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De corpo, de presente

No documento Mil e uma Orlans (páginas 95-99)

“A menorização do sujeito passa, portanto, pela errância das grandes teorias, mas também pelo ‘erro’ de não seguir a mania epistemológica que tudo avassala, deixando-nos sem fala”29.

Faço uso das palavras sensíveis aos limites dos campos epistemológicos, expressadas por José A. Bragança de Miranda e Antônio Fernando Cascais, no prefácio do livro de Foucault, O que é um autor? Os tradutores, ao se referirem à menorização do sujeito, reportam-se ao percurso foulcaultiano, por este reconhecer o relativismo da história do sujeito. Dizem sobre a relevância, conferida por Foucault, à inscrição do sujeito através da linguagem, e em diversas categorias. Penso que o conhecimento também deva ser menorizado para ter agilidade, pois, se uma elaboração ligada ao mesmo não traz, a cada esforço reflexivo, a evidência de todas as indicações articuladas que movimenta, contudo não deixa de ser uma criação que tem, como derivada, uma possibilidade de saber. Reitero minha direção à reflexão provisória e pontual, na qual a menorização age paralela ao corpo, enchendo e esvaziando intensidades e sentidos.

Quero incursões analíticas, não ao modo daqueles que se ocuparam em realizar a história do corpo ou delinear qualquer tipo de fortuna crítica do tema, construindo panoramas ligados a determinadas épocas. Neste momento do trabalho, trago corpos em relação, o meu ou os meus, conforme explico abaixo, e o de Orlan ou os de Orlan, após ter realizado, no primeiro capítulo, sua apresentação e uma amostra de seus trabalhos, suas inscrições em distintas performances, e as pesquisas, ligadas à mulher e seus corpos, elementos tão intensamente apontados em suas produções. Tais movimentos da

29 FOUCAULT, Michel. Prefácio. In: O que é um autor? Trad. Antônio Fernando Cascais e Edmundo

artista convocam em mim a reflexão sobre os meus corpos, pois ela mesma, ao instalar- se enquanto vórtice do múltiplo, lembra-me as minhas multiplicidades. Provavelmente por isso, ela me fez redescobrir o Brasil, cantado30 através do corpo andrógino, ora o fálico gigante pela própria natureza, erguendo da justiça a clava forte; ora a mãe

gentil, corpo hiperbólico e ligado ao plus, continuadamente construído, nas histórias e

nas suas invenções.

Conheci Orlan pessoalmente no dia 18 de agosto, quando se produziu um desfile de associações minimalistas a partir do corpo-a-corpo, no qual as pequenas impressões puseram-me numa outra trilha. O frou-frou que trago servirá apenas para sugerir uma brisa, de certa forma, entrópica, de algumas imagens que fazem, fizeram e desfizeram minha cabeça. Este acontecimento, alterador da rota de algumas compreensões sobre o corpo, auxiliou e serviu de ferramenta para construir e repensar o texto da tese, devido à presença de Orlan. Mais uma vez, tive de me curvar ao acaso, destruidor do entendimento como circuito fechado, que teve de ser posto de lado para dar lugar ao gosto de aventura e de alguma desorganização. Tais estímulos abriram uma rota insuspeita que diminui a menina do olho e acelera o coração.

30 Hino Nacional Brasileiro. Letra de Joaquim Osório Duque Estrada e música de Francisco Manoel da

Mesclado à maravilhosa obra do acaso31, vem a conversa infinita que prossegue com alguns teóricos que, colados à pele de meu objeto, auxiliam-me a visão. Vejo, com mais complexidade, Orlan através de algumas ferramentas, próteses, lentes elaboradas por Deleuze, que é aquele que me acelera ao produzir noções32 questionadoras dos lugares fixos e asfixiantes. Porém, faço uma ressalva: algumas propostas, assim como o léxico deleuziano, de tão usados que foram, tornaram-se clichês. Cuidarei para empregá-los parcimoniosamente porque, enquanto catalisadoras, as noções possuem seus dons encantatórios. Quando muito repetidos, porém, perdem seus efeitos de transformação, suas rebeldias. Seria diverso se as repetições ocorressem como uma reza, que se afirma na repetição, mas as noções arranham e constroem outros sulcos por serem heréticas, e as palavras que ultrapassam fronteiras, quando muito repisadas, tornam-se, no máximo, demarcadoras e constritivas. Deixo-as, então, adormecerem para fomentarem outras motivações, para acordarem num depois, mais frescas.

Isto posto, alegra-me a leitura de Deleuze, que desdiz dos caminhos unívocos. Ele, ao evocar Espinosa, nos chama para experimentar a lentidão e a velocidade, métodos alternativos aos binarismos simplificadores. Diz sobre “fazer população no [teu] deserto”33, faz variar, promovendo alternativos encontros, recamando, recobrindo,

31 Refiro-me ao nome do livro organizado por Wim Kayzer, elaborado a partir de entrevistas com

renomados cientistas. Destaco um deles, a quem admiro imensamente, e quero homenagear nesta nota, o paleontólogo Stephen Jay Gould. Na abertura de sua entrevista, marcantes palavras: “A Terra tem quatro bilhões e meio de anos. E o Homo sapiens, a nossa espécie, tem menos de um milhão, provavelmente só uns duzentos mil anos, e então estamos por aqui há uma mínima fração de 1% do comprimento inteiro da história da vida. Parece absurdo pensar que de algum modo tudo foi planejado para finalmente fazer-nos surgir”. Em algum momento todos eles fazem especulações e declaram limites a respeito do próprio campo de conhecimento. A obra de Kayzer sobre avanços e inúmeros pontos não controlados, no qual o acaso traz as novidades. Assim ocorreu comigo ao encontrar Orlan, ao mesmo tempo em que comecei este capítulo. Cf. KAYSER, Wim. Maravilhosa obra do acaso: para tentar entender nosso lugar no quebra-cabeça cósmico. Trad. Marta de Senna. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998, p.96.

32 Eneida Leal Cunha, minha, então, orientadora, no dia da qualificação, retificou o uso que eu fazia da

palavra conceito, dando-me a palavra noção como um substituto menos absoluto.

33 DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 4. Trad. Suely

imitando, simulando. Não emudecendo; ao contrário, emitindo sons, músicas, riscos, etc.:

Um corpo não se define pela forma que o determina, nem como uma substância ou sujeito determinados, nem pelos órgãos que possui ou pelas funções que exerce. No plano de consistências, um corpo se

define apenas por uma longitude e uma latitude: isto é, pelo conjunto

dos elementos materiais que lhe pertencem sob tais relações de movimento e de repouso, de velocidade e de lentidão (longitude); pelo conjunto dos afectos intensivos de que é capaz sob tal poder ou grau de potência (latitude). Coube a Espinosa ter destacado essas duas dimensões do Corpo e de ter definido o plano da Natureza como longitude e latitude puras. Latitude e longitude são dois elementos de uma cartografia.34

As duas dimensões dão conta do tráfego do corpo, e de seu infinito potencial comunicante, traço que sulca a paisagem, contribuindo para novas correlações associativas, e, consequentemente, outras respostas e provisórias deduções. Ao ter o poder de se escrever no ambiente, o corpo vem com sua bagagem. Sua história, suas inclinações, ao se frigir com outros corpos, hão de realizar uma multiplicação de afetos. Exponho agora um testemunho relatado do dia em que conheci Orlan.

No documento Mil e uma Orlans (páginas 95-99)