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Professor Olavo Luiz Pimentel de Carvalho

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 102-146)

É uma satisfação imensa poder estar aqui, na condição de testemunha atípica, porque não fui propriamente um participante dos acontecimentos de 31 de março de 1964, mas entrei em cena logo depois, como militante do Partido Comunista, de onde assisti a toda a história da Revolução, pelas costas, por assim dizer.

Minha satisfação de estar presente, neste momento, deve-se sobretudo à natureza deste projeto, a de uma memória da História do Brasil que está sendo apagada; a memória do que se passou nos últimos quarenta anos está sendo total-mente apagada, caricaturada, recortada, reescrita, safenada, já fizeram “o diabo” com essa história. E é importante que se recordem essas coisas exatamente como se passaram. É importante lembrar que, ao eclodir a Revolução, eu me encontrava exatamente do lado contrário. Quer dizer, não posso de maneira alguma ser acusa-do de ter algum preconceito a favor acusa-do Movimento de 31 de Março de 1964. Muito aos poucos, revendo o que se passou e, de maneira muito gradativa e cuidadosa, fui mudando de opinião.

Hoje, tenho a certeza de que o Movimento de 31 de Março de 1964 foi uma coisa necessária, benéfica, quaisquer que tenham sido as distorções e erros que possam ter ocorrido depois.

Mas, naquele momento, o que se pode dizer é que as Forças Armadas fize-ram o que era preciso fazer. No cômputo geral, creio que as realizações daquele período – que a imprensa acostumou-se a chamar, certo ou errado, não sei, de “período militar” – são absolutamente notáveis, objetivamente falando, se compa-rarmos com tudo que foi feito ao longo de quinhentos anos de História do Brasil. Se meu depoimento servir em alguma coisa para ajustar o foco e restaurar um pouco o sentido de realidade com relação àqueles acontecimentos, ficarei muito satisfeito.

Depois desse objetivo preâmbulo feito pelo Professor Olavo de Carvalho, soli-citaremos ao nosso colaborador, que vem somar muito aos fatos que estamos reu-nindo em nosso Projeto, que nos conte a sua experiência, vivida dentro da esquer-da, nas hostes contrárias aos que fizeram o Movimento revolucionário de 1964. Esta importante entrevista traz-nos o conhecimento, as informações e os dados sobre aqueles que foram os nossos adversários, e que, comprovadamente, pretendiam realizar uma revolução de cunho marxista-leninista em nosso País. Supomos que estivesse prevista para 1o de maio, possivelmente – é uma idéia que fica.

O Professor Olavo de Carvalho mostrará justamente esse outro lado, que ti-nha, em João Goulart e em Leonel Brizola, incentivadores de peso. Com a palavra o nosso colaborador, para enriquecer o nosso conhecimento através da sua vivência.

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É necessário dizer que, em 1964, eu era apenas um menino, um adolescente, e fui, certamente, a menor das testemunhas desses acontecimentos. Mas, apesar do tamanho, da insignificância, essa testemunha estava colocada numa posição muito propícia para enxergar as coisas que estavam acontecendo.

Nos meses que antecederam o Movimento de 1964, havia, no colégio em que estudava – era estudante secundarista na época, aluno do Colégio Estadual de São Paulo – facções políticas bem definidas, com uma maioria esquerdista e uma mino-ria (mas não tão minomino-ria assim) à direita, que depois apoiou o Movimento de 1964. Mas a parte esquerdista era, naturalmente, a mais ativa, e fui diretamente envolvido por ela, sem ter tido muito contato com a outra facção. Tão logo perce-beram que eu existia, já me cercaram, curiosamente, com o pretexto católico. Era a esquerda dita católica, liderada, ali na escola, por uma moça muito simpática, muito bonita, muito sedutora. Era mais velha do que nós, e exercia uma liderança fantástica sobre aquela meninada toda. Creio que estavam todos de algum modo apaixonados por ela, e ela usava isto muito bem. Pouca coisa sei da vida da perso-nagem, mas vi a atuação dela.

