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Coronel Italo Mandarino

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 174-200)

Natural da Cidade do Rio de Janeiro, RJ.

Foi Instrutor do Curso de Infantaria da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME); Analista da Comissão de Investigação Sumária do Exército, nos anos de 1969 e 1970; Adjunto da 2a Seção e Chefe da Seção de Planejamento do I Exército (atual Comando Militar do Leste); Comandante do 23o Batalhão de Caçadores (23o BC) e Chefe do Estado-Maior da 10a Região Militar (10a RM), ambas as Unidades em Fortaleza, CE; Assistente do Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército (EME); Chefe de Gabinete do Departamento Geral do Pessoal (DGP) e Assistente do Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA).

No exterior: Adido Militar junto à Embaixada brasileira, em La Paz, Bolívia.

Possui todos os cursos regulares do Exército e o curso Superior de Guerra, da ESG. No mundo civil, diplomou-se em Ciências Administrativas.

Em 1964, era Capitão Comandante da 2a Companhia de Fuzileiros do 10o Regi-mento de Infantaria (10o RI), Juiz de Fora, MG. Na eclosão da Revolução de 1964, comandou as tropas que constituíram a vanguarda do Grupamento de Forças de Juiz de Fora (Destacamento Tiradentes), que se deslocou para o Rio de Janeiro.

Coronel Italo Mandarino

É uma satisfação muito grande prestar mais uma colaboração ao Exército, aju-dando a preservar a sua história. Por isso, foi com imensa alegria que recebi o convite para esta entrevista e aqui estou à disposição para responder as questões formuladas.

Que fatos o senhor gostaria de abordar sobre a sua participação pessoal nos pródromos da Revolução de 31 de Março de 1964, na sua eclosão e nas suas conseqüências?

Bem os fatos são muitos, o campo é vasto, mas eu poderia dizer que tudo para mim começou no ano de 1963. Cursava a EsAO. Foi um ano duro para todos militares que viveram essa conjuntura. Recebíamos salários baixos, vivíamos à sombra de um regime de exceção de natureza comunista, em constante preocupação. Não sabia se estudava ou se partia na tentativa de fazer alguma coisa para manter a família ou, ainda, se comparecia a determinadas reuniões, onde se discutiam os atos do Governo. Tudo começou, repito, no ano de 1963. Embora a vida não fosse das melho-res naquela época, eu servia, até então, no Batalhão de Comando e Serviços da Academia Militar. Morava em uma boa casa do quartel a um preço pequeno e levava uma vida tranqüila. Todavia, em 1963, a coisa começou a agravar visivelmente.

Sentia-se perfeitamente e nós discutíamos, amplamente, nas salas de aula, nos intervalos e nos exercícios no campo, o perigo que o Brasil estava correndo, sujeito a transformar-se numa filial, na América do Sul, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), qualquer que fosse o regime adotado: sindicalista, comunista etc.

Era uma permanente preocupação para nós, que recebíamos uma formação essencialmente democrática no Colégio Militar, por sete anos, e na Academia Mili-tar, assistindo ao Brasil caminhar a passos largos para um destino incerto.

A tristeza e a preocupação que nos envolvia empurrou-nos para participar ativamente das reuniões que ocorriam no Clube Militar e em clubes civis. Para aquilatar a gravidade da situação, em diversas ocasiões, o saco de lona de manobra, com os equipamentos de campanha e o capacete de aço, estavam prontos dentro de casa. Da mesma forma procedia a maioria dos capitães-alunos da Escola de Aperfei-çoamento de Oficiais (EsAO), para que pudéssemos, a qualquer momento, assumir uma função na área da Vila Militar quando se desse a eclosão do Movimento revo-lucionário que todos estavam esperando.

Mas passou o ano de 1963, o curso da EsAO chegou ao fim e nada aconteceu. Consegui estudar bastante, sacrificando-me o mais que pude, vindo, em conseqüência, a ser muito bem classificado, além de convidado para instrutor da Escola. Embora tenha ficado muito honrado com o convite, o Gabinete do Ministro não concordou com a minha permanência no Rio de Janeiro, o que, também,

acon-CORONEL ITALO MANDARINO

teceu com uma boa parte dos companheiros concludentes do curso e pertencentes às diversas Armas e aos Serviços de Intendência e Saúde.

