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5. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

5.8 SEGURO-DESEMPREGO TRABALHADORES DOMÉSTICOS (PLP 302/2013)

Em abril de 2013 é aprovada pelo Congresso Nacional a proposta de emenda à Constituição que ficou conhecida como PEC das domésticas. Transformada na emenda constitucional 72, estendeu ao empregado doméstico direitos assegurados aos demais trabalhadores. Uma das principais conquistas imediatas da categoria foi a regulamentação da jornada de trabalho. Com a promulgação da emenda, nenhum empregado doméstico pode trabalhar mais do que oito horas por dia, e acima de 44 horas por semana. O que passar disso deve ser pago como hora extra. Até então a jornada de trabalhado dependia simplesmente de acordo entre patrão e empregado. A emenda garantiu ainda que os profissionais tenham a carteira assinada e o direito de

receber pelo menos um salário mínimo. Entretanto, muitos direitos ainda estão à espera de regulamentação para começar a valer. No mesmo mês a Comissão Mista de Consolidação da Legislação e Regulamentação de Dispositivos da Constituição formulou um projeto de lei complementar (PLP 302/2013) para regulamentar os direitos que ainda estavam em aberto (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2015d).

No dia 12/03/15 o plenário da Câmara dos Deputados aprovou a emenda substitutiva da deputada Benedita da Silva (PT/RJ) para o Projeto de Lei Complementar 302/2013 que regulamenta os direitos e deveres do empregado doméstico, ficando ainda para serem discutidos os destaques. Um dos mais polêmicos e notadamente ideológico de autoria do PSOL, retirou do texto a restrição à concessão do seguro- desemprego aos trabalhadores domésticos apenas a três parcelas no valor de um salário mínimo. A emenda de n° 38 busca dar aos trabalhadores domésticos o mesmo benefício garantido a outras categorias ao garantir que eles tenham direito a até cinco parcelas do seguro-desemprego (PSOL, 2015).

Como o seguro-desemprego é um benefício integrante da seguridade social e trata-se de assistência financeira temporária ao trabalhador desempregado, o aumento de duas parcelas implicaria em um maior gasto para a previdência social, e por isso a expectativa é a de que o governo seja a favor da restrição e da manutenção do texto original (sim) e a oposição vote pela exclusão (não), para além de questões ideológicas. O próximo gráfico traz a representação gráfica da análise de correspondência múltipla realizada.

Gráfico 8 – Seguro-desemprego trabalhadores domésticos: análise de correspondência múltipla

Fonte: Centro de Documentação e Informação/Câmara Deputados (elaboração do autor)

O gráfico 8 ilustra a votação em plenário. Esquerda e direita se comportam de forma semelhante e se aproximando mais do “sim”, enquanto o centro se divide entre o “sim” e o não. Já é claro que o governo está próximo ao “sim” enquanto a oposição do “não”, o que é corroborado pela tabela posterior.

Tabela 22 – Seguro-desemprego trabalhadores domésticos: votação por blocos (%)

Voto Esquerda Centro Direita Governo Oposição Total (N)

Sim 64,4 51,5 64,2 81,8 27 (254)

Não 35,6 48,5 35,8 18,2 73 (160)

Total

(N) (135) (97) (182) (259) (155) (414)

Coeficiente de contingência: a) Governo/oposição: 0,47 (p<0,01); b) Ideologia: 0,00 (p=0,07).

Fonte: Centro de Documentação e Informação/Câmara Deputados (elaboração do autor)

Eram necessários 257 votos para manter as regras específicas para o seguro-desemprego do empregado doméstico, no entanto houve 254 votos a favor. Outros 160 deputados votaram pela exclusão e consequentemente equiparação ao direito de qualquer trabalhador (3 a 5 parcelas conforme o tempo de serviço). É claramente perceptível a inconsistência ideológica nessa votação, seja analisando a pouca significância (p=0,07), seja analisado o comportamento por bloco. Esquerda e direita se comportam de forma semelhante (64,4% e 64,2% respectivamente), enquanto que o centro se divide na votação. No entanto, como esperado, o governo tende a ser favorável à restrição (81,8%), diferente da oposição, majoritariamente contrária (73%). O coeficiente de contingência (0,47) evidencia a considerável relação com o voto. A tabela 23 apresenta dados da regressão logística realizada.

