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Roda e avisa

No documento Mil e uma Orlans (páginas 130-135)

Outras performances, ambiguamente, estimulam a manutenção e o questionamento de valores: venho agora com os artistas plásticos que conferiram uma aceleração de mudanças de paradigmas, de costumes e tensões críticas, realizando tais provocações por meio de suas manipulações criativas, trabalhando com formas e volumes, diversas tecnologias, cores e interações com um cem números de objetos que estimulam a fruição da recepção. O livro Art since 190013 abre-se com a aproximação da psicanálise, enquanto ciência do inconsciente criada por Sigmund Freud (1856- 1939), com o modernismo artístico. Logo na abertura, denominada Psicanálise no

modernismo e como método14(tradução nossa) reconhece-se o interesse pela psicanálise da parte dos artistas, e, posteriormente, das feministas, em diferentes momentos e por diferentes motivos. Primeira e, principalmente, os artistas de vanguarda, os surrealistas dos anos 1920 e 1930, quiseram utilizar o método psicanalítico15 acoplado às suas ações criativas.

Há, ainda, conforme consta no livro Art since 1900, temas caros e afins, tanto à psicanálise como ao modernismo: a fascinação com as origens, com a infância, com os sonhos, com a loucura, assim como há o reconhecimento e a importância da descoberta freudiana, enquanto material discutido e criticado pelas feministas das décadas de 1970

13 FOSTER, Hal et al. Art since 1900: modernism, antimodernism, postmodernism. London: Ed. Thames

& Hudson, 2004, p.15.

14 No texto original tem-se: Psychoanalysis in modernism and as method. Ibid.,p.15.

15 Elizabeth Roudinesco dedica a primeira parte do primeiro capítulo, estabelecido no livro 2, sobre a

História da psicanálise na França, a tratar da disseminação da psicanálise pelos surrealistas. É

interessante a passagem onde ela se refere à decepção do jovem André Breton ao conhecer Freud, ocasionada pela pouca importância dada por Freud a ele. Segundo Roudinesco, Freud almejava, para seu campo de conhecimento, o reconhecimento pela ciência e não pela arte. Cf. ROUDINESCO, Elizabeth. O espírito novo: o surrealismo a serviço da Psicanálise. In: História da Psicanálise na França: A Batalha do Cem Anos. Vol. 2: 1925-1985. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p.17-26.

e 1980. Os usos de conceitos psicanalíticos contribuem, então, para os rumos que a arte irá tomar. No momento posterior, modificada estará a voltagem do encantamento e o uso da psicanálise, empregada como método artístico, principalmente pelos surrealistas. Desde os anos 1960, será retirada da construção freudiana, através das críticas das feministas e dos pós-estruturalistas, sua aura de incontestável sistema que compreende como se estabelece a identidade e a subjetivação.

Um dos nomes cabais para a continuação da psicanálise, criada por Freud, foi o do psiquiatra e psicanalista francês de Jacques Lacan. Lacan tem seus trabalhos como referência, inclusive, para além do circuito dos psicanalistas. Seu envolvimento com a filosofia e o estruturalismo influi e afeta inúmeros pensadores da cultura, não somente os admiradores. O pensamento lacaniano engendra importantes críticas e análises questionadoras, a exemplo das deflagradas por Foucault, Deleuze, Guattari, Derrida, Judith Buttler, entre outros. Deleuze e Guattari, por exemplo, apontam o lugar, da psicanálise de Freud e Lacan, reservando-lhe o patamar de concepções que podem ser circunscritoras dos modos de construção da subjetividade: seriam eles uma espécie de substitutos e herdeiros das grandes narrativas, cumpridores de alternativas metafísicas?16 Talvez a vida pós-moderna venha com a força performática dos corpos, vigorosamente indiferentes às estruturas elaboradas pela psicanálise para compreender e comprimi-los em nomes e normas, seja numa estrutura ou no discurso17; talvez eles estejam mais inumanos e inomináveis, pois extrapolaram as demarcações, e o continuado binarismo do homem-mulher.

16 Repriso o já sabido para minimamente adentrar à sala de espelhos. Difusas, as figuras serão achatadas,

alongadas, transformadas a partir da relação com o objeto teórico master, seja a psicanálise e/ou o estruturalismo, enquanto fontes estimuladoras de outros acordos. Há um efeito extensivo e expressivo nessas críticas porque comovem e excitam o mundo artístico, seja na literatura ficcional, seja nas

performances que desorganizam as fronteiras delimitadas por tais narrativas revisadas.