Em virtude da minha classificação, optei, então, por servir em Juiz de Fora, uma ótima guarnição, onde me apresentei assim que terminaram as férias regulamentares. Fui recebido pelo Comandante do 10o RI, o então Coronel José Bretas Cupertino, mais tarde General, que, nas primeiras conversas, deixou transparecer qual era o seu ponto de vista sobre aquela situação reinante. Da mesma forma, disse-lhe franca-mente o que pensava.

Creio que por isso, o Coronel Bretas designou-me para o comando de uma Companhia de Fuzileiros, apesar de já ter cursado a EsAO e haver oficiais sem o curso no Estado-Maior do Batalhão. Passou-me, então, o comando da 2a Cia, dizen-do-me que queria a tropa muito bem formada e apta para o cumprimento de qual-quer missão e que, para tanto, deveria dedicar-me inteiramente a ela.

Alguns fatores facilitaram o meu trabalho, sendo um deles o fato de que a minha família ficou no Rio de Janeiro e eu, sempre sexta-feira à tarde, às vezes aos sábados, pegava a litorina de Juiz de Fora para o Rio, vindo passar o fim de semana com a família.

No Rio de Janeiro, não ficava alheio ao que acontecia no Brasil, buscando contato com os companheiros, às vezes recebendo-os em casa para saber o que se pensava, o que se dizia e o que se esperava.

Normalmente, retornava bem informado para continuar a preparação de mi-nha subunidade, adestrando continuamente os meus recrutas. O dia a dia era de instrução, instrução e mais instrução. Dormindo no quartel, ficava, praticamente, as vinte e quatro horas do dia com a minha tropa. Contava com tenentes exempla-res, de excelente formação e pensamento afinado com seu Comandante de Compa-nhia que, por sua vez, falava a mesma linguagem do Comandante do Regimento.

No Regimento, havia um clima de preparação para alguma coisa que parecia prestes a acontecer. O nosso Comandante de Batalhão era o Major Hindemburgo – Hindemburgo Coelho de Araújo –, um militar de origem alemã, muito exigente, um ótimo profissional, e do Regimento, como já mencionei, era o Coronel Bretas Cupertino. Quando chegamos ao final de fevereiro, um mês antes da Revolução eclodir, o Ministro da Guerra retirou do comando da Unidade o Coronel Bretas, substituindo-o pelo Coronel Calvão – Clovis Calvão da Silveira, que era do seu círculo de amizade –, com ordem para assumir o mais rapidamente possível.

Durante esse tempo todo, ouvíamos as pregações do General Olympio Mourão Filho em suas visitas ao quartel, como Comandante da 4a Região Militar, enfatizando a sua preocupação e orientando os seus comandados para que se mantivessem

atentos, porque alguma coisa teria que ser feita para evitar que o Brasil caísse na órbita da União Soviética. Ressaltava a importância da união de todos contra o processo de comunização a que estávamos submetidos.

Lembro-me de uma tentativa de visita de Leonel Brizola à cidade de Juiz de Fora, ao Sindicato dos Metalúrgicos. Nossos oficiais haviam já, de uma certa forma, decidido que ele não entraria na cidade; seria bloqueado na entrada e impe-dido de tumultuá-la.

Só fazia tumultuar, mas, felizmente, a ação de comando do General Mourão impediu que isso ocorresse e a sua passagem por Juiz de Fora se deu sem maiores problemas para ninguém.

Cabe destacar que pouco sabíamos a respeito do que acontecia nos patama-res dos escalões superiopatama-res, tanto nos escalões regional e divisionário – 4a RM/DI, quanto no do General Carlos Guedes, ou seja, no comando da Infantaria Divisionária (ID/4). Mas a gente lia os jornais, a gente conversava... O que ocorria era uma repulsa generalizada à situação vigente, considerada inadmissível pela oficialidade. Como ficava no quartel toda a semana, à noite, no refeitório, podia constatar que era difícil conter os tenentes, os mais irritados, sem dúvida.