Então, a pretexto de catolicismo, de catequese e até de Primeira Comunhão, se colocavam idéias flagrantemente marxistas na cabeça de cada menino. Muitos anos depois, por uma coincidência da vida, voltei a encontrar essa pessoa num ambi-ente de trabalho – mas quase dez anos depois – e aí fiquei sabendo que nunca tinha sido católica coisíssima nenhuma, que aquilo era exclusivamente uma atividade po-lítica. Isso é para se ter idéia do ponto em que as coisas já se encontravam no ambiente secundarista.

Não vejo por que citar o nome da criatura. Ela era importante no movimento secundarista da época: era ligada à AP (Ação Popular), o mesmo movimento em que militava o Presidente da República atual e o seu candidato, o “vice-rei” José Serra, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), na época.

Analisando um pouco a personalidade daquela moça, posso extrapolar algu-mas conclusões para a mentalidade da época, porque, usando a Igreja como instru-mento de doutrinação marxista, ela sabia que estava mentindo, mas em nenhum momento lhe passou pela cabeça que pudesse haver algo de errado nisso. Quer dizer, a contradição moral de se utilizar uma fachada para veicular uma mensagem que negava essa mesma fachada era algo que não chegava a ser problema na cabeça dessa gente.

Foi ali que comecei a receber as primeiras informações sobre o estado de amortecimento moral, que é típico do militante esquerdista: mesmo que ele faça a coisa mais errada do mundo, se está trabalhando para a finalidade que acha ser da

revolução, mesmo os piores pecados e crimes não são pecados nem crimes. A pessoa se torna incapaz de perceber, incapaz de questionar sua própria atividade desde um ponto de vista moral. Eu não sei se está ficando claro.

Muito claro.

Observei muito esta peculiaridade nesta criatura e em todos aqueles que, na época, eram líderes estudantis, e que hoje são pessoas bastante importantes. Sob esse ponto de vista, não mudaram absolutamente nada.

Quanto ao outro grupo, o grupo da direita, só vim a aproximar-me dele muito tempo mais tarde, por uma ligação de amizade pessoal, e porque me convi-daram para fazer parte de uma turma de teatro que estavam organizando. Como entendia um pouco do “negócio”, fui prestar uma certa ajuda técnica (mas o teatro não era de catequese política – era uma coisa assistencial para crianças pobres). Não tive qualquer conversa política com eles.

Então, embora tivesse amigos dos dois lados, a influência ideológica que recebi foi maciçamente da esquerda. Não tinha, ao menos na época, a menor des-confiança das implicações maiores da coisa, mas seguia o tipo de pessoas que me rodeavam na ocasião.

Eu era um sujeito muito ativo socialmente: falava muito, fazia discursos, mas tinha pouca discriminação. Também não complicava, aceitava as coisas do jeito que via, e acho que esse era mais ou menos o estado de espírito de todos. Portanto, o julgamento negativo que fizemos do Movimento de 31 de Março foi mais ou menos assim, um pouco no automatismo das reações coletivas.

No dia 31 de março, a eclosão do Movimento foi noticiada no colégio como uma verdadeira catástrofe, alguma coisa terrificante que havia acontecido, e nós não tínha-mos bem uma idéia do que era. Mas o dia 31 de março foi para nós muito significativo, porque me recordo de que eu e um grupo de outros alunos do mesmo colégio, não sabendo direito o que devíamos fazer, colocando-nos quase espontaneamente na condição de “peões de obra” a serviço da esquerda, fomos procurar lideranças estu-dantis, e até lideranças políticas de mais alto calibre, para nos colocar à disposição, para saber o que deveria ser feito. Algum tipo de manifestação, coisa e tal.

Recordo-me de que não encontramos ninguém, em parte alguma; tinham to-dos desaparecido. Então, fomos até a Faculdade da Rua Maria Antônia, seguimos para a UNE, dirigimo-nos à casa de um deputado, cujo nome não lembro (acho que era o Davi Lerer, irmão de um colega nosso), e à casa de um vereador. Mas foi um sumiço geral. Esse sumiço nos impressionou muito, porque evidentemente tinham todos fugido. E, se tinham fugido, concluímos nós, é porque deveria haver um inimigo muito perigoso no encalço deles.

