PARTE II – Enquadramento Psicossocial do Transplante Cardíaco
Capítulo 4. Variáveis psicossociais em estudo na Transplantação Cardíaca
4.2. Coping e Suporte Social
4.2.5. Suporte social e doença cardíaca
Segundo Cohen (1988) existem vários mecanismos através dos quais o apoio social influencia a doença cardíaca. Como referimos a perceção, pelo indivíduo, do suporte disponível promove os afetos positivos, a auto-estima e os sentimentos de aceitação que influenciam a suscetibilidade à doença, pela via comportamental, ou seja, esforços de coping positivos, encorajamento de comportamentos pró-saúde, adesão ao regime terapêutico e alimentar, ingestão adequada de líquidos, etc.
Por outro lado, os mecanismos fisiológicos constituem novamente a via direta. O sistema neuroendócrino, imunológico e cardiovascular ao serem ativados por emoções negativas, como a
depressão, concorrem para problemas cardíacos ou morte súbita. Ao contrário, o apoio e a integração social promovem estados de humor positivos que suprimem as respostas neuroendócrinas nefastas e revelaram ser, nos pacientes cardíacos, um amortecedor dos efeitos negativos da reatividade cardiovascular (pressão arterial e ritmo cardíaco) a estímulos de stresse (Berkman, Glass, Brissete, & Seeman, 2000; Gerin, Pieper, Levy, & Pickering, 1992).
Especificamente do ponto de vista neuroendócrino, a hormona oxitocina aparece, recentemente, associada a um efeito ansiolítico e protetor da função física e psicológica. Para além de reduzir a tensão arterial, este neuromodulador segregado pelo hipotálamo, diminui o nível de cortisol e de outras hormonas implicadas no processo de stresse e de toda a atividade simpática (Uvnäs-Moberg & Petersson, 2005). Esta hormona é libertada na presença de estímulos sensoriais, como o toque e o calor, certos odores, luzes e sons. No entanto, alguns mecanismos psicológicos podem também determinar a libertação de oxitocina, como a interação positiva que envolve o toque, o calor humano, a empatia e vários tipos de psicoterapia envolvendo a transferência de suporte (Uvnäs-Moberg & Petersson, 2005). A interação social da vida diária e os contextos “suportivos” e calmos continuam a ativar este padrão psicofisiológico. Ou seja, o apoio social relaciona-se com menos secreção de cortisol e maior libertação de oxitocina. Num processo de retroação, a oxitocina estimula a interação social positiva, promove a confiança entre as pessoas, a aproximação social e a formação de laços entre as pessoas (Campos & Graveto, 2010; S. Taylor et al., 2000; Uchino, 2006). Do ponto de vista imunológico, vários estudos atestam que o apoio social se relaciona com uma melhor função imunitária, pois desencadeia experiências emocionais positivas (De Vogli & Marmot, 2008; Lutgendorf et al., 2005; Miyazaki et al., 2005; Salovey et al., 2000).
A doença cardíaca crónica é psicologicamente debilitante, pelos riscos implicados, pela complexidade da terapêutica, por vezes invasiva, pela necessidade de sucessivas hospitalizações e pelas limitações que acarreta ao paciente nas atividades do dia-a-dia. A importância do apoio social na adaptação dos indivíduos a esta patologia e como fator de risco para a mesma, encontra-se bastante bem documentada (Berkman, 1995; Ell & Dunkel-Schetter, 1994; Holahan, Holahan, et al., 1997; Lett, et al., 2005; Rosengren, Wilhelmsen, & Orth-Gomer, 2004). Por outro lado, um dos fatores psicossociais de risco para a doença cardíaca é a ausência de rede social de apoio (Rozanski, Blumenthal, Davidson, Saab, & Kubzansky, 2005; R. Williams, Barefoot, & Schneiderman, 2003). Estudos epidemiológicos relacionam os baixos níveis de apoio social com taxas de mortalidade mais elevadas, nomeadamente na doença cardiovascular, em que o apoio psicossocial pode ser visto como uma ligação entre a sintomatologia depressiva e o comportamento de risco cardiovascular (Brummett et al., 2001; Frasure-Smith et al., 2000; Rutledge et al., 2004). Ao contrário, níveis elevados de satisfação com o suporte social
contribuem, via mecanismos de coping adaptativos, para menores níveis de morbilidade psicológica, nomeadamente da referida sintomatologia depressiva (Amorim & Pereira, 2009; Holahan, Moos, Holahan, & Brennan, 1997; Santos, Pais-Ribeiro, & Lopes, 2003).
Concretamente, a investigação na insuficiência cardíaca sugere que a falta de apoio social adequado é um importante preditor de perceções de saúde pobres, re-hospitalização por descompensação e mortalidade relacionada com a doença (Faris et al., 2002; Luttik, Jaarsma, Moser, Sanderman, & Veldhuisen, 2005; Moser & Worster, 2000; Murberg & Bru, 2001). Nesta população o apoio emocional também se relaciona com menos sintomas depressivos, afetividade positiva e satisfação com a vida (M. Friedman & King, 1994; Penninx et al., 1998).
Coyne et al. (2001), demonstraram que os pacientes com insuficiência cardíaca com uma qualidade de vida marital mais satisfatória e, independentemente da severidade da doença, viviam mais tempo do que os que reportavam uma vida conjugal menos satisfatória, sendo que esta relação era mais forte no caso das mulheres do que nos homens. Na realidade, a satisfação conjugal está relacionada com o bem-estar dos pacientes e a satisfação com a vida e, a interação marital negativa prediz um pobre ajustamento à doença (Schwarzer & Rieckmann, 2002). Este aspeto poderá explicar-se pelo apoio do cônjuge na adesão ao tratamento, pelo facto de indivíduos casados terem uma rede de suporte mais alargada, com relacionamentos mais próximos e, em geral, por terem melhor estatuto sócio-económico o que permite uma melhor adaptação à situação de crise (Goldman, Korenman, & Weinstein, 1995). O apoio social percebido, nomeadamente ao nível do sentimento de pertença e companheirismo, aparece positiva e significativamente associado à qualidade de vida emocional do SF-36, Health Survey, nas mulheres com doença cardíaca (Emery et al., 2004).
Uma investigação com pacientes submetidos a cirurgia cardíaca revelou que o apoio emocional do companheiro no momento da cirurgia predizia o bem-estar emocional um ano após a mesma e que a perceção do paciente do apoio do companheiro predizia a recuperação da cirurgia e o reajustamento à vida normal após meio ano (Kulik & Mahler, 1993; Schroder, Schwarzer, & Endler, 1997). Igualmente num estudo de King, Reis, Porter e Norsen (1993), a perceção pelo paciente (submetido a cirurgia de bypass coronário) do apoio que promove a sua estima, valor, competência e sentimento de ser amado, foi a única dimensão do suporte social que se correlacionou positivamente, e de forma significativa, com alterações positivas a nível emocional e funcional do paciente, no momento da recuperação. Num estudo com mulheres submetidas a cirurgia cardíaca, verificou-se que o suporte social fornecido pela família aparecia “como um recurso de coping cujos benefícios são operacionalizados em termos de apoio emocional, instrumental e/ou distrativo” (Coelho & Pais-Ribeiro, 2000, p. 86). Já Scheier et al. (1989) tinham concluído a existência de uma correlação positiva entre a perceção favorável dos
recursos sociais e a predominância do coping ativo, preditor de uma reabilitação psicossocial efetiva nesta população. Por outro lado, a preocupação emocional aparece negativamente associada com a satisfação a nível familiar (S. Miller, Brody, & Summerton, 1988).