Line fica cantando a música bem baixinho também. Dílson fica olhando concentrado para a educadora e mexe o quadril no ritmo da música. Quando a educadora aumenta o tom de voz, Dílson, Emile e Taíssa começam a pular.
Ed. (continuando a música): assim mexe a cabeça, a cabeça mexe assim. Assim mexe a cabeça, a cabeça mexe assim.
As crianças começam a movimentar a cabeça de uma forma circular rindo bastante.
Esse último trecho da brincadeira volta a reforçar o quanto a atmosfera emocional contagia o grupo e interfere nas posturas e atitudes de seus integrantes. Quando a educadora começa a cantar a música quase sussurrando, ela inclina o ombro para frente como se procurasse ficar com a altura mais nivelada a das crianças (Foto 11). Essa nova postura e a mudança em seu tom de voz fazem com que as crianças não mais batam palmas ou pulem durante a canção, elas se aproximam da educadora como se procurassem escutar o que ela está dizendo. Não houve um pedido para que as crianças parassem de bater palmas, mas é como se a atitude postural e o tom
de voz do adulto contagiassem as crianças de modo que elas se ajustaram corporalmente à nova situação perceptiva.
Esse ajustamento corporal é percebido, inclusive, quando Dílson, observando a educadora, começa a mexer o quadril no ritmo da música. O ritmo e a sonoridade refletidos no tom de voz da educadora parecem impregnar as atitudes posturais das crianças. O momento posterior reforça esse argumento na medida em que, ao voltar a cantar em tom alto e acelerado, as crianças rapidamente voltam a pular e a bater palmas.
Há, portanto, um ajustamento constante entre percepção e movimento que permite, diante de uma atmosfera emocional contagiante, que o grupo mantenha a sintonia da atividade. Graças a esse poder de contágio das emoções, “o grupo, organizado diretamente a partir dos organismos de cada um de seus elementos, torna-se por sua vez algo de orgânico e real” (WALLON, 1934/1971b, p. 91).
Sintetizando o que foi discutido nos três episódios referentes ao aspecto “movimento e emoção: indícios da coesão grupal”, percebe-se como o corpo expressa disposições e comunica sobre os estados afetivos. As posturas assumidas e o tom de voz adotado pela educadora contagiam o grupo permitindo uma sintonia de movimentos e gestos, fazendo com que as crianças se engajem efetivamente na atividade. Essa sintonia parece ser facilitada por atividades de caráter repetitivo, como as músicas utilizadas no decorrer dos dois episódios anteriores. Assim, defende-se a idéia de que as emoções e as atividades ritualizadas são componentes essenciais da coesão do grupo.
Evidenciar essa relação entre as emoções e a interação social permite também reforçar o argumento walloniano a respeito das emoções encontrarem-se na origem da atividade de representação, haja vista ser por meio delas que a criança, imersa no grupo social, tem acesso aos universais simbólicos de sua cultura.
Procurando ampliar a discussão acerca da formação da função de representação, os episódios explicitados na seção seguinte irão discutir as relações entre corpo e pensamento.
5.2 Movimento e Pensamento
Esta seção dedica-se a discutir as possíveis relações entre movimento e pensamento. A análise do conjunto de episódios transcritos permitiu destacar três aspectos relevantes: (1) a participação do corpo na constituição da função de representação; (2) o gesto de apontar; (3) o (não) controle do movimento por parte das crianças. Nesse sentido, buscar-se-á refletir sobre o corpo como um elemento essencial do pensamento e da comunicação.
5.2.1 Corpo como instrumento de representação
Os episódios discutidos nesta seção visam elucidar as relações entre movimento, pensamento e comunicação enfocando os seguintes aspectos:
- O movimento antecede a fala.
- O movimento acompanha a fala da educadora.
- A criança utiliza o gesto no momento em que também utiliza a linguagem verbal. - O corpo é utilizado para representar personagens e situações.
Busca-se, assim, pensar na função do gesto como precursor da função de representação e da linguagem verbal. Com esse intuito, serão utilizados episódios tanto da Rodinha como das situações de brincadeira em trio, procurando-se ressaltar as diferenças no que concerne à presença ou não de objetos no decorrer da interação.
Interações na ausência de objetos
As interações que ocorreram na Rodinha são extremamente relevantes para a discussão a respeito da utilização do corpo em atividades que não fizeram uso de objetos. Nessa situação, os 11 episódios recortados apresentam evidências da participação do corpo na constituição da função de representação.
Uma análise geral dessas 11 seqüências interacionais indica que as crianças freqüentemente utilizavam o corpo para representar personagens e/ou situações. Essa representação, evidenciada pelo movimento, exteriorizava um pensamento permitindo a comunicação entre os parceiros da interação. Os episódios indicam que o gesto emerge em
substituição à fala, como também acompanhando a linguagem verbal, de modo que as crianças dessa idade ainda parecem precisar do corpo para construir e expressar seu pensamento.
Durante a observação dos trios, apesar dessa situação deixar objetos à disposição das crianças, também foi possível recortar um episódio em que uma criança utilizava o movimento expressivo para comunicar seu pensamento sem fazer uso de nenhum objeto.
Assim, por ser mais simples e sucinto, o episódio ocorrido na situação dos trios será apresentado primeiro. Em seguida, serão descritos e analisados trechos de mais dois episódios da Rodinha que, por ser uma interação mais duradoura entre um grupo grande de crianças, apresenta um maior nível de complexidade, evidenciando o corpo como recurso comunicativo e suporte para o pensamento. Ao longo dos três episódios analisados procurar-se-á demonstrar evidências empíricas da relação entre movimento, pensamento e linguagem.
______________________________________________________________________________
Episódio: Grande assim, ó!
Situação de observação: brincadeira livre entre coetâneos (Trio) Trio observado: Olavo (52m), Lucila (53m) e Nina (56m) Data da sessão: 12/12/06
Crianças envolvidas no episódio: Olavo (52m) e Lucila (53m)
Síntese do episódio: as crianças começam a dialogar em torno do batom que está sendo utilizado por Lucila. Olavo, fazendo referência ao gênero, comenta em tom irônico para a menina colocar o batom já que ela é mulher e ele é homem. Ao comunicar isso à parceira, ele faz uso de movimentos expressivos.