Foto 29. Ginástica (1) 145
5. RESULTADOS E DISCUSSÃO 78
5.2 Movimento e Pensamento 96
5.2.1 Corpo como instrumento de representação 96
Os episódios discutidos nesta seção visam elucidar as relações entre movimento, pensamento e comunicação enfocando os seguintes aspectos:
- O movimento antecede a fala.
- O movimento acompanha a fala da educadora.
- A criança utiliza o gesto no momento em que também utiliza a linguagem verbal. - O corpo é utilizado para representar personagens e situações.
Busca-se, assim, pensar na função do gesto como precursor da função de representação e da linguagem verbal. Com esse intuito, serão utilizados episódios tanto da Rodinha como das situações de brincadeira em trio, procurando-se ressaltar as diferenças no que concerne à presença ou não de objetos no decorrer da interação.
Interações na ausência de objetos
As interações que ocorreram na Rodinha são extremamente relevantes para a discussão a respeito da utilização do corpo em atividades que não fizeram uso de objetos. Nessa situação, os 11 episódios recortados apresentam evidências da participação do corpo na constituição da função de representação.
Uma análise geral dessas 11 seqüências interacionais indica que as crianças freqüentemente utilizavam o corpo para representar personagens e/ou situações. Essa representação, evidenciada pelo movimento, exteriorizava um pensamento permitindo a comunicação entre os parceiros da interação. Os episódios indicam que o gesto emerge em
substituição à fala, como também acompanhando a linguagem verbal, de modo que as crianças dessa idade ainda parecem precisar do corpo para construir e expressar seu pensamento.
Durante a observação dos trios, apesar dessa situação deixar objetos à disposição das crianças, também foi possível recortar um episódio em que uma criança utilizava o movimento expressivo para comunicar seu pensamento sem fazer uso de nenhum objeto.
Assim, por ser mais simples e sucinto, o episódio ocorrido na situação dos trios será apresentado primeiro. Em seguida, serão descritos e analisados trechos de mais dois episódios da Rodinha que, por ser uma interação mais duradoura entre um grupo grande de crianças, apresenta um maior nível de complexidade, evidenciando o corpo como recurso comunicativo e suporte para o pensamento. Ao longo dos três episódios analisados procurar-se-á demonstrar evidências empíricas da relação entre movimento, pensamento e linguagem.
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Episódio: Grande assim, ó!
Situação de observação: brincadeira livre entre coetâneos (Trio) Trio observado: Olavo (52m), Lucila (53m) e Nina (56m) Data da sessão: 12/12/06
Crianças envolvidas no episódio: Olavo (52m) e Lucila (53m)
Síntese do episódio: as crianças começam a dialogar em torno do batom que está sendo utilizado por Lucila. Olavo, fazendo referência ao gênero, comenta em tom irônico para a menina colocar o batom já que ela é mulher e ele é homem. Ao comunicar isso à parceira, ele faz uso de movimentos expressivos.
Lucila está se olhando no espelho enquanto Olavo brinca com os carrinhos. Lucila então diz: “me dá o batom aí, Olavo”. Ela fala mais alguma coisa que não se compreende. Ela mesma pega o batom que está na mesa e Olavo questiona: “o quê?”. Ela diz, já abrindo o batom: “vou botar na minha boca”. Olavo pergunta: “teu o quê?”. Ela responde: “batom”, e começa a passar o batom na boca. Olavo interroga novamente: “o quê?” A menina não responde nada e continua passando o batom na boca. Olavo ri e comenta: “bote, você vai ser mulé bem grande”. Quando ele diz isso, ele estica o braço até o alto, querendo indicar que ela seria grande. Olavo acrescenta: “e eu vou ser um homem bem grande assim”. Ele abre os dois braços para as laterais, indicando uma coisa grande, e faz cara de brabo. O menino ainda fala mais alguma coisa que não é possível compreender. Lucila ainda passa o dedo melado de batom na boca da boneca e comenta alguma coisa que não se entende. Ela e Olavo riem. Lucila volta a se orientar para o espelho e Olavo para os carrinhos.
