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Postergamos a análise da função da narrativa para o fim porque os demais elementos da narrativa devem estar claros antes deste discernimento. Para identificarmos a função da his- tória, analisemos primeiro seu gênero e foco.

Leland Ryken argumenta que há quatro tipos de histórias na Bíblia: heroicas, épicas, comédias e tragédias (1984, p. 75-86). Gênesis 38 pertence ao gênero da comédia, que termina bem (ao contrário da tragédia, que termina em desastre). A comédia tem um formato U, pois “começa com prosperidade, sucumbe à tragédia, [depois] [...] ascende novamente a um final feliz” (RYKEN, 1984, p. 82, tradução nossa). Em nossa narrativa, encontramos um típico final de comédias: a reconciliação dos personagens ou a conversão do vilão.246 Judá é retratado de forma bem negativa ao longo da história, mas se acerta com Tamar e é transformado pela sua

245 M. Sternberg (1985, p. 475-481) apresenta uma lista de 15 técnicas do repertório retórico do narrador. 246 Outra possibilidade seria a vitória sobre os inimigos.

confissão. A narrativa também inclui diversos elementos da comédia literária: as limitações humanas do “herói”, o disfarce, a identidade trocada, a transformação positiva de personagens, a surpresa, a assistência providencial aos bons personagens, a reversão repentina de uma des- graça, o uso da sagacidade pelo protagonista (e não da força), o súbito livramento de situações perigosas, a justiça poética que vindica a vítima marginalizada, o tema de “perdido e encon- trado”, a aplicação extensiva de ironia, a busca de igualdade entre gêneros sexuais, a reversão de expectativas convencionais, a ênfase na ética situacional, a batalha contra a situação social prevalecente, etc. (RYKEN, 1984, p. 81-83; JACKSON, 2002, p. 37-38).

Que tipo de reação a história busca despertar no leitor? Para descobrir o que a narrativa deseja provocar nos leitores, é necessário conectar os seus elementos do modo mais completo e lógico, atentando para as sutilezas do enredo. Porém, isso não parece ser tão fácil, visto que os estudiosos divergem bastante quanto ao propósito desta pequena história. Para esclarecer, vejamos algumas possibilidades levantadas por diferentes estudiosos. Para Amit (2009) e Emer- ton (1979), o interesse da narrativa está no casamento inter-racial e na lei do levirato, ensinando que a fidelidade à lei é o critério de pertença ao povo de Deus, e não a origem étnica. Para Goldin (1977), o foco está na supremacia do filho mais novo. Skinner (1910) e Von Rad (1961) defendem que a função da história é apresentar a formação da tribo de Judá, as diferenças entre seus clãs internos e o seu assentamento na região.247 Soggin (1993) argumenta que o objetivo é prover uma genealogia para o futuro rei Davi. Outros, como Wénin (2006) ou Kruschwitz (2012), preferem enfatizar a contribuição da história para a transformação e futura caracteriza- ção de Judá, ao mesmo tempo em que a narrativa antecipa elementos do relacionamento enga- noso de José com seus irmãos na macronarrativa. Leitores feministas, como Bos (1988) ou Jarschel (1999), enfatizam o caráter ginocêntrico da narrativa, ressaltando o heroísmo de Tamar e a caracterização negativa do patriarcado.248

Embora todos estes elementos estejam presentes na narrativa e sejam importantes, nossa leitura detalhada e a análise literária da narrativa revelaram que a questão principal desta história, ao ser considerada de forma independente de seu contexto maior, é a geração da des- cendência de Judá,249 e não o levirato ou a situação futura de Tamar. Robert Alter (2007, p. 19-

247 Assim também B. Luther em seu artigo de 1906 (1991, p. 112-116). É interessante notar que os proponentes

desta função geralmente são estudiosos do começo do século 20, indicando a chave hermenêutica predominante da época: narrativas etiológicas.

