É com muito prazer que participo deste Projeto, porquanto me sinto, de certa forma, orgulhoso por ter tomado parte no desembocar da Revolução de 31 de Março de 1964, de uma forma muito efetiva, já que, na oportunidade, servia em Juiz de Fora.
Lamento não ter possibilidade de reproduzir com fidelidade todos os aconteci-mentos vividos naquela ocasião, porque já se vão mais de 36 anos, o que pode explicar alguma falha de memória.
Que fatos o senhor gostaria de registrar, relacionados aos pródromos da Revolução de 31 de Março de 1964, à sua eclosão, e depois às suas conseqüências?
Quero referir-me, inicialmente, ao ano de 1963, quando cursava o terceiro ano da Escola de Comando e Estado-Maior de Exército (ECEME). Naquela oportunidade, a Escola nos transmitia conhecimentos sobre guerra revolucionária e seus diversos estágios, conforme se desenvolviam no Brasil. Assim, conscientes da situação que vivíamos no País, acompanhávamos, exatamente, a condução do processo revolucio-nário comunista que estava sendo implantado.
Terminado o curso da ECEME, fui classificado em Juiz de Fora, na 4a Região Militar (RM), no Quartel-General (QG). Apresentei-me no dia 5 de março de 1964, isto é, muito próximo do início da Revolução, e logo participei de uma manobra de quadros no Sul de Minas. Estranhei o fato de caber a dois estagiários, eu e o Major Ari Capella, a organização de, praticamente, todo o exercício, criando os incidentes que seriam desencadeados.
Entretanto, é que estávamos nas vésperas da Revolução e a execução da manobra visava, também, ao reconhecimento do eixo Belo Horizonte-São Paulo e à realização de contatos com os comandantes de organizações militares daquela re-gião. A manobra terminou no dia 22 ou 23 de março. Antes de 31 de março iríamos passar, ainda, por algumas experiências muito interessantes.
No primeiro domingo de folga, viajei com minha mulher e filhos. Fomos a Barbacena, cidade de grata recordação para minha família: minha mãe fora criada lá, meu avô era professor do Colégio Militar de Barbacena, época em que minha mãe era mocinha; por isso queria rever a cidade de que minha mãe tanto gostava. Procurei uma fazenda de cultivo de flores – Barbacena é conhecida pelas plantações e pelas flores – e fomos a uma, chamada Três Marias, cujas proprietárias eram três senhoras. Chegamos à sede da fazenda, batemos palmas, e uma delas nos atendeu muito gentilmente: “O senhor está vindo numa época muito ruim, estamos vivendo um momento de crise, o mato está tomando conta da fazenda, o meu capa-taz internou-se na floresta, porque disse que não quer ser comunista, e todo mundo vai ser comunista! Estamos envidando todos os esforços para buscá-lo. Mas o culpado
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disso, meu senhor – disse ela para mim, sem saber da minha identidade – é o Exército Brasileiro que não dá um jeito nesse País.” Ficamos, então, ouvindo aquela recrimi-nação ao Exército que não tomava uma atitude, com relação àqueles acontecimentos. Voltamos a Juiz de Fora e, no dia seguinte, ao passar pela praça principal, eram 7 ou 8h da noite, vi uma concentração humana, com tochas acesas, rezando, de uma forma muito emocionante, para a salvação do País.
Dois dias depois, Leonel Brizola iria fazer uma palestra num cinema de Juiz de Fora, e a população toda estava indignada, não queria de forma nenhuma a presença daquele cidadão. O que fez o General Mourão, que era o Comandante da 4a
RM? Simplesmente colocou-nos de prontidão, para que não houvesse nenhuma conotação, nenhuma participação do Exército naquele evento.
E, assim foi. A população civil “correu” com o Brizola e não o deixou falar. Seguiu-se a Semana Santa, aquele ambiente ainda extremamente conturbado, mas perguntei ao Chefe do Estado-Maior:
– Coronel, dá para eu ir ao Rio de Janeiro?
– Pode ir, não tem problema nenhum – respondeu-me.
Dessa forma, viajei, a fim de passar a Semana Santa no Rio de Janeiro. Saí de lá na noite de segunda-feira, dia 30 de março, em que houve a reunião de João Goulart com os cabos e soldados, no Automóvel Clube do Brasil.