Esse episódio evidencia como o movimento expressa o pensamento da criança mesmo quando este já é exteriorizado por meio da fala. Ao dizer “bote, você vai ser mulé bem grande”, Olavo estica o braço até o alto (primeira imagem da Foto 12). Baseando-se na teoria walloniana, esse movimento é interpretado aqui como um componente do pensamento: o adjetivo grande é representado pelo gesto, ou seja, a fala se corporifica no movimento da criança.
Essa situação se repete quando logo em seguida, ao afirmar “e eu vou ser um homem bem
grande assim”, Olavo abre os braços para as laterais (segunda imagem da Foto 12). Além disso,
esse movimento, que reforça a idéia de que ele será grande, vem acompanhado de uma alteração da expressão facial. Uma possibilidade de interpretação é que essa expressão exterioriza a idéia de um homem grande, um homem forte. A mímica facial parece também acompanhar a idéia comunicada pela fala de Olavo.
Lançar esse olhar sobre o gesto e a expressão facial da criança implica expandir a noção de movimento. Aqui, interpreta-se que, mesmo sem se deslocar nem atuar sobre o mundo físico, a criança se movimenta. Esse movimento emerge em sua função de expressividade e não de mobilidade; ele acompanha o pensamento da criança e se torna um componente da comunicação de suas idéias.
O episódio descrito a seguir, visando reforçar o argumento aqui proposto, a saber, que o movimento tem uma função na construção do pensamento e na comunicação entre pares, mostra uma interação ocorrida na Rodinha em que a criança não apenas se utiliza um movimento, mas uma seqüência complexa de movimentos para representar uma situação.
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Episódio: Comendo banana Situação de observação: Rodinha Data da sessão: 27/10/06
Crianças envolvidas no episódio: todas as crianças presentes na Sessão 2 da Rodinha.
Síntese do episódio: a educadora havia trazido um macaquinho de pelúcia para a sala de aula. Ela então começa a conversar sobre o macaco perguntando para as crianças o que ele gosta de comer. Em seguida propõe um faz-de-conta, que dura cerca de um minuto e meio, em que o grupo finge comer banana. A partir daí as crianças passam a utilizar o corpo de diferentes maneiras para representar essa situação.
Foto 13. Movimentos de Gelma e Cora
Ed.: Quem sabe me dizer o que é que o macaco gosta de comer? Gelma: banana
Gelma fecha a mão e coloca-a na sua frente como se estivesse segurando uma banana.
Cora faz um movimento de abrir e fechar as mãos perto da boca, como se estivesse comendo algo.
Line: cachorro quente.
Ed.: e é? Tu acha que é cachorro quente, é? Tu já visse macaco comendo cachorro quente? Ele gosta de comer banana.
(...)
Ed.: Faz de conta que ta todo mundo com a banana aí na mão. Segura a banana, bora. Cadê a banana de vocês? Cadê?
Nesse momento, Everson, Gelma, Cora, Mark, Chico, Isa e Keka já estão com a mão fechada na frente do rosto, como se segurasse uma banana. As crianças que estão do lado direito da educadora não estão visíveis para a pesquisadora.
A proposta da educadora é a realização de um faz-de-conta: fingir que estão comendo banana. O desenrolar dessa atividade mostra como essas brincadeiras simbólicas implicam a função de representar (COELHO; PEDROSA, 1995). Durante a seqüência interativa, as crianças adotam posturas que tornam presente algo que está ausente, de modo que o corpo expressa um pensamento e comunica algo aos parceiros.
No início da atividade, a educadora pergunta às crianças o que o macaco gosta de comer. A resposta de Gelma permite uma reflexão sobre como o movimento acompanha a fala da criança, sendo um componente do pensamento e da comunicação. Ao dizer “banana”, a criança posiciona sua mão como se estivesse segurando uma banana (primeira imagem da Foto 13). Ela utiliza o movimento para representar o que também está sendo representado por sua fala, corroborando a idéia de Wallon (1942/1979b) de que o gesto está mais próximo da representação do que da ação: as idéias projetam-se em atos motores.
Esse dado é interpretado aqui como uma evidência de que o corpo é um suporte para a construção e expressão do pensamento da criança. E, mais ainda, que nessa faixa etária, em que ela já usa a linguagem verbal de maneira regular, o suporte corporal ainda se faz necessário. É como se a criança fosse impelida a utilizar o corpo no momento de comunicar as suas idéias. Dantas (1992a, p. 41) afirma: “imobilize-se uma criança de dois anos que fala e gesticula e atrofia-se o seu fluxo mental”. Essa afirmação também é passível de ser aplicada para as crianças da faixa etária aqui analisada, como pode ser percebido nesse episódio, no episódio anterior e nos que serão demonstrados posteriormente.