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Quer dizer, julgamos a periculosidade, a agressividade do Movimento de 1964, pela reação de fuga dos seus inimigos. Se havia tanta gente fugindo era porque devia haver um perigo real, algo como uma “Noite de São Bartolomeu”, uma carni-ficina que se anunciava.

Depois de passados muitos anos é que fui me dar conta de que, de fato, não houve carnificina alguma, não se matou rigorosamente ninguém naquele Movimen-to. Começou a violência depois de 1968, já em resposta às ações da própria esquerda. Em suma, não havia nenhum caráter violento no Movimento de 1964. Não mesmo.

Parece que morreram duas pessoas: uma, que sei, de um acidente – o sujeito pegou um revólver e acertou um colega, um estudante, aqui no Rio de Janeiro – e o outro não conheço as circunstâncias em que ocorreu, mas foram duas pessoas. Quer dizer, um movimento militar, um movimento contra-revolucionário que, num País de dimensões continentais, mata duas pessoas, é o movimento contra-revolucionário mais pacífico de toda a história humana. Mas não era isso que víamos. Nós julgávamos a índole da causa pelo efeito que estávamos assistindo, presenciando, e o efeito era a debandada geral. Depois, foi todo mundo para dentro de embaixadas e consulados, um foi para o Uruguai, outro Paris, outros se esconderam. Enfim, havia uma reação de pânico. Nós ainda passamos na redação do jornal Última Hora – onde mais tarde viria a trabalhar – e o ambiente era exatamente este: de pânico. Ou seja, uma reação normal do ser humano é graduar o seu medo pelo tamanho da ameaça, pela gravida-de da ameaça, mas nós fizemos uma espécie gravida-de julgamento ao contrário. Nós gravida- deduzi-mos o tamanho da ameaça pelo tamanho do medo que sentíadeduzi-mos.

Vejo hoje que não havia perigo algum, que não estava acontecendo absoluta-mente nada. Ninguém foi fuzilado, não houve nada, nada, nada. No entanto, quando me lembro dessa cena, recordo muito o romance do Józef Konrad, Lorde Jim.

Jim é um capitão de um navio mercante que está transportando uns peregri-nos que estão indo fazer as orações em Meca. Lá no meio do trajeto cai uma tremenda tempestade; o comandante e os tripulantes chegam à conclusão de que o navio vai afundar, mandam todo mundo abandonar o barco, e eles próprios o abandonam, mas os peregrinos não.

Os peregrinos:

– Não, nós confiamos em Allah, e vamos rezar.

E ficam lá rezando no navio, enquanto o capitão e os marinheiros deixam a embarcação. E vão remando para o porto. Quando o capitão chega ao porto, lá está o seu navio, ancorado, que os peregrinos haviam conseguido salvar.

Evidentemente ele perde o emprego, é desmoralizado, expulso da Marinha Mercante, e, a partir de então, passa o resto da vida fazendo gestos de heroísmo

grandiloqüentes e totalmente inúteis para ver se seria capaz de redimir-se daquele único ato de covardia.

Penso que toda a história da esquerda, nas duas décadas que se seguiram, foi uma sucessão de atos teatralmente heróicos, para ver se curava essa neurose causada pela reação covarde que teve em 31 de março.

Inclusive, a necessidade que esse pessoal tem de inflar e aumentar a descri-ção de violências e crueldades a um ponto absolutamente fantasista não se explica tanto como uma intenção deliberada de falsear, mas como um simples mecanismo neurótico de autodefesa. É claro que é uma mentira, está certo, mas não é uma mentira que sabe que é mentira. Mais do que uma mentira, é um falseamento psicológico total, é um falseamento da sua própria história. Não estão só falseando a história dos outros: estão falseando a sua própria, em primeiro lugar. Imagine-mos a situação desse pessoal, depois, pensando assim: “Mas nós fugiImagine-mos do quê? Fugimos do nada.” Essa constatação é a coisa mais deprimente do mundo.