Nessa oportunidade, estava na casa do meu sogro. Quando acabou a reu-nião, acordei a minha mulher e meus filhos, peguei o carro e voltei rapidamente para Juiz de Fora, porque, depois daquilo, ninguém mais podia esperar outra coisa, a não ser a nossa revolta contra a tal sucessão de ignomínias.
Cheguei à casa por volta das seis ou sete horas da manhã, uniformizei-me, fui para o quartel, e já tínhamos começado a Revolução. O General Mourão explicou-me o que estava havendo, e me mandou para a 3a Seção do Estado-Maior, onde fiquei poucas horas, porque, logo depois, o próprio General Mourão disse-me: “Cid, você vai para o Destacamento Tiradentes, com destino ao Rio de Janeiro, vai integrar o Esta-do-Maior do Destacamento.”
Lá pelas quatro horas da tarde, mais ou menos, já nos encontrávamos com todo o dispositivo pronto, o Esquadrão na estrada, deslocando-se em direção ao Rio de Janeiro, fazendo a vanguarda, quando dirigi-me ao gabinete do General Mourão, a chamado dele. Nesse momento, o telefone tocou e o Major Antônio Cúrcio Neto, que era o assistente do General, atendeu e disse: “É o General Castello.” O General Mourão atendeu, e pelo que pude deduzir, do que ouvi, informava ao General Castello que não podia mais retornar, que já estava com a tropa toda na rua, e não havia mais nenhuma possibilidade de voltar atrás.
Parece-me que o General Castello insistia que tinha havido uma precipitação, vamos dizer assim, ou um adiantamento em relação à hora de começar o Movimento; foi isso que percebi da conversa do General Mourão com o General Castello Branco. Logo após, chegou o General Muricy, do Rio de Janeiro, acompanhado do Tenente-Coronel Walter Pires de Carvalho e Albuquerque, mais tarde veio a ser o Ministro do Exército. Vieram, também, o Tenente-Coronel Heitor de Caracas Linhares e o Major Alísio Sebastião Mendes Vaz que compunham – vamos dizer assim – o seu Estado-Maior.
A preocupação inicial que percebi no General Muricy, com relação ao nosso eixo de atuação para o Rio de Janeiro, era a possibilidade de uma intervenção da tropa que viesse de São Paulo, na região de Três Rios, utilizando para tal a ligação que passa por Volta Redonda e vai atingir a Rodovia Presidente Dutra. Havia a intenção de fazer a cobertura em face dessa direção.
No fim da tarde de 31 de março, o General Muricy se deslocou com a tropa, pela estrada, em direção ao Rio de Janeiro, e determinou que eu permanecesse em Juiz de Fora, para receber um Batalhão, do 12o RI que estava vindo de Belo Hori-zonte para Juiz de Fora.
Esse batalhão chegou por volta de nove horas da noite, mais ou menos, um pouco desequipado, despreparado, pois, na verdade, estávamos vivendo o início da instrução militar. Veio sem armas coletivas, só armamento individual; tivemos di-ficuldade também para alimentar a tropa. Ainda providenciei a distribuição de metralhadoras, morteiros e munição, recebidos do Depósito Regional de Armamen-to. Surgiu um problema de abastecimento, porque as viaturas vieram com os tan-ques vazios e verifiquei que o rendimento de uma bomba de gasolina civil era extremamente pequeno para uma operação militar – um conta-gotas reduzido.
Lá pelas duas horas da madrugada o batalhão deslocou-se, para reforçar as tropas comandadas pelo General Muricy, que desciam em direção ao Rio de Janeiro, e eu também segui para integrar-me ao Destacamento.
O primeiro contato do Destacamento foi com o Batalhão de Petrópolis – esse eu não vivi, porque estava na preparação do batalhão do 12o RI. O encontro que presenciei foi com um batalhão do Regimento Sampaio, comandado, na época, pelo Coronel Raimundo.
Ele vinha formando um grupamento tático, com um Grupo 105 do Regimen-to Floriano, da Vila Militar.
Nesta oportunidade – vivi esse problema – conseguimos colocar o Marechal Denys, que já se encontrava em Juiz de Fora, no QG, sabendo da presença do Regimento Sampaio, diante de nós, em comunicação com o Coronel Raimundo,
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Comandante da Unidade, pelo Seletivo da Central do Brasil. O Marechal Denys man-teve um contato importantíssimo com o Coronel Raimundo: “Raimundinho, venha para o nosso lado!” E o Coronel passou para cá, integrando-se ao nosso grupamento. O Coronel Raimundo havia sido Assistente-Secretário do Marechal, pelo qual tinha um especial apreço e admiração.