Destaca-se também que a concomitância do gesto e da palavra representando a mesma coisa – banana – reforça a idéia do movimento como um recurso comunicativo não-verbal. A situação descrita indica, portanto, como a comunicação verbal não implica a anulação da comunicação gestual, sendo o gesto também um componente da comunicação.
O movimento de Cora de abrir e fechar a mão perto da boca (segunda imagem da Foto 13), como se estivesse comendo algo, reforça ainda mais o argumento acima. Sabe-se, por outras situações em que a menina esteve presente, que ela também já possui uma linguagem verbal bastante eficiente. Ainda assim, nessa seqüência interativa, ela faz uso apenas do movimento para comunicar seu pensamento. Ela representa com o corpo uma situação de estar comendo algo, que devido à cena de atenção conjunta (TOMASELLO, 2003; TOMASELLO et. al., 2005) em que ela se encontra, é interpretado como sendo uma banana. É como se a fala da educadora ao
perguntar “o que é que o macaco gosta de comer?” lhe suscitasse uma imagem concretizada no movimento. É um conjunto de atitudes corporais que responde à pergunta da educadora.
Isso implica considerar que, ontogeneticamente, a fala não surge do nada, ela emerge em um contexto no qual uma comunicação pré-lingüística, baseada no corpo, já se faz presente. Poder observar esse fenômeno em crianças mais velhas – que já possuem linguagem verbal – reforça o argumento de alguns autores (WALLON, 1959/1979a; TOMASELLO, 2003; TOMASELLO et. al., 2005; TREVARTHEN, 2006) a respeito do qual os gestos e expressões faciais se configuram como um primeiro recurso comunicativo dos bebês. Wallon (op.cit., p. 73), por exemplo, afirma: “para se fazer entender, a criança não tem senão gestos, ou seja, movimentos em relação com suas necessidades, ou o seu humor”. Os dados aqui apresentados permitem afirmar que, para se fazer entender, crianças que já possuem linguagem verbal ainda precisam do movimento para comunicar seu pensamento.
Vejamos o trecho a seguir em que é possível perceber de forma mais conspícua como a criança vai construindo seu pensamento pelo corpo.
Foto 14. Seqüência de movimentos executada por Line.
(...)
Ed.: cadê a banana? (...)
Line, que está de pé no meio do círculo, olha para cima e começa a movimentar os braços como se estivesse puxando alguma coisa que está localizada em um lugar mais alto. De repente, olha para o chão, se abaixa e finge pegar alguma coisa que imediatamente leva à boca e começa a mastigar.
O trecho descrito acima é bastante interessante para evidenciar empiricamente o argumento aqui defendido. A seqüência de movimentos expressa por Line, após a pergunta da educadora sobre onde está a banana, reforça a idéia da relação entre gesto e representação.
Novamente, é todo o corpo que responde à pergunta feita, dessa vez de uma maneira ainda mais complexa, na medida em que a menina representa uma situação a partir de um encadeamento de diferentes movimentos (Foto 14). Pergunta-se: como ter certeza de que a seqüência de movimentos representa que Line está pegando uma banana e “comendo-a”? Para responder a essa questão é pertinente recorrer às idéias de Tomasello (2003) e Tomasello et. al. (2005) para esmiuçar a seqüência acima.
Inicialmente, cabe destacar que a criança, em momentos anteriores do episódio, está olhando para a educadora e orientada para a atividade. É ela a criança quem responde que o macaco gosta de comer cachorro-quente. Sendo assim, existem indícios empíricos de que Line está com a atenção orientada para o que foi proposto pela educadora, compartilhando uma cena de atenção conjunta com ela e com os outros parceiros de idade. Partindo desse indicativo, espera-se que seus comportamentos tenham sentido dentro do que está se desenrolando na interação.