A partir do dia 13 de março, com o comício da Central, ninguém aceitava mais aquela situação. Todo mundo estava decidido a partir para briga e acabar com aquilo de uma vez. Era duro de ouvir, de assistir, de ler sobre aqueles fatos e ter que engolir em seco, porque a disciplina exigia que assim se fizesse.

No quartel, houve algumas manifestações de nossa parte junto ao novo Comandante, Coronel Calvão – amigo do Ministro da Guerra Jair Dantas Ribeiro – que o colocara no comando no lugar do Coronel Bretas Cupertino, de quem o ministro recebera referências desfavoráveis. O Coronel Calvão procurou assumir o comando, de imediato, alegando para tal a desculpa da necessidade de ocupar a residência funcional.

Com esse Coronel, a coisa continuou mais ou menos no mesmo ritmo de antes, não havendo de sua parte nenhuma interferência, buscando, inclusive, em todas as ocasiões, atender às determinações do General Mourão. A tropa estava sendo preparada, indo para o campo, fazendo exercícios de tiro durante o período todo. Enfim, vivíamos em prontidão permanente, conseqüência das greves diárias que assolavam o País.

Ninguém tinha sossego.

Realmente, não se tinha sossego. Um dia, no final do mês de março de 1964, fui chamado à Região Militar para falar com o General Mourão. Ao ser recebido em seu gabinete, onde se encontrava o Coronel Everaldo, Chefe da 3a Seção do

Estado-CORONEL ITALO MANDARINO

Maior Regional, o General me perguntou se a minha Companhia estava em condições de, não era liderar, mas de participar do início de uma revolução contra o Governo. Disse-lhe que havia preparado a tropa com esse objetivo e que ele podia contar comigo, meus oficiais e com os meus sargentos, para qualquer tipo de missão...

Ficamos por aí, nada mais foi dito sobre o assunto. Na Companhia, acelerei mais a preparação do meu pessoal, a manutenção de viaturas e do armamento, a recuperação dos fogões de campanha, a instrução de tiro enfim até que, no dia 30 de março, à noite, recebi, no quartel, onde me encontrava, a ordem do próprio Coronel Calvão para que preparasse a Companhia e ficasse em condições de sair para cumprir missão, a qualquer hora, a partir da manhã de 31 de março.

Passamos a nos preparar imediatamente. A Companhia devia receber um reforço em metralhadoras e morteiros da Companhia de Petrechos Pesados, além de uma fração do Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado. Após tais reforços, está-vamos prontos para o cumprimento da missão.

Às oito horas da manhã de 31 de março, mais ou menos, houve um tumulto, um fato anormal na área do comando do Regimento. Ficamos sabendo que o Coro-nel Calvão havia deixado o comando com o subcomandante – Tenente-CoroCoro-nel Eurico Américo da Silva Bastos, também contrário à revolução – indo se apresentar ao General Mourão, porque não queria participar de nenhum movimento contra o Ministro do Exército e ele pressentia que isso estava acontecendo.

Pouco depois, chegou ao quartel o Tenente-Coronel Everaldo José da Silva, E3 da 4a RM/DI, que assumiu o comando do Regimento, reuniu os oficiais, mandou o Tenente-Coronel Bastos apresentar-se ao quartel-general, escoltado, e determi-nou ao Comandante do Batalhão Major Hindemburgo que transmitisse à Compa-nhia ordem para realizar uma marcha em direção ao Rio de Janeiro, devendo, inici-almente, deslocar-se até o Paraibuna, divisa dos dois Estados, cruzar o rio e apos-sar-se das passagens sobre o mesmo, de maneira a impedir a entrada de elementos vindos do Rio de Janeiro no Estado de Minas Gerais.

A minha viatura foi a primeira a sair na Revolução de 1964, o que se deu por volta das dez horas da manhã do dia 31 de março. Antes de iniciar o deslocamento, instruí os meus oficiais sobre a missão que cada um deveria cumprir, dei as ordens ao tenente comandante da fração de carros, ao reforço vindo da Companhia de Petrechos Pesados (CPP), enfim, aquelas atividades típicas de um capitão que vai cumprir um tipo de missão como essa, deslocando-se à frente, como Vanguarda do Grupamento de Forças de Juiz de Fora.