Tabela 23 – Voto “não” seguro-desemprego trabalhadores domésticos: análise de regressão logística

Variável B S.E. Wald df Sig. Exp(B)

Ideologia 4,539 2 ,103

Ideologia(D) ,246 ,284 ,747 1 ,388 1,279 Ideologia(C) ,691 ,327 4,477 1 ,034 1,996 Governo -2,520 ,246 104,847 1 ,000 ,080 Constante ,729 ,242 9,077 1 ,003 2,072

N = 414; Chi-quadrado = 130,535; g.l = 3; Sig. = 0,00; R² (Nagelkerke) = 0,367 % acerto total = 17,1%

A porcentagem de acerto total (17,1%), indica ser o modelo de análise bastante satisfatório. A partir dele é possível inferir a maior relação entre a relação governo/oposição e voto, seja pela estatística de Wald, seja pela verificação de que ser de governo implica em uma chance de 8% de votar “não” comparado a um parlamentar pertencente à oposição. A chance de um parlamentar de centro votar não é cerca de 2 vezes a chance de um parlamentar de esquerda. A não significância dos dados para a direita demonstra que a relação entre ideologia e voto é inconsistente ou se dá de forma aleatória. A tabela 24 detalha o posicionamento dos partidos na votação em questão.

Tabela 24 – Seguro-desemprego trabalhadores domésticos: votação por partido E/D Partido Ind.

líder Sim Não Não vot. votos % de (sim)

Total Governo/ oposição

D PP Sim 20 12 0 62,5 32 Governo PR Sim 22 1 0 95,6 23 Governo PTB Sim 14 3 0 82,3 17 Governo PSC Sim 2 10 0 16,6 12 Oposição PRB Sim 12 1 0 92,3 13 Governo

PROS Sim 6 2 0 75 8 Governo

PRP Sim 3 0 0 100 3 Oposição

PSD Sim 26 3 0 89,6 29 Governo

SD Não 1 12 0 7,7 13 Oposição

PTdoB Sim 2 0 0 100 2 Oposição

PSDC Sim 0 1 0 0 1 Oposição

PEN Sim 1 1 0 50 2 Oposição

PRTB Sim 1 0 0 100 1 Oposição PSL Sim 1 0 0 100 1 Oposição PTC Sim 2 0 0 100 2 Oposição PTN Sim 3 0 0 100 3 Oposição C PMDB Sim 50 6 1[2] 87,7 57 Governo PSDB Não 0 41 0 0 41 Oposição E PT Sim 51 2 0 96,2 53 Governo PSB Sim 18 9 0 66,6 27 Oposição PDT Lib. 2 13 0 13,3 15 Governo

PCdoB Sim 9 4 0 69,2 13 Governo

PV Não 1 5 0 16,6 6 Oposição

PPS Não 0 10 0 0 10 Oposição

PMN Sim 2 0 0 100 2 Oposição

PSOL Não 0 5 0 0 5 Oposição

PHS Sim 4 0 0 100 4 Oposição

Total 254 160 1 - 415 -

Indicação governo: sim Indicação minoria: não

Fonte: Centro de Documentação e Informação/Câmara Deputados (elaboração do autor)

Os 254 votos favoráveis garantem os cinco meses aos trabalhadores domésticos. Se levando em consideração o componente ideológico se esperaria que a direita fosse favorável e a esquerda contrária, não é o que ocorre. Salvas as exceções, os partidos atendem à indicação do voto “sim” por parte do governo e “não” pelo líder da minoria. Os votos dos dois partidos de centro, PMDB e PSDB, ressaltam bem a prevalência da variável governo/oposição. O PMDB (governo) é amplamente favorável (87,7%), enquanto que o PSDB (oposição) é radicalmente contrário, com todos os 41 deputados votando contra. No campo da direita os pequenos PRP, PRTB, PSL, PTC e PTN são

exceções. Mesmo sendo oposição votam a favor e com o governo. No campo da esquerda é curioso o comportamento do PSB, com 66,6% dos parlamentares favoráveis e oposição ao governo. PMN e PHS também votam “sim”. O PDT, mesmo sendo governo é contrário, assim como o PSOL, autor da matéria, provavelmente prevalecendo nesses dois casos o voto ideológico.

Em plenário as falas dos parlamentares destacam o quanto que a relação governo/oposição se sobressai ao teor ideológico da proposta. O deputado Nilson Leitão (PSDB/MT), em nome do PSDB, destaca a incoerência por parte do governo e se pergunta: “Se a MP da Presidente Dilma fala em 5 meses para todo mundo, por que descriminar a empregada doméstica?”. Segundo o parlamentar é impensável a votação do PT e do PMDB contrária a isso. O deputado Edmilson Rodrigues (PSOL/PA) ressalta que o texto cria uma regra diferenciada que prejudica os domésticos e as domésticas. “Se a lei permite entre 3 e 5 meses, por que para a empregada doméstica tem que ser no máximo de 3 meses?” (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2015e).

O fato é que o governo tendeu a aceitar o texto original, enquanto que a oposição apoiou o destaque do PSOL, igualando os direitos dos empregados domésticos às demais categorias. No caso dos partidos de esquerda pertencentes ao governo a ideologia é deixada em segundo plano, sobretudo pela medida onerar os cofres públicos. Quanto à oposição, para causar um mal-estar para o governo e levando em consideração que o voto “não” seria a postura mais bem aceita para o eleitorado e opinião pública, rejeita o texto original sem grandes dificuldades.