Desse modo, o movimento da criança é interpretado levando-se em conta a cena de atenção conjunta na qual ela está inserida. Assim, baseando-se na idéia de Tomasello (2003) sobre a natureza perspectiva da palavra, o gesto também é percebido aqui como perspectivo, uma vez que ele ganha sentido dentro do contexto do qual faz parte. Além de o contexto permitir a inferência a respeito do que significa o comportamento de Line, é possível estar atento a alguns indícios presentes na seqüência de movimentos apresentada por ela.
Observem que, após movimentar os braços para cima (primeira foto da seqüência), a criança pára por um momento e olha para o chão antes de se abaixar e fingir pegar algo (segunda foto da seqüência). Esse olhar para baixo, relacionado ao momento anterior de puxar algo de cima, pode ser interpretado como algo que caiu no chão. Ademais, logo em seguida, a criança se abaixa e movimenta as mãos como se pegasse alguma coisa que leva à boca e em seguida mastiga (terceira e quarta fotos da seqüência). Essa cena final não deixa dúvidas de que os movimentos da seqüência estão encadeados e representam uma situação. A interpretação de que esse algo que ela pega é uma banana surge do fato de ela está orientada para uma cena de atenção conjunta em que as outras crianças e a educadora fingem comer banana.
Não se pode dizer se ela finge tirar a banana de uma bananeira ou de um armário alto, por exemplo. Todavia, é possível inferir que essa situação, representada pelo corpo, tenha influência
de alguma situação já vista ou experienciada pela criança. De alguma forma, Line, por meio de uma seqüência de movimentos, torna presente algo que se encontra ausente, isto é, representa.
A interpretação de que os movimentos de Line apresentam relação com o fazer de conta que come banana pode ser corroborada pelo momento subseqüente do episódio:
Ed.: como é que a gente vai comer a banana? (...)
Mark, Gelma e Everson começam a dar mordidas perto da mão que “segura a banana” e em seguida fingem mastigar.
A educadora, que estava olhando para Mark, faz cara de espanto. Ed.: e tu (referindo-se a Mark) vai comer com casca e tudo, é? Mark (sorrindo): Não! Assim!
Mark usa a outra mão e simula que está descascando a banana. Ed.: ah, então vamos tirar a casca. Tira a casca, bora.
Nesse momento, Line está observando a educadora. A criança novamente se abaixa e finge pegar algo do chão. Dessa vez, entretanto, não leva a mão direto à boca, mas começa a “descascar sua banana”, assim como faz a educadora e os colegas.
Foto 15. Nova seqüência de movimentos de Line
No trecho descrito acima, o comportamento de Line é ajustado à observação da educadora, o que mostra que ela está orientada para a atividade. Ela repete a seqüência de movimentos realizada anteriormente, mas agora, em vez de levar a “banana” direto à boca, ela finge descascar, assim como faz a educadora e os demais colegas (Foto 15). Ela responde
corporalmente a uma mudança perceptiva e ideativa (sugestão que a educadora fez a Mark para descascar a banana), reforçando a idéia de que no momento anterior ela estava utilizando uma seqüência de movimentos para representar seu pensamento: como o macaco come a banana. Essa suposição é fortalecida porque Line repete a sua ação anterior, acrescentando-lhe o gesto de descascar, tal como fizeram a educadora e Mark.
Esses movimentos encadeados e modificados de acordo com o que ocorre na interação contribuem para se rever uma dicotomia clássica na Psicologia entre o interno e o externo. A cena de Line ilustra como seu pensamento vai se construindo, se modificando e se desdobrando pelo movimento. Assim, sob a ótica walloniana, não é possível utilizar o termo internalização para dar conta do fenômeno da representação. Esta ganha seus primeiros contornos no corpo, na biologia do indivíduo. Ela não é resultado de um processo que ocorre de fora para dentro, mas que se desdobra no movimento no decurso das interações sociais.
A análise aqui empreendida leva, portanto, a reflexões sobre o papel do movimento no desenvolvimento da criança. Um olhar superficial sobre o comportamento de Line poderia levar à seguinte conclusão: em pé, no centro do círculo, a menina só poderia estar desatenta à atividade, de modo que seu movimento seria visto como algo que atrapalhasse aquele momento. Um olhar baseado na perspectiva teórica aqui adotada não percebe o movimento como perturbador, mas como essencial para que a criança construa e expresse seu pensamento.
