de coping depende, não só da severidade da situação e dos recursos psicológicos do indivíduo mas também da apreciação que este faz da situação; tudo isto de uma forma integrada. Assim, outras características individuais (e.g., o sentimento de auto-eficácia, a auto-estima e o otimismo disposicional) podem influenciar a forma como o indivíduo perceciona a situação e gere os seus recursos de coping (Rodrigue, Jackson, & Perri, 2000; Kopp et al., 2003).