O Grupo do Regimento Floriano quis voltar, não quis incorporar-se à tropa, mas, nesse momento, o General Muricy agiu com muita rapidez, colocou um cami-nhão interceptando a estrada, e o Grupo permaneceu conosco.
O Destacamento prosseguiu sua marcha e, algum tempo depois, fizemos contato com um batalhão do 2o Regimento de Infantaria e um Grupo de Artilharia, possivelmente o outro Grupo do Regimento Floriano. Estas Unidades, realmente, se desdobraram à nossa frente, ocuparam posições, armas coletivas e tudo mais. Esta-va chefiando o Grupamento Tático (GT) oponente o General Cunha Mello.
Houve conversações entre o Estado-Maior dele e o nosso, mas acredito que, àquela altura dos acontecimentos, o fator decisivo foi a própria renúncia do Co-mandante do I Exército e ministro interino. Vivíamos a tarde de 1o de abril.
Nessa altura, o 2o Regimento de Infantaria ou um dos seus batalhões – não estou bem certo – entrou em forma e voltou para o Rio, não se alinhou conosco, bem como o outro Grupo do Floriano. Nós prosseguimos.
Quando chegamos à altura da entrada de Petrópolis, onde há, até hoje, um monumento de uma carruagem, o General Muricy ordenou: “Cid, você vai ficar aqui e mande um GT para lá, outro GT para cá, e outro GT para acolá”. Eu, como o mais moderno do Estado-Maior, era o recebedor de ordens diretas; os três GTs nossos eram à base dos três regimentos de Infantaria da 4a RM/DI, o 10o, o 11o, e o 12o.
Já eram cerca de dez horas da noite, chovia, eu me encontrava até despreve-nido, porque estava sem nenhum agasalho, mas fiquei no cruzamento fazendo a distribuição da tropa.
Naquele momento, um civil chegou-se a mim e disse: – Major, posso ajudá-lo?
– Como?
– Estou com aquele carro ali - era um Willman, um carrinho pequenininho da época.
– Aceito e muito obrigado.
E o cidadão ficou do meu lado, como meu motorista, com a sua “viatura”, o Willman.
O General Muricy tinha ido para Petrópolis, dormir em um hotel, cujo nome me informou. Mais ou menos às onze horas da noite, chegam o General Mourão e
sua mulher D. Maria, no carro dele, com o motorista; acompanhava-o um cidadão, mais tarde, ministro do Supremo Tribunal Federal.
Ministro Neder.
Isso mesmo. Vinham, também, os majores Cúrcio Neto e Moraes. O General Mourão indagou:
– Cid, onde está o General Muricy?
– O General Muricy está em Petrópolis, no hotel. – E onde está a tropa?
– Estamos com um GT em “tal” lugar, o outro em “tal” lugar e o terceiro em “tal” lugar.
– Ordem para o General Muricy: descer com a tropa agora, com a “testa” no gasômetro.
– Sim senhor.
A bordo do Willman, fomos para o hotel em Petrópolis. O General Muricy não estava dormindo, transmiti a decisão do General Mourão e voltei para dar as ordens para os grupamentos táticos. Começamos a descer a serra, de madrugada, choven-do, com um material muito usachoven-do, era o que tínhamos na época; o nosso Grupo de Artilharia, de Juiz de Fora, o 4o RO 105, seus caminhões eram todos da guerra, e é bom não esquecer que as estradas eram as da época, e não as de hoje.
Não eram as estradas que a Revolução construiu, transformando completa-mente as rodovias em todo o País.
Desci a serra no carro do Prefeito de Juiz de Fora, que já vinha transportan-do o General Muricy e o seu Estatransportan-do-Maior: Coronel Walter Pires, Tenente-Coronel Linhares e Major Alísio Mendes Vaz.
Havia necessidade de o General Muricy encontrar-se com o General Mourão, antes da chegada ao Rio de Janeiro e, por isso, descemos a serra a toda velocidade; conseguimos encontrar o carro do General Mourão mais ou menos na altura da Refinaria de Duque de Caxias; fizemos sinal, ele parou a viatura, e os dois ficaram conversando, mas não cheguei a ouvir o que falavam.