Mas é claro que esse encadeamento lógico do acontecido só fui percebendo aos poucos. Na hora, estava persuadido de que havia realmente uma ameaça fascis-ta, uma espécie assim de marcha de Mussolini sobre Roma. Um negócio desse tipo é o que imaginávamos estar acontecendo.

Quer dizer, participei do primeiro ato, digamos, de uma imensa farsa. Mas não foi uma farsa deliberada e, sim, uma farsa neurótica, onde o indivíduo se engana a si próprio, entra numa espécie de vivência falsa da sua própria vida. Falseia a sua própria biografia para si mesmo, e acaba tendo que falsear a dos outros.

Todo esse discurso acusatório e calunioso que é feito é menos uma esperteza política ou maquiavelismo político. Trata-se de uma ingenuidade neurótica de pesso-as que querem disfarçar sua atuação vergonhosa, covarde e vil engrandecendo uma ameaça imaginária.

Isto foi o que vi no próprio dia 31 de março. Com base no que vivi naquele dia, creio que daria, se tivesse algum talento de romancista, para contar toda a história dos trinta anos seguintes, porque todos os elementos já estavam dados ali. Até hoje, uma coisa me surpreende muito em todas as pessoas da militância esquerdista; é a imensa capacidade que esse pessoal tem de viver num universo mitológico, completamente fora dos fatos, fora da realidade, sem conhecer nada, nada, nada, da psicologia concreta das pessoas das quais estão falando. E isso para mim tem mesmo uma estrutura de falseamento neurótico, de falseamento histérico da realidade.

Mas a partir desta primeira reação, que observei naquele dia, também me enganei com relação ao que estava acontecendo. Foi só aos poucos, muitos anos

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depois, que soube que não tinha morrido ninguém, porque, pelo que vimos da reação, imaginávamos que ali já tivessem morrido umas 10 mil pessoas.

Quando, muitos anos depois, soube que só tinham morrido duas pessoas no 31 de março, que o Brasil nunca chegou a ter mais de dois mil presos políticos durante trinta anos, é que percebi e falei: “Espera aí, nós vivemos uma pantomima naquela época, nós nos enganamos redondamente, ou fomos enganados, fomos enganados por nossa própria culpa.”

Mas, continuei acreditando nessa visão tenebrosa que a esquerda tinha dos acontecimentos pelos anos seguintes. Assim, quando foi por volta de 1965, acabei entrando mesmo no Partido Comunista, partindo daquela primeira experiência na esquerda católica, entre aspas, porque de católica não tinha nada, nada. Mas par-tindo daquilo, acabei entrando no Partido Comunista, quando comecei a trabalhar como jornalista. Tão logo saí da vida estudantil e entrei na vida profissional de jornalista, na primeira semana de trabalho, já fui cooptado para fazer política.

E aí começou uma outra história. Assisti, mais ou menos, de onde me en-contrava, toda a crise que houve dentro do Partido, em função das discussões para saber qual a estratégia que deveria ser seguida em função do novo regime. Sobre isto terei a oportunidade de tecer comentários proximamente, mas queria narrar um episódio que aconteceu logo após a minha entrada no Partido.

Fui convidado a ingressar no Partido por um jornalista nordestino da Última Hora, um jornal de esquerda na época, mas que havia acabado de ser comprado pela Folha de São Paulo. A Última Hora entrou em crise.

Era, vamos dizer, o grande baluarte jornalístico de defesa do Governo João Goulart. A Última Hora continuou, depois de 1964, travando combate a favor do governo caído, contra o novo regime, durante muito tempo, creio que por sete ou oito anos.

Mas, a seção de São Paulo da Última Hora, que não era a mais importante – a mais importante era a do Rio – estava meio mal financeiramente, e foi vendida para o grupo Folha de S. Paulo, que, naquela época, era de direita.