17 Ao dizer discurso penso nos quatro discursos lacanianos, da Universidade, do Mestre, da Histérica e do

A Pós cultura

A pós-modernidade, mais que estilo ou movimento estético, é uma cultura, um processo18 passível de ser mapeado por etnógrafos com suas densas descrições, pois, desde o século XX o comportamento do mundo de orientação ocidental, assim como a sociedade, mudaram. A pós-modernidade brinca com as estruturas psíquicas “homem” e “mulher”, com a concepção de uma identidade, pois instala esses corpos pervertendo sentidos. São os corpos performáticos, mais que abismos biológicos, logos de papel, quiçá origamis, multi, afetivos, afetados, coloridos. Nada de pura alteridade, extra- dualista, pois desorganizam essências daquilo que sempre fora incontestável, rejeitando as forçadas estabilizações. Inclusão que vem, planta-se em vida, produzindo uma política que expande a ágora. Mesmo no modernismo, a expressão cultural e artística era produzida preponderantemente pelos homens. Uma mulher não é alternativa ao homem, nem o negro, nem o gay. Não são grupos ou conjuntos, mas entidades múltiplas

18 WILLIAMS, Raymond. Verbete cultura. In: Palavras-chave: um vocabulário de cultura e sociedade.

Trad. Sandra Guardini Vasconcelos. São Paulo: Ed. Boitempo, 2007, p.117. Embora haja enorme dificuldade em conceitualizar a palavra, é melhor não colocá-la de lado, mas mantê-la ativa, fertilizando sentimentos e reflexões e, consequentemente, tensões.

que se encontram, se correspondem, e se distanciam irredutivelmente, e o que servirá de interseção entre as diferenças seria uma razão que apostasse num encontro agregador, não sintético19. Com isso, a humanidade é matéria impossível de resumir.

Sendo assim, o corpo irredutível expande-se nos/dos vocabulários para ser apresentado, em gestos, em desejos, em esquecimentos e revisitações. Contra toda interpretação, com a insanidade de ser agente de uso e de inteligência e, tido como certo, o corpo é o inconsciente, como afirmou Serres20. Pode ser proposto um empuxo, não mais representação, mas apresentação. O corpo, de estilo pós, vem a ser o móbile de rápidas narrativas desenquistadas e sem se erigir em escolas. Quem quer apontar o dedo, ocupando o lugar daquele que pensa saber?21 A própria psicanálise, ao criar o inconsciente, instaura um saber em uma instância que opera longe da consciência. Se

19 Conforme Foucault escreveu no texto sobre ser o homem coisa empírica e fundador das ciências

humanas, aquelas que irão reproduzi-lo no universo simbólico: O campo epistemológico que percorrem as ciências humanas não foi prescrito de antemão: nenhuma filosofia, nenhuma opção política ou moral, nenhuma ciência empírica, qualquer que fosse, nenhuma observação do corpo humano, nenhuma análise da sensação, da imaginação ou das paixões, jamais encontrou, nos séculos XVII e XVIII, alguma coisa como o homem; pois o homem não existia...; e as ciências humanas... apareceram no dia em que o homem se constituiu na cultura ocidental, ao mesmo tempo como o que é necessário pensar e o que se deve saber. FOUCAULT, Michel. Capítulo X: As ciências humanas. In: As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Trad. Salma Tannus Muchail. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1992, p.361. Ou, em uma outra perspectiva, valho-me do que disse Geertz, no excelente texto: “O impacto do conceito de cultura sobre o conceito de homem”, mesmo sem descartar a importância de encontrar o Homem enquanto elemento de convergência, a cultura é o operador fundante da própria humanidade. Para ele, o homem não é anterior à cultura que o torna Homem, como era a suposição dos Iluministas. Geertz reconhece o Homem enquanto ente de diferença em frases como: - Isso significa que a cultura, em vez de ser acrescentada, por assim dizer, a um animal acabado ou virtualmente acabado, foi um ingrediente, e um ingrediente essencial, na produção desse mesmo animal (p.34); - o homem determinou, embora inconscientemente, os estágios culminantes do seu próprio destino biológico. Literalmente, embora inadvertidamente, ele próprio se criou (p.35); - Grosso modo, isso sugere não existir o que chamamos de natureza humana independente da cultura (p.35). GEERTZ, Clifford. O impacto do conceito de cultura sobre o conceito de homem. In: A interpretação das culturas. 1ª ed. Rio de Janeiro: Ed. LTC, 2008.