Em seguida, entramos novamente no veículo e continuamos. O rádio do carro anunciava o nome do Comandante Supremo das Forças Armadas e do novo Comandante do I Exército, atual Comando Militar do Leste. Quando chegamos em frente ao Gasômetro, o General Muricy determinou: “Cid, salta aqui e espera o Des-tacamento Tiradentes.”
Provavelmente, em torno de quatro horas da madrugada. Trocavam tiros naque-la região do Cais do Porto, e eu saltei, com o “meu 38” e meu anjo da guarda, em frente a um quartel do Corpo de Bombeiros, onde, hoje, está a Estação Rodoviária Novo Rio.
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Cheguei ao quartel, mandei chamar o oficial de dia, que veio um pouco assus-tado. Expliquei o que estava fazendo ali, e ficamos esperando que o Destacamento Tiradentes chegasse.
O General Muricy e o General Mourão seguiram para o Quartel-General. O que ocorreu lá, não fui testemunha, nem tomei conhecimento. Lá pelas cinco e meia da manhã, apareceu no quartel do Corpo de Bombeiros, o Governador do então Estado da Guanabara, Carlos Lacerda. Pouco nos falamos, ele estava procurando ler os jornais e, nessa ocasião, ofereceu o Maracanã, para estacionamento do nosso Destacamento. Aproximadamente às sete e meia da manhã, começou a chegar o Destaca-mento Tiradentes. A testa parou à altura do Gasômetro, ocupando toda a Avenida Brasil, porque o Destacamento era relativamente grande: composto de três regi-mentos de Minas Gerais e o 1o Regimento de Infantaria, também já incorporado, além de mais dois ou três batalhões da Polícia Militar de Minas Gerais e um dos Grupos do Floriano. Ali ficamos até que recebemos ordem de nos deslocar para o Maracanã, onde fizemos uma defesa circular – como não podia deixar de ser, por-que o Maracanã o exigia e atribuímos um setor a cada Unidade.
O momento político era realmente muito tenso. Tanto o General Mourão quanto o General Muricy, praticamente, ficaram no Quartel-General e houve uma hora, nesse dia 2 de abril, em que eu era o único oficial, do comando do Destaca-mento, presente. Os boatos eram intensos, de luta, de conflitos, e motivados pelos mesmos chegavam a meu conhecimento, a todo instante, solicitações de envio de tropas. São exemplos o Colégio Militar do Rio de Janeiro, querendo que mandássemos uma tropa para proteger o Colégio, “que seria atacado por não sei quem”, depois, a Escola de Comando e Estado-Maior que queria uma tropa para proteger a Escola, “porque os fuzileiros iriam atacar” etc. e, ainda, o general que tinha ficado como Chefe de Estado-Maior do I Exército me pediu um batalhão, para ser colocado dentro do prédio do Quartel-General. E eu sem autoridade para atender a coisa alguma. Aí, foi quando chegou o Comandante do 12o RI – Coronel Dióscoro Vale – coronel antigo, com curso de Estado-Maior, comandante de uma Unidade que recebeu a incumbência de impedir a saída de tropas para missões fora do Maracanã.
Os dias que passamos no Maracanã foram de muitas visitas de autoridades.
E a logística, como funcionou?
Não me lembro qual a Unidade que nos atendeu lá no Maracanã, mas sei que comida não faltou, e não éramos tão poucos, constituíamos um “senhor” grupamento. Numa daquelas manhãs, recebemos a visita do Governador de Minas
Gerais, Magalhães Pinto, que veio abraçar-nos, muito contente com o sucesso da Revolução, e tivemos oportunidade de conversar durante uns 15 minutos.
Finalmente, voltamos para Juiz de Fora, e o regresso foi realmente consagrador. Em todos os lugares, por todas as pequenas cidades e vilas por que passamos, a tropa era recebida com flores, música, com alegria extraordinária, de toda a população brasileira. Quer dizer: o Brasil sentia-se, naquele momento, pelo menos por parte da população civil, aliviado das incertezas que havia sofrido.
Era um desassossego permanente. Greves, anarquia, invasões de terras, o cais do porto não sossegava, greves umas em cima das outras; Santos, por exemplo, não trabalhou mais.
