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3 ESPECIFICIDADES DA EDUCAÇÃO DOS BEBÊS E

3.4 CORPO, LINGUAGEM E ALGUNS ENTRELAÇAMENTOS

É nos primeiros anos de sua vida que o bebê vai descobrindo o mundo ao seu redor, é nesse momento que a criança vai tendo suas primeiras impressões sobre o que é ser um ser humano, sobre o que é estar com outros seres humanos, os sentimentos e sensações que envolvem tais relações sociais.

As crianças bem pequenininhas seguem ritmos próprios que desafiam a lógica adulta, algumas levam mais tempo para se alimentar, outras precisam dormir em horários distintos e peculiares, e isso desafia os professores que trabalham com os grupos menores, rompendo com a rotina estabelecida no cotidiano da creche.

Para informar seus desejos e necessidades os bebês usam o seu corpo como possibilidade de se expressar: por meio de um olhar que fala de alegrias e descontentamentos, um bocejo que comunica um sono, um gesto que aponta objetos e alimentos, enfim, já que os bebês bem pequenos ainda não dominam a linguagem verbal, lançam mão de estratégias comunicacionais para “dizer sem falar”.

Barbosa (2011), explica-nos que a relação entre o verbal e o extraverbal, entre o interior e exterior segundo Bahktin, bem como a relação entre pensamento e linguagem, segundo Vigotski, admite a hipótese que o corpo tem um importante lugar na formação da linguagem:

No diálogo entre o que é discurso interior e discurso exterior, que pode ser responsável por uma determinada entonação, o elemento primordial é a palavra. Nela ficam as marcas do corpo que também é constituída por meio das palavras alheias a elas próprias. Se pela entonação a vida invade a linguagem, o movimento pode ser descrito assim: há uma voz no discurso materializada pela entonação e, por meio desta,

cria-se a ponte entre corpo e linguagem e vice- versa. Entonação remete a um corpo que não se identifica plenamente com o corpo biológico. Entre um e outro acontecem transformações pela inserção do humano no universo simbólico da linguagem (BARBOSA, 2011, p.13).

Deste modo, o nascimento biológico não seria suficiente para afirmar a existência de um sujeito humano como um ser social e cultural, a condição humana necessita de um segundo nascimento, não só o animal, mas o nascimento social (BAKHTIN, 1997).

Para nos tornarmos seres humanos é necessário nos apropriarmos da experiência histórica e socialmente acumulada e a linguagem exerce um papel fundamental nesse processo, pois, a apropriação da cultura historicamente construída se dá principalmente por meio da linguagem, é ela quem possibilita que a natureza social dos seres humanos seja também sua natureza psicológica.

Para Bahktin o corpo não é separado da mente, ele é construído numa relação com a palavra e, nesse entrelaçamento torna-se um corpo carregado de valor. A forma como sentimos nosso corpo, como o enxergamos, vem da relação com o outro, deste modo, nós seres humanos precisamos necessariamente do outro.

É o outro que cria uma imagem externa de mim mesmo: “A imagem que temos de nós mesmo não existe fora da ação criativa daqueles que nos contemplam externamente” (BARBOSA, 2011, p.14). Portanto, os bebês não apenas recebem do outro uma significação sobre si mesmo, mas respondem e manifestam suas impressões e desejos nessas relações.

Os bebês expressam seus sentimentos e sensações ao outro a partir de seus movimentos e gestos: “Os gestos de apontar, ofertar, negar, defender, os gestos que expressam raiva, carinho, curiosidade etc. nascem nas relações sociais e, aos poucos, vão fazendo parte das relações entre as crianças” (SCHMITT, 2011, p.17). As professoras da creche indicam que as expressões e gestos dos bebês têm valor quando escutam, observam, dão visibilidade e dialogam com os seus movimentos.

A experiência com os bebês em Lóczy25 têm apresentado aspectos para ponderamos acerca das práticas pedagógicas em creches e

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Emmi Pikler é uma pediatra húngara que foi convidada em 1946 a coordenar e organizar um orfanato na Rua Lóczy, em Budapeste. Hoje é o Instituto Emmi

do entrelaçamento entre corpo, emoção e linguagem. Segundo Tardos (1992), a função dos professores é de garantir uma relação pessoal- afetiva com as crianças, capaz de potencializar o necessário desenvolvimento harmônico e equilibrado da sua personalidade.

O contato corporal exerce um papel muito importante na vida do bebê, os gestos dos adultos provocam sensações agradáveis para as crianças, mas podem também causar sensações desagradáveis sem que os adultos percebam, tendo em vista que, concebe-se que há, entre corpo, emoção e linguagem um forte entrelaçamento (TARDOS, 1992). Para Emmi Pikler a liberdade de ação por meio das experiências vivenciadas pelas crianças, possibilita elas conheçam suas próprias capacidades e limites (FALK, 2004).

A partir de suas próprias ações, os bebês vão criando novas estratégias de descobertas ampliando, assim, seus repertórios de ações e possibilidades comunicacionais:

[...] de acordo com as atuações dos bebês e as alterações que passam a instituir conforme agem, outras estratégias são descobertas, e as crianças pequeninas vão ampliando o repertório de ações. Os bebês agem e percebem o resultado das suas atitudes, criando novas estratégias para agir e para comunicarem-se. Desse modo, o corpo, os gestos e movimentos, o olhar, o choro, os risos e o silêncio se convergem na constituição da linguagem. As crianças pequenas possuem um arcabouço de possibilidades comunicativas que, gradativamente, complexifica o pensamento e a linguagem, tornando-a verbal (CASTRO, 2013, p. 16).

É por meio dos processos interativos dos bebês entre bebês, deles com o espaço, com outros sujeitos, com objetos, que a linguagem vai se constituindo, ganhando forma e se aproximando da palavra (CASTRO, 2013).

O olhar é também uma estratégia comunicacional dos bebês - e não só, já que as crianças dos grupos maiores também nos revelam muito dos seus sentimentos pelo olhar. Segundo Coutinho (2012) as crianças constituem unidades comunicacionais, como o jogo de olhares estabelecidos entre elas. O olhar possibilita a apreensão de Pikler conhecido familiarmente pelo nome de Lóckzy, que acolhe as crianças desde o nascimento até os seis anos de idade.

acontecimentos e ao mesmo tempo permite a comunicação de sentimentos, de combinados e ações mútuas: “Nessa perspectiva o olhar é em si uma ação, que permite a partilha e a significação do que é comunicado” (COUTINHO, 2012, p.251).

As crianças usam o corpo para comunicar e interagir de forma intencional e para interpretá-los exige que os professores estejam disponíveis26 para responder às manifestações comunicacionais dos bebês. Importante compreender os bebês e as crianças pequenas como competentes nas ações sociais e, deste modo, criar condições (planejamento intencional de tempos, espaços, diversidade da dimensão educativa, lúdicas, expressivas e socioculturais) para que as ações das crianças sejam valorizadas.

3.5 ORGANIZAÇÃO DOS ESPAÇOS E TEMPOS NA AÇÃO