248 Neste sentido, a feminista C. Sharp (2009, p. 88) indica a função da ironia como instrumento poderoso e prag-

mático para se minar o discurso patriarcal dominante. E, em seguida, exemplifica seu uso em Gn 38.

20, tradução nossa) pontua: “Nada distrai a nossa atenção do assunto primário e problemático do canal adequado para a semente”. E, igualmente, Derek Kidner (2001, p. 174):

O enredo gira em torno do direito que Tamar tem de ser a mãe do herdeiro de Judá, e as suas sucessivas frustrações e eventual vitória constituem o interesse dominante da narrativa.250

Percebe-se um correlato foco secundário nos encontros sexuais e suas consequências, pois há referências presentes em cada uma das cenas. Na cena 1, Judá se une à sua esposa e ela concebe três filhos. Na cena 2, Onã se recusa a se unir à sua cunhada para gerar filhos. Na cena 3, Tamar se disfarça e se une ao seu sogro. Na cena 4, Hira procura a prostituta para pagamento de serviços sexuais. A cena 5 enfatiza a gravidez de Tamar, fruto “de prostituições”, e termina mencionando que Judá se abstém de intercursos sexuais com ela. Na cena 6, nasce o fruto do intercurso de Judá e Tamar. Este foco secundário reforça o objetivo principal da narrativa.

Além disso, a história se move entre os campos semânticos da morte e da vida. A cena 1 abunda em verbos de fertilidade, mas a cena 2 abunda em verbos de morte (de Er e Onã) e perda (do sêmen), finalizando com o temor pela morte de Xelá. A cena 3 inicia com nova morte (a filha de Xua), mas termina com a concepção de nova vida (Tamar engravida). Após o inter- lúdio da cena 4, a cena 5 eleva a tensão ao clímax com a execução de Tamar, que quase se concretizou. A cena 6 apresenta a vida gerada no encontro principal entre os protagonistas, que se revela abundante (são gêmeos). Embora de forma bem inusitada, percebe-se novamente a operação da invisível providência divina que vence as barreiras levantadas contra a geração da descendência desejada. (HECK, 2003, p. 828). Esta ênfase também reforça o objetivo principal da narrativa já identificado.

Assim, a função da narrativa de Judá e Tamar é dupla. Em primeiro lugar, ela adiciona mais um elemento coerente ao extenso conjunto de narrativas patriarcais, os quais possuem uma ênfase proeminente na geração da descendência prometida a Abraão (Gn 12.2). A história re- vela mais uma luta contra as barreiras que se interpõem à geração de filhos; contudo, inova pela constante reversão de expectativas do leitor quanto aos eventos narrados. Em segundo lugar, Gênesis 38 relata o início da transformação de Judá, que é mediada por Tamar. No contexto da macronarrativa de Gênesis, este clímax transformador tem maior relevância do que o foco ime- diato da história, pois antecipa temas e estratégias narrativas usadas posteriormente no livro.

250 Assim Allen Ross (1987, p. 89). Veja também Esther Fuchs: “Chegando ao seu telos – o nascimento de herdei-

Perceberemos isso mais claramente no próximo capítulo, ao tratarmos da correlação de Gênesis 38 com o livro no qual está inserido.

3 HISTÓRIA DA LEITURA

Explicamos na introdução que nossa pesquisa sobre a história da leitura da narrativa de Judá e Tamar se limitará a identificar momentos de retomada desta narrativa, quando um novo texto deixa entrever sua leitura desta história por meio de alguma referência a ela. Em alguns casos, haverá alusão ou menção a personagens, eventos ou temas de Gênesis 38. Na história extracanônica da recepção deste texto, a reconstituição e a ampliação da narrativa será geralmente clara e intensa.

Assim, o objetivo deste capítulo final é o de indicar algumas leituras significativas da narrativa de Judá e Tamar em diferentes momentos históricos. Devido à necessidade de limi- tarmos o escopo de nossa análise, faremos isso por meio de uma pesquisa em duas partes: pri- meiramente no cânon bíblico e, depois, na produção literária brasileira contemporânea.