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5. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

5.19 COTAS PARA CONCURSO PÚBLICO (PL 6738/2013)

O Projeto de Lei 6738/13, do poder Executivo, reserva 20% das vagas em concursos públicos a candidatos negros que assim se declararem no ato da inscrição. A medida se refere a concursos públicos da administração direta e indireta como autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de economia mistas controladas pela União. A lei terá a duração de dez anos. Várias foram as emendas apresentadas ao texto. Uma delas estendia a reserva de vagas aos cargos comissionados da esfera federal, e a outra subdividia a cota entre os que concluíram o ensino médio em escola privada (25%) e em escola pública (75%). Todas as emendas foram rejeitadas (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2014c).

O sistema de cotas enquanto uma política que busca fazer frente a uma desigualdade histórica entre brancos e negros é passível de muitas críticas. A partir dos elementos sintetizados no quadro 2 espera-se que os parlamentares de esquerda sejam favoráveis ao referido projeto, enquanto os de direita o rejeitem. Embora haja consenso em falar que as cotas caracterizam-se como uma discriminação, para a esquerda trata-se de uma discriminação positiva, necessária para enfrentar desigualdades históricas. Para a direita medidas universalistas seriam mais interessantes e não reforçariam práticas de privilegiamento. No dia 26/03/2014 o plenário da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 6738/13 do Poder Executivo que reserva 20% das vagas em concursos públicos para negros. Em seguida é apresentado gráfico que relaciona as variáveis.

Gráfico 19 – Cotas para concurso público: análise de correspondência múltipla

Fonte: Centro de Documentação e Informação/Câmara Deputados (elaboração do autor)

A representação gráfica exposta no gráfico 19 evidencia que todas as categorias estão mais próximas do “sim”. Ainda assim a esquerda está um pouco mais próxima do “sim” do que a direita, e a direita um pouco mais próxima do “não” do que a esquerda. Semelhantemente é o que ocorre com as categorias governo e oposição. A primeira mais próxima do “sim” e a segunda mais próxima do não. A tabela 55 expõe a porcentagem de votos por categoria.

Tabela 55 – Cotas para concurso público: votação por blocos (%) Voto Esquerda Centro Direita Governo Oposição Total

(N)

Sim 96 88,8 84,6 93,4 84,9 (314)

Não 4 11,2 15,4 6,6 15,1 (36)

Total

(N) (126) (81) (143) (197) (153) (350)

Coeficiente de contingência: a) Ideologia: 0,16 (p<0,01); b) Governo/oposição: 0,13 (p<0,05).

Fonte: Centro de Documentação e Informação/Câmara Deputados (elaboração do autor)

O texto teve o apoio de 314 deputados e o voto contrário de 36 deputados. 96% dos parlamentares de esquerda votaram “sim”, enquanto dos de direita 84,6% foram favoráveis ao projeto. Houve também uma tendência do governo ser mais favorável do que a oposição (93,4% e 84,9% respectivamente), embora a maior relação está entre ideologia e voto, o que é confirmado com o coeficiente de contingência no valor de 0,16 (p<0,01). Já a variável situação se demonstrou menos significativa (p<0,05) e com uma menor relação com o voto (coeficiente de contingência = 0,13). Mesmo assim pode-se afirmar que as duas variáveis têm uma baixa relação com o voto. A tabela 56 traz dados sobre a regressão logística realizada.

Tabela 56 – Voto “não” cotas para concurso público: análise de regressão logística

Variável B S.E. Wald df Sig. Exp(B)

Ideologia 5,682 2 ,058

Ideologia(D) 1,254 ,529 5,628 1 ,018 3,505 Ideologia(C) 1,052 ,580 3,289 1 ,070 2,863

Governo -,654 ,385 2,888 1 ,089 ,520

Constante -2,750 ,512 28,844 1 ,000 ,064

N = 350; Chi-quadrado = 13,528; g.l = 3; Sig. = 0,004; R² (Nagelkerke) = 0,078 % acerto total = 0%

Os dados da regressão logística apontam que a chance de um parlamentar de direita votar “não” é 3,5 vezes a chance de um parlamentar de esquerda. As outras categorias não se demonstram significativas (valor Sig.). O modelo se demonstra ineficaz a partir das variáveis escolhidas, o que fica evidente também pela porcentagem de acerto das respostas. Desta forma, tudo indica que não há uma relação entre as variáveis independentes ideologia e situação ou esta se dá de forma aleatória o que não permite se fazer previsões como esperado. Em seguida é apresentado o comportamento individual dos partidos na presente votação.

