PARTE I – O CÂNON BÍBLICO
3.1 AS CORRELAÇÕES PRESENTES EM GÊNESIS 38
3.1.3 Correlações do terceiro ato (Gn 38.24-30)
Enfim, no terceiro ato da narrativa, encontramos as seguintes relações intertextuais: 1ª) Ao final do v. 24, Tamar é tirada de sua casa para ser queimada, gerando grande tensão narrativa. É possível que o leitor tenha a expectativa de uma intervenção de Javé, pois isso ocorreu em outras narrativas em que havia risco de vida para algum personagem (19.12- 17; 21.15-21; 22.9-13). No entanto, o texto surpreende pela ausência de uma ação explícita de Javé e pela ausência de orações ou comunicações explícitas dos personagens com Javé, como se verifica em narrativas anteriores e em diversos outros relatos bíblicos.
2ª) O verbo “enviar” (shalach) é usado estrategicamente no clímax da narrativa de Gênesis 38 (“Tamar mandou”, v. 25), quando Tamar envia com sucesso os objetos pessoais a Judá.266 A cena remete claramente ao similar envio da túnica de José a Jacó (“e eles enviaram”, 37.32), pelos seus irmãos.267
3ª) O verbo “reconhecer” (nakar) também é usado nas duas narrativas (“identifique, por favor”, “identificou”, 37.32-33; 38.25-26), em conjunto com o “enviar”. A alusão é clara e intencional,268 revelando-se na repetição da expressão, na similaridade do tema e na mesma situação narrativa. O verbo é usado na apresentação de evidências para um veredito legal, e se restringe à macronarrativa de Jacó e seus filhos, sempre ligado a uma situação de engano. (AL- TER, 2004, p. 212).269
266 Como observamos anteriormente, este envio se contrasta com a fracassada tentativa de envio do cabrito a Tamar
por Judá. O verbo é usado 66 vezes no livro, com distribuição regular, mas há pequena concentração nos capítulos 37 e 38, com 9 ocorrências (37.13,14,22,32; 38.17,17,20,23,25). O verbo “achar” (matsa’) também se destaca na fala dos filhos de Jacó em 37.32, mas não encontra correspondente na fala de Tamar em 38.25; contudo, é um verbo importante na cena 4, quando o narrador insiste triplamente que Hirá não achou a mulher.
267 Apesar de Robert Alter ter recebido a fama pelas associações entre os capítulos 37 e 38, Umberto Cassuto já
defendera em 1929 que “há um tipo de nexo interno entre a história de Tamar e Judá e a venda de José, que se reflete na correspondência de certos detalhes nas duas seções e se manifesta claramente nas expressões paralelas que indicam estes detalhes” (1973, p. 30, tradução nossa). Ele conecta os verbos “enviar” e “reconhecer” nos dois textos. Estas correspondências já haviam sido percebidas por diversos comentaristas judeus medievais.
268 É importante a presença da partícula na’ (“por favor”) nos dois textos (formando a expressão haker-na’, “iden-
tifique, por favor”). Além disso, nos dois casos se usam as mesmas formas verbais: um imperativo Hifil e um imperfeito Hifil do verbo. Isso revela a alusão intencional do narrador. Além dos textos citados, o verbo é usado em 27.23; 31.32; 42.7-8. (CASSUTO, 1973).
269 Jacques Berlinerblau (2004) se empenha em uma ferina destruição dos argumentos de Alter sobre a conexão
entre os capítulos 37, 38 e 39: “A habilidade artística do intérprete é confundida com a habilidade artística do autor. Um sentido foi descoberto, mas com toda probabilidade é um sentido nunca intencionado” (p. 23, tradução nossa). Não podemos negar que os críticos literários muitas vezes encontram intenções e conexões no texto im- perceptíveis ao leitor comum; talvez nem façam parte real do texto. Contudo, a crítica de Berlinerblau parece desconhecer as características da arte narrativa hebraica ao atribuir as diferenças encontradas ao “trabalho de re- mendo malfeito em geral encontrado na Bíblia Hebraica, que foi fortemente revisada” (p. 22, tradução nossa).
