A educadora está sentada no chão com as crianças formando um círculo. Ela começa a sugerir uma nova atividade para as crianças, indicando como as mesmas devem se posicionar.
Ed.: Agora, psiu, a gente vai fazer assim. (...)
Ed.: 1, 2, 3 e psiuuu... assim, assim. Faz assim, encosta o cotovelo aqui no chão.
A educadora inclina o tronco para trás deixando os cotovelos apoiados no chão e as pernas dobradas.
As crianças tentam imitar a professora, mas muitas não apóiam o cotovelo, deixando todo corpo deitado no chão e apenas as pernas dobradas.
(...)
Criança (está fora da imagem e não permite a identificação): ‘biciqueta’. Ed.: ah, vai andar de bicicleta. Então vamos andar de bicicleta.
Assim que a criança fala “biciqueta”, as outras já começam a pedalar com as pernas no ar. Ed.: bora, todo mundo!
Nesse momento, todas as crianças estão pedalando. (...) Elas sorriem e parecem se divertir com a brincadeira.
A educadora começa a cantar oferecendo um ritmo à pedalada.
Ed.: pedalando, pedalando, pedalando com a Caloi. Pedalando, pedalando, a poupança nunca dói. Pedalando, pedalando, pedalando com a Caloi. Pedalando, pedalando, a poupança nunca dói.
Durante a música as crianças sorriem cada vez mais alto e pedalam de forma ritmada com a educadora (Foto 8).
Expandindo a discussão iniciada no episódio anterior sobre o papel das emoções nas atividades grupais, a seqüência interacional descrita acima permite uma reflexão sobre o papel dos ritos na coesão do grupo. Essa atividade possui características ritualísticas por dois motivos.
Primeiramente, logo no início do episódio, percebe-se que a brincadeira parece ser de fácil reconhecimento para as crianças. Ao inclinar o tronco para trás colocando os cotovelos no chão, a educadora pergunta: “o que é que a gente vai fazer agora?”, e rapidamente uma criança responde: “biciqueta”. A posição da educadora parece funcionar, nos termos usados por Carvalho, Império-Hamburger e Pedrosa (1996), como um atrator, isto é, como um sinal que evoca uma situação já conhecida pelo grupo: posicionar-se daquele jeito indica que elas vão fingir que estão pedalando na bicicleta. Nas palavras de Wallon (1942/1979b), seria um gesto ritual, um ato que não atua sobre a realidade perceptiva atual, mas que representa uma determinada situação, nesse caso, andar de bicicleta. Esse aspecto reforça a idéia da relação entre uma ação ritualizada e a função de representação: o ato evoca algo que não está presente.
O rápido reconhecimento pelas crianças do que a professora pretendia fazer ao se posicionar daquela maneira parece ficar evidente quando elas começam a pedalar mesmo antes de a educadora iniciar o movimento. O sinal, expresso pela postura adotada pelo corpo, provoca uma reação comum nas crianças, possibilitando uma atividade em que elas se engajam com facilidade. A postura assumida pelo adulto tem, portanto, valor de sinal comunicativo.
Além disso, o episódio acima pode ser associado a uma atividade ritualizada pela utilização da música. A música introduz um ritmo que, por sua vez, introduz um rito. O compasso musical permite que as crianças sintonizem seus movimentos umas com as outras. Ademais, percebe-se que a essência da música está no seu caráter repetitivo, preservando uma estrutura rimada e ritmada. Quanto a isso, é interessante notar que a letra da música é pobremente elaborada; o que parece promover a sintonia entre os integrantes do grupo é exatamente a estrutura repetitiva e estereotipada da canção.
Destaca-se ainda a atmosfera emocional que perpassa toda a brincadeira e contagia o grupo. Essa atmosfera é percebida pelos sorrisos e gargalhadas que acompanham os movimentos das crianças e se intensificam no decorrer da atividade. Novamente fazendo referência às idéias de Galvão (2000), a cena traz à tona como as emoções funcionam como um combustível para sua manifestação. É exatamente a atmosfera emocional imersa, por exemplo, nas cerimônias e nas danças que permite que os integrantes do grupo realizem os mesmos ritmos, os mesmos gestos, as mesmas atitudes (WALLON, 1934/1971b). A música seria então um excelente recurso que possibilita a instauração de uma rica atmosfera emocional, permitindo a realização de movimentos sincronizados e o estabelecimento da coesão grupal.
Vejamos outro episódio em que é possível reforçar o argumento a respeito da relação entre o ritmo, o movimento e o grupo.
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Episódio: No ritmo da música Situação de observação: Rodinha Data da sessão: 25/08/06
Crianças envolvidas no episódio: todas as crianças presentes na Sessão 1 da Rodinha.
Síntese do episódio: a educadora utiliza três músicas diferentes ao longo da atividade que dura cerca de cinco minutos. Ao cantar, ela expressa com o corpo o que propõe as letras das músicas. Em círculo, as crianças cantam e imitam os movimentos da educadora no decorrer das canções. Elas parecem ter conhecimento acerca das músicas sugeridas na atividade.
A seguir, será analisada uma das músicas utilizadas pela educadora.
Ed.: e agora a música da X (não é possível compreender o que a educadora diz) (...)
Ed. (cantando): eu tenho uma tia, a tia vem brincar, e quando vai às compras, só brinca ô, lá, lá. As crianças começam a cantar junto com a educadora batendo palmas no ritmo da música. Line, Olavo, Emile, Chico e Dílson além de baterem palmas ficam dando pulinhos e riem bastante. Ed.: assim, ó.
Ed. (cantando): assim mexe a boquinha, a boquinha mexe assim. Vai mexe (esse trecho não é cantado). Assim mexe a boquinha, a boquinha mexe assim.
A imagem não registra o movimento da educadora, mas as crianças ficam olhando para ela, rindo e mexendo a boca de diferentes maneiras: para o lado, abrindo a boca, fazendo bico. Ed. (cantando): eu tenho uma tia, a tia vem brincar, e quando vai às compras, só brinca ô, lá, lá. As crianças continuam batendo palmas e cantando a música junto com a educadora. Elas riem bastante, parecendo muito entusiasmadas com a brincadeira.
Ed. (continuando a música): assim mexe a cintura, a cintura mexe assim. Assim mexe a cintura, a cintura mexe assim.
As crianças, que pelo olhar concentrando na direção da educadora parecem estar imitando-a, começam a rebolar e continuam rindo muito (Foto 9).