Então ficou uma coisa muito estranha, porque se tratava de um jornal esquer-dista dentro de uma organização direitista. Mas, aos poucos, fui entendendo a política da Folha de S. Paulo de fazer um jornal de esquerda e um jornal de direita. Mais tarde, eles mudaram a diretoria da Última Hora e colocaram um sujeito de direita, ao mesmo tempo em que abriram um novo jornal, um vespertino chamado Folha da Tarde, e colocaram lá todos os esquerdistas que eram da Última Hora. Então, você tinha a Folha de S. Paulo, edição matutina, que era a Folha da Manhã, de direita, e tinha a Folha da Tarde, que era esquerdista. Não é bonito? Direitista de manhã, e à tarde esquerdista.

Tão logo me convidaram para entrar no Partido, comecei a freqüentar as reu-niões da base – as unidades mínimas do Partido chamam-se bases –; tinha uma base na Folha de S. Paulo, uma base no Estadão etc. Na base da Folha de S. Paulo, onde se reuniam os jornalistas que trabalhavam nos vários jornais da organização Folha, comecei a minha atividade.

Mas, poucas reuniões depois, apareceu um sujeito do comitê estadual, que, na ausência do chefe da base, nos reuniu e disse o seguinte: “Companheiros, o compa-nheiro ‘fulano de tal’ – que era o chefe da base – criou uma situação extremamente delicada. Arrumou uma amante que, temos sérias razões para acreditar, é uma agente do DOPS (Departamento da Ordem Política e Social). Então, decidimos isolá-lo duran-te algum duran-tempo, para podermos investigar e tirar a limpo esta coisa. Precisamos arrumar um lugar para depositar esse camarada, deixá-lo meio sem contato com o pessoal da profissão durante algum tempo, até que possamos esclarecer tudo.”

Em suma, o que ele queria dizer era cárcere privado, em última instância. E nomeou quatro idiotas para achar um lugar para colocar o camarada.

E um dos quatro era eu. Não me recordo exatamente quem eram os outros. Um dos quatro, salvo engano, era o jornalista Rocco Bonfiglio, irmão da Mônica Bonfiglio, que aliás faz programas de TV sobre anjos, essa coisa toda. Muito boa pessoa, era muito meu amigo também, naquela época.

Não sei quem foi que encontrou o lugar, mas colocamos o camarada num barraco, numa favela, que era para lá do fim do mundo. Lembro-me de que a gente caminhava até o zoológico de São Paulo, depois caminhava outro tanto, passava três ou quatro morros mas, no fim, colocamos o sujeito lá e, de três em três dias, alguém ia levar comida e cigarros para ele. E o sujeito ficou depositado lá um tempão. Levei comida para ele três ou quatro vezes. Depois designaram outras pessoas para fazer isso, e eu não soube mais de nada. Um dia escuto, entre dois militantes, na redação, a seguinte conversa:

– Sabe quem estava aí, na portaria? Aquele f. d. p. do fulano de tal – que era aquele antigo chefe da base. Não deixamos nem entrar.

Isso queria dizer que o sujeito estava virtualmente excluído. Junto da exclu-são do Partido, estava excluído da profisexclu-são, pelo menos em São Paulo. Achei aquilo tudo normal, porque pareciam medidas de segurança, e passados outros meses, certo dia, estou num bar na frente da Folha de S. Paulo, tomando um cafezinho, e aparece o tal do sujeito, magro, chupado, barbudo, com um ar de mendigo. E vem falar comigo. E eu, como militante devotado, virei-lhe as costas e não falei com ele.

Também levei anos para compreender a significação moral – ou imoral – daquilo que fiz, porque na verdade ocorreu o seguinte: houve um cárcere privado,

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exclusão da profissão, discriminação odiosa, a destruição total de uma vida, de uma carreira, no fim das contas, por causa de uma desconfiança. E todo mundo considerava isso normal, porque o Partido tinha todo o direito de agir assim. Nem se questionava.

Não tive o menor problema moral na época por ter procedido assim. O bem estava conosco; do outro lado não eram nem gente. Portanto, ninguém ia perder tempo tendo bons sentimentos para com um sujeito que pensa de outra forma e tem outra orientação política.

Na época, estive insensível a esta coisa. Entretanto, mais tarde, analisando o

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