Nesse episódio, assim como naqueles referentes às emoções, é justamente o movimento que indica o quão engajada está a criança na atividade proposta pela educadora. Essa reflexão ajuda a compreender, por exemplo, porque as crianças antes dos seis anos de idade, como as analisadas na pesquisa de Galvão (1992, 1996), têm dificuldades em conter seu movimento: é porque seus movimentos são componentes do seu pensamento. Impedi-las de se movimentar é também impedi-las de pensar.
O episódio descrito a seguir, o qual também foi observado na Rodinha, permite ampliar a discussão aqui realizada. Ele já teve alguns de seus trechos apresentados anteriormente quando se discutiu a respeito das emoções. Agora, serão analisados outros momentos em que é possível destacar mais claramente a relação entre movimento e linguagem verbal, enfatizando como, ao expressar suas idéias por meio do corpo, as crianças podem aprender novas palavras no fluxo das interações sociais.
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Episódio: Assim, Ó!
Situação de observação: Rodinha Data da sessão: 27/10/06
Crianças envolvidas no episódio: todas as crianças presentes na Sessão 2 da Rodinha
Síntese do episódio: as crianças precisavam descobrir o que havia dentro de uma caixa bastante ornamentada trazida pela educadora. Não foi registrado se ela menciona a que categoria pertencia o objeto que estava dentro da caixa, mas desde o início as crianças começam a mencionar nomes de animais. Dentro de um forte clima de expectativa e suspense, o episódio, com duração de 15 minutos, gira em torno de descobrir qual é esse objeto.
(...)
As crianças ficam tentando adivinhar o que tem dentro da caixa mencionando diferentes nomes de animais.
Dílson: uma “balata”. Ed.: a barata cabe aqui?
Dílson balança a cabeça positivamente.
Cora também balança a cabeça indicando que sim. Ed.: por que a barata cabe aqui?
(...)
Chico: ela é pequena!
Enquanto fala, Chico, com a palma da mão virada pra baixo, aproxima-a do chão, parecendo indicar o tamanho da barata.
Nesse primeiro momento, o episódio indica uma situação semelhante àquela descrita no episódio “Grande assim, ó!”. Nessa seqüência interacional, a criança também faz uso do movimento para indicar um adjetivo expresso pela fala. Chico deixa sua palma da mão virada para baixo delimitando um espaço pequeno até o chão ao mesmo tempo em que diz: “ela é
pequena” (Foto 16). Assim como no caso de Olavo (episódio: “Grande assim, ó!”), que abria os
braços lateralmente ao falar que ele era grande, Chico expressa sua idéia não apenas pela linguagem verbal, mas também pelo movimento. Seu gesto acompanha o fluxo de sua fala e torna-se um componente da comunicação.
Vejamos como no decorrer deste episódio as crianças utilizam o corpo não apenas para representar uma qualidade, mas também para representar um personagem.
Nina: é uma borboleta!
Ed.: eita, uma borboleta. Então ela ta triste, porque a borboleta gosta de ficar como? Line: voando
Enquanto fala, Line balança os braços fazendo ação de asas em movimento. Mark: assim!
Nesse momento, Mark também balança os braços fazendo o mesmo movimento.
Nina também se movimenta: abre os braços mexendo-os em um movimento semelhante a uma onda.
Ed: voando, né? Então ela não ta gostando de ficar aqui não. Mas, deixa eu ver então... (...)
Isaías: uma cobra, Tia!
A educadora vira-se para o grupo, faz cara de susto e diz: Ed: uma cobra? Será que é uma cobra?
(...)
Ed.: e como é que a cobra vai sair daqui de dentro? Vai sair voando, é? Crianças: não!!!
Ed: vai sair como? Line e Nonato: assim, ó!
Line coloca o braço no chão e faz um movimento em ziguezague. Nonato faz o mesmo gesto, mas com os dois braços suspensos no ar (Foto 18).
Foto 18. Movimentos de Line e Nonato (cobra)
Ed: vai sair como, a cobra? Line e Adel: andando!
Line fala, mas continua com o braço no chão mexendo em ziguezague.
Foto 19. Movimento de Cora (cobra)
Esse momento do episódio é bastante rico para se argumentar a respeito do substrato