20 SERRES, Michel. Conhecimento. In: Variações sobre o corpo. Trad. Edgard de Assis Carvalho e

Mariza Perassi Bosco. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 2004, p.75.

21 Essa atitude pode ser vista como muito démodé e cansativa. A preguiça e a inoperância de uma

afirmação normativa resultam do acúmulo de falências e da constatação de múltiplas existências. Se a rima é fácil, o que pode ser aprendido dessa presentificação do vário, leva ao encontro de novas alegrias, pois os espaços podem ser redescobertos em afeto e em novas vivências.

digo que sou onde não penso: é por bem diminuir as divisões e aumentar as afirmações, porém deixando-as pontuais, ágeis.

Nesse ponto da história, fácil é reconhecer as cabriolagens artísticas, nas quais os corpos participam de modo desalienante: “O tema do corpo na arte é um fenômeno com valor desalienante, que une a produção a seu produto, ou seja, liga o corpo humano a seus comportamentos”22. A experimentação do corpo no espaço artístico vem como maneira de torcer e recompor lugares, trazer o ínfimo, o invisível, o grotesco, e, por meio dessas ações, desencaminha as asfixiadas articulações. Se expressões performativas são consideradas bem antes dos anos 196023, é a partir desse período que serão representantes e exemplificadoras do “estilo”, não mais dividido, mas múltiplo, denominado pós-moderno24.

Aquele que produzia não se expunha tanto, até o advento das técnicas dos

happenings e das performances: assim funcionou na história da moda e no universo das

artes plásticas, pois durante um longo período, iniciado nas paredes das cavernas e tensionado de modo mais organizado e sistemático apenas no século XIX, os criadores e artesãos de representações mantinham uma canônica distância entre aquele que

22 GLUSBERG, Jorge. O discurso do corpo. In: A arte da performance. Trad. Renato Cohen. São Paulo:

Ed. Perspectiva, 2007, p.58.

23 Segundo Renato Cohen, se a performance, na sua plenitude, desenvolveu-se no século XX, sua

ancestralidade está radicada nos primeiros ritos tribais, pelas celebrações dionisíacas dos gregos e dos romanos, deslocando-se na Europa, aos cabarés, às vanguardas futuristas, aos dadaístas, aos surrealistas, à Bauhaus, vindo desaguar ideológica e artisticamente, através dos happenings dos anos 60, em especificidade técnica, pois, conforme diz Cohen, a performance, além de aliar fortemente vida/obra, tem competência teatral e multimídia. COHEN, Renato. Performance como linguagem. 2ª ed. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2007.

24 Mantenho-me na tensão das discussões que não instalam o pós-moderno em um período ou lugar

determinado. Gosto do termo porque vejo que o tão mal afamado pós-moderno marca um ponto alternativo com o modernismo, compreendido nos paradigmas modernos. No modernismo, por mais que inumeráveis questões sejam movimentadas, ainda os artífices desses questionamentos são majoritariamente os homens europeus. A pós-modernidade “desassunta” a autoridade mostrando seus dispositivos limitadores, não apenas denunciando-o com o feminismo, mas ironizando-o, incorporando-o. Mais à frente apresento uma fotografia de Lynda Benglis que jocosamente ironiza o componente fálico, trazendo-o para um outro olhar.

representa e o que é apresentado, fossem nas primevas pinturas de caçadas ou nos autorretratos:

A presença do artista como corpo e como vida permaneceu durante muito tempo invisível ou marginal. Fossem quais fossem a força e a visibilidade da expressão, a grandeza do gênio ou a ambição do trabalho, o corpo-artista sempre se mantinha aquém da obra e fora dela. Podia ser o seu tema, nunca o material como tal, e não aparecia como o corpo produtor que é. 25

Criar imagens através dessa voragem que passeia pelas mídias e seus sinais estandardizados – eis as produções da artista Orlan, o corpo produz reproduzindo, mais que isso, transformando-se, consumindo num mercado vaporizado, dos ícones construídos, cada vez mais, por moléculas distantes, avessas à solidez aurática, pois a prova material revela-se breve. Sim, na pós-modernidade a atuação/produção/invenção estará imbricada no corpo biográfico da artista, dos artistas, em uma época que exercita a desalienação do corpo através da ocupação e da remarcação dos lugares e dos seus consumados valores.

No documento Mil e uma Orlans (páginas 130-135)