• Nenhum resultado encontrado

PARTE II – Enquadramento Psicossocial do Transplante Cardíaco

Capítulo 4. Variáveis psicossociais em estudo na Transplantação Cardíaca

4.1. Saúde Mental

4.1.1. Otimismo, bem-estar e saúde

“The will to live is not a theoretical abstraction, but a (psycho) physiologic reality with therapeutic characteristics”

Cousins «Enquanto há esperança, há vida» parece fazer mais sentido do que a aceção contrária, utilizada pelo senso comum.

Enquanto conceitos sobreponíveis, a Esperança e o Otimismo, enquanto Expetativas pessoais da ocorrência de resultados favoráveis no futuro são, por si só, determinantes do comportamento, apresentando um efeito positivo no bem-estar psicológico, na saúde física e no processo de recuperação da doença.

O poder do pensamento positivo tem atraído o interesse do senso-comum e da Psicologia há décadas e nas últimas duas décadas, em particular, a atenção científica começou a focar-se nos aspetos positivos dos indivíduos; nas suas potencialidades e recursos, em detrimento da atenção exclusiva dada à patologia, ao défice, ao tratamento e à cura.

Segundo Scheier e Carver (1985, 1987, 1992), o construto Otimismo trata-se de uma expetativa generalizada, de resultados positivos, i.e., de que acontecimentos favoráveis vão acontecer na vida futura do indivíduo em detrimento dos desfavoráveis. Esta definição tem por base concetual a noção de que o comportamento dos indivíduos é largamente afectado pelas suas crenças sobre a eficácia provável desses comportamentos e seus resultados (teoria sócio- cognitiva de Auto-Regulação do Comportamento - Bandura, 2001). A auto-eficácia trata-se, portanto, da crença na capacidade pessoal do indivíduo que lhe permite organizar e implementar ações necessárias para alcançar determinados objetivos (Bandura, 1997). Tal como o otimismo, é uma variável motivacional que assume um papel mediador no ajustamento a situações de stresse e na adequação a comportamentos e resultados na saúde.

A ideia de auto-regulação do comportamento, por seu lado, encontra as suas raízes nas teorias psicológicas da motivação (Bandura, 2004). Assim, as crenças de auto-eficácia regulariam o funcionamento humano através de processos cognitivos, motivacionais, afetivos e de tomada de decisão. Ou seja, afetam a forma como o indivíduo perceciona, antecipadamente, as situações (poderá ser de forma pró-ativa e otimista ou debilitada), a forma como o indivíduo se auto-motiva e exibe perseverança face às dificuldades, a qualidade do bem-estar emocional, a vulnerabilidade ao stresse e à depressão, e influencia as suas escolhas, modelando o desempenho (Bandura & Locke, 2003).

Estes autores apelidaram esta variável de otimismo disposicional (Scheier & Carver, 1987) dado tratar-se de uma característica estável da personalidade, uma variável de orientação para a vida, que expressa uma tendência geral e que reflete as expetativas em vários domínios de vida da pessoa, aparecendo positivamente correlacionada com a saúde e com um bem-estar subjetivo generalizado através do processo de auto-regulação do comportamento (Scheier & Carver, 1987). Assim, a perceção que o indivíduo tem das suas capacidades determina o seu comportamento, o seu nível de motivação, o seu padrão de pensamento e a sua reação emocional. Desta forma, os indivíduos determinam objetivos para si próprios e antecipam os resultados dos seus comportamentos futuros, consoante as expetativas de eficácia pessoal, de modo a conduzirem os seus esforços e motivações, nesse sentido.

Por outro lado, o pessimismo caracteriza-se por antecipações negativas sobre o futuro em geral; em que os indivíduos acreditam que aspetos negativos vão pontuar a sua vida (Scheier & Carver, 1985).

Mais recentemente, o otimismo aparece como um recurso psicológico associado também à saúde mental e a um melhor ajustamento aos acontecimentos de vida adversos ou ameaçadores (Jackson, Pratt, Hunsberg, & Pancer, 2005; Kivimaki et al., 2005). Está relacionado com uma redução do stresse, menos sintomatologia depressiva e com um aumento do apoio social

percebido, durante e após um acontecimento de vida major (Brissette, Scheier, & Carver, 2002). Os estudos referem também uma relação desta variável com uma melhor auto-estima, melhor humor, menos sintomas psiquiátricos, menos emoções negativas e satisfação com a vida (Carroll, Sweeny, & Shepperd, 2006; Carver & Scheier, 1999; Carver & Scheier, 2002; Chang, 1998; D. Dunn, 1996; King, Rowe, Kimble, & Zerwic, 1998; Marshall & Lang, 1990). Mais ainda, os indivíduos mais otimistas reportam um maior crescimento pessoal após uma situação traumática ou de adversidade (Linley & Joseph, 2004).

O otimismo parece influenciar o bem-estar psicológico também através do apoio social; ou seja, “os indivíduos mais otimistas podem demonstrar níveis mais elevados de bem-estar psicológico por apresentarem relações de suporte social mais satisfatórias” (Monteiro, Tavares & Pereira, 2008, p. 572), sendo mais efetivos na mobilização da sua rede social e atraindo relações de suporte mais consistentes. Utilizam ainda estratégias de coping mais adaptativas (ativas) e revelam hábitos de saúde diferentes por comparação aos indivíduos pessimistas (Brissete et al., 2002).

Ao contrário, o pessimismo foi identificado como um factor de risco de uma saúde física e psicológica débil (Kubzansky, Sparrow, Vokonas, & Kawachi, 2001) por se encontrar relacionado com sentimentos de desânimo, raiva, depressão, ansiedade, risco de doença cardíaca e morte (Bandeira, Bekou, Lott, Teixeira, & Rocha, 2002; Everson et al., 1996; Koivumaa- Honkannen et al., 2000, 2001; Peterson, Seligman, & Valliant, 1988; Peterson, Seligman, Yurko, Martin, & Friedman, 1998; Schulz, Bookwala, Knapp, Scheier, & Williamson, 1996; Seligman & Csikszentmihalyi, 2000). A orientação pessimista correlaciona-se significativa e positivamente com a ansiedade e depressão, mesmo quando a auto-estima, o neuroticismo, os sentimentos de mestria e a ansiedade-traço se encontram controlados (Scheier, Carver, & Bridges, 1994; Wrosch & Scheier, 2003).

O primeiro estudo prospetivo em larga escala que demonstra o efeito protetor de uma orientação de vida otimista na saúde física após uma situação de stresse específico (morte ou doença grave de um ente querido, neste caso) e que ocorre independentemente das características da pessoa é de Kivimaki et al. (2005). Este efeito fez-se sentir, quer numa menor taxa de aparecimento de doença, quer numa mais rápida recuperação da mesma nos indivíduos mais otimistas, em relação aos menos otimistas.

Em relação à doença física instalada, a múltipla investigação mostra que um elevado grau de otimismo se relaciona com melhores taxas de sobrevida e adaptação (Allison, Guichard, Fung, & Gilain, 2003; Fournier, De Ridder, & Bensing, 2002; Maruta, Colligan, Malinchoc, & Offord, 2000; Symister & Friend, 2003). Este resultado faz sentido se tivermos em conta que o otimismo, enquanto expetativa face ao futuro, se relaciona, positivamente, com o bem-estar

psicológico, a qualidade de vida e a forma como as pessoas lidam com vivências indutoras de stresse, como é o caso da doença física (Pais-Ribeiro, Martins da Silva, Meneses, & Falco, 2008).