Para Anthony Lambe (1999, p. 57-59), a expressão revela o momento de transforma- ção de Judá em diversos sentidos: a) ele se reconecta com as suas tradições hebraicas, o que é simbolizado pela retomada de seus objetos pessoais; b) ele reconhece o não cumprimento da lei (do levirato) e a sua injustiça com Tamar; c) ele reconhece seu erro e deixa de ser ignorante quanto ao seu próprio mal; d) ele reconhece ter enganado Jacó, seu pai, e José (pela conexão com 37.32).270 Embora o verbo não seja usado no capítulo 39, Potifar também precisa identifi- car a veste de José nas mãos de sua esposa (v. 18); aqui só é necessária a sugestão do reconhe- cimento, pois é isso que o leitor espera depois das duas ocasiões nos capítulos anteriores.271 (HUDDLESTUN, 2002, p. 57).
4ª) A astúcia é negativa em geral, motivada por inveja (37.11: os irmãos de José tinham ciúmes dele), medo (38.11: Judá engana Tamar porque teme perder seu filho), luxúria e despeito (39.7-10: José recusa a insistente proposta da mulher de Potifar). Mas nem sempre é negativa, como no caso de Rúben (37.22: Rúben tenciona salvar José da morte), Tamar (38.25-26: a oportuna apresentação das evidências revela o cumprimento legítimo do levirato) e, posterior- mente, de José (capítulos 42–45). Interessante como Judá está envolvido em diversas destas histórias, e se torna o objeto de engano daqueles a quem enganara antes (Tamar e José). Assim, o relato de Gênesis 38 prepara o leitor para os desenvolvimentos posteriores da macronarrativa. (WÉNIN, 2006, p. 46-51; SMITH, 2005, p. 171-173).
5ª) O nascimento de gêmeos não é evento comum na narrativa bíblica. Logo, o nasci- mento dos filhos de Tamar fazem clara alusão ao nascimento de Esaú e Jacó (25.24-26).
Das esposas patriarcais, Tamar provavelmente se assemelha mais a Rebeca. Rebeca também dá à luz a gêmeos após a intervenção de Javé em seu favor e, como em Gn 38.27-30, há certa ambiguidade sobre qual dos dois será mais importante. (SMITH, 1992, p. 22, tradução nossa)
A alusão se confirma pelo uso das mesmas palavras em 38.27 e 25.24: “vejam! – per- cebeu-se que eram gêmeos”. Além disso, cria-se uma conexão entre Zera e Esaú, pois o cordão vermelho usado para marcar Zera como primogênito lembra a pele vermelha de Esaú (25.25).272
6ª) A briga de Perez e Zera pela primogenitura (38.28-30) também ecoa a luta de Esaú
270 Para os comentaristas judaicos, não é coincidência que as únicas ocorrências desta expressão verbal estejam
em capítulos imediatos de Gênesis: a probabilidade disso é muito baixa. (LEVENSON, 1995, p. 158).
271 Mais adiante trataremos do derradeiro uso do verbo na macronarrativa de Gênesis.
272 É o que defende Alter, por exemplo: “O vermelho associa por sua vez Zera com Esaú, o Ruivo, outro gêmeo
deslocado de sua posição inicial como primogênito” (2004, p. 220, tradução nossa). É interessante observar que, como Jacó, Esaú também tinha um neto chamado Zera (36.13,17,33; 1Cr 1.37).
e Jacó no ventre de Rebeca (25.22-23,26). Novamente o mais novo suplantará o mais velho: Perez se tornará o ancestral dos reis da Judeia. O padrão de “ultimogenitura” (como fato, e não como direito) se repete extensivamente no texto bíblico, como já vimos.
7ª) A briga pela primogenitura transparece no problema central da macronarrativa de Jacó e seus filhos (Gênesis 37–50). Acompanhando a história desta família até este momento (capítulo 38), o leitor fica em suspense sobre quem dominará sobre Israel: José, o filho predileto traído por seus irmãos, ou Judá, o líder natural que se afastou da família?
E, com esta última correlação, preparamo-nos para avançar na macronarrativa de Gê- nesis 37–50 em busca da história de leitura deste enredo.