Um dos oficiais do Estado-Maior da 4a RM nos acompanhou nessa marcha de aproximação que se transformou, depois, numa marcha para o combate, até que

chegamos à ponte sobre o Rio Paraibuna, sem oposição, por volta das quatorze horas. Estabelecemos uma boa posição de defesa, cerca de 500m após ultrapassá-la, aproveitando as características favoráveis do terreno para esse tipo de operação. O nosso desdobramento foi realizado com dois pelotões mais um reforço de carros do lado direito do rio, considerando-o da nascente para a foz, enfiando a estrada e, do outro lado, colocamos mais um pelotão. A região era realmente muito boa para defesa. Fechamos a rodovia e o túnel da ferrovia – nesse ponto, a ferrovia e a rodovia se encontram –, ocupamos a estação ferroviária, onde instalamos o PC inicial da Companhia e avisamos a Estrada de Ferro que estava suspensa a entrada de compo-sições em Minas. A tropa cavou seus abrigos individuais, as peças de metralhadora e de morteiro, também, tomaram posição e cavaram os seus abrigos e ficamos aguardando novas ordens.

Interessante que, na minha descida para o Paraibuna, cruzou comigo uma viatura e dentro dela reconheci o General Muricy fazendo sinais. Disse-lhe que iria para a Coluna, mas ele mandou que eu continuasse. O General Muricy vinha do Rio de Janeiro para assumir o comando da tropa que se deslocava de Minas para o Rio. Mais tarde, nos encontramos na estação de Paraibuna quando o General retornou com as demais tropas – o “grosso” no jargão militar– do Grupamento de Forças de Juiz de Fora, o denominado Destacamento Tiradentes, que era constituído pelo restante do 10o RI, ou seja, o 10o RI menos a nossa Companhia, pelo 11o RI, de São João Del Rey, por um Batalhão do 12o RI, de Belo Horizonte, por um Grupo de Artilharia, de Juiz de Fora, o Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado, três Batalhões da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, sendo um deles de Juiz de Fora e tropas de apoio logístico.

O restante do 12o RI deslocou-se para Brasília?

Exatamente, o restante do 12o RI foi para Brasília.

O Destacamento Tiradentes cerrou e, entre dezessete e dezoito horas deste dia 31 de março, já se achava em posição ao longo da rodovia, antes da ponte sobre o Rio Paraibuna, em território mineiro.

Essa foi a minha primeira jornada diurna acompanhando a Companhia, dis-tribuída com um pelotão projetado à frente, elemento de ponta, o qual ocupou uma posição localizada junto e atrás de um pequeno córrego.

Então a Vanguarda estava realmente articulada?

Estava articulada. É importante dizer que começamos a receber pessoas que vinham do Rio de Janeiro em direção a Juiz de Fora – muitos militares da reserva de todos os postos e graduações, e mesmo civis que chegavam para aderir ao Movi-mento, para integrar as tropas do Destacamento Tiradentes. Lançamos patrulhas à frente tanto do lado da ferrovia como do lado da rodovia, uma vez que, a partir da

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ponte em frente ao museu, hoje chamado de Museu Rodoviário, o Rio Paraibuna, que não é largo, separa a ferrovia da rodovia, sendo, no entanto, naquela região, encachoeirado e estava com um grande volume de água, na época.

Um obstáculo portanto.

Sem dúvida, uma vez que a ligação entre um lado e o outro do Rio Paraibuna só poderia ser feita pela ponte sobre o rio, que estava em nosso poder.

Como passou a sua tropa a noite de 31 de março para 1o abril?

Começamos a noite na posição, em Paraibuna. Dali, patrulhas iam e vinham. A minha tropa pôde ser alimentada com ração quente porque trouxemos os fogões de campanha, aqueles fogões antigos, à gasolina, que funcionaram muito bem nas mãos do nosso subtenente e de um 1o sargento muito antigo e tarimbado, que saiu preparando a refeição, desde que partimos. Assim, jantamos bem, apesar da grande movimentação ocorrida durante o dia todo.

Nesse movimento motorizado, as viaturas do Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado foram transportadas por caminhões-prancha, requisitados pela 4a RM, na cidade de Juiz de Fora. Na região de Paraibuna, os carros foram desembarcados e ocuparam posições, aproveitando a cobertura vegetal existente na região e fica-ram aguardando novas ordens.