Tabela 57 – Cotas para concurso público: votação por partido E/D Partido Ind.

líder Sim Não Não vot. votos % de (sim)

Total Governo/ oposição

DEM Sim 18 2 1[1] 85,7 21 Oposição

PP Sim 18 3 0 85,7 21 Governo

D

PTB Sim 8 1 0 88,8 9 Oposição

PSC Lib. 4 5 0 44,4 9 Oposição

PRB Sim 8 0 0 100 8 Governo

PROS Sim 12 0 0 100 12 Oposição

PRP Sim 2 0 0 100 2 Oposição

PSD Lib. 17 8 1[1] 65,3 26 Oposição

SD Obs. 9 3 0 75 12 Oposição

PTdoB Sim 1 0 0 100 1 Oposição

C PMDB Sim 45 7 4[1;2; 3] 80,3 56 Governo PSDB Sim 27 2 1[1] 90 30 Oposição E PT Sim 66 0 0 100 66 Governo PSB Sim 15 1 1[1] 88,2 17 Oposição PDT Sim 10 3 0 76,9 13 Governo

PCdoB Sim 13 0 0 100 13 Governo

PV Sim 8 0 0 100 8 Oposição

PPS Sim 5 0 0 100 5 Oposição

PMN Sim 1 1 0 50 2 Oposição

PSOL Sim 3 0 0 100 3 Oposição

Tema 314 36 7 - 357 -

Indicação governo: sim Indicação minoria: sim Fonte: Centro de Documentação e Informação/Câmara Deputados (elaboração do autor)

Como se pode constatar, e como já mencionado, a ampla maioria dos parlamentares votou favorável ao Projeto de Lei 6738/13. Mesmo assim a discussão foi permeada por ampla discussão. Excluindo o PMN, que com dois parlamentes um votou a favor e outro contra, PSC e PSD foram os partidos com menor taxa de adesão. Tal posicionamento faz sentido por terem sido os únicos partidos em que os líderes partidários liberaram a bancada. Os demais partidos orientaram os parlamentares a serem favoráveis ao projeto.

Foram poucos os parlamentares contrários, entretanto alguns deles fizeram uso da palavra e criticaram piamente a proposta. Jair Bolsonaro (PP/RJ), por exemplo, afirmou que a medida é “racista, separatista e imoral”. O deputado Silvio Costa (PSC/PE) fez questão expor que para ele a questão racial não é mais importante do que a questão social no país. Segundo ele “no sertão de Pernambuco, onde há influência de colonização holandesa, os brancos é que são pobres. Então, os filhos dos negros ricos serão privilegiados em detrimento dos filhos dos brancos pobres”. A maioria dos deputados defendeu o texto. Para Leonardo Picciani (PMDB/RJ), relator da proposta na Comissão de

Constituição e Justiça e de Cidadania, a medida vai permitir um futuro de igualdade ao buscar dar conta de um histórico nefasto. Segundo ele o Brasil foi o último país do mundo ocidental a abolir a escravatura e isso traz consequências até hoje. Jandira Feghali (PCdoB/RJ), líder do partido, se manifestou dizendo ser preciso tratar de maneira desigual os desiguais. Como exemplo citou: “as mulheres são 10% desta Casa, mas são a maioria da população. O tratamento igual mantém a desigualdade”. Anthony Garotinho (PR/RJ) criticou a noção de meritocracia nos concursos públicos. Para ele só entra “quem teve condições de estudar nas melhores escolas”. Domingos Sávio (PSDB/MG) alertou que a necessidade de cotas demonstra que o governo não conseguiu avançar nos indicadores sociais, onde é necessário investir mais em educação (BRASIL, 2014d).

De forma geral o tom dos discursos não parece condizer com a votação, semelhante ao que ocorreu com o Projeto de Lei 73/1999, que reserva cota para negros, índios e pobres nas universidades federais. Longe de ser algo consensual, com forte lobby externo e depois de firmado um acordo entre os partidos, é aprovado em 20 de novembro de 2008 por votação simbólica no dia da Consciência Negra (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2008).

5.20 CRIMINALIZAÇÃO DE PRÁTICAS INDÍGENAS NOCIVAS