Um desassossego permanente, incitado ou com o apoio do próprio Governo. E vieram, mais tarde, os governos com presidentes militares. Tivemos o fan-tástico Governo do Marechal Castello, que restabeleceu a ordem e permitiu a recu-peração do País, de tal modo que a economia crescesse e se fizessem as reformas fundamentais de que a Nação necessitava. É muito difícil formar uma equipe de governo como a do Marechal Castello, ou seja, gente de alto nível.
O Marechal Castello, com a sua postura única, correto, conferiu dignidade ao Governo, de que andávamos, há muito, necessitados.
Restaurou a autoridade, que sucumbira completamente.
Em 1963, um amigo, o General Albino Silva, foi meu vizinho na Vila Militar, quando era Coronel Chefe do Estado-Maior da 1a Divisão de Infantaria. A minha mulher e a Dona Sílvia, esposa do Coronel Albino Silva, se deram muito bem, fizemos uma grande amizade.
O General ocupava o cargo de presidente da Petrobrás, desde outubro de 1963, e já não o via há muitos anos. Após sua saída da Vila Militar, tinha ido para o gabinete da Presidência, onde fora Chefe da Casa Militar. Um dia, passando pela antiga sede da Petrobrás, na Praça Pio X, pensei: “Vou tentar dar um abraço no General Albino Silva, meu amigo” – eu gostava muito dele – e fui ao gabinete. Para surpresa minha, atendido imediatamente, ele me relatou a situação de terror que estava vivendo dentro da Petrobrás, com os comunistas se assenhoreando de tudo. Mas o interessante foi que afirmou: “A revolução vem aí, não há mais condições de se permanecer nesse estado de total desagregação e anarquia”; entretanto, ele imaginava que ocorreria grave conflito; como eu, também, acreditava na deflagração do Movimento.
Inclusive, durante o nosso deslocamento, tomei uma série de medidas para proteção da tropa, ou seja: desembarque dos passageiros e retirada dos ônibus da estrada, a fim de liberar a rodovia. Fizemos tudo o que nos ensinaram em operações. Eu
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achava que acabaríamos combatendo; os aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) sobrevo-aram a nossa tropa repetidas vezes, numa delas soltando folhetos, mas não saiu disso.
Esses folhetos eram contra o Movimento?
Eram contra, sugerindo que os militares sofreriam as conseqüências e pedi-am para que as mulheres fizessem os maridos voltarem e deixassem de reagir con-tra o Governo.
Depois da Revolução, o General Guedes ficou no comando da 4a RM e o General Mourão, após ter sido promovido a general-de-exército, pelo Congresso Nacional, foi comandar o IV Exército, no Nordeste.
Um dia, conversando com o General Guedes, ele falou, brincando comigo: – Cid, você então achava que ia haver guerra?
– Sim senhor, achava.
– Nada disso, Cid, era só dizer “uuu” e eles todos sairiam correndo. E foi o que aconteceu, fizemos “uuu” e toda aquela canalha comunista saiu correndo, com o “rabo entre as pernas”, desesperada. Se houve certa resistência ao Movimento, por parte de alguns do nosso grupo, foi mais por submissão à legalida-de, à Constituição, sentimento que temos arraigado dentro de nós, influindo na tomada de uma atitude extrema, como a do Movimento de 31 de Março de 1964.
Após o Governo Castello, seguiram-se outros governos revolucionários, com extremo sucesso; desfrutávamos de parte da população uma aceitação muito gran-de, porque os acertos foram inúmeros e não havia desemprego.
O Brasil, antes de 1964, estava, realmente, muito atrasado. Realizamos, indubitavelmente, um progresso muito grande, crescemos em todos os sentidos, em todos os setores, como nas comunicações, por exemplo. Para lembrar, a ligação tele-fônica entre Juiz de Fora e Rio de Janeiro levava de quatro horas a dois dias, e assim mesmo era preciso ir à estação telefônica para ligar, porque pouquíssimos possuíam telefone no domicílio. O impacto, também, na educação – a ampliação do ensino universitário – foi uma coisa extraordinária, bem como nos transportes e em todos os demais campos de atividades, que experimentaram um crescimento impressionante. No momento, porém, estamos vivendo o “revanchismo” dos perdedores, que lutam desesperadamente para que o silêncio seja total a respeito das marcantes realizações da Revolução.
E onde estão as raízes do Movimento de 31 de Março de 1964?
A identificação dessas raízes é muito difícil. Vivemos, depois de 1945, com