Nessa noite, aconteceram vários fatos curiosos.

Como disse, havia uma constante chegada de pessoal vindo do Rio – milita-res da milita-reserva e civis querendo aderir ao Movimento – trazendo muitas informa-ções. Quando escureceu, o primeiro informe que recebemos falava de um ônibus com tropa deslocando-se em nossa direção. Confirmamos a notícia, pela informa-ção de um oficial, que se tratava de uma tropa do 1o Batalhão de Caçadores (1o BC) de Petrópolis, que vinha com ordem de impedir a nossa passagem em direção ao Rio de Janeiro. Fizemos uma avaliação, através de contatos realizados, quando essa tropa desembarcou do ônibus e entrou em posição em frente a nossa linha, que fora estabelecida atrás de um riacho afluente do Paraibuna.

Passamos a manter contato com aquele pessoal, através dos nossos tenentes Reynaldo De Biasi e Rômulo Bini Pereira, contemporâneos, na Academia Militar, do tenente que comandava a fração que descera do ônibus. Ali, eles se encontraram e conversaram, tendo os meus tenentes tentado convencer o comandante do pelotão que aquela era uma guerra perdida para eles, motivo pelo qual não deviam pensar em sustentar a posição e, sim, passar para o lado de cá.

O problema residia no fato de o tenente estar cumprindo ordens do seu comandante, o Tenente-Coronel Kerensky Túlio Motta, do 1o BC, até que chegou ao

local o referido coronel que queria conversar com o General Mourão. Após ter informado a respeito o General, que ficou de recebê-lo a qualquer hora, fui ao encontro do Tenente-Coronel Kerensky lá no ponto de encontro das duas linhas e o escoltei até a estação de Paraibuna, onde se encontravam os generais Mourão e Muricy com os seus estados-maiores.

Na conversa, o Tenente-Coronel Kerensky pediu um prazo para responder se sairia ou não da frente. Na verdade, o que ele queria era ganhar tempo, porque já tinha informações, e nós também, da vinda de tropas do 1o Regimento de Infanta-ria – Regimento Sampaio –, do 2o Regimento de Infantaria e de um Grupo do 1o RO 105 – Regimento Floriano – Unidades localizadas na Vila Militar, e mais a tropa do 3o Regimento de Infantaria, tudo isso sob o comando do General Cunha Mello – Luiz Tavares da Cunha Mello – Comandante da Infantaria Divisionária da 1a Divisão de Infantaria (ID/1), na época, com a missão de se anteporem às Unidades do General Mourão. O Kerensky, cuja tropa era o que ele reuniu dentro de um ônibus, ou seja, alguns sargentos fiéis ao Jango – sargentos ideologicamente identificados com a manutenção daquele estado de coisas – além de alguns tenentes, cumpridores de ordens, cabos e soldados que se encontravam no quartel, naquela tarde. O que queria, realmente, era ganhar tempo para a chegada do Destacamento Cunha Mello. O General Mourão percebeu que o Tenente-Coronel Kerensky queria mesmo era ganhar tempo e, em conseqüência, lhe disse que ele teria duas horas para abrir a via de acesso e, na sua frente, deu ordem a nossa Artilharia que entrasse imedi-atamente em posição ficando em condições de, mediante ordem, bater a posição do BC, em apoio à Infantaria em primeiro escalão, que era a minha Companhia.

O momento foi de grande impacto. O comandante da Bateria de Tiro foi ao meu Posto de Comando (PC) para obter os dados topográficos necessários à concen-tração dos seus fogos sobre os elementos do 1o BC. A região é toda rochosa tanto onde eles se encontravam quanto onde nós estávamos. A minha tropa havia sofrido muito para cavar os seus abrigos individuais, não tendo conseguido proteção ple-na, dada a natureza daquele terreno rochoso. Daí, a minha grande preocupação com o tiro de Artilharia tão próximo aos meus homens mais à frente. Os nossos abrigos não ofereciam a segurança necessária na eventualidade de uma preparação da Artilharia na área prevista.

Após passar os dados para o Comandante da Bateria de Tiro, fui alertar o

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